A palavra empenhada

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palavras

Em meio a um trabalho mais extenso cuja conclusão ainda me exigirá alguns vários dias, bem como a outros projectos ora desenvolvidos em parceria, factos recentes aliados a velhas lembranças me motivaram a escrever este texto (bem) mais diminuto. Mas ainda que seja um textículo, ele encerra vários objectivos, os quais, contrariando a forma canónica que recomenda que os mesmos sejam declarados logo ao início, porque mais próximos à problematização e também para que o leitor não perca o seu tempo lendo o que não seria do seu interesse, deixei para serem (os objectivos) declarados ao final; espero que o leitor compreenda o intuito.

Do Maçom se diz que é um buscador da verdade (PINHEIRO, 2021); do Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA) se extrai que a Maçonaria “é um sistema de Moral, velado por alegorias e ilustrado por símbolos” (GLMERGS, 2007, p. 7), bem como que deve levantar templos à virtude e cavar masmorras ao vício, e do Rito Escocês Rectificado (RER) que tem as bases da sua doutrina assentadas nas Revelações judaico-cristãs [1], notadamente as últimas.

Só a discussão acerca do entendimento do que é (e se existe) a (ou uma) verdade, como se diz, “daria muito pano para manga”, o que por ora não cabe pois fugiria, em demasiado, ao escopo pretendido. Mas deixando à margem os debates mais aprofundados, de regra a palavra verdade quando estiver com a primeira letra grafada em maiúscula denota a(s) Verdade(s) revelada(s) nos textos sagrados (Corão, Bíblia, Upanishades, Tripitaka e outros) [2], mas se grafada somente com minúsculas aponta, de acordo com o OxfordLanguages [3], para: 1) propriedade de estar conforme com os factos ou a realidade; 2) coisa, facto ou evento real – em contraposição à primeira (Verdade Revelada, divina), a segunda é a verdade científica. Embora possível, o diálogo entre ambas nem sempre é fácil pois sob variados aspectos são distintas, a começar pela admissão de que a Verdade (por vezes também referida como Palavra de Deus) é perpétua e imutável, enquanto que a verdade muda no tempo e no espaço à luz dos novos conhecimentos sobre a natureza – a verdade, por definição, tem carácter temporário, a sua admissibilidade tem a duração da resistência às provas e testes a que deve permanentemente ser submetida -, o que por certo inclui a própria vida, as atitudes e os comportamentos dos homens.

Tanto o REAA quanto o RER encontram na Bíblia, ora no Velho, ora no Novo Testamento, o substrato para as suas doutrinas e práticas ritualísticas, razão pela qual é dela que se extraem os episódios para o argumento deste texto.

Não há exagero em dizer, na perspectiva judaico-cristã, que tudo aconteceu, chegamos aonde chegamos, porque o Senhor cumpriu com a Palavra empenhada.

O ponto de partida pode ser encontrado em Gn 12:7; dirigindo-se a Abrão, depois tornado Abraão (Gn 17:4), Deus disse: “Darei esta terra à tua descendência” (BÍBLIA SAGRADA, 2006, p. 31). Posteriormente a promessa é renovada por várias vezes aos Patriarcas (Gn 15:18; 17:8; 28:14; Ex 33:2; e outras). Em Êxodo, um Deus irado com o povo de Israel pelo descumprimento dos Termos da Aliança enquanto Moisés recebia o Decálogo, intenciona exterminá-los. Todavia, Moisés interfere em favor do povo e o principal argumento, na sua conversa com o Senhor, é compromisso com a palavra empenhada. Ademais, o que dirão os inimigos (que confiam e consideram superiores os seus próprios deuses) em relação Àquele que sequer consegue concluir o empreendimento iniciado – a posse de Canaã? Deus o acolhe, mas o povo parece ser incorrigível, assim o ciclo “pecado do povo-castigo de Deus-intercessão de Moisés-perdão” repete-se inúmeras vezes e com diferentes gravosidades. Em Num 14 se lê:

[Deus fala]: Até quando esse povo me desprezará? Até quando não crerão em mim, apesar de todos os sinais que fiz entre eles? Vou feri-lo de peste e deserdá-lo […]
.
[Moisés argumenta]: Se agora matas esse povo como um só homem, as nações ouvirão a notícia e dirão: “O Senhor não conseguiu levar esse povo à terra que lhes havia prometido; por isso os matou no deserto”. Portanto, mostra tua grande força, conforme prometeste. Senhor, paciente e misericordioso, que perdoas a culpa e o delito, mas não deixa ninguém impune […].

(BÍBLIA SAGRADA, 2006, p. 253)

O argumento, que se confunde com a estratégia mosaica, é repetido e novamente Moisés logra êxito, ainda que parcial.

Apenas mais um episódio permite conduzir aos termos desejados: em Jz 11:31-36, Jefté é instado pelo Senhor a combater e derrotar os amonitas que então oprimiam Israel – condição a que foram submetidos, também por castigo divino pela falta de compromisso com a palavra empenhada. Entretanto, Jefté promete a Deus:

Se entregares os amonitas em meu poder, o primeiro que sair para receber-me à porta da minha casa, quando eu voltar vitorioso da campanha contra os amonitas, será para o Senhor, e eu o oferecerei em holocausto […] Foi uma grande derrota e os amonitas ficaram submetidos a Israel. Jefté voltou para a sua casa em Masfa. E foi precisamente a sua filha quem saiu para recebê-lo com pandeiro e danças; era a sua filha única, pois Jefté não tinha outros filhos ou filhas […] Ai, minha filha, como sou infeliz! Tu és a minha desgraça, porque fiz uma promessa ao Senhor e não posso voltar atrás […] Pai, se fizeste uma promessa ao Senhor, cumpre o que prometeste […].

(BÍBLIA SAGRADA, 2006, p. 451)

Os trechos seleccionados podem ser levados às Lojas, e com algum engenho e arte, e pela via do debate crítico, extraídos inúmeros ensinamentos. Todavia, conforme anunciado no título, o foco ora recai sobre “a palavra empenhada”, o que obriga deixar à margem determinadas reflexões, como por exemplo: (1) as acerca do carácter cíclico (eterno, vigente ainda hoje?) do “pecado-castigo-perdão” (por vezes entremeado de confissões, penitências, expiação, etc.), (2) bem como as referentes aos motivos que levaram Jefté a fazer a promessa pois, afinal, se havia sido convocado pelo Senhor e dele teria o apoio (tal como Josué na primeira fase da ocupação de Canaã), não haveria porque fazer uma promessa como se tivesse dúvidas acerca das condições de êxito.

A primeira lição a ser depreendida das citações refere à importância seminal de honrar a palavra empenhada, o que se me afigura tanto como uma Verdade quanto como verdade, pois sem o cumprimento da palavra empenhada não se estabelecem os laços de confiança entre as pessoas e os povos, conditio sine qua non desde a Antiguidade aos empreendimentos civilizatórios, da constituição das famílias às relações públicas e institucionais. Nesses termos, cumprir a palavra empenhada deveria ser uma das primeiras virtudes merecedoras de templos, e se já não presente de modo inconteste nos indicados à Iniciação, de imediato deveria vir a ser desenvolvida. Infelizmente, no que é relevante, hoje o que mais se assiste é o seu oposto já na forma de vício porque não contido pelas masmorras (falhas na construção ou no projecto?): as palavras são jogadas ao vento, notadamente pelos homens públicos, e refiro a eles porque é mais fácil visualizar através dos exemplos que diariamente e à exaustão são expostos na comunicação social, mas de modo algum posso excluir “dignidades” e autoridades da Ordem.

Em segundo lugar, nem mesmo Deus escapa da Sua lei, pois ela é imutável e perpétua, ainda que periodicamente tenha (tivesse) que ser lembrado; o mesmo, me parece, também deve ser aplicado aos homens. E vale lembrar que, se Moisés com o argumento da palavra empenhada persuadiu o Senhor (teria mesmo ou é mais uma alegoria?) a não exterminar Israel, não obteve o mesmo êxito para evitar os severos castigos imputados ao povo por (inúmeras vezes) não ter observado o juramento – os termos da Aliança. À excepção de Caleb, Moisés, Aarão e todos os demais foram castigados porque em algum momento não cumpriram os termos acordados – a penalidade mais conhecida é a circunstância de não terem adentrado em Canaã, mas somente os da geração posterior, daí também, porque, os 40 anos errando no deserto [4]. Além disso, não penalizar é contrário à Verdade e também à verdade, pois estimula, quando não premia, a reprodução do vício. As Escrituras também estão repletas de episódios nos quais a acção divina também se justifica (quando não só) como exemplo dissuasivo. E também quanto a esse aspecto, lamentavelmente sou obrigado a me curvar às evidências, pois tanto na Ordem quanto no mundo profano está disseminado o hábito de “passar os panos quentes” (afinal, somos todos Irmãos, temos que preservar a egrégora, etc.) ou transferir as responsabilidades, o que realimenta o círculo vicioso.

Em terceiro e último, penso que não há “bem, valor” maior do que um filho, daí que entregá-lo em holocausto confere a exacta dimensão e importância histórica atribuída à palavra empenhada. E a aceitação, serena, por parte da filha de Jefté, revela que tal era um valor inquestionável passado de pai para filho, parte das Tradições perdidas.

Por oportuno, e no caso é melhor pecar por excesso do que por falta, daí que não custa chamar a atenção para o facto de que a relevância da palavra empenhada não pode ficar restrita aos grandes empreendimentos e ocasiões. Cumprir prazos, compromissos agendados, expectativas criadas, etc., cada evento, ainda que aparentemente insignificante, pondera para a constituição e a consolidação das relações de confiança entre os envolvidos, ou então para o seu oposto acompanhado das devidas consequências que, em Economia, são designados como “custos de transacção”.

Encaminhando as considerações finais, o devido esclarecimento quanto aos objectivos:

  • em primeiro lugar, o texto pretendeu demonstrar como, de uma Verdade, um texto bíblico-alegórico, não só é possível extrair lições-verdades (porque atestadas por evidências) como aplicá-las à realidade secular, ao dia a dia. Parênteses: uma das principais críticas à Maçonaria brasileira contemporânea é a falta de sentido e de conteúdo das sessões (MORAIS, 2020). De outra sorte, não há evidências de que todas as narrativas bíblicas tenham uma contraparte histórica, mas note-se que essas lacunas são irrelevantes para os propósitos, pois verdadeiras ou não, como fábulas ou alegorias, delas se podem extrair importantes reflexões e lições. Já há tempos, pois em vários textos mencionei, que observo o que julgo ser um dos principais problemas da Maçonaria contemporânea, notadamente a brasileira: a confusão entre conhecer a História da Maçonaria em geral e dos Ritos em particular, e o trato que deve(ria) ser dado a uma Ordem Iniciática. O conhecimento da História não só prescinde da Iniciação, como ela, se é condição necessária não é suficiente para o Iniciado ser um Maçom à luz das Tradições, pois ainda lhe serão exigidos profundos estudos (sob orientação) até estar apto para extrair das fábulas, das alegorias, das metáforas e dos símbolos, os efectivos significados, caso contrário não seria uma Ordem Iniciática repleta de ritos de passagem;
  • em segundo lugar, além da insignificância das precisões históricas, chamar a atenção que para realizar as reflexões acima não se fez necessário recorrer a qualquer crença ou considerações metafísicas. É largamente anunciado que Maçonaria não é Religião, mas no dia a dia, o que se observa é como se fosse; Religião requer fé (o argumento da autoridade – dogma – não se discute, não agrega conhecimento, talvez convença por capitulação), mas o estudo e a hermenêutica teológica demandam raciocínio, método, sistematização e critério – geram e elevam a um novo patamar de conhecimento, maturidade e cosmovisão. Cada um dos episódios acima carrega, em si, uma lição, mas somente quando apreciados em conjunto revelam novos ensinamentos (padrões, mensagens) até então ocultados. E se fossem combinados a outros episódios, certamente os entendimentos seriam ainda mais enriquecidos, pois há diferentes níveis de análise e compreensão; vide, entre tantos, Pinheiro (2017); por fim e
  • em terceiro, mais uma vez, desconstruir um raciocínio muito frequente: como praticante do RER eu escuto sobre as dificuldades de fazer trabalhos porque a literatura básica encontra-se em francês. Esse posicionamento, a meu juízo e já declarado em outros textos, também é um grande equívoco, e que só persiste pela insistência na confusão apontada acima ou, por comodismo, inclusive intelectual. Ademais, textos (livros) RER em português não são garantia de qualidade da informação. Só (PINHEIRO; 2021a, 2022) ou em parceria (PINHEIRO, PELLEGRINI e VAREJÃO, 2021) já trouxe inúmeros exemplos de trabalhos RER [5] embasados nas Escrituras e nos autores compreendidos no período da Patrística [6], como aliás não poderia deixar de ser pelas circunstâncias de origem do Rito. A falta de compreensão desses pontos faz com que se assistam, nas Lojas RER, trabalhos amparados na literatura originalmente voltada para o REAA. Por ser um Rito ainda recente no Brasil, e os Mestres fundadores das Lojas RER terem sido formados e egressos de outros Ritos, mas sobretudo porque estes não se dedicam às singularidades do Rito, cria-se um círculo vicioso: Aprendizes e Companheiros, transcorridos os interstícios, ascendem ao Grau de Mestre sem que tenham, efectivamente, vivenciado o RER na sua plenitude. Resultado: quando no exercício dos cargos (Vigilantes ou Instalados) não terão condições de, devidamente, orientar os novos Iniciados nas particularidades do Rito. Claro que sempre alguém poderá dizer: na minha Loja, não.

Por fim, é possível, mas não posso assegurar, se porque amparado na Bíblia, este texto receba alguma crítica dos Modernos, mas no que tange à relevância e às consequências que advêm do compromisso (ou à sua falta) com a Palavra Empenhada (fundamento da confiança), asseguro que poderia chegar às mesmas conclusões a partir das contribuições dos filósofos Modernos e Contemporâneos, o que, para bom entendedor, desperta para outra ordem de reflexões e considerações.

Ivan A. Pinheiro, Mestre Maçom. O autor agradece os apontamentos do Irmão Lucas Vieira Dutra, Companheiro do Quadro da ARLS Pres. Roosevelt, 75, GLESP; bem como esclarece que se expressa como livre pensador, seus pontos de vista são absolutamente pessoais, não representam as Potências, Obediências e Lojas das quais participa, razão pela qual não raro se manifesta também com o recurso à primeira pessoa do discurso. E-mail: [email protected]. Porto Alegre-RS,  24.03.23.

Notas

[1] Disponível em: https://gprbcbcs.org/publico/o-que-e-o-rito-escoces-retificado/. Acesso em: 24.03.23.

[2] E esta prática não se limita à Verdade, mas sempre que há uma alusão ao divino é habitual a grafia distintiva: o Senhor, o Absoluto, a.C., d´Ele e tantas outras expressões análogas.

[3] Disponível em: https://www.google.com/search?q=verdade+significado. Acesso em: 25.03.23.

[4] É possível, por exemplo, desde aí pensar e estabelecer paralelos e analogias com os ónus decorrentes de atrasos na elaboração e implementação de projectos.

[5] Embasados na literatura internacional, mais especificamente, espanhola.

[6] Praticamente todos disponíveis em português e com free download.

Bibliografia citada

  • BÍBLIA SAGRADA. Bíblia do Peregrino. Comentários de Luís A. Schökel. 2ª Ed. São Paulo: Paulus, 2006.
  • GLMERGS. Rito Escocês Antigo e Aceito – Ritual do Grau de Aprendiz Maçom. Porto Alegre: Grande Loja Maçónica do Estado do Rio Grande do Sul, 2007.
  • MORAIS, Cassiano Teixeira de (Org.). Maçonaria: perspectivas para o futuro. Ed. ampliada. Brasília: CMSB, 2020. Versão digital: e-book.
  • PINHEIRO, Ivan A. Abordagens interpretativas de texto aplicadas à Maçonaria – sobre o ritual de Iniciação ao Grau de Aprendiz Maçom. Edições “Universum”, Ed. 37, Julho 2017, p. 107-128. Porto Alegre, RS: GLMERGS, Loja de Estudos e Pesquisas Universum n0 147.
  • PINHEIRO, Ivan A. Buscadores da Verdade … Sois Mesmo? Revista Ad Lucem, vol. 1, n. 2, p. 14-28, Mai. – Ago, 2021.
  • PINHEIRO, Ivan A. Produzindo Trabalhos & Textos no Rito Escocês Rectificado (RER) – II. Publicado em: Novembro, 2021a. Disponível em: [email protected].
  • PINHEIRO, Ivan A. Boécio, “A Consolação da Filosofia” e o Rito Escocês Rectificado (RER). Publicado em: Fevereiro, 2022. Disponível em: [email protected].
  • PINHEIRO, Ivan A.; PELLEGRINI, A.; VAREJÃO, A. Produzindo Trabalhos & Textos no Rito Escocês Rectificado (RER). Publicado em: Agosto, 2021. Disponível em: [email protected].

 


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1 thought on “A palavra empenhada”

  1. Melquias Carvalho da Silva

    Tudo pode mudar ! Só o que não pode mudar e um homem deixa de se basear no estatuto da Doutrina em que foi aprendido …

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