A Mulher, a Maçonaria e a Europa

“Para além dos motivos de ordem geral que me levam a dirigir para as mulheres a minha principal atenção, desde há muito que fui levado a fazer depender sobretudo delas o surgimento decisivo da solução ocidental enunciada pelo passado”

Augusto Comte
Paris, 11 de Julho de 1852

A construção da União Europeia, que marcou profundamente o século XX, criou uma realidade histórica difícil de comparar a outro período da história da civilização ocidental.

Passámos da condição de ser simplesmente português, italiano, francês, belga, alemão ou espanhol à condição de ser, também “cidadão europeu”, condição que nos distingue de ser cidadão africano, asiático, árabe ou americano.

À questão “o que é ser cidadão europeu?”, a resposta pode ser dada de forma simplista – é pertencer a um espaço geográfico, sem fronteiras, onde podemos trabalhar, viver ou circular livremente, – mas é também a partilha e a assumpção de um conjunto de valores, associados à democracia, à igualdade, à liberdade, ao respeito pelos direitos humanos, à escolha livre e directa das instituições democráticas.

O desenvolvimento cultural, científico e tecnológico que marcou o início do século XX, altamente potenciado pela explosão da Sociedade de Informação associado ao Movimento pró Globalização, faria prever que o século terminasse com um nível de Progresso nunca antes atingido e que este se espalharia rapidamente a todos os Continentes minorando as assimetrias, desigualdades e violações de Direitos Humanos no Mundo.

Mas, contra todas as expectativas, o Mundo começou a viver uma profunda dicotomia na segunda metade do século XX, dicotomia essa que se tem vindo a acentuar e que neste primeiro quartel do século XXI, pela preponderância daquilo que poderemos considerar como riscos globais, atinge contornos que poderão pôr em causa Princípios Fundamentais para o Desenvolvimento e Progresso da Humanidade – a Liberdade, a Igualdade, a Fraternidade.

A Europa do Século XXI enfrenta novos e complexos desafios: de sobrevivência económica, de confronto com outras realidades geográficas emergentes, de contestações internas, de supremacia e de liderança de uns, e de subordinação de outros. Enfrenta o impacto de um mundo em vertiginosa transformação política, social, económica e comunicacional, com o mais recente exemplo nas convulsões políticas e sociais dos Países Árabes com consequências, ainda imperceptíveis, mas deixando já um lastro de destruição e de perda de vidas humanas.

O que nos deve interrogar na evolução do modelo europeu, que tende a ser um modelo de governação económico, é o de saber como pode a União Europeia manter-se como espaço de justiça, de liberdade e de segurança, respeitando os valores humanistas, os valores da democracia e de respeito pelos Direitos Humanos.

Mais do que nunca a Europa deve continuar o seu percurso orientado pelos ideais de liberdade de igualdade e de fraternidade, valores que estiveram na origem da construção europeia e o seu desvio poderá pôr em causa o futuro do modelo Europeu. As reflexões que se fazem hoje, sobre a evolução da Europa, sociologicamente alinhadas com princípios sociais e humanistas, defendem que a sobrevivência do modelo europeu depende da capacidade de integração e de adaptação destes três pilares fundamentais.

A Liberdade, de circulação num espaço comum, sem dúvida, mas a liberdade que deve assistir a todos de continuar a ser cidadão italiano ou português, p. exemplo, com todo seu legado civilizacional, de usos e costumes.

A Igualdade deve continuar como um dos pilares da construção europeia, sem deixar que o poder económico de alguns Estados, no interior da União Europeia possa levar à existência do “cidadão europeu” dos Países ricos e o “cidadão europeu” dos Países menos ricos ou com economias mais débeis, ou seja, uma Europa de cidadãos livres e iguais.

A Fraternidade na relação dos cidadãos no interior do espaço da União Europeia mas, sobretudo, na relação da Europa com o “outro” (aquele que não é “cidadão europeu”), principalmente com o fenómeno das migrações, para com aqueles que fogem das difíceis condições de vida dos seus Países, e procuram na Europa apenas um futuro melhor.

Sendo estes valores a essência do ideal maçónico devemos interrogar-nos como pode a Maçonaria Feminina influenciar o futuro da Europa? Em que espaço de intervenção se pode actuar para fazer prevalecer os valores da liberdade, da igualdade e da fraternidade?

A Europa, como um conjunto de países que partilha uma mesma cultura e ocupa um determinado espaço geográfico tem vindo a transformar-se. A liberdade permitiu construir democracias sólidas, mas as desigualdades sociais mantêm-se, e em tempos de crise voltam a agravar-se.

A Europa está em crise, uma crise global de valores, que reduziu a União Europeia a uma expressão materialista própria das sociedades consumistas, a uma Europa praticamente reduzida a uma teia de mercados cada vez mais gananciosos. É pois necessário quebrar as fronteiras do economicismo e reencontrar os ideais do humanismo europeu.

O desespero e a luta pela sobrevivência estão a conduzir a um aumento dos movimentos migratórios, particularmente na direcção da União Europeia. Estes movimentos a não serem antecipados, compreendidos e minorados levarão a confrontos civilizacionais e culturais com graves consequências humanitárias. Podemos dizer que no século XXI o espectro dos três cavaleiros do Apocalipse – fome, doença e morte – parecem rondar de novo o Mundo, em particular a Europa, ao contrário das expectativas dos cidadãos europeus que projectavam a consolidação das conquistas resultantes do amadurecimento de regimes democráticos no mundo ocidental e consequentemente a sua influência positiva para alavancar o desenvolvimento em outras zonas do mundo.

As emigrações para os países europeus, quer de população de países antes colonizados, quer de outras populações que chegam em busca de um bem-estar económico e social que não alcançam no seu país de origem, trazem uma diversidade muito grande de línguas, culturas, hábitos sociais, religiosos, etc. A aceitação do outro e o respeito pela diversidade, são outros os valores que têm de voltar ao discurso europeísta.

E se entre algumas populações a mulher não aparenta maus tratos e até parece gozar de igualdade de direitos e deveres, mesmo na sua comunidade de emigrantes, outros há em que as mulheres, normalmente numa situação subalterna, de maior iliteracia, de maior violência, de maior esforço no trabalho, são incapazes de sair de uma situação em que pensam não haver saída.

Sendo a Maçonaria formada por um conjunto de pessoas de bons costumes, idóneas e preocupadas com o bem da humanidade em geral, as mulheres não só fazem parte como são um contributo válido, para que o leque de assuntos e trabalhos seja mais alargado, cumprindo a sua função de um dos pólos da humanidade.

E é assim que a Maçonaria deve estar particularmente atenta a estas vítimas, muitas vezes silenciosas, e a Maçonaria Feminina em particular, pela nossa condição comum de mulheres.

O legado Europeu do Estado Social encontra-se profundamente ameaçado, porque a Europa está dependente dos mercados internacionais, porque se encontra envelhecida demograficamente, pouco consolidada politicamente, concentrada na sua fragilidade económica e cega ao seu problema social.

Num momento em que é necessário reforçar as redes da solidariedade, em que é fundamental antecipar para prevenir, em que o diálogo e a justiça, a firmeza aliada à humanidade são fundamentais para reconstituir a confiança de uma sociedade em risco de fragmentação, a mulher pode trazer uma nova visão para o futuro da Europa e para o lugar da Europa no Mundo, trazendo para o debate Europeu um novo significado e uma nova dinâmica.

E porque é importante que soluções sejam rapidamente identificadas para que o projecto europeu seja sustentável e se colmatem os riscos de tensões sociais, de aumento do desemprego, de exclusão e de recrudescimento de fenómenos xenófobos, de epidemias, de assimetrias de desenvolvimento, de eclosão de catástrofes ecológicas, ousamos aqui apresentar-vos uma “ Carta de Objectivos” que contenha princípios tais como:

  • Considerar a Ética e os Valores como Competências essenciais, integrando-os de forma activa nos programas de Educação e Ensino da União Europeia;
  • Criar redes de solidariedade de âmbito europeu, sinérgicas entre si, de forma a harmonizar procedimentos, partilhar boas práticas, reduzir custos e aumentar a eficácia;
  • Rever os conceitos de Segurança e Defesa, através da estreita colaboração com Organizações da Sociedade Civil de cariz Humanitário, em Operações de Paz e apoio ao Desenvolvimento das Comunidades e de Cooperação com os povos mais desfavorecidos;
  • Activar o desenvolvimento de energias renováveis, de indústrias de reciclagem, de promoção de transportes não poluentes, de criação de taxas de importação sobre produtos oriundos de países que não contribuam para os objectivos de Quioto ajudando a tornar o mundo mais habitável;
  • Estimular a actividade agrícola como forma de minimizar potenciais dependências alimentares na Europa e simultaneamente contribuir para minimizar a fome na Europa e no mundo, fixando simultaneamente as populações nas zonas rurais e promovendo um estímulo de vida mais saudável;
  • Desenvolver comunidades e actividades que promovam a aproximação geracional.

A Europa em mudança precisa de quem a entenda na sua essência e que compreenda as mutações. A Maçonaria Feminina, na sua actividade especulativa, trabalha o que de mais profundo temos como seres humanos, acreditando na construção de novas Catedrais e de novos Templos. Porque… com a Liberdade por Princípio, o Amor como um Meio e o Progresso por Finalidade, é pelo Símbolo que vamos.

Dissemos!

Síntese do trabalho realizado nas RR∴ LL∴  da G∴ L∴ F∴ P∴

Or∴ de Florença, 16 de Abril de 6011

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