O presente texto é adaptação do artigo intitulado “A conspiração dos néscios e as cinco leis fundamentais da Estupidez” do prof. Lenio Luiz Streck, publicado em 24 de Setembro de 2020, na coluna do CONJUR, tomando por base o livro “As leis fundamentais da estupidez humana” de Carlo Cipolla.
A epistemologia dos néscios
No seu livro “Discurso da estupidez”, Mauro Mendes Dias brinda o leitor com um verdadeiro manual para aprender a captar as estultices e esclarece que a estupidez não é autoengendrada, vez que, de um lado, ela não é sem causa e, de outro, mantém relação com o tipo de acção da verdade que emerge parcialmente nela.
Mas qual verdade? Aquela que metamorfoseia em certeza. Como uma aparição do além-túmulo, ela faz-nos lembrar a função que cumpre o fantasma do pai morto para Hamlet, no início da peça de Shakespeare.
Assim, na Maçonaria, tendo o irmão se ensurdecido para qualquer tipo de dúvida ou objecção, deixa-se conduzir por uma missão que clama por vingança. Diferentemente do gesto de Ulisses na Odisseia, o tapar de ouvidos aqui é condição para o sucesso de viagem em direcção às rochas da estupidez, as quais não provocam a morte dos passageiros, mas sim a sua proliferação.
A estupidez não precisa de teste, verificação e fundamento. Olhando em volta, vê-se coisas que se enquadram nessa “epistemologia da estultice”, como irmãos acreditando que, por meio da cadeia de união, curam-se doenças – basta enviar as vibrações energéticas. Bom, de qualquer modo, a estultice não está em quem prega – isso é malandragem -, e, sim, está em quem acredita. Claro que esse fenómeno é também uma metáfora da sociedade.
Também há outros bons exemplos como o conteúdo do “Breviário maçónico de Rizzardo Da Camino”, que induz irmãos a embarcarem no senso comum de que, afinal, sendo o autor irmão, grau 33 do REAA, “jurista” e profundo conhecedor da fraternidade, não há que se reflectir sobre aquilo que por ele foi escrito. Basta ler, crer e dogmatizar. Cogito, ergo estupidus.
Aliás, tudo por meio do subjectivismo, do emotivismo, da nossa metaética que é mais meta do que ética – sem epistemologia – esculpida em carrara: o critério de objectividade, na Maçonaria, a maioria das vezes, é aquilo que o irmão (estúpido) quer que seja. Eis o busílis nos tempos actuais. Se o irmão não gosta do discurso, monta outra Loja, se discorda da postura da potência, cria-se outra. E assim, a néscionaria multiplica-se exponencialmente num fértil ambiente onde a profundidade do debate não ultrapassa o tamanho das pernas de uma formiga anã.
O negacionismo maçónico e as cinco leis da estupidez comentadas artigo por artigo
Tratemos do negacionismo e da epistemologia da estupidez na Maçonaria, ou seja, da néscionaria. O interessante é que não há uma fraternidade dos estultos, ao menos não formalmente. O que parece, sim, é haver uma mão invisível que os organiza, como lembra Carlo Cipolla, no livro Allegro, ma non tropo, uma sátira sobre a estupidez. A mão invisível da néscionaria. Cipolla nos brinda com uma epistemologia dos néscios (a expressão é do estimado Prof. Lenio Streck), mostrando as cinco leis fundamentais, que agora adapta-se para a Maçonaria:
Sempre e inevitavelmente, cada um de nós subestima o número de irmãos estúpidos que circulam pela fraternidade maçónica.
Com efeito, ao ver maçons valendo-se do WhatsApp, YouTube, Tiktok e quejandos para compreender os objectivos da Maçonaria e irmãos “ensinando” história e filosofia maçónica sem sequer terem conhecimento e formação nas disciplinas e, pior, outros irmãos estudando a fraternidade por breviários, resumos, resuminhos, esquemas ou limitando-se às apresentações pobres de PowerPoint que pipocam em todos os ambientes virtuais para explicar a importância e finalidade da Maçonaria. Esta primeira lei passa pela CHS (condição hermenêutica de sentido) e está demonstrada todo dia. Quod erat demonstrandum constante.
A probabilidade de que uma determinada pessoa iniciada na Maçonaria seja estúpida é independente de qualquer outra característica da mesma pessoa.
De facto, esta segunda lei também é verificável, já que nos diversos graus da Maçonaria, a distribuição do “IE-índice de estupidez” é quase igual. Nesta época pós-pandemia isso fica mais visível. Basta uma olhada rápida no mundo das lives maçónicas. Todo mundo virou “artista / professor”, com o que todos os gatos se tornaram pardos. Interessante é que a febre das lives é mais visível em algumas áreas, dentre elas, a Maçonaria. Por que será? Daqui a pouco, teremos uma grande live maçónica sobre lives maçónicas – e ninguém a assistirá, pois estarão todos os irmãos gravando uma live maçónica. A Grundlive maçónica. Grupos de WhatsApp sobre Maçonaria não escapam desta fenomenologia. As neocavernas desafiam o desgosto de Platão.
Um irmão estúpido – mormente se tiver atingido o mestrado maçónico (porque são muitos) – é aquele que causa dano a outro irmão ou Loja sem, ao mesmo tempo, obter um benefício para si mesmo ou mesmo causar prejuízo.
Perfeito. Cipolla não considerou a estupidez como uma questão de quociente intelectual, mas sim uma falta de inteligência relacional. Ele parte da ideia de que, ao nos relacionarmos uns com os outros, podemos obter benefícios e proporcionar benefícios aos outros ou, pelo contrário, podemos causar danos ou prejudicar os outros. Mas na Maçonaria não é assim.
Um irmão estúpido é aquele que prejudica os outros e muitas vezes também ele mesmo. Basta ver nas redes sociais. Se você posta algo sofisticado, o irmão estúpido (mormente o mestre Maçom) vem e faz como o pombo no jogo de xadrez: esculhamba as pedras e faz cocô no tablado. E sai dizendo que venceu. De peito estufado. Orgulhoso da sua vencedora estupidez.
Por que um néscio quer esculhambar o discurso que ele não entende ou nunca se esforçou para entender? Por que ele só usa livros resumidinhos e resumos dos resumos? Ou seja, está comprovada a terceira lei: o néscio não se importa com soma zero. Segundo Cipolla, há ainda o supernéscio: aquele que esculhamba os não-néscios e ainda se prejudica, sendo processado pelo que postou. Ou seja, só prejuízo.
Maçons não-estúpidos sempre subestimam o potencial prejudicial de estúpidos.
Essa quarta lei de Cipolla é auto-explicativa. Por vezes, eles atacam à socapa e à sorrelfa. E nem é possível reagir. Estupefactos com a estupidez dos irmãos estúpidos.
O irmão estúpido (ou néscio) é o mais perigoso.
Por último, a quinta lei é auto-aplicável. Como diz Cipolla, “Todos os seres humanos estão incluídos em quatro categorias fundamentais: o desavisado, o inteligente, o malvado (ou ladrão) e o estúpido. De onde:
- A pessoa inteligente sabe que é inteligente;
- o malvado está ciente de que ele é mau;
- o desavisado é dolorosamente imbuído do senso da sua própria sinceridade e,
- ao contrário de todos esses personagens, o estúpido não sabe que é estúpido. Ele não sabe que não sabe.
Como acentua Cipolla e Streck, isso de não saber que não sabe contribui para dar maior força, incidência e eficácia à sua acção devastadora. Aqueles que sabem que não sabem estão perdidos, entre todos aqueles que acham que sabem que sabem, aqueles que sabem que não sabem mas fazem mesmo assim – razão cínica – e aqueles que não sabem que não sabem e não querem saber que não sabem tudo aquilo que não sabem e nem querem saber.
Enfim, eis a adaptação das 5 leis fundamentais da estupidez humana de Cipolla. Que sirvam de estímulo para compreensão do estado da arte maçónica e permita a criação de um ambiente de reflexão para combater a néscionaria, uma das suas principais mazelas. Adiante!
Rui Badaró, V∴ M∴ da Justa e Perfeita Loja de São João, nº 680 – GLESP

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Sou profano, gosto muito das leituras e ensinamentos como este; mas isso me motiva, a continuar fazendo parte da Igreja Católica, onde congrego e vejo tudo isso acontecendo .