As Bíblias em Pedra

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Introdução

A partir do século VIII, os muçulmanos dominam todo o Mediterrâneo. Em 846, sitiam o castelo Santo Ângelo, em Roma, e em 985, arrasam Barcelona. O Mare Nos­trum agora é sarraceno, estando os navios europeus impedidos de ali navegar e comer­cializar.

Está terminando a civilização greco-romana e começando o feudalismo. A vida urbana torna-se quase impossível.

A Europa Ocidental é obrigada a refugiar-se no campo, a ruralizar-se e criar uma nova civilização a partir destas premissas. O rei está longe. O poder agora é detido pelos senhores feudais.

Cada castelo ou mosteiro é obrigado a gerar o próprio sustento e a própria eco­nomia. Dentro dos feudos são produzidos os insumos básicos, movelaria, tecidos e rou­pas, são criados os animais e é desenvolvida a agricultura.

Aperfeiçoam-se o moinho d’água, o arado pesado, o arreio e a ferradura. Os bois são substituídos pelos cavalos como tracção animal. Os camponeses, que vivem em média de trinta a trinta e cinco anos dividem o seu trabalho em duas metades. A primei­ra para o seu sustento e a segunda para o sustento da nobreza. Da sua metade têm ainda que pagar o dízimo para a Igreja. O contacto do feudo com o mundo externo restringe-se basicamente aos mercadores, na sua maioria judeus, que comercializam especiarias, sal e tecidos raros. A única instituição que persiste desde a Velha Roma e está presente em toda a Europa, perfeitamente estabelecida e actuante, tendo autonomia financeira, hierarquia, língua e direito próprios, é a Igreja Católica. E dela o monopólio cultural. A sua enorme influência permite-lhe servir como sustentação do tecido social, já que, poli­ticamente, a Europa está fragmentada. Institui o cristianismo até mesmo entre os povos bárbaros invasores. Além do imenso poder espiritual, o Papa conta ainda com o poder temporal da Igreja.

Este é oriundo da imensa riqueza advinda das doações de terras feitas pelos fiéis, em troca de um lugar no paraíso. Calcula-se que um terço de todas as terras cultiváveis da Europa pertença à Igreja. Ela sabe que só pode manter esta total influência exercendo o domínio dos seus fiéis e, para tanto, incute-lhes a fé cristã e o medo. E investe pesa­damente nesse conceito. A Inquisição, iniciada em 1231, será a sua mais inequívoca evidência e decorrência.

Como não foram ainda inventados os modernos meios de comunicação de que hoje dispomos, pois nem mesmo a imprensa ainda existe, o único meio eficaz de coop­tar a imensa população analfabeta para a fé cristã é através da catequese e do ensino visual e subliminar propiciado pelas capelas, igrejas e catedrais. Nos seus interiores, as paredes, colunas, naves, átrios, esculturas e pinturas contam a história das Sagradas Escrituras filtradas pelo catolicismo.

Abrem-se assim, à imensa leva de analfabetos, as portas do Paraíso. E por esta razão que as catedrais são chamadas “Bíblias em Pedra”.

E esta Igreja que propicia a produção e o consumo da arte e incentiva uma cultu­ra popular baseada na religião.

Numa época de total decadência económica é a única instituição que tem as con­dições de construir regularmente os templos e os mosteiros, usando a Arte como peda­gogia para a fé.

Os princípios herdados da Antiguidade, pelos quais podem investigar-se até à exaustão qualquer assunto e pelos quais o Universo deve ser questionado até à menor partícula, são substituídos pelas verdades reveladas.

Os princípios católicos, oriundos dos teólogos medievais, propõem agora a sub­missão e o acatamento, não permitindo discutir-se a nova fé. Aceita-se ou… aceita-se. A verdade agora é a verdade da Igreja.

Os padres formam a única camada social realmente instruída. Assessoram a nobreza, servindo-a como secretários, conselheiros, escribas e contadores. São enge­nheiros, médicos, notários, diplomatas, juristas e arquitectos.

Os monges são os únicos que têm acesso à literatura clássica. Dentro das grossas paredes dos mosteiros podem conhecer e reflectir sobre os antigos mestres. No livro e o filme O Nome da Rosa o tema é tratado com toda a propriedade. Assim, ficam aque­les monges conhecendo os segredos das antigas construções, as suas plantas e projectos.

Traçam a partir deles as suas próprias plantas e contam para a construção com o trabalho da “corveia”, ou seja, a população que é obrigada a trabalhar de graça em troca de benfeitorias espirituais e protecção armada. Para tal obra não se gasta muito tempo nem se necessita de muito dinheiro.

Os monges aprendem como cortar e trabalhar a pedra, erigir colunas e sustentar abóbadas. Assimilam o antigo esoterismo e esotericamente o aplicam no didactismo religioso católico.

Cada objecto, imagem ou ritual é exaustivamente pensado para que simbolize a união do homem com Deus. O que importa agora é o caminho que levará esse homem aos céus, ou seja, a sua transcendência. A exemplo do homem que foi criado à imagem e semelhança de Deus, Cristo também se fez humano. O corpo, que na Arte grega valia por si, pela beleza da sua forma, agora oculto sob vestes deixa de ser realista e quase inexiste.

As suas únicas partes valorizadas são o rosto e as mãos. É só através deles que se determina o sexo. O que interessa é elevar espiritualmente o ser humano. O que não atinge este ideal é simplesmente descartado ou desprezado.

Assim é pensada e desenvolvida a Arte na Idade Média. Com a mesma abstracção e o mesmo intuito desenvolve-se a Arquitectura. Em 926, dá-se a “Convenção de York”, que vem a ser a primeira reunião organizada de pedreiros na História, da qual resulta um estatuto chamado “Carta de York’.

Estamos no ano 1000. A Europa é tomada pelos Vândalos e Godos. Os Norman­dos fixaram-se no norte da França e os Eslavos (magiares) na actual Hungria. Os cons­trutores remanescentes dos “Collegia Fabrorum” desenvolvem o estilo Românico, o qual será apoiado e difundido pela Igreja.

O número de fiéis aumenta consideravelmente. Os templos devem comportar esse aumento. As três maiores inovações propostas pela arquitectura religiosa românica são para resolver este problema. A planta radial, a qual permite que várias absides menores desemboquem num deambulatório, possibilitando que um número maior de fiéis circule pelo templo. A segunda inovação é a planta degradante, que subdivide o espaço total da igreja em três sectores perfeitamente distintos. A terceira é a planta com duplo transepto, um deles localizado no ocidente e outro no oriente. Porém, a inovação mais importante é a divisão da aresta do arco da abóbada em duas, permitindo a coloca­ção de janelas próximas ao tecto, trazendo aos templos fachos de luz vindos do alto, prenunciando o gótico.

O românico representa este mundo cristão que vive com Deus, mas intui que o Demónio está solto. A iminência do inferno é ameaçadora. A Igreja católica usa o medo para dominar. Incute no imaginário dos fiéis ignorantes, que ainda misturam a sua reli­gião com crenças pagãs, toda uma hierarquia de seres malignos. Hordas de demónios habitam as mentes e as almas.

O mal está à espreita para atacar a qualquer momento. A igreja românica é o local onde se dá a catarse deste homem medieval, profundamente ferido no seu interior pelos efeitos desta guerra do bem contra o mal. É dentro dela que encontra protecção e alívio. Nas suas paredes e colunas, pintadas ou esculpidas em pedra, as cenas didácticas do Paraíso prometido aos bons e do Inferno, com seus suplícios e demónios, aguardando os maus.

No lugar do vão único das primeiras igrejas encontra agora vários espaços pelos quais deverá seguir, como numa via-sacra, a peregrinação da matéria até o espírito.

Falando-se em via-sacra, nota-se que pela representação dos seus quadros em sequência, ela é a precursora das histórias em quadrinhos e, portanto, didacticamente, muito eficiente.

Para se entender a gradual passagem do estilo românico para o gótico, é preciso entender-se também as transformações socioeconómicas da Idade Média. O facto determinante são as Cruzadas, as quais serão directamente responsáveis pelo futuro apa­recimento da Maçonaria Operativa.

Em 1054, acontece o “Cisma do Oriente” e a Igreja Católica subdivide-se, apa­rentemente por disputas hierárquicas e administrativas, na Romana e na Ortodoxa, ou seja, na Igreja de São Pedro e na de São João.

Na realidade, os motivos desta subdivisão são as divergências políticas e as dife­renças quanto à língua litúrgica.

Dentro daquele contexto cristão, no qual a Igreja é a única guardiã da cultura e da moral, nasce a instituição militar chamada de Cavalaria. Esta instituição impregna-se da fé transmitida pela cultura religiosa. Porém, fé e militarismo são antagónicos, o que provoca durante toda a Idade Média atritos entre o clero e a cavalaria. Esta cristianiza-se, moldando a fé católica aos seus próprios ideais. O “Deus dos Exércitos”, epíteto bíblico pelo qual Iahweh era chamado, é agora o Deus desses cavaleiros e qualquer ini­migo da religião católica é também seu inimigo, devendo como tal ser combatido.

A cavalaria primordialmente não foi concebida como instituição cristã. Ela nasce da premissa de se organizar guerreiros feudais numa fraternidade.

O cavaleiro recém-aceite passa por uma iniciação mística, herdada das tradições célticas e germânicas. Um cavaleiro mais antigo “reveste” ou “arma” o postulante e lhe confere virtudes, as quais ele próprio possui no mais íntimo de seu Ser. Os anos deste aprendizado equivalem a um longo período iniciático, no qual adquire a sua dignidade e firmeza de carácter.

Somente no século XI essa sociedade passa a aceitar a fé católica e a ela se sub­mete. A Igreja abençoa as sagrações em troca do respeito aos seus bens e de se comba­ter seus inimigos.

As obrigações do cavaleiro são inúmeras e complexas; os seus códigos moral e profissional são rigorosíssimos. Além de combater, deve conhecer a estratégia, saber construir máquinas, ter noções de engenharia, arquitectura, medicina, veterinária e contabilidade. Deve fidelidade ao suserano (senhor feudal) e protecção aos seus comandados.

A fome grassa, pondo em risco o sistema feudal. A agricultura que ainda não conhece os adubos produz a metade do que actualmente. A população cresce mais do que o alimento. A solução é motivar toda a leva de deserdados e famintos para se juntar numa empreitada desumana e assassina que devolverá a autonomia ao Ocidente, porém, a um custo altíssimo para a civilização muçulmana. Com a desculpa de libertar a região da Palestina dos muçulmanos, considerada santa por ser cenário da vida e morte de Jesus Cristo, proteger física e moralmente o seu túmulo dos insultos dos infiéis, de se vingar os peregrinos maltratados durante as suas viagens pela Terra Santa e de se reunir as duas Igrejas, é convocada em 1095 a primeira Cruzada pelo Papa Urbano II. Porém, enormes interesses políticos e económicos estão por trás da empreitada, entre eles a abertura de rotas comerciais terrestres para o Oriente, a expansão dos territórios, a for­mação de alianças para eliminar as concorrências feudais e o aumento da influência do papa no Oriente.

A sanha assassina dos europeus, potencializada pela fome e pela ignorância, leva o terror e a morte ao Oriente. Em 1099, Jerusalém é conquistada e cruelmente massa­crada sua população. Por dois dias seguidos, os soldados de Cristo matam aleatoriamen­te, não só soldados, mas também homens, mulheres, velhos e crianças. Atulham a sina­goga de judeus e a incendeiam. As ruas ficam literalmente banhadas de sangue.

Alguns historiadores calculam em 40 mil o número de pessoas mortas, a maioria civis indefesos. Com certeza este é um dos maiores crimes cometidos na história da humanidade.

As Cruzadas fundam pequenos reinos como o Reino de Jerusalém e o estado latino de Antioquia. Ordens religiosas são fundadas para a protecção desses reinos e dos peregrinos. Quem as administra são os próprios monges soldados.

A nobreza feudal é militar na sua essência, vocacional e profissionalmente é educada para a guerra e esse direccionamento acaba sendo o seu objectivo de vida. Forma-se assim uma sociedade militar francamente agressiva.

É evidente que no inconsciente colectivo desta sociedade, moldada pela cruz e pela espada, brote a mística da guerra e a cavalaria será seu braço armado. E toda guerra será uma “guerra santa’”. Poderosos e ricos Cavaleiros da Ordem de São João de Jerusa­lém (hoje conhecida como Ordem dos Cavaleiros de Malta) e dos Cavaleiros Templá­rios ou do Templo, fundada por Hugo de Payens em 1118. Só para que fique registado: a quinta Cruzada, em 1213, ficou conhecida como a “Cruzada das Crianças”. Justifi­cando as derrotas anteriores e aproveitando-se de uma histeria colectiva, criada a partir das visões de um pequeno pastor pelas quais somente crianças, pela sua pureza, pode­riam libertar o Santo Sepulcro, são requisitadas 20 mil crianças alemãs e 30 mil france­sas, as quais marcham para Jerusalém, sendo algumas aprisionadas, outras massacradas e até mesmo vendidas como escravas no Oriente. Se há uma política de eliminação de bocas famintas na Europa, o objectivo é plenamente conseguido. As Cruzadas fortale­cem o catolicismo e o poder do Papa. O Mediterrâneo é reaberto para o comércio euro­peu e as cidades sofrem um processo de ampliação e dinamismo comercial, possibilita­dos pelo comércio do sal, tecidos e especiarias.

Os exemplos mais visíveis são Génova, Veneza e Hamburgo. As Cruzadas tam­bém são responsáveis por importantes avanços arquitectónicos, principalmente no que se refere às fortificações. As ordens cavaleirescas sustentam várias equipes de trabalha- dores de pedra e alguns historiadores afirmam que os Cavaleiros introduzem nestas equipas o mesmo conceito que utilizam nas suas próprias organizações.

Mesmo depois de extinta a Ordem dos Cavaleiros Templários, os Hospitalários, seus continuadores, continuam a proteger os maçons.

Estariam aí as bases operacional e filosófica da Maçonaria. Prova disso seriam certos ritos e tradições mantidos até hoje. Em 1291, os europeus são definitivamente expulsos do Oriente, mas levam consigo o esoterismo e a técnica de construção, assimi­lados dos orientais e espalham-nos por todo o continente europeu. As Cruzadas resultam no elemento catalisador da civilização ocidental, da qual somos herdeiros.

Os senhores feudais vivem com muita simplicidade, pois todo o seu capital é dirigido para a actividade bélica, ou seja, para a compra de equipamento militar, armas, cavalos e a construção de fortificações. É interessante notar-se que neste século XXI persiste ainda a mesma concepção belicista. O Professor William Nordhaus, da Univer­sidade de Yale, contabiliza em dólares (corrigidos em valores actuais): Guerra Civil Americana – 3,2 biliões; Guerra do Vietname – 494 biliões; Guerra do Golfo – 80 biliões; actual Guerra do Iraque – custo estimado em 99 biliões e já se fazem prognósti­cos que alcançará 200 biliões.

O Ocidente descobre então a rica fantasia árabe e o refinamento dos sírios, arménios e persas.

Sem os conceitos da Geometria, assimilados da cultura muçulmana, nunca pode­riam ser erguidas em solo europeu as maravilhas arquitectónicas que são as catedrais. Evoluem a geografia, a matemática, as letras e as artes.

Evolui também a medicina pela acção dos Cavaleiros Hospitalários. São intro­duzidos na Europa o algodão, as especiarias, o álcool, os algarismos arábicos, a álgebra e o moinho de vento. Quando se ouve dizer que a Idade Média é a “Idade das Trevas”. há que se reflectir que apesar de ser o povo realmente inculto, há uma classe de traba­lhadores intelectual e espiritualmente elevadíssima, cujo trabalho resulta nas maravilhas que são as catedrais, nos conceitos arquitectónicos que durarão séculos e nas premissas que possibilitarão a Renascença. Há que se lembrar ainda de Santo Agostinho (354 – 430), São Bernardo (1090 – 1153), São Tomás de Aquino (1225 – 1274) e da Escola da Catedral de Chartres. Também há que se lembrar que na Idade Média são fundadas as universidades de Paris, Colónia, Oxford, Bolonha e a Sorbonne.

Erroneamente cita-se a Inquisição como uma instituição medieval, porém ela pertence à Idade Moderna. Esta se inicia em 1453 e até então somente a França a tinha instituído (1231). A Inquisição espanhola é instituída em 1478, a portuguesa em 1536 e a romana em 1542.

O arcebispo contrata aqueles servos, saídos dos feudos, sob as ordens de um Mestre, para os serviços de construção em troca de salário, sendo, portanto, os pedreiros a primeira classe trabalhadora na História a ter salário fixo. Esse Mestre geralmente detém os saberes técnico e esotérico, adquiridos no convívio com os Cavaleiros Cruza­dos e com construtores orientais, somados ao conhecimento herdado dos “Collegia Fabrorum”. Esta organização os senhores feudais se empobrecem, já que suas econo­mias foram arrasadas pelo custo das guerras. A actividade agrícola diminui, decai o tra­balho servil e lentamente desintegra-se o feudalismo. Em meados do século XII, os ser­vos abandonam os feudos e se dirigem às cidades para trabalhar. Ali, são protegidos pelo rei, agora mais fortalecido com o declínio dos senhores feudais. Cresce o prestígio da nobreza. Evolui a cultura europeia enriquecida pelos valores orientais. Efectivamen­te, as Cruzadas promovem um intenso intercâmbio com o mundo muçulmano, na época muito mais desenvolvido culturalmente que a Europa, e também muito mais rico hierár­quica garante trabalho permanente e protecção contra os antigos senhores.

Com o passar do tempo essas organizações se fortalecem e se transformam em grémios, associações independentes, cuja política proteccionista evita todo o tipo de con­corrência.

Não existe um momento histórico preciso para sua criação. E um processo que vai sendo formado lentamente através da história, durante o século XII.

Ordens monásticas da Igreja, particularmente na França e Alemanha, dedicam-se à arte da construção de catedrais, contando com a ajuda de maçons, então obreiros nómadas.

A partir dessas associações vão se formando corporações, as quais com o passar do tempo se tornam independentes.

Na Inglaterra, formam-se as “Guildas”, as primeiras a usar a designação “Loja”. Na França, forma-se o “Compagnonnage” (o “Operariado”) e na Alemanha, os “Steinmezens” (os “Canteiros”, designação derivada de cantaria, ou seja, a pedra lavrada segundo os padrões da estereotomia, a arte de dividir e cortar com rigor os materiais de construção).

Uma organização em especial se destaca. São os “Ofícios Francos” ou a “Fran­co-Maçonaria”. É a Maçonaria Operativa, que no seu início não é uma sociedade secre­ta, mas uma associação de artesãos com total liberdade de locomoção, os quais usam sinais e toques para reconhecerem-se como profissionais e cujo trabalho é carregado de profundo conteúdo metafísico.

A construção de catedrais é só uma parte do trabalho. Maçons são chamados também para construir projectos civis, militares, castelos e fortificações. O período des­sas construções vai do século XII até o fim do século XVI. Estamos no século XIII. Paris se engrandece e floresce com o fortalecimento da monarquia. Rapidamente se transforma no maior centro cultural da Europa. Nas suas lojas e ateliês, os maiores artis­tas do mundo vêm ensinar e aprender. A Universidade de Paris é fundada a partir da reunião de várias escolas espalhadas pela cidade. Seu estatuto é outorgado por Inocêncio III, em 1215. A Sorbonne é fundada alguns anos depois por Robert de Sorbon, que nela reúne mestres e estudantes pobres para o estudo da Teologia. Essa instituição se converterá em poucos anos no maior centro de irradiação de cultura da Idade Média, onde Santo Tomás de Aquino ensinará Teologia por dez anos, renovando os estudos filosóficos, graças à redescoberta de Aristóteles. Nesta efervescência cultural floresce o estilo gótico, representando este novo espírito criador que reina em Paris e o novo homem mais espiritualizado proposto pela Igreja. E de Paris para toda a Europa. A Renascença está em gestação.

Para se entender as diferenças entre o estilo românico e o gótico que o sucede, tomemos o exemplo tirado da Enciclopédia Arte Nos Séculos (Vol. II – Pág. 429) sobre a construção de duas simples cabanas. Uma tem as paredes levantadas pedra sobre pedra, na forma de um quadrilátero, deixando um pequeno espaço para a porta e um mínimo de janelas, pois como suas paredes sustentam a cobertura, se houver muitas aberturas toda a estrutura ruirá. Para a construção da outra cabana, fincam-se quatro estacas no chão, unidas na parte superior por um quadrilátero de madeira, o qual servirá de apoio para a cobertura. Sua estrutura está pronta, bastando agora preencher suas paredes com materiais mais leves e colocando quantas portas e janelas se desejar. Na primeira, foi usado o princípio da construção românica e na segunda, o da construção gótica. Esse conceito arquitectónico é tão revolucionário que atravessará séculos, sendo utilizado ainda hoje nos maiores arranha-céus deste século XXI.

Artisticamente a Idade Média aposta no homem, na vida, na alegria e na nature­za. A arte do período reflecte o Ocidente como civilização. Porém, há nela um contra­ponto surreal que a marca profundamente e a Igreja sabe como explorá-lo.

No coração desta civilização medieval, evangélica e humanista, há um lado obs­curo, povoado por monstros e fantasmas, os quais permeiam toda a arte medieval. É certo que a teratologia (estudo das monstruosidades) desta arte não nasce no período; é uma herança dos séculos passados, trazida de terras longínquas, pelas cruzadas, merca­dores e missionários. Porém, agora ela é dramaticamente realçada.

As fontes desse repertório bizarro são a Antiguidade helenística, o Islão e o Extremo-Oriente. Demónios e monstros, como na actual indústria automobilística, são importados, desmontados e reconstruídos na Europa. Porém, as peças são montadas aleatoriamente, nas combinações mais absurdas e assustadoras, resultando nestes seres disformes e surreais, que permeiam a arte gótica, desde a pintura até as iluminuras. Um bom exemplo deste imaginário é o Dragão de São Jorge.

Na arquitectura estes monstros traduzem-se nas gárgulas e quimeras que povoam as partes altas e quase inacessíveis das catedrais. Elas parecem estar sempre atentas e em atitude de pré-ataque.

Estes seres encontram correspondência no subconsciente assustado e oprimido do homem medieval. A Renascença irá se alimentar substancialmente do exotismo, do arabesco, da atracção pelo desconhecido e da bizarrice desta tendência medieval.

As catedrais góticas ampliam e sofisticam a didáctica românica para instruir metafisicamente a grande massa de cristãos. Com seu tamanho, verticalidade, valoriza­ção dos espaços vazios, iluminação, beleza e configuração, transmitem aos fiéis toda a dimensão espiritual da religião. A nave representa a Terra, a vida física. O coro repre­senta o paraíso e o purgatório, mundo dos anjos e das almas, a psique.

O altar representa o céu, o mundo dos arcanjos, o espírito. O Santíssimo é a representação da divindade, ou seja, é o próprio Cristo entronizado no sacrário. E toda uma concepção de que o templo deva representar a estrutura do Universo e do próprio homem.

Moisés, ao construir o Tabernáculo, seguiu o mesmo princípio. A zona que o rodeava seria a representação do mundo físico. O pátio aberto, o mundo psicológico, a residência da alma. Dentro dele se encontrava o santuário, a residência do espírito e, finalmente, no local mais sagrado estava o Sanctum Sanctorum, que representaria a pró­pria divindade. Ainda seguindo o mesmo princípio, Salomão ergueu o seu Templo.

O trabalho dos maçons toma-se altamente especializado e no decorrer da história é acrescido de alto conteúdo intelectual. São poucos e caros os seus agremiados, toman­do-se por isso muito dispendiosa a construção gótica.

Quem pode pagar pelos seus serviços é a Igreja, cujos bispos, para obterem maior prestígio diante dos homens e de Deus, destinam a quarta parte da renda do bis­pado às obras das catedrais.

A localização das catedrais

Antes de falarmos das catedrais propriamente ditas, um esclarecimento se faz necessário sobre a sua localização e por que estão ali construídas.

Muitas das velhas igrejas europeias têm uma mesma origem. Elas ocupam o mesmo lugar de antigos santuários pagãos. Descobertas ocasionais e escavações arqueo­lógicas dão-nos esta certeza. Basta relembrar alguns casos: restos do templo da “Boa Deusa” (Bonne Déesse) descobertos sob a Igreja de Santa Maria Maior, em Arles; a Igreja de São Vicente de Chalon-sur-Saône foi construída no lugar de um templo dedi­cado a Marte, o deus da guerra; a catedral de Chartres está construída sobre um poço celta, nas vizinhanças de um santuário pagão; e na entrada da Catedral de Puy existe uma lápide de um dólmen pré-histórico, onde na Idade Média doentes deitavam-se para curar a sua febre.

A Igreja Católica, sabiamente, aproveitou-se dos mesmos lugares, onde séculos antes, multidões pagãs se reuniam.

Bastava somente purificar aqueles sítios, ali edificar as igrejas e consagrá-las ao catolicismo. Outras práticas comuns da Igreja: a primeira é a de santificar os megalitos pré-históricos, os quais servem para cultos pagãos, colocando no seu topo uma cruz cristã; a segunda é a de dar nomes de santos às fontes e a terceira a, de se construir cape­las nas encruzilhadas, onde antes existiam lareiras para o fogo ritual pagão. Nota-se a preocupação da Igreja em cristianizar os cultos primitivos aos elementos da natureza, nestes casos a pedra, a água e o fogo.

Há na cripta da Catedral de Chartres um poço profundo. É esse poço que dá ori­gem à Catedral. A sua água teria propriedades terapêuticas e os doentes da Idade Média acham ali a sua cura. Pela lenda, os primeiros mártires de Chartres teriam sido lançados neste poço pelos seus carrascos e dali retirados pelos cristãos. Porém, o contacto dos seus corpos sagrados com a água a teria impregnado com as suas virtudes, razão pela qual chamam-no de “Poço dos Santos Fortes”. Este é lacrado pelo clero pouco sensível às práticas religiosas populares do século XVII. Em 1901 é redescoberto e arqueólogos nele reconhecem um antigo poço celta.

Na vizinhança descobrem também as ruínas de um santuário pagão. Acredita-se que aquele poço, juntamente com o santuário, faça parte de um complexo religioso cel­ta, existente muito antes que o cristianismo na Gália.

Os gauleses prestavam culto à água sagrada, filha da terra e do céu. Os cristãos aproveitam-se da tradição céltica e sobre o mesmo local constroem a catedral, de acordo com o hábito. Na época galo-romana, nas proximidades das fontes sagradas, havia sem­pre imagens de divindades femininas chamadas de “as Mães” (les Mères). Elas são representadas sentadas e têm sempre uma criança em seu colo. A semelhança desta “Mãe” com a Virgem da Idade Média é surpreendente.

Todas essas tradições mágico-religiosas foram sendo incorporadas à Catedral de Chartres no transcorrer da história. Especialistas em radiestesia dizem que na superfície do terreno e em lugares específicos do interior da catedral formam-se campos de força telúrica de grande potência.

As catedrais a pedra, a geometria e a luz

Pode-se dizer que a alma da cultura medieval brotou da cabeça de um homem: Santo Agostinho. Ele lhe deu o tom e a dimensão.

Existe no Livro da Sabedoria de Salomão uma frase: “ordenaste todas as coisas em medida e número e peso” (Sb. 11, 20). A interpretação desta passagem, por Santo Agostinho, dá-nos a exacta dimensão metafísica do mundo medieval. Esta é explicada pela composição do número que se traduz na forma e no conteúdo da arte medieval. Diz ele: “Sem o primado do número o cosmos regressaria ao caos”. Agostinho propõe, portanto, a filosofia das proporções, da estética e da beleza, que em última análise é a essência da própria Arte.

Toda a actividade intelectual francesa do século XII resulta da mescla de duas vertentes, as quais embora distintas, originam-se nos pensamentos de Agostinho.

Uma é a dos Platonistas da Escola da Catedral de Chartres, a mais famosa escola de matemática no Ocidente cristão. Outra, contemplativa e mística, oriunda das casas monásticas de Cister e Claraval, cujo expoente máximo é São Bernardo.

Também a arte e a arquitectura góticas resultam da mescla da cosmologia plató­nica de Chartres com a espiritualidade de São Bernardo. Portanto, o trinómio Agostinho-Chartres-Bernardo é fundamental para a compreensão da Idade Média, a sua arte e a sua arquitectura. A arte gótica é portadora da alegria pelas coisas do mundo.

Tanto na forma quanto no conteúdo, expressa a vida, a redescoberta do ser humano e de tudo que o cerca, material e espiritualmente.

A teologia e a cosmologia de Chartres resultam dos estudos sobre Platão e a Bíblia. Os mestres dessa escola, assim como os pitagóricos e platónicos, consideram as matemáticas a ligação entre Deus e o Mundo. São esses mestres que criam o conceito de Deus como o Grande Arquitecto do Universo e definem as leis da construção cósmica.

Chartres adopta o conceito das “Proporções Perfeitas’’’ ou “Geometria Sagra­da”., cuja aplicação na arquitectura resulta na construção estética e tecnicamente perfei­ta. Os problemas estéticos e técnicos devem ser resolvidos, portanto, através da Geome­tria.

A arquitectura gótica, nesse sentido, pode ser definida como geometria aplicada. Por isso, os arquitectos góticos gostam que os retratem, portando, com a régua, o esqua­dro e o compasso. Mostram assim, simbolicamente, a divinização do seu trabalho.

Pela Geometria Sagrada conseguir-se-ia perceber Deus e sua Omnipresença na Ordem Universal. A origem deste conhecimento perde-se no tempo, não se sabe quem o criou e quando. Porém ele está presente nas artes religiosas hindu, egípcia, islâmica, católica, hebraica, búdica, grega, céltica e até nas pinturas com areia dos índios norte-americanos. A Geometria Sagrada é atribuída também às medidas do Templo de Salo­mão, o qual representa a imagem mística do firmamento. É este templo que servirá de inspiração para as igrejas góticas, que são, neste enfoque, uma representação do cosmos, do Templo de Salomão, da “cidade celestial” agostiniana e da Jerusalém Celeste descri­ta por São João, todas imagens do “céu”.

Enquanto nas pinturas os fiéis somente podem “ver” o céu, dentro da catedral eles “estão” nele.

Na Renascença, o arquitecto Philibert Delorme (1514 – 1570), profundo conhe­cedor da arquitectura gótica, no fim da sua vida, diz-se arrependido por não ter usado nos seus projectos a Geometria Sagrada (Admiráveis Proporções) a qual Deus, “O Grande Arquitecto do Universo”, transmitira a Noé, durante a construção da Arca, a Moisés, na construção do Tabernáculo e a Salomão, na construção do Templo.

São Bernardo é um asceta. Só lhe interessa a essência das coisas. O supérfluo é supérfluo e, como tal, deve ser eliminado. A sua estética é a da simplicidade e da digni­dade. Bernardo condena o excesso de decoração das igrejas românicas, as quais praticamente se escondem atrás das pinturas, murais, esculturas e mosaicos.

A função desta riqueza visual é, além de mostrar a pujança do catolicismo, esconder os defeitos arquitectónicos da construção românica. Enquanto no gótico, a pedra perfeitamente talhada é mostrada como um elemento estético, no românico ela é partida em pedaços, amontoadas nas paredes e fixadas com argamassa, resultando um acabamento grosseiro. São Bernardo constrói por toda a Europa igrejas cuja arquitectura esteja dentro do seu conceito. O excesso de pinturas e esculturas é eliminado, restando o essencial, ou seja, a própria arquitectura. A linha e os ângulos rectos substituem as cur­vas. Ele também utiliza a Geometria Sagrada ou Verdadeira Medida para as suas cons­truções. A Abadia de Fontenay é construída a partir de “cubos espaciais”, solução que lhe confere uma intensa harmonia.

A finalidade deste artigo não é esclarecer tecnicamente como é construída uma catedral. Existem milhares de publicações a respeito. O intuito é o de mostrar a sua cria­ção intelectual.

Como é pensada e o que pensam seus idealizadores. Podemos citar, apenas como repetição, que o gótico é caracterizado pela soma do uso de três recursos arquitectóni­cos: o arco pontiagudo (contrapondo-se ao arco arredondado românico), abóbadas de arestas, formadas pela intersecção de abóbadas cilíndricas, e arcobotantes, os quais colocados perpendicularmente às paredes permitem seu estreitamento. Porém, mais do que visual, é conceptual a grande revolução gótica. Os arquitectos medievais vão buscar na metafísica as leis e os cânones que regem seu trabalho e a geometria constitui seu princípio fundamental.

Esta arquitectura é a própria teologia cristã medieval transformada em arte. Dois aspectos são fundamentais nesta arquitectura. São inovadores e provavel­mente nunca mais foram usados com resultados tão surpreendentes: a relação entre for­ma e função (aparência e estrutura) e o uso da luz.

Na arquitectura gótica, as paredes, pela adopção dos vitrais, tornam-se pratica- mente transparentes e quase inexistem, parecendo que a pedra, dura e pesada, transcen­deu-se em luz. Por sua vez, estética e estrutura são tão perfeitamente coesas que não é fácil determinar se a estética se deve à estrutura ou se estrutura se deve à estética. Esta é tão importante que às vezes certos detalhes da construção, que resultam pesados ou que prejudicam o efeito visual, são disfarçados, “maquiados” para que não fiquem fora do contexto artístico. O gótico é a escola arquitectónica mais importante da cultura ociden­tal e alcança a tecnologia de erguer, ainda na Idade Média, uma abóbada a 48 metros de altura (Catedral de Beauvais) e um pináculo a 142 metros de altura (Catedral de Estras­burgo). Nada tão alto será construído na Europa até o século XIX.

A obra deve ser perfeita, tanto no todo, bem como no seu menor elemento, ou seja, no seu menor bloco de pedra. Nós, maçons especulativos, devemos atentar para a precisão com que cada bloco de pedra é lavrado, aparelhado e assentado, não deixando arestas desconexas, as quais necessitem de disfarce. A essência da arquitectura gótica é a própria essência da nossa filosofia. Certos detalhes transcendem a sua função específi­ca e aumentam a beleza da obra. A abóbada deixa de ser uma estrutura pesada e parece deslizar sobre as nervuras, dando a impressão de que o céu será visível a qualquer momento; as paredes deixam de sê-las para se transformarem em delicados suportes para os vitrais. A sua verticalidade subverte a gravidade, dando a ideia de que o templo é etéreo e flutua. Sabe-se que o templo é estático, no entanto, parece que pulsa. O canto coral evolui muito a partir da acústica obtida nesses templos.

Através de figuras geométricas, principalmente o quadrado, o “arquitecto” desenvolve todas as grandezas de sua planta. Este conhecimento é um dos maiores segredos profissionais daqueles mestres. Ele só será tornado público no fim do século XV pelo arquitecto alemão Matthew Roriczer, o construtor da catedral de Regensburg.

Também Villard de Honnecourt (século XIII) ensina como dividir o quadrado para encontrar as “verdadeiras proporções” de um edifício, neste caso as torres da cate­dral de Leon. A catedral de Notre Dame de Paris é composta por uma sequência de qua­tro quadrados, desenvolvida de acordo com a “verdadeira medida” ou “geometria sagrada”. Até os dados técnicos, como a espessura de uma parede ou contraforte, são determinados por essas fórmulas. Já citamos que a abadia de Fontenay foi criada a partir de “cubos espaciais”.

De acordo com os neoplatónicos e também com a Maçonaria, o cubo é a figura geométrica que demonstra, pela linguagem matemática, como a divindade dota de vida os quatro níveis da existência, possibilitando, portanto, o Universo. Assim, o ponto movendo-se no espaço cria a linha. Esta, movendo-se em direcções não paralelas gera o plano. Este movendo-se também não paralelamente, gera o sólido.

Cada etapa da criação traz em si a etapa anterior. O sólido contém o plano, que contém a linha, que contém o ponto. Exactamente como o Homem. Ele tem um corpo (o sólido), que traz em si a psique, a alma (o plano), que traz em si o espírito (a linha). Simbolizam os caminhos para se alcançar o “Templo Interior”. São eles: a Acção, a Devoção e a Contemplação.

Transpostas para a Maçonaria, a Acção traduz-se nos rituais; a Devoção traduz- se na caridade, operosidade, oração, introspecção, meditação e obediência; e a Contem­plação traduz-se no pensamento. Através deste se reconhecem os símbolos e os seus princípios, os quais possibilitam se alcançar a divindade.

Se no caso das proporções a igreja gótica resulta em uma obra perfeita, no tocan­te à luz ela atinge o sublime. E esta luz que vai atingir o fiel no seu íntimo e agir direc­tamente sobre sua psique. Esta luz trabalha a metafísica do tempo. Uma das maiores experiências extra-sensoriais que alguém pode ter é entrar na Sainte Chapelle (Santa Capela), em Paris, num dia de sol. Com certeza ao sair, será uma pessoa diferente da que entrou. Olhar um vitral em silêncio, concentrado, nos transporta a uma viagem con­seguida pela auto-reflexão.

E o caminho pelo qual a psique, transportada pela alma, vai encontrar a sua rea­lização, fora do tempo e do espaço, em busca da totalidade espiritual.

Naqueles séculos a luz representa a origem da beleza. Pensadores como São Tomás de Aquino atribuem à beleza duas qualidades essenciais: proporção e luminosi­dade. De acordo com a metafísica platónico da Idade Média, a luz é o estágio interme­diário entre o corpóreo e o incorpóreo, entre o material e o espiritual. É o fenómeno físico que mais se aproxima da forma pura. A luz, nesse contexto, é uma energia que transcende a matéria, representando a ordem e o valor.

No sexto livro da República, Platão define o bem como sendo a origem do conhecimento, sendo por isso comparado com a luz do Sol. Este não só toma visível todas as coisas, como também propícia toda a vida.

A luz é uma realidade transcendental que torna possível o Universo e em si a divindade (o ponto). Deduz-se então que o homem também é divino, pois dentro dele está o Princípio Criador, dentro dele brilha a Luz Divina. É esta metafísica que norteia os arquitectos medievais.

Para Santo Agostinho, música e arquitectura são irmãs, portanto, filhas da matemática. Ele as usa para demonstrar que o número é a origem da perfeição estética e a contemplação desta perfeição pode conduzir a alma humana à experiência de Deus.

Convenciona-se sempre colocar “três” portas na entrada das catedrais. Ilumina o nosso intelecto na captação da verdade. Santo Agostinho participa plenamente deste conceito.

Deve também ser lembrado aqui místico oriental Dionisio, o Pseudo-Areopagita (século V). Ele é o criador de uma filosofia cristã na qual a luz é o princípio primeiro da metafísica e do conhecimento. Ele junta a filosofia neoplatónica com a teologia da luz do Evangelho de São João. Neste, a manifestação divina é concebida como a verdadeira luz que brilhava na escuridão, pela qual todas as coisas foram criadas e que ilumina a consciência de todo o homem. Para Dionisio, a criação é um acto de iluminação, é a auto-revelação de Deus. Nas suas emanações, o esplendor de Deus se mantém indiviso e unifica todas as criaturas que o aceitem. O Universo é comparado a uma cascata de luzes ordenadas segundo uma hierarquia. A luz, assim, é percebida como a forma que todas as coisas têm em comum, como o elemento que dá unidade ao todo. Deus é a Luz Absoluta e cada criatura um reflexo dela. A teologia cristã está fundamentada no misté­rio da encarnação, a qual no Evangelho de São João é mostrada como a luz iluminando o mundo. Pela teologia da luz, o sacramento eucarístico, durante a missa, deve ser entendido como a luz divina transfigurando a escuridão da matéria e possibilitando a vida.

Hoje, a beleza é simplesmente uma qualidade sensitiva, a qual apenas nos limi­tamos a admirar ou que pode simplesmente ser comprada. Para nós essa luz é apenas uma metáfora. Para o homem medieval ela está intrinsecamente ligada ao sentido da perfeição divina e é a mais pura representação da verdade. De tudo o que foi criado, a luz é a mais directa manifestação de Deus. Santo Agostinho ressalta que Jesus Cristo é devidamente chamado de “Luz Divina”. Todas as representações artísticas de santos mostram as suas cabeças sempre envoltas por uma auréola. No gótico, luz, pedra e arquitectura formam uma unidade metafísica e artisticamente perfeita. A Idade Média que é conhecida erroneamente como a “Idade das Trevas” deveria ser reconhecida, pela sua relegada importância, como a “Idade da Luz”.

Um nome deve ser reverenciado pela sua relevância histórica no contexto gótico: o Abade Suger (1081- 1151). Durante seus 70 anos assistiu e propiciou as grandes mudanças, não só da vida francesa, bem como de todo o mundo cristão ocidental.

Nascido pobre, é “adoptado” aos 10 anos, como oblato, pela abadia real de Saint Denis (São Dionisio). Educa-se, entre 1094 e 1104, junto àquele que será o futuro Luís VI. Em 1107, já é renomeado advogado e diplomata.

Em 1123, é designado abade de Saint Denis, cargo que ocupará até a sua morte, empreendendo uma grande reforma neste templo. E influenciado pelas ideias de Ber­nardo de Claraval, seu amigo pessoal (futuro São Bernardo) e de Dionisio, o Pseudo-Areopagita, aplicando os seus conceitos na reforma da abadia, inaugurando assim o gótico. Em 1147, assume a regência da França durante o reinado de Luís VII, que parte na Segunda Cruzada.

Pela excelente gestão, marcada pelo seu talento na arte da conciliação, sana as finanças e traz a paz ao reino, factos que propiciam ao rei o reconhecimento como um dos grandes monarcas europeus da época.

Graças ao seu prestígio e visão, Suger pode empreender a maior revolução arqui­tectónica da história.

Por tudo que a luz representa no contexto gótico deduz-se a importância que o vitral e os mestres vidreiros têm nos canteiros. Os vitrais são as últimas peças colocadas na construção e estão entre as primeiras a ser notadas, pois são eles que propiciarão a “Luz Mística’’’ dentro dos templos.

Um exemplo perfeito do uso de vitrais é o da catedral de Chartres. Nela, um con­junto de 160 janelas perfazem 2.600 metros quadrados de pura beleza.

Cinco mil personagens habitam aqueles vitrais. Em cada uma das suas entradas, sobre os três portais, flutua uma rosácea de 10 metros de diâmetro.

Porém, o mais belo exemplo do uso dos vitrais é a da já citada Sainte Chapelle, em Paris. Consagrada em 1248, ela pertence ao estilo chamado “gótico flamejante”.

Construída a pedido de São Luís, para guardar a coroa de espinhos de Jesus e um pedaço de sua cruz, relíquias estas enviadas de Constantinopla, ela resplandece na sua beleza. Esta beleza permanece intacta ainda nos dias actuais, pois conserva em todo o seu interior a pintura original da época, sendo um raro exemplo remanescente do tem­po em que as catedrais eram pintadas.

É realmente um relicário de pedra e vidro. E composta de duas capelas. A inferior é destinada aos servidores e a superior à família real, à nobreza e aos grandes oficiais. As suas 15 ogivas luminosas ocupam 613 metros quadrados e cercam o observador por todos os lados. Ao entrar, sentimo-nos dentro de um imenso caleidoscó­pio.

Somos banhados pelas cores e realmente temos a impressão de que estamos nou­tra dimensão.

O arquitecto ainda anónimo (pode ter sido Jean de Chelles ou Pierre de Montreuil) elevou a arquitectura ao ponto de excelência, num verdadeiro desafio à técnica.

Talvez nenhuma outra igreja traduza a ideia da transcendência, através da luz, da cor e da beleza como esta.

Os canteiros e os operários

Os canteiros medievais são formados por várias profissões. As duas mais impor­tantes são os pedreiros e os carpinteiros. Com o decorrer do tempo os metalúrgicos tam­bém ganham prestígio. Vidreiros, cabouqueiros, telhadores, preparadores de argamassa, carregadores de água, pedra e cal são os demais trabalhadores.

Não se sabe quem são estes operários, nem como vivem. São factos para os quais não existem documentos comprobatórios. Existem raros documentos, contratos e livros de contas que informam quanto recebem de salário. E quase nada mais. O desfa­samento intelectual entre os mestres e os operários das pequenas profissões é enorme.

Carregadores de água, pedra e cal, formam a base da pirâmide profissional, são pagos por dia e recrutados nos próprios locais das construções.

As remunerações são de acordo com a especificidade de cada profissão e o tra­tamento dado às profissões menores é cordial. O cortador de pedra ocupa uma posição de destaque no canteiro. É o elo entre o Mestre e a construção. Graças a ele passou-se da técnica da pedra quebrada a martelo para a construção aparelhada, na qual as juntas tornam-se muito reduzidas. Um facto interessante é com referência às marcas (logoti­pos) muito bem entalhadas, que alguns talhadores e empreiteiros deixam gravadas nas faces exteriores das pedras. Isso demonstra o orgulho que o profissional sente do seu trabalho.

As mesmas são encontradas em lugares distintos da Europa, mostrando a itinerância desses talhadores.

Para a construção de Notre-Dame, em Paris, são organizados cinco ateliers. No comando de cada um está um mestre talhador de pedra, o qual tem sob seu comando 14 outros pedreiros que marcam a pedra com a chancela do mestre.

Para se ter uma ideia do número de trabalhadores numa obra medieval tomemos como exemplo a construção do castelo de Beaumaris, na Inglaterra.

Entre 1268 e 1270 lá trabalham 1.630 operários, 400 pedreiros, 30 carpinteiros e 1.000 serventes de pedreiros e carreteiros. Quanto às proporções dos salários tomemos como exemplo a construção de Autun, na França. No biénio 1294/1295 os salários são: servente de pedreiro, 7 dinheiros (deniers); os gesseiros, 10 a 11 dinheiros; pedreiros e talhadores de pedra, 20 a 22 dinheiros.

A obtenção dos materiais de construção é uma tarefa árdua para comanditários (sócios capitalistas empreendedores) e mestres de obras.

Encontrar a pedra bela e resistente, a madeira certa para a carpintaria e o metal bem temperado requer um grande sentido logístico. Descobrir uma pedreira o mais per­to possível da construção, tentar comprá-la para explorá-la livremente, sem aumentar o custo é a maior preocupação dos comanditários, bispos, padres, reis e senhores. As pedreiras, quando na mão de particulares, aumentam sensivelmente o custo da obra.

Quando distantes, os custos disparam. Milhões de toneladas de pedra de Caen, França, são importadas pelos ingleses para a construção da catedral de Canterbury, a abadia de Santo Agostinho, o palácio real de Westminster e a Torre de Londres. A ope­ração é tão custosa que, para barateá-la, Guillaume de Sens idealiza máquinas específi­cas para retirar dos navios as pedras que estes transportam. Apesar dos percalços, o transporte fluvial é o mais barato. Para se ter uma ideia aproximada do volume de pedras usado na construção gótica, calcula-se que em apenas 300 anos, só a França tenha extraído, transportado, processado e assentado mais pedras do que o Egipto durante toda a sua história. Para o transporte terrestre os cavalos e os bois são os meios mais eficazes. As invenções da coelheira dura (collier d’épaule), dos tirantes, da atrela­gem em fila e da ferragem com pregos permitem que os cavalos carreguem pesos de até duas toneladas e meia, enquanto em épocas anteriores seu limite era de 500 quilos. A velocidade do cavalo puxando a carga é de uma vez e meia a do boi. Passa-se a talhar as pedras de acordo com gabaritos, na própria pedreira, o que toma a carga mais leve e mais barata.

Tudo tem seu custo. As catedrais góticas propiciam o rareamento dos bosques, principalmente nos séculos X e XI. Soberanos, bispos, padres e senhores concentram seus esforços para a conservação dos bosques. Villard de Honnecourt é convocado para que pense como construir uma ponte com pequenos pedaços de madeira.

No século XIV para se construir o castelo de Windsor foram derrubadas 3.944 árvores. O transporte da madeira tem basicamente as mesmas implicações do que o das pedras.

O material menos comentado, mas não menos importante para as construções, é o metal. Ao se aperfeiçoarem as técnicas de têmpera, se aperfeiçoam também os instru­mentos.

A invenção do laie, martelo do talhador, revoluciona o trabalho nos canteiros.

Para a construção de várias igrejas, entre elas e principalmente a Sainte Chapelle, em Paris, utiliza-se uma nova técnica, a da pedra armada com ferro, prenunciando a técnica do cimento armado do século XX.

Para as construções medievais serem erguidas, é necessária muita criatividade dos “engenheiros”, na invenção de máquinas que facilitem o trabalho.

Não existe muita literatura da época sobre o tema, porém sobram desenhos e pinturas, pelos quais podemos quantificar e qualificar as suas invenções. As máquinas de guerra propiciam as máquinas da construção, pois aquelas servem de inspiração para estas. A partir da catapulta, surge a grua. Conhecida desde a Antiguidade, na Idade Média é aperfeiçoada. Acrescida de contrapeso e dupla polia, permite transportar os materiais às grandes alturas propostas pelo estilo.

É inventada a biela, que permite transformar o movimento rotativo em alternado. Gruas pivotantes, elevadores com tracção humana, a combinação destes elevadores com o guindaste, os andaimes simples e os basculantes, que não necessitam mais apoiarem- se no solo, ficam suspensos, apoiados de parede a parede e, além disso, podem ser mon­tados e desmontados em qualquer lugar. Também são invenções da época: o carrinho de mão, a serra hidráulica para madeira e a plaina. É furado o primeiro poço artesiano em 1126. A criatividade dos engenheiros da Idade Média só será superada pelos da revolu­ção industrial inglesa, no século XVIII.

Os arquitectos e os mestres-de-obras

A partir do século XI, a arquitectura vive um grande surto desenvolvimentista, pois um grande número de comanditários procura avidamente por arquitectos. Isso explica a quantidade, qualidade e riqueza das construções do período. Reis e imperado­res remodelam cidades como Praga e Paris.

A Igreja Católica constrói por toda a Europa as suas igrejas e catedrais. Comuni­dades urbanas como Florença, Milão, Orvieto e Siena encomendam, por sua conta, as suas catedrais e obras públicas. Castelos, hospedarias, pontes e hospitais propiciam uma melhora do nível de vida daqueles povos. Os que detêm o poder encontram na arquitectura um modo eficiente de torná-lo visível. Toda essa actividade pede mais e melhores profissionais.

Nasce a partir dessas premissas um binómio. De um lado está o comanditário que é chamado de Mestre do Trabalho (Maitre d’Ouvrage) e do outro o Mestre-de-obras (Maitre d’Oeuvre). A actuação do Mestre do Trabalho é decisiva. Sabe o que quer, tem o capital e escolhe o arquitecto que melhor fará uso do seu dinheiro. Acompanha pes­soalmente o desenvolvimento da obra, forçando o arquitecto até aos limites máximos da sua criatividade.

São geralmente visionários e sabem que a sua obra passará para a posteridade e geralmente trará um expressivo benefício público. A importância dele é tanta que a sua ausência desequilibra todo o andamento dos trabalhos. Em 1151 morre o Abade Suger, comanditário da reconstrução da abadia de Saint-Denis. O reinício dos trabalhos só se dará quase um século depois, em 1231, seguindo determinações muito diferentes daque­las concebidas originalmente. Em Milão, em 1401, o Conselho da Fábrica (membros da população escolhidos para gerir uma obra) é composto por 300 pessoas, tornando-se dificílima a actuação do Mestre de Obras.

Há um grande desconhecimento sobre os construtores das catedrais.

Não sabemos muita coisa a respeito deles. Conhecemos muito sobre o seu traba­lho, sabemos os seus nomes, porém muito pouco sobre as suas vidas.

A etimologia da palavra arquitecto mostra-nos que ela é de origem grega e latina e naquelas culturas designa o chefe ou mestre dos operários das diversas profissões necessárias para se erguer uma construção, sendo a sua área de actuação muito mais ampla do que a do arquitecto contemporâneo, reduzido praticamente ao projectista da obra.

O conceito que hoje temos de Arquitecto não se aplica na Idade Média e nela o título praticamente desaparece.

Este profissional é designado por Magister Operarium (Mestre de Obras), Magister Fabricae, Maistre Masson (Mestre Pedreiro) ou ainda por Doctor Latomorum (Doutor dos Operários – docteur dès-pierres). Não existem escolas de arquitectura nem diplomas de arquitecto. De onde advém então, seu enorme saber? O Mestre-de-obras é escolhido enquanto ainda é um simples pedreiro. Pela sua competência, operosidade e inteligência é escolhido por um Magister Operarium para receber o mesmo conheci­mento do próprio Mestre. É esse Mestre que lhe passará todos os segredos profissionais e esotéricos. Arte, religião, filosofia e profissão são ensinadas conjuntamente. A Geo­metria é ensinada física e metafisicamente. Na Idade Média, a beleza está relacionada com a divindade e Deus, Criador de todo o Universo, representa a forma mais pura de beleza. O arquitecto é o canal para que toda esta beleza chegue aos olhos dos homens. É ele que tem a missão de transformar a pedra bruta no templo terreno de Deus. Sabe da importância material e metafísica da sua profissão. E para deixar isto evidente assina o seu trabalho com grande visibilidade. No transepto sul da Catedral de Notre Dame de Paris existe uma inscrição em letras góticas, encomendadas pelo bispo Pierre de Montreuil, homenageando o seu antecessor, que assentara a primeira pedra daquele transep­to.

Naquela inscrição lê-se: “O Mestre Jean de Chelles começou este trabalho pela Glória da Mãe de Cristo no segundo dos idos do mês de Fevereiro de 1258”.

E conduzindo-se o olhar pelos labirintos desenhados no piso da catedral de Reims chegar-se-á a uma placa central onde, em vez de uma figura divina, está à figura de um Mestre do Trabalho e nos quatro ângulos estão as figuras dos Mestres de Obras com os seus respectivos instrumentos.

Na aplicação da sua Arte não há distinção entre o divino e o humano, entre o espírito e a matéria, entre o saber científico e o esotérico. Na aplicação de sua Arte tam­bém não existe distinção entre arquitectura, escultura, carpintaria, corte e entalhe da pedra; todas estas aptidões são próprias de um Magister Operariam.

Entre as suas qualificações estão o desenho dos projectos, fachadas, portais, esculturas e os perfis dos arcos da Catedral. No contexto profissional é um líder, isolado deste contexto é um pensador. Domina com perfeição a arte da estereotomia. Recorta com suas próprias mãos as peças mais difíceis e ainda dá o acabamento nas esculturas; supervisiona os operários, distribui o trabalho e ainda inventa máquinas que facilitem a construção.

Recebe por tal trabalho um salário anual fixo, moradia provisória e às vezes até terras para um cultivo temporário, roupas, luvas e alimentos.

Recebe ainda uma remuneração diária, de acordo com o serviço prestado naque­le período. A carpintaria é usada na construção de tectos, andaimes e formas de madei­ra, sobre as quais as futuras abóbadas serão construídas.

O seu trabalho, hoje, seria o de um arquitecto, o de um engenheiro e o de um empreiteiro, somados. Em 1400, Jean Mignot, famoso arquitecto parisiense, é chamado a Milão para opinar sobre qual o esquema geométrico que devia ser aplicado para a construção do Duomo; se o do quadrado ou do triângulo equilátero.

Lá, profere uma frase que se tornará célebre: “Ars sine scienta nihil est” (“A arte sem ciência é nada’1‘).

Villard de Honnecourt é talvez o nome mais conhecido entre os construtores de catedrais, embora não se saiba quase nada sobre sua vida. A opinião dos historiadores divide-se quanto à sua verdadeira profissão. Uns afirmam ser ele um exímio arquitecto. Outros vêem-no como um mero admirador da arquitectura. Porém, ele deixa para a pos­teridade o documento mais importante, com o qual podemos avaliar a capacidade criati­va, sentido estético e profundidade esotérica a que chegaram aqueles Mestres. Em 33 páginas e 250 desenhos podemos admirar os níveis intelectual e artístico daquele “pen­sador”. Podemos saber também como funcionam os canteiros.

Os desenhos de Villard são divididos em dez categorias, a saber: animais, arqui­tectura, carpintaria, guarnições para igreja, geometria, humanos, alvenaria, aparelhos e instrumentos, receitas e fórmulas, e agrimensura.

A Renascença, a qual irá florescer 200 anos depois, já é sugerida e prevista neste caderno. Isto demonstra que o artista é sempre uma antena ligada no futuro.

As viagens fazem parte importante da sua vida. Sabe-se que visitou as catedrais de Cambrai, Chartres, Leon, Meaux, Reims, e a abadia de Vaucelles em França. Conhe­ce a catedral de Lausanne na Suíça e a abadia de Pilis, em Budapeste. Não existem, no entanto, documentos que comprovem que tenha trabalhado na construção de algumas delas. Porém pelos seus desenhos podemos saber como eram os projectos originais dos monumentos e quais as mudanças que posteriormente foram feitas. Acredita-se que os seus desenhos foram feitos copiando plantas originais, que lhe teriam sido mostradas pelos próprios arquitectos.

Como prova do altíssimo nível intelectual atingido por tais Mestres, sabe-se que os teóricos matemáticos na Renascença, como o monge franciscano Luca Pacioli (que introduziu a contabilidade entre os ramos do conhecimento humano) e o pintor, grava­dor e matemático Dürer, irão frequentar assiduamente os ateliers dos cortadores de pedra, indo lá buscar subsídios para seus tratados.

A itinerância, a qual é uma característica desses Mestres, trar-lhes-á o que hoje chamamos de “pós-graduação”.

O trabalho temporário em vários canteiros, em lugares e países distintos, propiciar-lhes-á, o convívio com outros mestres e culturas, um alargamento dos seus horizon­tes, provocado pelo intenso intercâmbio profissional.

Étienne de Bonneuil é convidado, com mais dez companheiros e dez bacharéis, a construir a catedral de Upsala, na Suécia, em 1287. O Arquitecto alsaciano Niesenberger e mais 13 companheiros vão a Milão, para colaborar na construção do Duomo. É esta soma de conhecimentos que faz do “arquitecto” medieval uma pessoa muito acima da média. E por isso, a sua presença é disputada pela nobreza e pelo clero. Raymond du Temple, que em 1364 havia realizado a escada monumental do Louvre, a pedido de Car­los V, mantém com o soberano uma relação quase familiar. O rei será o padrinho de seu filho, presenteando-o com 220 florins de ouro para financiar-lhe os estudos.

Em história não se admitem adivinhações, só os factos reais é que contam.

Porém, na falta de documentos convincentes podemos usar um pouco a imagina­ção e tentar entender quem é este “arquitecto”.

E um homem que vive do seu trabalho; o seu salário não lhe traz riquezas.

A sua itinerância não lhe permite criar raízes. No entanto, os seus horizontes culturais e geográficos são vastíssimos. A sua vida interior é riquíssima, resultado de anos de estu­dos profissionais e esotéricos. Conhece profundamente a liturgia e a tradição cristãs.

A sua profissão permite-lhe uma vida paralela, baseada na metafísica. E não nos esqueçamos que os seus instrumentos são a régua, o esquadro e o compasso.

Este simbolismo norteia a sua vida. Se para nós, maçons especulativos, esses instrumentos têm profunda simbologia, imagine para aquele Mestre que os usa quoti­dianamente. Tem plena consciência que do seu trabalho resulta um templo destinado a ser eterno, pois já o está construindo.

Leofan Ferreira da Silva

Bibliografia

  • BALTRUSAITIS, Jurgis – Le Moyen Age Fantastique – Paris – Flamarion – 1993
  • VON SIMSON, Otto -A Catedral Gótica – Lisboa – Editorial Presença -1990
  • MALE, Emile – Notre-Dame de Chartres – Paris – Flamarion – 1994 ERLANDE-BRANDENBURG, Alain – Quand Les Cathédrales Étaient Peintes – Itália – Découvertes Gallimard – 1993
  • OLDENBOURG, Zoé – As Cruzadas – Rio de Janeiro – Civilização Brasileira – 1968 VARIOS, – Arte nos Séculos, Vol. II- São Paulo – Abril Cultural – 1969 MACNULTY, W. Kirk Macnulty – Maçonaria, Mitos-Deuses-Mistérios – Brasil – Edi­ções del Prado – 1996
  • BECHMANN, Roland – Les Racines des Cathédrales – París – Éditions Payot & Rivages – 1996
  • CARREIRA, Eduardo – Estudos de Iconografia Medieval – O Caderno de Villard de Honnecourt, Arquitecto do Século XIII – Brasília – Editora Universidade de Brasília – 1997

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5 thoughts on “As Bíblias em Pedra”

  1. Alexandre Lopes Fortes

    A Maçonaria, sobretudo a Operativa, é também uma consequência histórica dos ofícios e principalmente das construções das “Bíblias em Pedra” na Idade Medieval.
    Parabéns, Irmão Leofan Ferreira da Silva, pelo excelente artigo.

    Abraço fraternal,

    Alexandre L. Fortes
    CIM 285969
    ARLS Ir. Cícero Veloso N° 4.543 – GOB-PI – GOB

  2. José Fava

    Como o prório autor diz resumir a meia dúziade páginas 1000 anos de história da sociedade europeia é um tremendo esforço que naturalmente terá os seus defeitos. No entanto parece-me este ponto de vista muito interessante .
    Parabens pelo texto Ir.: Leofan

  3. LeandroFarias

    Sinceramente e com muito respeito ao autor, sem sombra de dúvidas, este foi o mais completo resumo histórico em que já li. Meu humilde e sincero parabéns. Excelente desde início, meio e fim. Excelente mais uma vez meus parabéns.

  4. Vasco Lourenço

    Simplesmente extraordinário!
    Enorme lição de História, que nos ajuda a compreender a origem e natureza da Maconaria especulativa.
    Parabéns ao autor e obrigado pela divulgação.
    Abraço fraterno e de Abril
    Vasco Lourenço

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