Apresento o meu discurso baseado numa das questões peculiares da Maçonaria, o acolhimento de um neófito ou Maçom ao ingressar numa Loja Maçónica.
O ingresso de um neófito ou de um Maçom numa Loja Maçónica é carregado de expectativas, de ambos os lados.
Tratando-se de um Maçom iniciado, há um mundo novo pela frente, repleto de indagações, hipóteses, curiosidades, cautela, que fazem com que a observação e o silêncio sejam notas cruciais da harmonia que determina o elo de ligação do desconhecido com o promissor futuro de pertencimento a uma Ordem Maçónica respeitada, porém ainda a descortinar.
É imprescindível que para além do padrinho, os obreiros percebam a importância do acolhimento a este Irmão Iniciado, fornecendo-lhe todo o carinho, cumplicidade, vínculo entre os Irmãos e todo acompanhamento e orientação necessários para o desenvolvimento e entrosamento do Iniciado ao seio da Loja.
Esta etapa é delicada e minuciosa, pois há que compreender que o Iniciado está a caminhar a passos curtos a caminho da luz, munido de silêncio, questionamentos, observações e demasiada expectativa.
O que faz com que o Mestre da Loja, bem como os obreiros da Loja, tenham total responsabilidade no acolhimento e desenvolvimento de factores determinantes, que promovam o prazer e o sucesso desta caminhada conjunta.
Já irei apresentar-vos os principais factores determinantes e fundamentos responsáveis por acções que venham a promover a egrégora necessária para um bom desempenho e harmonia de uma Sessão Ritual, para além do ele fraterno extramuros.
Por um lado, nomeadamente, o acolhimento e acompanhamento ao Iniciado é um aspecto de relevada importância, porém de menor resistência de ambas as partes, Iniciado e Loja, dado ao facto de que tudo é novo, deslumbrante, no qual há total atenção e dedicação do Iniciado.
É um aprendiz! E como todo aprendiz num ofício, faculta-lhe toda dedicação e esmero às práticas e ensinamentos que farão parte dos progressos da vida maçónica.
Verdadeiramente percebemos, que esta etapa é necessariamente construtiva, requer dedicação de ambos, mas como está emoldurada na “novidade” e “expectativa”, os factores determinantes de acolhimento são de mais fácil absorção, diríamos assim. Ou seja, há menor reverberação e melhor aderência aos conceitos de acolhimento, em prol de uma perene harmonia.
Ao avaliar a questão tratando-se do acolhimento a um Maçom, a ser filiado numa Loja, a situação pode tomar aspectos mais contundentes, que para serem tratados com êxito, deve ser percebido primeiramente pelo Mestre de Loja, em conjunto com os obreiros.
Se na questão ao envolver o Iniciado, percebemos mais trivialidade no acolhimento, dado à baixa complexidade, oriunda dos aspectos já citados, como: novidade, aceitação, aprendizagem e expectativas.
Ao tratar-se do acolhimento à filiação de um Maçom, já iniciado, seja ele Aprendiz, Companheiro ou Mestre, o acolhimento deve ser tratado com maior delicadeza e minuciosidade, no qual, conceitos, fundamentos e factores determinantes que traduzem o acolhimento na sua essência irão requerer maiores cuidados, nomeadamente em função do factor “mudança”.
A mudança requer preponderantemente aceitação. Aceitação pelo grupo, pela Loja e principalmente pelo Mestre da Loja, que deve ter total percepção de como promover o acolhimento deste Irmão recém-chegado, numa Loja já constituída com a sua identidade e cultura maçónica customizada, mas emoldurada nos preceitos maçónicos da Ordem.
Vejam que interessante! Os factores e fundamentos que irão determinar um bom acolhimento de Irmãos (iniciados, filiados ou visitantes) são os mesmos, que irei vos apresentar em seguida. Porém a dosagem de aplicação é que deve ser administrada com inteligência e equilíbrio, para que os efeitos sejam positivos.
Portanto, vamos a eles! Quais os conceitos, fundamentos e factores determinantes que devem ser considerados?
O conceito de acolhimento, refere-se:
“Ao acto ou efeito de acolher, recepcionar. Ter atenção, consideração, abrigo, refúgio e agasalho. Acolher significa dar acolhida, receber e atender. Dar ouvidos, dar credibilidade, admitir, aceitar. Tomar em consideração. (Ferreira, apud Matumoto, 2000).
“O acolhimento consiste na humanização das relações”. (Mehry et al., 1994).
Como a questão do acolhimento é o ponto central apresentado, precisamos entender os fundamentos necessários a serem tratados, supostamente suportados pelos factores que determinam tal propósito.
E para melhor compreensão do que se pretende demonstrar, apresento-vos estes pontos na figura abaixo, meramente ilustrativa.
Os fundamentos devem ser gerenciados e ministrados pelo Mestre da Loja, em conjunto com os obreiros, com foco na relação de humanização a ser estabelecida fraternamente e harmonicamente com os Irmãos recém-admitidos.
Os fundamentos que proverão um bom acolhimento da Loja, estão basicamente relacionados aos seguintes aspectos:
- Acesso: devemos permitir que o acesso seja leve, tranquilo e sem obstáculos.
- Cultura: embora cada Loja tenha a sua identidade, devemos criar vínculos, de forma a permitir a rápida socialização entre os Irmãos.
- Loja: a Loja é território sagrado de todos os Irmãos, portanto devemos prover esta ambientação de forma que o recém-admitido se sinta reintegrado no ambiente e no grupo.
- Desejo: deve haver uma forte congruência de todos no fortalecimento do desejo constante de integração dos Irmãos. Este é um trabalho de todos, e também gerido pelo Mestre da Loja.
- Motivação: toda mudança está associada a uma expectativa de um futuro melhor. Cabe a nós Irmãos, de forma empática, saber traduzir e compreender esta necessidade e abrir os canais e vínculos de união fraterna, para prover a humanização das relações.
- Vínculo: devemos criar mecanismos para facilitar o vínculo entre os Irmãos.
- Responsabilidade: a responsabilidade pelo acolhimento é de todos, mas preponderantemente deve estar alicerçada pelo Mestre da Loja, de forma a conduzir as relações, mantendo uma egrégora positiva.
Entendemos que para que estes fundamentos sejam os propulsores de um bom acolhimento nas Lojas, faz-se necessário que tenhamos total atenção aos factores que irão suportar tais fundamentos.
Estes factores são pontos fundamentais, para o desenvolvimento das competências necessárias que preconizam o acolhimento: recepcionar, atender, escutar, dialogar, aceitar, admitir, amparar, orientar, flexibilizar e negociar.
- Atenção: acto que devemos ter com o outro, com zelo, dedicação, empenho e cuidado.
- Empatia: devemos buscar entender o outro, colocar-se no lugar do outro, compreender as suas ideias, necessidades e aflições.
- Propósito: nós não somos apenas uma gota de água num vasto oceano; através da força transformadora do amor, podemos compreender que somos, na verdade, o próprio oceano. E o amor é o propósito comum a todos os seres humanos. Portanto sejamos fraternais e unidos.
- Reconhecimento: acto que devemos praticar com os Irmãos, no sentido de validar o seu ingresse, admitir o seu vínculo entre nós, legitimando a gratidão de estarmos juntos.
- Igualdade e Equidade: enquanto a igualdade promove as mesmas oportunidades para todas as pessoas independentes das suas necessidades, a equidade visa o ajuste do desequilíbrio entre elas, considerando as suas particularidades e promovendo a equiparação entre os meios de alcançar um mesmo resultado.
- Indiscriminação: Negação das diferenças entre o “eu” e “não eu”. Evitar comparações entre pessoas e temporalidade. Evitar o isolamento, quando for percebido nas relações e promover a união e humanização.
- Fraternidade: é o laço de união entre os homens, fundado no respeito pela dignidade da pessoa humana e na igualdade de direitos entre todos os seres humanos.
- Amizade: é a relação afectiva entre os indivíduos. É o relacionamento que as pessoas têm de afecto e carinho por outra, cujo sentimento é de lealdade e protecção.
- União: quando estamos juntos e em sintonia com as pessoas ao nosso redor, é possível alcançar grandes objectivos e conquistas.
Contudo, como Maçons obedientes à Ordem Maçónica e ao GADU, devemos reconhecer que as nossas acções para com os nossos Irmãos, são literalmente confirmadas em algumas passagens bíblicas:
- Coríntios 12:16: “Quando um membro sofre, todos os outros sofrem com ele. Quando um membro é honrado, todos os outros se alegram com ele”.
- Eclesiastes 4:9: “É melhor ter companhia do que estar sozinho, porque maior é a recompensa do trabalho de duas pessoas”.
- João 17:22-23: “Dei-lhes a glória que me destes, para que eles sejam um: eu neles e tu em mim. Que eles sejam levados a plena unidade, para que o mundo saiba que tu me enviaste e os amaste, como igualmente me amaste”.
- Romanos 12:10: “Dediquem-se uns aos outros com amor fraternal. Prefiram dar honra aos outros mais do que a vocês”.
- Salmos 133:1-3:”Como é agradável quando os Irmãos convivem em união! É como óleo precioso derramado sobre a cabeça, que desce pela barba, a barba de Arão, até à gola das suas vestes. É como o orvalho de Hermon que desce sobre o montes de Sião. Ali o Senhor concede a bênção da vida para sempre”.
Espero que valores e comportamentos sejam revistos de forma que possamos todos usufruir de todas as virtudes maçónicas, que promovam a optimização do acolhimento e das relações de humanização dentro das Lojas.
Márcio Miranda
Bibliografia
- Pesquisas Maçónicas. https://www.bibliaon.com/valor_da_uniao/
- Pesquisas Maçónicas. https://www.aulete.com.br/indiscrimina%C3%A7%C3%A3o
- Pesquisas Maçónicas. https://www.bertrand.pt/livro/proposito-sri-prem-baba/21521296?srsltid=AfmBOopsJSyg2-gpIG1TA3DNwErMSjymzrwyGtrTArdi3-MoAXYxsUAk
- Pesquisas Maçónicas. https://www.dicionario.priberan.org.
- Pesquisas Maçónicas. https://www.lexico.pt/indiscriminacao/#google vignette
- MALTA, D.C, FERREIRA, L.M, REIS; A.T, MEHRY, E.E. Mudando o processo de trabalho na rede pública. Saúde em debate. Rio de Janeiro, v.24, n.56, p.21-34.set/dez.2000.

- A marcha do Aprendiz Maçom
- A Estrela Flamejante
- Quite Placet, Placet Ex-Ofício e Cobertura de Direitos
- Flamejante ou Flamígera?
- Perguntas da Esposa / Companheira / Namorada do candidato


Com muito prazer que leio essas palavras de acalento, pois sou iniciado e estou em débito com a minha loja devido o meu trabalho profano. Vivo 90% do meu tempo na estrada, mas nunca me esqueço de que tenho uma imagem a preservar como maçom, a imagem da retidão e tenho que refletir tal.
Ótima leitura, muito agregadora.
Acredito que além das aplicações em loja possamos adapta-lás e aplica-lás em diversos ambientes e situações em que nos deparamos em nosso cotitiano, buscando o crescimento e podendo influenciar os que estão ao nosso redor de forma positiva.