Arte urbana ou compulsão afetiva? Notas acerca da era digital

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grafitti, arte urbana

A transgressão: enquadramento da questão

Na sociedade pós-moderna, a inscrição de notas nos muros assume contornos muito específicos. As primeiras leituras denotam a insistência gráfica de uma arte urbana, de novas comunidades, o insurgir contra uma cultura instalada e por fim a proposta de uma nova identidade, vivência e sociedade (CAMPOS, 2019).

As leituras mais aturadas promovem reflexões em torno dos binómios identidade e espaço, identidade e tempo e identidade e conflito; mas o fôlego não é sinal de uma navegação segura. Qualquer um dos pressupostos desta metafísica é postiço (Han,). Não existe densidade comunicacional. Não existe um pressuposto simbólico, muito menos uma comunidade ou tribo urbana.

Será preciso respirar o “ar” da era digital para verificar as bases desta estrutura de conexão, não comunicacional, que segue o imperativo do reforço positivo. Teremos de aguardar as consequências de um certo messianismo tecnológico para perceber a ritualização do corpo a partir de uma estética, que impele a uma resposta para que o homem seja homem (FERRARIS, 2018).

Nem retribalização pós-moderna, nem transgressão de modelos culturais instalados (MAFFESOLI,2020). O grafismo mural é uma metafísica movediça, que precisa de constantes atestados de identidade. Trata-se de uma compulsão, porque a metafísica e a ritualidade se perderam (HAN, 2013, p.20) [3]. Se quisermos ainda, trata-se de uma salvação de si, a partir de um imperativo atmosférico.

Interconexão e messianismo. A aposta de M. Ferraris

É inegável que vivemos uma “era” despojada de grandes narrativas. Ao confiado e aturado ato de entrega sucedeu a efémera construção de si por meio de respostas: sou na medida em que um tu atesta aquilo que sou (FERRARIS, 2018).

Desta metafísica, brotou a virtualidade de um utensílio que promove esta conexão (Han, 2016). Sem resistências, com um propósito de conexão e utilitarista, todos os objetos digitais são meios de ligação. Ativados pelo imperativo de que todos somos na presença e pelo reconhecimento das outras pessoas, estes aparelhos servem uma finalidade específica: a manutenção da identidade. E com esta estrutura criou-se um Pentecostes tecnológico, como Ferraris.

Estando ligado aos demais Seres Humanos, quando sou interpelado por uma mensagem, tenho de lhe responder. É a sua identidade digital que está em causa. Da mesma forma, quando lhe respondo, sinto que a conexão metafísica se ativa e posso integrar a minha identidade na sua plenitude máxima.

Não existe qualquer outra possibilidade de ser no mundo, em sentido forte. Presença, posição e conexão são notas de um resultado. Se quisermos são elementos de uma confissão tecnológica, que só atesta, mas não edifica ou sustenta.

A este propósito, Byung-Chul Han, o filósofo do Desaparecimento dos Rituais, junta-se a Ferraris. Não existe conexão ou possibilidade alguma de construção de identidade (HAN, 2016). Existem manifestações, atividades performativas e conexões, mas não existe ritualidade alguma. Insisto, não existe possibilidade alguma de comunicação, porque não existe ponto algum em comum. Toda a salvação, própria de um Pentecostes, resume-se a um atestado, a uma notificação de que sou e de que tenho de ser, para que os demais possam ser.

Com efeito, não existe simbólica porque não existe uma verdadeira comunicação. Não existe uma comunicação, porque tudo são notificações de um sistema de imperativos, e a identidade está pendurada pelos constantes e efémeros “contactos” digitais que vai recebendo.

Na medida e na intensidade que a resposta acontecer, assim, será mantida a identidade, a conexão, a comunidade. Ora, não haverá na compulsão de escrever sobre os muros notas que nos podem ligar à “metafísica digital” de que nos fala M. Ferraris?

Acerca do “imperativo atmosférico”

A meditação exige o cuidado de que o médico se deve orgulhar: reconhecer bem os sintomas. Portanto, o paralelo do imperativo categórico com o imperativo atmosférico tem de ser evidente.

De forma descritiva, os graffitis são feitos no seio de uma era digital. Seguem um objetivo específico: conexão com outras pessoas, a propósito de crenças e mundividências. São feitos em comum e sobre um suporte comum, os muros. E do ponto de vista “ritual”, são feitos com uma matriz efémera, de forma compulsiva e em resposta à sociedade sou a outros graffitis (MAFFESOLI, 2000, p.18).

Se atendermos aos últimos sintomas, que compõem o diagnóstico, temos a transição feita. Existe um suporte comum, que permite a ligação da metafísica digital. Posteriormente, transitando para a compulsividade de quem “escreve” nos muros, é possível um espelho: o graffein mural é a forma soteriológica de o homem existir como homem, sempre a precisar do “atestado” externo de que sou uma Pessoa com densidade e que habita a sociedade.

Surge, assim, um interessante paralelo com a proposta de metafísica elaborada por Ferraris, com o título de “Mobilização Total”; sobretudo, categorias como a de efémero e de transgressão começam a emergir como autênticos elementos de uma determinação da identidade, própria da era digital.

O suporte

Por definição, os graffitis são feitos nos espaços públicos. Fachadas de escolas, de igrejas, prédios e até de edifícios públicos são pontos de eleição nesta nova geografia identitária. Aqui o caráter público da ação e do espaço gravado não é matéria para reflexões acerca da liberdade e dos direitos de autor, trazendo à colação as famigeradas máximas. A dimensão pública mimetiza um outro processo, que foi contado acima.

Unidos pelo pressuposto metafísico de uma identidade contada por outros, o meio de expressão agora é o muro. Como é uma realidade de todos, construída por todos, no momento em que nele escrevo, estou a tocar uma realidade que é de todos e que a todos enforma (FERRARIS, 2018).

Se no paradigma meramente digital temos os aparelhos informatizados como elementos que fazem a ponte entre os sujeitos, agora, numa cultura mais atmosférica, temos o uso do muro para os mesmos efeitos.

Nada se altera, naquele que era o esquema anterior. Ao remeter para os graffitis falamos de um aparato que traduz um modelo metafísico, mas a necessidade de concretizar o conceito de identidade, de responder aos demais sujeitos, e o caráter compulsivo e efémero destes atestados são parte integrante.

Acerca da compulsão afetiva

A metafísica de uma identidade dita, a reação do conjunto dos Seres humanos que compõem o círculo de conexões, são pontos importante para explicar o carácter compulsivo, que se vive no imperativo atmosférico da sociedade urbana.

Olhando para a base e para os modelos de sustentação do princípio de identidade da era digital, vemos que não existe comunicação. Existe, conexão sem comunicação. Se quisermos, comunidade sem comunicação, o que significa que não existe terreno comum. Ao pressuposto assumido, segue-se uma determinação possível pelos aparelhos digitais, mas não existe condensação simbólica de um conjunto de crenças e depois o plasmar das mesmas numa ritualidade, que já dispensa o constante exercício de determinação fundamental do Eu. Com efeito, o corolário é uma compulsão para ser (HAN, 2013, p. 46).

Desaparecida a ritualidade, a simbólica e a comunicação, fica a conexão, que nada é de coisa comum. Vive de postulados, mas não estabelece pontos de determinação ontológica, que são coisas radicalmente diferente. Nesta medida, tem de figurar o modelo do “reforço de identidade”, que é próprio de uma sociedade que dispensa a atenção responsável ao outro.

Ao ver uma determinada imagem gravada num muro, tal como acontece com uma mensagem recebida, fico ligado a uma rede de identidades e à necessidade de afirmar a minha própria identidade. Pela estética, sou levado a uma ética, compulsiva, que é mais afeto do que transgressão.

Transgressão, etimologicamente, remete para um além. Estabelece terrenos, que têm de encontrar outros limites. Ora, numa resposta, de tipo compulsivo, não existem quaisquer terrenos demarcados. Ao contrário, é preciso que se fale de uma metafísica muitíssimo opressiva, que só deixa viver quem jogar o jogo da resposta.

Nem transgressão, nem culturas tribais à margem; na resposta ao graffiti é preciso ver o cumprimento de uma exigência: dar a si e aos outros identidade e vida pública. É preciso ver um imperativo categórico, que é motivado pelo atmosférico. Vejo e sou impelido a agir. Outra coisa diferente será os resultados da inscrição num ponto, que se revela público.

Até aqui ficou demonstrada a proximidade com modelos cibernético. A transposição do veio digital para o muro e o caráter compulsivo da resposta ao graffiti, que podemos ver em determinado momento na cidade. Da força, dos efeitos daquilo que é visto, nada dissemos. É preciso entrar na questão da simbólica.

O imperativo categórico como suporte do simbólico

As figuras de uma metafísica volátil podem fazer antecipar uma resposta, que não é certa. Se a comunicação não está garantida, se não é possível postular uma herança, não existe uma leitura que consiga aproveitar a força, da ação e da dimensão erótica, portanto, não existe a possibilidade de falar numa simbólica. O enquadramento, nesta questão é outro.

Apesar de os dados estarem lançados com a perda dos ritos e com o fim de uma comunicação verdadeira, se olharmos para a sintomatologia da resposta compulsiva, existem pontos de análise interessantes. Agora, a força, a ação e a erótica, própria do simbólico, não ficam do lado do sentido. O arrebatamento emocional é do âmbito de uma ontologia imposta, portanto, apesar das desconexões, das propostas estrangeiras umas a outras, existe uma dimensão que lembra o imperativo categórico: sou, na media em que estou conectado com outros.

O terreno da simbólica aqui é amplo e permeável a todo o grafismo que se queira apontar. O que importa é o “estremecimento” interior que o vislumbre de um graffiti provoca. O elemento que ativa o transporte e a necessidade de ação é a metafísica digital, que obriga a que todos respondam, continuadamente, de forma efémera e pela necessidade de ver a cada instante a sua identidade reconhecida.

A este respeito, é a noção de força que emerge com mais densidade. Existe uma interpelação estética a ser, com o outro, criando no cruzamento desta conexões os lugares, como dizia Augé (Augé, 1992). Agora com uma noção de ritualidade, que é inovadora.

Daniel Mineiro [1] e Paulo Mendes Pinto [2]

Fonte

  • Revista Relicário [revista do Museu de Arte da Diocese de Uberlândia]

Notas

[1] Doutor em Filosofia pela Universidade de Évora/Universidade de Valencia. Professor e coordenador de projetos da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias. Atua nas areas: Filosofia da Religião, mística cristã, ecologia, espiritualidade, religiões orientais.

[2] Doutor em Estudos Culturais. Diretor Geral Acadêmico do Grupo Lusófona/Brasil. Coordenador da área Ciência das Religiões da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, Lisboa/Portugal. Áreas de atuação: esoterismo, judaísmo, maçonaria, espiritualidades.

[3] “ A indignação digital não pode cantar-se. Não é capaz nem de ação nem de narração. É, antes, um estado afetivo que não desenvolve qualquer força potente de ação”. Byung-Chul Han, No Enxame, Lisboa, Relógio d’Água, 2013, p.20.

Referências

  • CAMPOS, Ricardo. Arte Urbana. Edições Húmus, 2019.
  • HAN, Byung-Chul. No Lisboa: Relógio d’Água, 2013.
  • HAN, Byung-Chul. A Salvação do Belo. Lisboa: Ed. 70, 2016.
  • HAN, Byung-Chul. Do desaparecimento dos rituais. Lisboa: Relógio d’Água, 2020.
  • FERRARIS, M. A Mobilização Total. Lisboa: Ed.70, 2018.
  • MAFFESOLI, M. El tiempo de las Tribus. México, 2000, p.28.
  • AUGÉ, Marc. Los no lugares. Espacios del anonimato. Una antropología de la sobremodernidad. Capellades: Gedisa, 1992.

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