Maçonaria, Europa e Populismos

Artigo de opinião de Carlos Vasconcelos

Primeiro eles vieram para levar os ciganos e eu fiquei feliz porque os ciganos furtavam.

Então eles vieram para levar os judeus e eu não protestei porque judeus não me agradavam. Então eles vieram para levar os homossexuais e eu fiquei aliviado, pois estavam a irritar-me. Então vieram para levar os comunistas e eu não protestei, porque eu não era comunista. Um dia vieram para me levar e não havia mais ninguém para protestar” – Bertold Brecht.

A Franco-Maçonaria especulativa está a assinalar os seus 300 anos. Durante estes 300 anos, tem sido recorrentemente estigmatizada e alvo de injustos preconceitos. Com isto, não se pretende passar a ideia de que a Maçonaria é isenta de críticas. Como qualquer organização, comete erros que lhe podem e devem ser apontados. Todavia, é da mais elementar justiça reconhecer que os valores proclamados pela Maçonaria, alicerçados nos princípios fundamentais da liberdade, da igualdade e da fraternidade, colidem com qualquer forma de organização social fundada na base do racismo, da intolerância e com qualquer forma de ditadura ou fundamentalismo, quer político, quer religioso. Os grandes adversários da Maçonaria sempre foram os regimes políticos cuja ordem moral subtrai o direito à diferença, coarcta as liberdades individuais, e onde o primado dos direitos humanos e da dignidade da pessoa humana se encontra fora do ordenamento jurídico e da prática política e societária. Ao longo da história, os regimes comunistas apelidavam a maçonaria de burguesa e consideravam-na, opositora à luta de classes. Os regimes fascistas proibiram-na e colocaram os seus membros nos campos de concentração. Hitler interditou a Maçonaria e Goebbels iniciou uma campanha anti-maçónica, acusando-a de estar impregnada de judaísmo. Franco perseguiu a Maçonaria. Salazar e Mussolini proibiram a Maçonaria. A Maçonaria foi proibida no Irão, com o Ayatola Khomeini. Poderíamos continuar a enumeração e isto apesar do papel central desempenhado por inúmeros maçons na Revolução Americana, na Revolução Francesa, na Declaração Universal dos Direitos do Homem, na construção europeia.

Vêm estas considerações a propósito do que se está a passar em Itália. Os dois maiores partidos antissistema, o Movimento 5 Estrelas e a Liga (ex-Liga Norte) anunciaram recentemente um acordo para governar. Desse acordo, consta a impossibilidade da participação no Governo de qualquer elemento com reconhecida pertença à Maçonaria. Trata-se do mais recente exemplo da afirmação na Europa da intolerância, da estigmatização e do populismo, que têm vindo a afirmar-se de forma preocupante, em vários países europeus, ainda que com diferenças de dimensão e de intensidade.

Insurgimo-nos contra essa proibição não por estarem em causa os maçons, que são, normalmente, a “linha avançada” da estigmatização. Depois, é só ler o poema de Brecht … Insurgimo-nos em nome dos valores fundamentais que enformam a nossa civilização, pois, como já foi decidido pelo Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, a propósito de situações idênticas, tal prática viola o artigo 14.º da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, que interdita a discriminação.

A Europa que hoje conhecemos foi fundada sob os auspícios da liberdade, da igualdade e da fraternidade e do primado do Estado de Direito, assente nos direitos fundamentais como jus cogens da prática política europeia. Hoje, os sinais que recebemos da Itália, da Hungria, da Polónia, e de outros países onde triunfa a intolerância, o racismo e o populismo fazem emergir fenómenos que considerávamos já ultrapassados.

Inspirando-nos no exemplo de Arnaut, que, depois de ter criado o Serviço Nacional de Saúde, sempre esteve vigilante na sua defesa, todos os democratas têm de estar vigilantes e combativos na defesa intransigente dos princípios fundadores da Europa e do cimento que a libertou da tirania e dos preconceitos.

Carlos Vasconcelos
Grão-Mestre Adjunto do Grande Oriente Lusitano – Maçonaria Portuguesa

In Jornal “Sol”

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