A Maçonaria na Europa – Comunicação do Grão-Mestre da GLLP/GLRP à 48ª Assembleia da Confederação da Maçonaria Simbólica Brasileira

Comunicação à 48a Assembleia da Confederação da Maçonaria Simbólica Brasileira

Julho de 2019

A Maçonaria na Europa

O Grão-Mestre, Armindo Azevedo, na 48ª Assembleia da Confederação da Maçonaria Simbólica Brasileira

A Maçonaria nasceu e desenvolveu-se na Europa, primeiro no Reino Unido, depois na Europa Ocidental e do Norte, e finalmente em certas periferias europeias. Em 1717, ou mais exactamente por volta de 1721, deu-se a criação da primeira obediência maçónica: a Grande Loja de Londres.

Gradualmente, a Maçonaria tornou-se um elemento constituinte do ethos europeu. Depois de três séculos de existência, a Maçonaria está em toda a parte no continente, com diferentes intensidades.

É importante sublinhar a complexidade do tema abordado nesta breve apresentação, que se deve em particular à heterogeneidade das “doutrinas”, das práticas rituais e das estruturas institucionais das diferentes convicções europeias.

O caso da França e do Grande Oriente, que algumas pessoas chegam a descrever como “excepcional” numa paisagem maçónica largamente dominada pela tendência anglo-saxónica, é um exemplo. Tais disparidades, resolutamente em movimento, estão constantemente sujeitas a mudanças e recomposições, e apesar de certos pontos de discórdia internos entre obediências ou internacionalmente, permanecem constantes, fundadores de uma espécie de identidade maçónica.

Deve ser salientado que a ausência de números oficiais confiáveis sobre os efectivos gerais da Maçonaria – que são de outra forma flutuantes e às vezes deliberadamente inflacionados pelas entidades envolvidas – torna o trabalho de pesquisa ainda mais difícil. Assim, à maneira de um pintor impressionista, é, portanto, por toques sucessivos, mas com o necessário distanciamento que garante o carácter científico da abordagem, que tentarei apresentar uma imagem não exaustiva da Maçonaria europeia.

Presentemente, existem diferenças importantes nas quatro regiões europeias que sublinhamos: Sul, Ilhas (Grã-Bretanha), Norte e Leste.

Nos países do Sul da Europa que são católicos apostólicos romanos e ortodoxos, a Maçonaria é considerada um inimigo a abater. Campanhas de difamação nos media, “pululam” de quando em vez nas televisões e jornais diários, enquanto nas redes sociais as campanhas são constantes. O fomento de uma errada ideia anticlerical, que Roma continua a fomentar entre os católicos e cristãos, tem levado a uma manifesta desinformação sobre as reais intenções da Maçonaria no seio da sociedade europeia, principalmente dos países do Sul.

A Maçonaria Legal e Regular, que assume uma postura cristã na sua envolvência com a sociedade profana, não se revê nesse grupo da Maçonaria anticlerical da Revolução Francesa ou mesmo da Implantação da República em Portugal, ou no movimento que no seculo XIX, em 30 de Maio de 1834, pela mão de Joaquim António de Aguiar, extingui as ordens religiosas e nacionalizou todos os seus bens, tendo-lhe valido a alcunha de “Mata-Frades”.

Alguns Irmãos caídos em desgraça, também contribuíram para uma percepção negativa da Maçonaria, trazendo uma imagem nefasta perante a sociedade profana caracterizando a Maçonaria como uma seita mafiosa, corrupta e com demasiada influência no aparelho de Estado de alguns países. (Publicado em freemason.pt)

Os países do Norte da europa, cristãos protestantes, têm perante a Maçonaria uma atitude mais benevolente e respeitadora dos princípios e dos objectivos que norteiam os trabalhos dos Maçons nos seus países. O facto de terem também sido perseguidos pela Igreja Católica fez, com que se tenham aproximado e sido quase que adoptados pelas sociedades de profanos e pelas monarquias desses países.

As Ilhas ou a Grã-Bretanha, composta pela Inglaterra, Escócia, Gales e a Irlanda, vivem a Maçonaria Legal e Regular, de uma forma natural. A Igreja Anglicana nunca afrontou a Maçonaria e, pelo contrário, vivem em plena comunhão.

Um dos principais problemas nas Ilhas é o envelhecimento dos Obreiros e a não entrada de novos Aprendizes nos últimos anos, devido a uma apertada selecção dos candidatos. Mas esse problema do rejuvenescimento está a ser encarado de modo muito sério, tendo já sido criados projectos para cativar os mais jovens para a Maçonaria. Mas o rejuvenescimento dentro da Maçonaria está a ser visto de uma forma muito céptica pelos Obreiros mais antigos, para os quais a idade era a garantia de conhecimento e sabedoria.

O Essex Cornerstone Club/Lodge é um desses novos projectos de rejuvenescimento ancorado nas Universidades. Mais de 700 Maçons lotaram, no dia 2 de Março de 2019, o magnífico “Grand Temple” do “Freemasons Hall” para testemunhar a primeira consagração mundial de uma nova Loja para jovens Maçons: a Loja Essex Cornerstone n° 9968.

O Grande Templo foi, assim, o palco para esta ocasião especial, com Maçons vindos de toda a Inglaterra, que viajaram para testemunhar a cerimónia.

A Cerimónia de Consagração, foi conduzida Rodney Bass, que na ocasião disse: “Esta nova Loja incentivará e apoiará jovens Maçons na sua jornada, proporcionando um local de encontro para jovens Maçons aumentarem o seu conhecimento e experiência maçónicos, e permitirá que os membros do Cornerstone Club mantenham relacionamentos fortes”.

Os países do Leste da Europa ou a nova Maçonaria europeia, são os herdeiros dos Maçons que foram presos e assassinados no decorrer da Revolução Bolchevique de 1917. Todos os que sobreviveram tiveram de viver na clandestinidade ou emigrar para a Europa central, até à queda do Muro de Berlim e do fim da URRS, e do regime soviético, com a benevolência de Mikhail Gorbatchov.

As Grandes Lojas europeias têm tido um papel fulcral no reaparecimento de novas Grandes Lojas e na sua consagração, um pouco por toda a Europa de Leste.

Em Portugal depois de 40 anos na clandestinidade, após o 25 de Abril de 1974, os Maçons voltaram a poder reunir-se, a consagrar Lojas e Grandes Lojas. Umas, consagradas por potências regulares como a GLNF e a UGLE, caso da Grande Loja Legal de Portugal / Grande Loja Regular de Portugal (GLLP/GLRP), e as outras por potências irregulares.

Em Portugal só a Grande Loja Legal de Portugal é uma Grande Loja Regular. Faremos em 2021 trinta anos de existência e temos, presentemente, cerca de 3.100 obreiros, tendo-se tornado a mais representativa Grande Loja Maçónica de Portugal, com 150 Lojas de Norte a Sul de Portugal continental e nas Ilhas da Madeira e Açores, e presença no espaço da africa Lusófona: Angola (2 Lojas), São Tomé e Príncipe (1 Loja), Cabo Verde (1 Loja) e Guiné Bissau (1 Loja), bem como uma Loja em Macau (China).

Foi ainda a GLLP/GLRP a “mãe” e, portanto, a GL consagrante da Grande Loja de Moçambique que está, presentemente, a celebrar o seu 10° aniversário.

A GLLP/GLRP tem tentado melhorar a imagem pública através do apoio de iniciativas solidárias, directa e indirectamente, junto da sociedade profana. Essa imagem positiva que temos passado sobre as actividades desenvolvidas pela Maçonaria Legal e Regular, que a GLLP/GLRP representa, tem distanciado as nossas actividades de outras potências maçónicas existentes em Portugal, provocando um reconhecimento diferenciado e um respeito que há muito não se via em Portugal. O futuro está a ser, paulatinamente, construído hoje.

Na Europa do Sul e do Leste, países de influência da Igreja Católica e Ortodoxa, a luta pela verdade da identidade solidária e beneficente dos Maçons tem de continuar. Devemos interagir com a sociedade profana a fim de, ao abrirmos janelas e entreabrirmos as portas, possamos melhorar a nossa imagem perante a sociedade, onde estamos inseridos. A prática de acções beneficentes e solidárias visíveis através da comunicação social e das redes sociais na web, será um caminho a não descurar.

A realização de eventos abertos ao mundo profano, com temas importantes para todos, deverá ser uma constante para podermos passar as nossas ideias e as nossas preocupações, que afinal não são tão secretas como nos caracterizam, certos grupos anti-maçónicos.

Hoje, na história com três séculos da Arte Real, encontramos Maçons em toda a Europa, mas certamente com densidades e números variáveis. No início da década de 2010, a Europa tinha cerca de 660.000 a 700.000 Maçons, dos quais quase metade nas Ilhas Britânicas (290.000-310.000). O Reino Unido e a França (180.000-190.000) constituem quase três quartos dos Maçons europeus. Seguidos da Itália (38.000-44.000) e da Bélgica (26.000-27.000). Com excepção da Turquia (17.000­19.000) e da Roménia (9.000-12.000), as potências maçónicas europeias “médias” (15.000-20.000) são os Países Ocidentais ou do Norte (Alemanha, Dinamarca, Noruega, Suécia).

A um nível menor (7.000-9.000), encontra-se a Finlândia, a Grécia, os Países Baixos e Portugal, e depois, entre 4.000 e 6.000 membros, cinco Estados (Áustria, Bulgária, Espanha, Islândia e Suíça). Entre 1.000 e 3.000 membros estão o Chipre, a Hungria, a Polónia, a Rússia e a Sérvia.

Uma grande parte do Sul e Leste da Europa e as margens são zonas de baixa presença maçónica, com três níveis: de 500 a 1.000 (Croácia, Estónia e República Checa); de 200 a 450 (Bósnia, Geórgia, Letónia, Lituânia, Macedónia, Moldávia, Montenegro, Eslovénia e Ucrânia); e com cerca de cem, ou até menos, (Albânia, Azerbaijão, Bielorrússia e Kosovo).

Finalmente, constituindo uma categoria à parte, encontramos vários estados com baixa população, mas alta densidade maçónica: Andorra, Gibraltar, Luxemburgo, Malta e Mónaco. Estes números oficiais dão o número de contribuintes (sem que ninguém saiba se um maçom que contribui várias vezes é contada várias vezes), mas ignoram-se questões práticas como o grau de comprometimento, o tempo de filiação ou o volume financeiro das quitações.

Não há estudos exaustivos sobre a participação dos Maçons no trabalho das Lojas. No entanto, quase todas as investigações parciais e empíricas mostram que os obreiros regulares e contribuintes oscilam entre um quarto e metade dos efectivos globais, estas percentagens variam por país, por obediências e por Lojas.

Enfim, a influência da Maçonaria não é estritamente proporcional às suas quotas. Variam claramente com a maior ou menor integração de Maçons em redes sociais de vários tipos (economia, social, política, cultura, etc.). A Europa Maçónica é, portanto, muito heterogénea e com densidades muito variáveis. (Publicado em freemason.pt)

As mais altas densidades maçónicas encontram-se no berço histórico insular da Maçonaria: Inglaterra, Escócia e Irlanda e em vários Países pequenos: Andorra, Gibraltar e Mónaco e na periferia nórdica: Islândia.

Os Estados/Países pouco povoados como Andorra, Escócia, Irlanda, Gibraltar, Islândia e Mónaco têm 1 maçom para 80 a 150 habitantes (ou por 50 a 90 adultos). De notar que a Escócia tem uma densidade maçónica duas vezes maior que a Irlanda e três vezes maior que a Inglaterra (1 maçom por cada 250 habitantes), o que é mais próximo da Europa Ocidental.

As densidades elevadas encontram-se no espaço franco-belga (1 maçom para 360-440 habitantes) e na Escandinávia (1 maçom para 330-340 na Noruega, 550 a 560 para a Dinamarca, 600 para a Finlândia e 640-650 para a Suécia). Entre 1 maçom para 800 a 1.000 habitantes, existem três estados pouco povoados (400.000 a 800.000 habitantes), incluindo duas antigas colónias britânicas: Chipre, Luxemburgo e Malta.

Quatro estados do Sul da Europa (Portugal, Itália, Grécia e Bulgária) e a Suíça têm densidades bastante altas (1 maçom para 1.300 a 1.600 habitantes). As densidades médias elevadas (2.000 a 3.000) encontram-se na Europa central dos Balcãs (Áustria, Montenegro, Roménia e Sérvia), e na Holanda e na Estónia.

A Europa Maçónica de densidade média (de 4.300 a 5.100) é geograficamente heterogénea na Alemanha, na Letónia, na Eslovénia e na Turquia.

Uma situação idêntica verifica-se na Europa de densidade média maçónica fraca (9.900-11.800) agrupando as antigas ditaduras negras ou vermelhas (latomofóbicas ou maçofóbicas): Espanha, Hungria, Macedónia, Moldávia e da República Checa. Esta última, foi sucessivamente um protectorado do Reich nazista (1938-1945), e depois um estado comunista (1948-1991).

Baixas densidades (18.000 a 38.000) são as dos antigos países comunistas com uma baixa tradição maçónica: Albânia, Arménia, Bósnia-Herzegovina, Geórgia, Lituánia e Eslováquia.

Seguidamente as densidades maçónicas tornam-se muito baixas (60.000 a 95.000), especialmente no Azerbaijão e Rússia, e até mesmo insipientes (1 maçom para 220.000 a 450.000 habitantes), na Bielorrússia e na Ucrânia.

Não há, obviamente, nenhuma Loja no Vaticano.

A situação descrita resulta de movimentos históricos profundos e evoluções recentes. O mapa de densidade maçónica de hoje é, curiosamente, bastante semelhante ao do final do século XVIII, com uma excepção notável, a Alemanha, que curiosamente, era até 1933, a segunda maior potência maçónica da Europa.

Apesar de um declínio longo e lento, iniciado na década de 1960, mas agora mais ou menos estabilizado, permanecem níveis elevados nas Ilhas Britânicas, mais na Escócia do que na Inglaterra. Embora metade dos Maçons do mundo se encontre nos Estados Unidos, o triplo berço da chamada Maçonaria especulativa, a Inglaterra, a Escócia e a Irlanda, continuam sendo o primeiro bastião da Arte Real Europeia.

As outras densidades maçónicas muito altas encontram-se em microestados, das ilhas ou nos Estados da periferia. É possível supor que, dadas as suas especificidades, a Maçonaria tornou-se uma forma de sociabilidade competitiva, que combina as necessidades das comunidades locais e a preocupação com a integração no mundo.

Seguidamente, é possível encontrar dois espaços de forte densidade, a Escandinávia e o espaço francófono. O primeiro está, com excepção da Finlândia, em relativa estagnação, mas o segundo está em plena expansão. O primeiro é o domínio de uma Maçonaria tradicional bastante forte, o segundo é dominado pelas várias formas de liberalismo, feminismo e efervescência maçónica (contam-se uma a duas centenas de obediências na França).

A tradição maçónica escandinava é fundada e legitimada pelo valor do passado como tal, uma garantia, por assim dizer, de um futuro pela sua permanência, e o facto de que os valores tradicionais e nacionais, por um lado, e valores modernos e globais, por outro, podem coexistir frutiferamente em países de forte consenso social.

A Maçonaria escandinava faz parte de uma sociedade onde as instituições, incluindo as mais antigas, mantêm um papel e um peso significativos, ao mesmo tempo, que atendem a novas necessidades sociais.

Segundo a pesquisa de Grace Davie [1], pelo menos três quartos dos escandinavos declaram-se ateus, mas contribuem na mesma proporção para a Igreja Luterana Nacional, esta instituição continua a desempenhar um papel no ethos de cada país. Estamos, portanto, num ateísmo apático, não anticlerical dos países católico-latinos, situação que permite ao candidato à iniciação declarar-se “cristão” sem estado de consciência.

Na área francófona (ou franco-belga), a Maçonaria é um lugar atraente para a socialização. Vários factores explicam esse impulso iniciado na década de 70.

O compromisso maçónico aparece como um substituto para a adesão à prática religiosa, principalmente a católica, em declínio acentuado, e à filiação ou ao militantismo político, pouco sentido.

Uma vez libertado do campo de atracção centrípeta da Igreja de Roma e do Partido Comunista, duas instituições sociopolíticos estruturantes latomofóbicas, ainda hegemónica até os anos 1960, uma parte dos “candidatos” encontram uma resposta na Maçonaria, uma “estrutura” flexível e com uma ideologia suave e tolerante e que permite a todos construir seu próprio eu maçónico.

Adicionar ao apelo social do “small is beautiful”, a atracção para uma sociedade com tradição, velha – logo respeitável – de três séculos, ou ainda mais com o acessório lendário dos construtores de catedrais e até mesmo das pirâmides, um modo de estar e de estar no mundo e na sociedade, e o prazer da inclusão colectiva que permite, ao mesmo tempo, satisfazer as aspirações do individualismo e da individualização. (Publicado em freemason.pt)

No entanto, dois tipos de Maçonaria não devem ser sumariamente contrastados. De facto, enquanto no espaço escandinavo, o sistema sueco é hegemónico, no mundo francófono, todas as obediências (regulares, tradicionais ou liberais, masculinas, mistas ou femininas) passaram por um forte desenvolvimento durante as últimas quatro décadas.

O Rito Escocês duplicou o Rito Francês, nas suas várias versões, e outros Ritos conheceram um desenvolvimento claro como a Emulação, o Escocês Rectificado e o Memphis-Misraim.

Além da Europa Ocidental e do Noroeste, que é fortemente maçónica, as densidades maçónicas estão a deslocar-se do centro para a periferia, na Europa Central, do Leste e do Sul.

O peso de um passado marcado por uma “maçofobia” totalitária, castanha, preta ou vermelha permanece impregnada. O conluio com o nazismo, por um lado, e, concomitantemente, a violenta repressão antimaçónica e anti-semita liderada pelo III Reich tem consequências drásticas para a Alemanha – por muito tempo a segunda potencia maçónica europeia- que se encontra presentemente a um nível médio.

No entanto, o anti maçonismo católico não é necessariamente um obstáculo para o desenvolvimento da Maçonaria na França, na Itália e na Bélgica que são agora países com uma boa densidade maçónica. Além disso, na França do Antigo Regime, o catolicismo Galicano não era, de modo algum, um obstáculo ao desenvolvimento maçónico.

Mas esse anti maçonismo de origem cristã permanece operativo na Espanha e na Europa centro- Balcãs, onde, frequentemente, as Igrejas Ortodoxas são também prova de maçofobia afirmada. Vários países que experimentaram períodos de anti- Maçonaria, de ultradireita ou comunista, como a Bulgária e a Roménia, a Grécia e Portugal, encontraram uma vida maçónica activa.

Noutros lugares, a renovação é lenta, especialmente porque nem sempre foi feita em condições satisfatórias e a anti Maçonaria, agora mais conspirativa do que político-religiosa, continua ou até aumenta.

Mas, voltando ao tema da densidade maçónica, sempre diríamos que esta é um elemento social para relativizar. Nos países com uma forte tradição regular maçónica, a relação com a população masculina adulta é mais relevante. Assim, a densidade escocesa de 1/100 torna-se 1 maçom para 30 homens escoceses adultos. Se nos concentrarmos nas categorias sociais nas quais a Grande Loja da Escócia recruta, a proporção passa para 1 maçom para 15.

Podemos ver quão densa é a malha geo-social na Escócia. Da mesma forma, uma análise por sexo é igualmente significativa. Assim, na Islândia, uma islandesa adulta em 340 é maçon, enquanto um islandês em 45 é maçom.

Da mesma forma, a densidade maçónica está longe de ser homogénea dentro do mesmo país. Na maioria das vezes, cidades de grande e médio porte são significativamente mais “maçonizadas” do que áreas rurais ou periféricas. Em vários estados, existe uma oposição real entre a capital e o resto do país. A cidade de Viena abriga três quartos dos Maçons austríacos, uma densidade maçónica sete vezes maior que o restante da Áustria.

Na França, a região denominada “Mediterrâneo médio” é cinco a seis vezes mais “maçonizada” do que o Ocidente. Na Bélgica, a densidade maçónica em Bruxelas e na Valónia é muito mais alta do que na Flandres. Em 150 cidades russas com mais de 100.000 habitantes apenas 15 cidades possuem Lojas.

Enfim, se o papel social dos Maçons não é totalmente proporcional aos seus efectivos, a anti Maçonaria está totalmente desligada do número de Maçons num país. Ela pode até existir, como força, nos Estados onde a presença maçónica é insipiente.

Apesar das diferenças de diversa natureza, a Maçonaria europeia é relativamente homogénea a nível sociocultural. Ela é quase exclusivamente classe média, muitas vezes alta e classe média superior, quase sempre urbana, mais idosa, diplomada, dispondo de tempo livre, incluídos pelo menos numa rede de grupos sociais, adversa a extremos políticos, e largamente masculina (93 a 94 %). Na Europa Maçónica o espaço francófono é o mais feminizado do mundo.

Na Bélgica, contam-se 8.000 Irmãs para 18.000 Irmãos. Na França, as Irmãs representam 17 a 18% do total dos Maçons. No reino Unido, encontramos 10.000 Irmãs, repartidas por cinco obediências mistas ou femininas. Na Itália e na Islândia, as Irmãs representam 10 % dos Maçons, na Alemanha e na Holanda, representam 5 %.

Mais de nove em dez Maçons europeus trabalham “À Glória do GADU” (Grande Arquitecto do Universo), mas com significados, frequentemente, muito diferentes (Deus, Ser Supremo, Princípio Criador ou simples Símbolo).

É verdade que desde Anderson a Loja nunca foi o lugar da salvação. Assim se expressou o Vice- Grão-Mestre da Grande Loja Unida da Inglaterra John Spence, no seu discurso de 14 de Dezembro de 2011:

A Arte, como uma organização secular, permanece, hoje, tão preocupada para encorajar os seus ideais. Na linguagem de hoje, podemos articular os princípios fundamentais, subscritos pelos nossos membros como integridade, honestidade, justiça, bondade e tolerância. Estes são os princípios de que devemos ter muito orgulho e não devemos hesitar em articulá-los, quando oportunidades apropriadas se nos apresentarem, à nossa família, amigos e, de facto, à comunidade em que vivemos. Devemos também deixar muito claro que nos divertimos muito com o que fazemos. Não tenho dúvidas de que nossos princípios serão atraentes para aqueles que não são Maçons, se estiverem informados deles”.

No entanto, além das querelas de regularidade e reconhecimento que fazem o encanto das relações “inter-obediências”, podemos distinguir alguns subconjuntos “geo-ideológicos”, no seio do mapa Maçónico do velho continente: esotérico-cristão; germano-escandinavo e suíço; místico-oculto; anglo-saxão e tradicional-continental ou continental agnóstico, padronização que está muito longe de esgotar as “nuances” da paleta maçónica.

Mas apesar da rigidez do Regulamentos Gerais, das Declarações de princípios e das Constituições, só podemos constatar no terreno a grande capacidade de adaptação e a exuberância da interpenetração da Maçonaria, como um fato social e cultural. Deve-se notar que esta característica é, sem dúvida, uma das causas do desenvolvimento da Maçonaria durante três séculos.

A regularidade maçónica em Londres, Dublin, Edimburgo, Berlim, Estocolmo é baseada numa visão pluralista do corpo maçónico. A narrativa central é bíblica (judaico-cristã).

Ao recusar a escolher uma religião, uma espiritualidade, uma confissão, uma igreja, a Maçonaria não pretende se livrar de qualquer referência à religião. A regularidade maçónica, portanto, vem sob a religião civil (versão de Franklin, em vez de Rousseau), cuja referência ao Grande Arquitecto do Universo permite englobar todas as crenças e espiritualidades presentes na sociedade global. O pluralismo protestante entre várias confissões (ou dentro da mesma igreja protestante) permitiu que essa visão se expressasse em catolicidade.

A adaptabilidade e diversidade maçónica também são igualmente expressas na variedade de ritos usados ou, mais exactamente, no modo de trabalhar (working). Metade dos Maçons europeus praticam um rito anglo-saxão, particularmente o Rito Inglês do estilo de Emulação e o Rito Escocês.

Dominantes nas Ilhas Britânicas, os ritos anglo-saxónicos conheceram um certo desenvolvimento no continente, especialmente na França e na Europa central.

Um terço dos Irmãos europeus (e Irmãs) usam o Rito Escocês Antigo e Aceite, ainda que pouco usado na Europa do Norte e no Noroeste, ele é maioritário no continente, desde a década de 2000.

Na França, um em cada dez Maçons opta pelo Rito Moderno, numa das suas variantes, onde se chama Rito Francês, e um em cada vinte opta pelo Rito Sueco (Escandinava-Alemanha-Báltico), e um em cada cinquenta opta pelo Escocês Rectificado (Suíça) e pelo Rito Schroeder (Alemanha).

Conclusão

Na Europa, como no resto do mundo, obediências, Lojas e Maçons vivem e desenvolvem-se num contexto complexo e em plena mutação. Talvez mil obediências, 15 mil a 20 mil Lojas, 660 mil a 700 mil Maçons, efectivos de geometria variável, uma presença em todo o continente, mas com enormes disparidades a nível nacional, regional e local, sublinhando a permanência e importância da Maçonaria na Europa de hoje.

O futuro da Ordem está em perpétua evolução, mesmo se as constantes persistirem, ou mudarem, sendo as duas principais a natureza da instituição, por um lado, e as várias formas de confiança (psicológica, social, cultural e espiritual), por outro lado. No entanto, a Maçonaria, em três séculos de existência na Europa, foi e é, ao mesmo tempo, semelhante e, portanto, diferente.

Actualmente, a Maçonaria está em toda a parte na Europa, certamente com densidades muito diferentes, mas de acordo com um mapa que se sobrepõe muito bem ao do terceiro terço do século XVIII, com excepção para a Maçonaria Alemã, que pagou o peso terrível da sua história. O Reino Unido ainda abriga quase metade dos Maçons da Europa

Mas uma coisa podemos hoje afirmar: A Maçonaria e a Anti-Maçonaria fazem hoje parte do ethos europeu.

Armindo Azevedo
Grão-Mestre da Grande Loja Legal de Portugal / Grande Loja Regular de Portugal

Brasília, 6 de Julho de 2019

Notas

[1] Grace Davie é professora emérita de Sociologia na Universidade de Exeter e autora do livro Religião na Inglaterra desde 1945: Acreditar sem pertencer. Os interesses de pesquisa de Davie na sociologia da religião. Em seu livro Religião na Grã-Bretanha desde 1945, ela cunhou a frase “acreditar sem pertencer” às descobertas na Grã-Bretanha e à secularização em Inglaterra. Este é o argumento que, embora a frequência à igreja tenha diminuído, as pessoas ainda podem pensar em si mesmas como um nível individual.

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Um Comentário em “A Maçonaria na Europa – Comunicação do Grão-Mestre da GLLP/GLRP à 48ª Assembleia da Confederação da Maçonaria Simbólica Brasileira

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    Fiquei surpreso que o Reino Unido…tem 50% dos Maçons na Europa.

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