A origem das fraternidades

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Nasce a Fraternidade

Houve uma época na vida da humanidade em que todos os homens tinham consciência da unidade do universo e sabiam que o céu e a terra eram complementos um do outro. Ambos reflectiam a Consciência maior que os havia pensado. Era um mundo unificado por dentro e por fora, onde tudo estava em tudo, o que estava dentro era igual ao que estava fora, o que estava em baixo era igual ao estava em cima, e desta forma o cosmo se mantinha em equilíbrio constante.

No antigo Egipto este equilíbrio era mantido pela prática da Maat, ou seja, o viver de forma virtuosa, praticando a verdadeira justiça. Desta forma, a ética, a ecologia e a responsabilidade social estavam solidamente vinculadas ao espírito religioso, e este, por sua vez, reflectia no sistema jurídico, formando um todo harmonioso, que dava vida à sociedade, regulando as relações do homem para com a Divindade e entre eles próprios.

Na Grécia, a noção de sociedade estava estreitamente ligada à ideia de Fraternidade. Os grupos familiares eram chamados de Fratrias. Estes grupos congregavam o núcleo familial e todos os agregados, que de alguma forma tivessem relação de parentesco com o chefe da família, ou qualquer relação profissional, social ou legal com o núcleo familial. Desta conformação evoluiu a noção de clã, e da reunião de clãs formou-se, mais tarde a pólis, que era a comunidade circunscrita a uma urbe. Foi esta última que deu origem às cidades-estado da Grécia antiga e da península itálica.

Praticamente todas as cidades do Ocidente clássico evoluíram a partir destes núcleos familiares. Iremos encontrá-los também em Roma na estrutura das famílias patrícias, núcleos familiares que estão na origem do povo romano e foram responsáveis por uma estrutura que sobreviveu por muitos séculos.

Fustel de Coulanges na sua obra clássica, mostra-nos como esta evolução se processou:

Assim, a cidade-estado surgiu como resultado deste tipo de organização familiar. A cidade era uma grande família. Família, fratria, tribo, cidade são, portanto, sociedades perfeitamente análogas e nascidas umas das outras por uma série de federações. No mundo antigo era o culto que constituía o vínculo unificador de toda e qualquer sociedade. Cada cidade tinha os seus deuses assim como a família. O sacerdote máximo da cidade era chamado rei, como era o pai dentro da família. E, aquele que era da “família” chamada cidade era o cidadão; portanto era cidadão todo o homem que tomava parte no culto da cidade e estrangeiro aquele que não compartilhava do mesmo culto. A cidade nos seus primeiros tempos nada mais era do que a reunião dos chefes de família.(…), escreve aquele autor [1].

Isto mostra-nos como a organização social se apoia na perenidade de certos arquétipos cultivados pela mente humana, e nos permite deduzir que quando essas estruturas arquetípicas são esquecidas e relegadas a um segundo plano na vida das sociedades, elas declinam e acabam por desaparecer.

Por este prisma se pode perceber que a liga que mantinha a unidade primordial das antigas sociedades estava principalmente no compartilhamento da religião. A religião, na verdade, era o principal elemento constitutivo da família antiga. Esta, por sua vez, não se constituía só por conta de ligações afectivas ou condições de nascimento, mas tinha como principal fundamento o poder do pai como sacerdote do lar. Ele, como patriarca, era o centro no qual girava todo o núcleo familial. Destarte, a família não era constituída apenas pelos ascendentes e descendentes do núcleo principal – o pater famílias – mas de todo o grupo de pessoas a quem a religião permitia partilhar o mesmo lar e oferecer o respaldo fúnebre aos mesmos antepassados.

Em razão disto a primeira instituição estabelecida pela religião doméstica foi o casamento, pois este era considerado praticamente um novo nascimento, já que por ela se instituía um lar, onde se manteria o vínculo dos descendentes com os seus ancestrais e o culto aos mesmos deuses lares, da mesma forma que se compartilhava a terra onde os túmulos dos ancestrais se encontravam. É aqui que se origina, segundo Fustel, a origem da sacralidade do casamento e a instituição da monogamia [2].

Da mesma forma, a instituição da propriedade privada também teria origem na crença de que os mortos precisam ter um pedaço de terra para continuar as suas vidas após a morte. Pessoa sem túmulo conhecido, além de ser uma alma sem direito a repouso no mundo dos desencarnados, era também um fracassado que não legara aos seus descendentes uma base de continuidade para o seu núcleo familial.

Foi desta forma que os povos da Grécia e da Itália desenvolveram o instituto da propriedade privada, derivando-a da própria religião, pois o solo onde repousavam os mortos constituía, por força desta crença, uma propriedade inalienável e imprescritível que não podia ser perdida sob pena de destruição do próprio núcleo familial. Assim, o direito de propriedade, fundamentado na prática de um culto hereditário, não acabava com a morte de um único indivíduo, porque a propriedade não pertencia a ele, mas à família [3].

Com esta prática se mantinha a estreita ligação entre o mundo dos homens e o mundo dos deuses, representada pelo respeito que as Fratrias dedicavam às suas divindades e na tradição mantida por elas, de honrar os seus ancestrais falecidos como intermediários entre os vivos e os mortos [4]. Foi desta tradição e do que ela representa, em termos de compartilhamento de uma tradição, feita de arquétipos comuns, que evoluiu a ideia da sociedade secreta que desembocou na moderna Maçonaria [5].

João Anatalino Rodrigues

Do livro “Lendas da Arte Real” – titulo provisório – no prelo

Notas

[1] Fustel de Coulanges, A Cidade Antiga, pg.

[2] É aqui, também, que se nota o surgimento do costume de considerar a pessoa que compartilha da mesma cultura simbólica como “iniciado, irmão”, e o que não compartilha como “profano, estrangeiro.”

[3] Fustel de Coulanges, op citado.

[4] Estes ancestrais eram conhecidos como manes ou deuses lares, de quem se faziam pequenos bonecos de madeira que colocados nos aras (altares) domésticos.

[5] O termo Fraternidade, que é aplicado a um grupo de tradições comuns vem do grego fratria, que na antiga Atenas designava uma associação de cidadãos unidos pela mesma cultura religiosa, compartilhante dos mesmos símbolos. Cada fratria formava uma unidade política e religiosa. A legislação de Sólon legitimou estas associações, determinando a sua composição em 30 fratrias.

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