Imagine uma língua tão misteriosa que escapa aos usos profanos, uma escrita sagrada que não se aprende com livros, mas se sente na intuição e no coração! Chamada de “língua sagrada”, ela distingue-se dos hieróglifos ou alfabetos comuns, manifestando-se através de símbolos vivos que ligam a terra ao céu. Este tesouro esquecido, outrora dominado por iniciados capazes de desvendar os segredos da vida, da morte e da ressurreição – estas questões eternas (“De onde vens? Onde estás? Para onde vais?”) – está hoje em vias de extinção. Apenas 2% dos franceses, e pouco mais no mundo, ainda compreendem os seus mistérios.
Porquê? Porque a humanidade se perdeu na letra, esquecendo o espírito. Mergulhe connosco nesta viagem fascinante, onde o simbolismo e a Maçonaria se cruzam para reavivar uma sabedoria ancestral.
Uma língua viva, gravada na alma
Esta língua sagrada, longe das escrituras convencionais, fala aos iniciados através de sinais simbólicos – imagens que tocam a alma. Era a chave dos antigos, aqueles que, ao decifrar os seus mistérios, dominavam os ciclos universais. Mas com o tempo, os seus elementos foram alterados e o homem, obcecado pelo literal, perdeu a sua essência. Felizmente, entusiastas vasculham os vestígios de civilizações desaparecidas, reconstituindo essa linguagem muda, rica e evocativa, enraizada no simbolismo. Carl Gustav Jung via nela “imagens primordiais” inatas, enquanto Gaston Bachelard detectava nela “a experiência ancestral da humanidade”. Universal, ela brota do inconsciente colectivo, uma herança que a Maçonaria ainda valoriza.
Sinais por toda a parte: da arquitectura aos objectos
Esqueça as simples inscrições! Esta linguagem sagrada vive na arquitectura dos templos, nas esculturas, nas pinturas e até mesmo na disposição dos objectos do quotidiano. Em O Asno de Ouro, de Apuleio, Lucius descobre livros sagrados com caracteres desconhecidos – nós, pontos, espirais – protegidos dos profanos. Estes sinais também se expressam nas linhas harmoniosas dos monumentos, onde o fogo, o vento, a água e a terra cantam um hino “ad deum”. R. A. Schwaller de Lubicz (O Templo do Homem, 1957) revela como os templos egípcios codificam estas leis divinas, desde a geometria simples (um ponto para a vida, um círculo para o cosmos) até símbolos complexos como o olho de Rá, encarnação do sol criador.
Um paralelo com a Maçonaria: A busca simbólica
Na Maçonaria, esta linguagem sagrada encontra um eco profundo. Os iniciados, como os antigos sacerdotes, procuram ligar o “baixo” ao “alto” através de símbolos – o esquadro, o compasso, a coluna. O Rito Escocês Antigo e Aceite (REAA) utiliza ferramentas geométricas para evocar verdades espirituais, uma herança dos construtores de catedrais. O ponto central do disco solar, adoptado na alquimia para o ouro, lembra a coluna maçónica, símbolo solar da ressurreição. Jung, em Psicologia e Alquimia (1944), vê nela uma projecção da alma, enquanto os rituais maçónicos protegem esses arcanos, reservando-os para a meditação dos irmãos – um paralelo com os segredos de Apuleio.
Uma linguagem em quatro dimensões
Segundo E. Soldi, esta linguagem sagrada expressa-se em quatro formas:
- a escrita (gravuras),
- a decoração (objectos simbólicos),
- a arquitectura (templos codificados)
- a alquimia (transformações).
Os elementos cósmicos – luz, água, terra – evoluem em imagens míticas: árvores, animais e, depois, monumentos. O olho de Rá, pupila solar, ilustra esta metamorfose, passando do disco vazio a um símbolo de vida. Na Maçonaria, esta plasticidade inspira as interpretações das colunas Jakin e Boaz, provenientes do Templo de Salomão, onde a serpente e o pilar se unem para ligar o céu e a terra.
Autor: Christian Belloc
Tradução de António Jorge, M∴ M∴, membro de:- R∴ L∴ Mestre Affonso Domingues, nº 5 (GLLP / GLRP)
- Ex-Libris Lodge, nº 3765 (UGLE)
- Lodge of Discoveries, nº 9409 (UGLE)
Fonte
Referências
- Apuleio, O Asno de Ouro;
- Schwaller de Lubicz, O Templo do Homem (1957);
- Jung, Psicologia e Alquimia (1944);
- Bachelard, A Poética do Espaço (1957); Folheto Entretiens d’Été 2025.

- A águia bicéfala e os seus significados
- O candelabro místico
- A criação do Rito Escocês Antigo e Aceite (REAA)
- A origem dos conflitos entre a Maçonaria e a Igreja Católica
- O quadro simbólico do grau de Companheiro no Rito Escocês Antigo e Aceite

