Aleijadinho e a Maçonaria: Relatos de um historiador

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Igreja de São Francisco de Assis, em São João del-Rei, no Estado de Minas Gerais, Brasil, aleijadinho
Igreja de São Francisco de Assis, em São João del-Rei, no Estado de Minas Gerais, Brasil

A Maçonaria é um sistema de moralidade, velado por alegorias e ilustrado por símbolos. Esta máxima tornou-se intrínseca na minha mente quando estudei a Igreja de São Francisco de Assis, em São João del-Rei, no Estado de Minas Gerais, Brasil.

Construída entre 1774 e 1809, a igreja foi projectada e decorada por Antônio Francisco Lisboa, mais conhecido como Mestre Aleijadinho, e erguida sob a supervisão de Francisco de Lima Cerqueira e Francisco de Lima e Silva.

Ao longo da história, muito se debateu sobre se Aleijadinho teria sido ou não iniciado na Maçonaria. Não existem registros históricos, actas ou qualquer menção que comprove esse facto, já que oficialmente a Maçonaria começou a se organizar no Brasil em 1822, com a fundação do Grande Oriente Brasileiro, mais tarde conhecido e unificado como Grande Oriente do Brasil (GOB). No entanto, é evidente que o ideal maçónico já reverberava no Brasil e circulava entre os iluministas. Prova disso são os relatos da existência da primeira loja maçónica no país, registrada em 1797 no Estado da Bahia, mas, possivelmente, até antes disso, no contexto da Inconfidência Mineira. Contudo, essa é uma discussão que não cabe aprofundar neste artigo.

A Maçonaria sempre causou temor entre os fanáticos religiosos, pois defende a liberdade de pensamento e expressão, permitindo ao homem ser senhor das suas próprias escolhas. E foi exactamente isso que mais me surpreendeu ao adentrar a Igreja de São Francisco de Assis. Aleijadinho, o Mestre, parece evidenciar uma familiaridade com os rituais maçónicos conhecidos actualmente, desafiando o clero da época (Venerável Ordem Terceira da Penitência de São Francisco de Assis), pela precisão na simbologia das suas obras e pela escolha dos locais onde as fixou nessa esplendorosa igreja. Todo Maçom regularmente iniciado e estudioso consegue identificar os símbolos ali presentes e compreender as razões de estarem dispostos nessas coordenadas específicas.

Fui agraciado com a oportunidade de visitar essa igreja ao amanhecer do dia do solstício de Inverno de 2024, e o que presenciei foi surpreendente. No sólio de dois altares laterais, nas exactas posições geográficas de um templo do Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA), encontram-se cuidadosamente esculpidos o Sol e a Lua, paralelamente dos quais há impressionantes vitrais. Naquele momento, o Sol, ao nascer, atravessou um dos vitrais e fez uma conexão visual com a ritualística maçónica: “Assim como o Sol nasce no Oriente para fazer a sua carreira e iniciar o dia…”. Todos os iniciados que já ouviram essas expressões nas sessões do REAA e tiverem a oportunidade de viver esse momento nessa igreja, encontrarão ali uma evidência simbólica de que Aleijadinho compartilha da nossa fraternidade. O brilho do sol matinal, as obras ali precisamente dispostas e a energia espiritual que se forma criam uma atmosfera mágica, onde se respira o espírito maçónico. Como se ainda fosse necessário, Aleijadinho esculpiu, em meio a toda essa sinfonia visual, a imagem de São João Baptista, que aponta para o alto, quase conclamando: “Meus irmãos, olhai atentamente!”

Do lado de fora, as torres do campanário com os seus pináculos, os lados das ombreiras da porta principal e as colunas do portão que protege a igreja se assemelham, em grande medida, às colunas de um templo maçónico. E, quanto à cruz central, no topo, trata-se de uma Cruz de Lorena, forte símbolo das Cruzadas e dos Cavaleiros Templários, um tema que merece uma análise futura. Do outro lado da rua, a poucos metros, ainda funciona a Associação de Artesãos de São João del-Rei; seria essa uma antiga loja da cidade? Uma guilda de maçons operativos? Teria o Mestre Aleijadinho participado de sessões ali? É bastante provável!

Conclamo a todos os maçons brasileiros e porque não os estrangeiros, a visitar a cidade de São João del-Rei e a sua valiosa Igreja de São Francisco de Assis, uma obra de arte que serve de Fé, Esperança e Caridade, na pura linguagem maçónica. Há muitos outros mistérios que desvelei nesta igreja, os quais não compartilharei para que meus irmãos possam também ter a grata satisfação de o fazer, quando a visitarem.

Restam confirmações documentais quanto à iniciação de Aleijadinho, mas as evidências circunstanciais são contundentes. Para um historiador da Maçonaria, esses argumentos podem não ser suficientes, mas, para um Maçom historiador, eles têm um peso especial. Posso, sem medo de errar, afirmar: Aleijadinho, este irmão te reconhece!

Renan Williams Soglia Moore

M ∴ M ∴ da ARLS Fronteira Paulista n.º 448 (Bragança Paulista – SP), sob os auspícios da Grande Loja Maçónica do Estado de São Paulo – GLESP.  Maçom do Santo Arco Real do Capítulo Visconde de Mauá nº 9 (São Paulo – SP) do Grande Oriente do Brasil. Licenciado em História e Especialista em História da Arte e Museologia.

Referências

  • Arquivo Noronha Santos – Livro das Belas Artes. Igreja de São Francisco de Assis (São João Del Rei, MG). IPHAN.
  • MARTINS, Judite. “Apontamentos para a bibliografia referente a Antônio Francisco Lisboa”. In Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Rio de Janeiro: IPHAN, 1939
  • Joaquim Silva; J. B. Damasco Penna (1967). História do Brasil. [S.l.]: Cia. Editora Nacional, São Paulo.
  • GUIMARÃES, Geraldo. São João del-Rei – Século XVIII – História sumária. 1996
  • Ordem Franciscana Secular do Brasil

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1 thought on “Aleijadinho e a Maçonaria: Relatos de um historiador”

  1. Gosto muito de ler sobre a Maçonaria.
    Sou mulher, lutei sozinha para alcançar o pouco, mas suficiente para a minha sobrevivência com dignidade. Cuidei dos filhos que o Eterno me permitiu ter e acredito na ordem, justiça e a decência, para um aprimoramento moral e espiritual, como pilares que levam o indivíduo a colaborar positivamente ,na sociedade.

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