Dentro da Maçonaria a liturgia não nos pode interessar só como fenómeno histórico, como manifestação de pompa, de sumptuosidade, de festa para os olhos, velada pelos preconceitos e pela ignorância, aos distraídos e indiferentes que são arrastados pela absorvente corrente dos interesses quotidianos .
A Maçonaria está tão ligada à liturgia, que contém toda a sua interpretação esotérica e filosófica, que, sem a liturgia a nossa Sublime Ordem seria corpo exânime. Nos seus “Estudos Filosóficos”, o Irmão DARÈRES, disse com exactidão que, “privar a Maçonaria da sua língua sagrada é despojá-la da sua força directora e do sopro vivificador da sua animação universal; é roubar-lhe todo o encanto que está unido à sua crença e às doces esperanças que lhe inspiram os seus esforços filantrópicos. Há mistérios nessa Instituição – diz ainda DARÈRES -, que o espírito deve saber compreender sem procurar defini-los”.
A liturgia é um fenómeno vital, uma concreção orgânica, uma forma de vida perene e atraente. Com felicidade disse ilustre escritor que, “a liturgia mostra a sua beleza interior por uma dinâmica inexausta”.
Como disciplinadora das nossas tendências negativas, ela impõe a renúncia generosa às próprias expansões que não se enquadrem dentro da regulamentação comum. É a submissão de toda a tendência antropocêntrica, de toda a insurgência egoísta. Em liturgia não existe o singular “eu”, mas o plural “nós”.
Temos na liturgia uma completa concepção de forma e de estilo, no sentido puro do vocábulo: limpidez de linguagem, medida harmónica dos gestos, perfeita conformação do espaço e das tonalidades plásticas e sonoras. Tudo, ideias, palavras, atitudes, expressões e imagens, extraído dos elementos mais simples da vida espiritual. Riqueza opulenta, variedade inesgotável, transparência nítida.
A robustecer e cimentar este conjunto de qualidades, temos o facto importante de que a liturgia se exprime por uma linguagem desusada entre os homens de hoje, mas profunda e majestosamente clássica.
Resulta, pois, que instintiva e naturalmente vamos olvidando os detalhes históricos, abstraindo as particularidades que encerra, para concentrar a atenção no seu sentido eterno e supra-histórico.
A liturgia encerra dentro de si algo que nos convida a dirigir os olhos e o pensamento para as estrelas. Que nos relembra o giro imutável e eterno das suas órbitas, e nos fala da sua ordem equilibrada e harmónica e do seu majestoso e solene silêncio, na imensidão por onde os astros caminham.
PAUL VALÉRY, poeta do simbolismo, sentiu a força expressiva da liturgia, também como forma de arte, proclamando que a
“liturgia e a arte vão unidos em estreito consórcio, guardando afinidades profundas e se desenvolvendo numa atmosfera de mistério e de encanto, despertando no homem o instinto do divino”.
Percorrendo o tesouro de símbolos, signos, imagens, alegorias e, por extensão, as metáforas, as hipérboles, as metonímias e os tropos empregados na nossa liturgia, cada um deles polivalente nos seus significados, o Maçom que tiver olhos para ver e ouvidos para escutar, verá quão mesquinhas e inglórias são as lutas profanas que o cercam, e verificará a antítese violenta entre o brutal realismo dos nossos dias, que se infiltrou em todos os sectores da vida, com o aguilhão da sensualidade ou o poder penetrante das suas arestas, e o mundo das ideias encerradas na liturgia, com toda a sua imponente gravidade e limpidez, harmonia e selecção de formas.
E que melhor forma para encerrar os seus segredos poderia escolher a Maçonaria, senão a de envolvê-los no extraordinário poder preservador das alegorias? Que melhor linguagem poderia ser usada para manter viva a mensagem de que é portadora, através dos séculos, senão a linguagem simbólica, visível e inteligível somente aos iniciados?
AURELIUS AUGUSTINUS, o pensador de Tagaste que a Igreja Romana canonizou, referindo-se ao valor do símbolo, gravou indelevelmente este conceito: “omnia sunt per allegoriam dieta” — tudo é dito através da alegoria. Mas, para entendê-la é preciso vê-la pelos olhos do espírito.
João Nery Guimarães

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