Cruzadas, (termo espanhol, cruzada “marcada com uma cruz”) é o nome dado a uma série de guerras efectuadas pelos cristãos da Europa Ocidental com a bênção – e a pedido – dos Papas, de 1095 até à metade do séc. XV, com o objectivo de retomar e defender o Santo Sepulcro, em Jerusalém, que estava na posse dos Muçulmanos. No seu sentido lato, uma cruzada era uma guerra sancionada e apoiada pelo papa romano, dirigida contra todos os inimigos de Cristo.
As causas
A causa imediata das cruzadas foi a interrupção da visita dos peregrinos ao Santo Sepulcro, como resultado da conquista dos turcos Seljúcidas no séc. XI. Em 1055 o Seljúcida Togrul Beg obrigou o seu suposto chefe, o Califa Abássida de Bagdad, que era sunita, a garantir-lhe o título de sultão. Após a batalha de Manzikert em 1071, bandos de turcos nómades arrasaram na Anatólia o que restava do antigo Império Bizantino, dificultando bastante a passagem dos peregrinos da Europa.
Após a morte do sultão Malik Shah em 1092, os seus emires entraram em guerra com a Síria, com a Palestina e com as demais províncias Abássidas, pertencentes ao Califa de Bagdad, interrompendo totalmente a visita dos peregrinos ao Santo sepulcro. A viagem de numerosos grupos de peregrinos europeus à Terra Santa era, à época, cada vez mais frequente. Daí o clamor destes peregrinos por não terem mais acesso a Jerusalém. Uma segunda causa para a realização das cruzadas foi a liberação de energias que se tinham acumulado na Europa Ocidental. Por cerca de 200 anos os europeus sofreram guerras movidas pelos Sarracenos, pelos Vikings e pelos Húngaros. Mas no início do séc. XI os vikings e os húngaros já estavam cristianizados e de algum modo foi estabelecida uma ordem e uma lei pelos príncipes feudais e pelos prelados, enquanto que o comércio recomeçava a crescer e a moeda a circular.
Na época, a Igreja estava altamente envolvida na grande reforma Beneditina dos mosteiros, liderada pela Abadia de Cluny, na organização de um número sempre crescente de peregrinações à Terra Santa e pela redução das guerras religiosas contra os muçulmanos na Espanha e na Sicília. A cidade de Toledo, na Espanha, foi reconquistada aos árabes em 1085; a base árabe de Mahdia, na Tunísia, tinha sido conquistada pelos Genoveses e os seus aliados de várias regiões da Itália, em 1087; os últimos muçulmanos foram expulsos da Sicília em 1091. Todas estas guerras foram abençoadas pelo Papa, que assim abriram precedentes para as futuras cruzadas.
O mais importante de tudo eram os planos do Papa Urbano II, um discípulo e protegido do Papa Gregório VII e um proeminente líder do movimento pela reforma dos Beneditinos de Cluny. Esta reforma previa a imposição de uma disciplina rígida, pura e universal para a Igreja, para livrá-la de todas as acusações de controle feudal e para consolidar a figura do Papa como vigário de Cristo para governar a igreja universal e para orientar as actividades do ser humano no serviço de Deus. Governar a igreja universal implicaria não só controlar a Europa Ocidental, mas também administrar a ruptura causada pelo cisma de 1054 entre o papado e o patriarca e imperador Bizantino, e actuar de modo a conseguir o reconhecimento da supremacia papal sobre toda a cristandade, tanto no ocidente quanto no oriente.
Depois da sua eleição em 1088, o papa Urbano II reactivou os contactos com os Bizantinos, mas considerando que tanto ele quanto o Imperador de Bizâncio, Alexius I, estavam por demais ocupados em fortalecer as suas posições nos seus próprios domínios, nada de importante aconteceu nesta área por alguns anos. Na Primavera de 1095, Urbano convocou o Concílio de Piacenza, para discussão de assuntos eclesiásticos. Alexius fez então um apelo a este Concílio, pedindo recrutas para a sua marinha, para combater os turcos. Urbano convocou para discutir o problema o Concílio de Clermont, em Auvergne, em Novembro de 1095. Todavia, em vez de pedir marinheiros para a armada de Bizâncio, Urbano solicitou e obteve autorização para formar a sua própria armada, como, aliás, tinha tentado o seu antecessor, o Papa Gregório VII. O símbolo desta armada era uma cruz e o seu comandante seria um legado do Papa. O objectivo desta armada era auxiliar Alexius de Bizâncio a expulsar os turcos da Anatólia e em seguida recuperar a posse do Santo Sepulcro em Jerusalém.
Este último objectivo não estava nos planos de Alexius, que tinha objectivos mais urgentes. Não se sabe se Urbano levantou na ocasião a questão da supremacia papal. A cruzada subsequente indica que Urbano pretendeu restaurar o seu domínio sobre os Gregos Ortodoxos.
A primeira cruzada
O apelo de Urbano para a realização desta cruzada mobilizou a cristandade ocidental. Foi criada não só uma armada no sul da França, mas também duas armadas no Norte deste mesmo país e uma na Apúlia, no sul da Itália, todas elas comandadas por príncipes feudais. Também foram formados batalhões de soldados, sob o comando de diversos líderes populares. A grande armada formada na Provença, liderada pelo poderoso Raimundo IV, conde de Toulouse, era acompanhada por Adhemar de Monteil, bispo de Le Puy, legado do Papa. Contingentes do Norte eram liderados por Robert II Curthose, duque da Normandia; por Robert II, conde de Flandres e por Godfrey de Bouillon, duque da Baixa Lorena; por Stephen Henry, conde de Blois e por Hugh, conde de Vermandois. Do ducado Normando da Apúlia veio também Bohemund, filho de Robert Guiscard, com uma pequena, porém excelente armada.
Estes líderes, seja pela sua posição seja pelo seu temperamento, não se dispuseram a serem comandados por Raymond ou qualquer outro comandante, e ficou claro que o legado papal teria de ter muito tacto para os controlar. Estas forças de cruzados Francos, como foram chamadas, chegaram a Constantinopla entre Julho de 1096 e Maio de 1097. Godfrey de Bouillon – que seria depois um dos fundadores da Ordem do Templo – estava na Hungria; Raymond estava na Dalmácia e os outros na Apúlia e na Albânia.
Alexius, que simplesmente pedira marinheiros para a sua esquadra, ao contrário, recebeu hordas indisciplinadas de soldados, juntamente com peregrinos, padres e outros não combatentes, sob o comando de líderes que ele não podia controlar. Bohemund, que tinha acompanhado Robert Guiscard numa perigosa invasão das possessões Bizantinas na Albânia e na Grécia entre 1081 e 1085, de maneira irónica, solicitou a Alexius o comando das operações de todo o Oriente. Se concedido, isto faria dele o vice-rei, com poderes imperiais sobre todas as terras que os cruzados pudessem conquistar. Não se sabe se Alexius atendeu ao pedido, mas sabe-se que ele exigiu dos príncipes Francos o juramento de que lhe entregariam todo o território conquistado pelos turcos, que antes fizesse parte do seu reinado. Isto significava que Alexius esperava o retorno da península da Anatólia e da cidade de Antioquia aos seus domínios, não se importando com os territórios que fossem conquistados na Palestina pelos cruzados.
Assim, os Francos e os Bizantinos começaram ressentidos uns com os outros a sua jornada pela Ásia Menor, onde cercaram e obtiveram a rendição da cidade de Nicéia em 1097, que só não foi saqueada pelos Francos devido à intervenção das tropas Bizantinas. Este facto intensificou o ressentimento dos Francos em relação aos Gregos, cujos costumes religiosos eram diferentes e cujo nível cultural era superior ao seu. Apesar das diferenças entre os dois exércitos, toda a Anatólia foi reconquistada aos turcos seljúcidas e retornou para o domínio de Alexius. Nesse meio tempo, a esquadra principal dos cruzados lançou âncora nas proximidades de Antioquia, cidade ao norte da Síria, em Outubro de 1097. Esta cidade foi tomada a 3 de Junho de 1098. No seu caminho pela costa da Síria com destino a Jerusalém, os Francos conquistaram todas as cidades por onde passaram. Estas cidade eram domínio do Califa do Cairo. Finalmente, após sangrenta luta, os Francos conquistaram Jerusalém e recuperaram a posse do Santo Sepulcro em 15 de Julho de 1099, com grande mortandade de cristãos, árabes e judeus. Na ocasião, a cidade era governada pelos árabes xiitas.
Existiram no total oito cruzadas, a última, decidida em 1267 por Louis IX de França, que não chegou a Jerusalém porque Luiz IX morreu na Tunísia em 1270. A quarta cruzada não foi contra os árabes, mas contra os Albigenses, que professavam a religião Cátara e que foram massacrados pelos cruzados em Béziers em 1209 (60.000 mortos) e em 1211, nas cidades de Castres, Pamiers, Albi, Minerve, etc. Em 1219, houve o massacre da cidade de Marmande, durante o qual homens mulheres e crianças pereceram. Por último a cidade de Montségur foi transformada numa fogueira, onde morreram todos os Cátaros que restavam. Eles adoptavam a Bíblia, acreditam em Deus, mas eram dualistas, isto é, acreditavam só na existência de dois princípios opostos, o Bem e o Mal. Isto era considerado herege pela Igreja de Roma.
O fim das cruzadas
O ideal das cruzadas não tinha morrido. Os Papas – os Pontífices, os construtores de pontes, os árbitros da Paz – continuaram a pregar mais cruzadas contra os muçulmanos, porém a sua voz deixou aos poucos de ser ouvida. Apesar disso, várias expedições foram iniciadas, uma das quais saqueou Alexandria no Egipto, em 1365.
Outras expedições foram enviadas não só contra a Terra Santa, mas também contra a cidade de Esmirna (1344) e mais duas invasões nos Balcãs, que terminaram em derrota em Nikopol (1396) e em Varna (1344).
O príncipe português, dom Henrique o Navegador, o genovês Cristóvão Colombo e o almirante português dom Afonso de Albuquerque (conquistador da Índia e das cidades que controlavam a navegação no golfo pérsico) foram todos solenemente aclamados, porque as suas viagens restringiram o domínio muçulmano à parte oriental do mar Mediterrâneo.
Na Dieta de Augsburg, em 1530, os Luteranos, piedosamente, concordaram com os católicos em abrir guerra contra os Turcos – que tinham conquistado recentemente a Hungria – retornando depois às suas próprias divergências religiosas com o Papa. Desta expedição participou a armada portuguesa ,que junto com a francesa, derrotou os turcos no cabo de Matapão. Na verdade, a Europa Ocidental tinha, desde o início, aplaudido a ideia de uma guerra santa. No entanto, devido aos seus próprios problemas, nenhuma outra cruzada recebeu tanto apoio quanto a primeira. As guerras dos cavaleiros Teutónicos nas praias do mar Báltico, a Guerra dos Cem Anos na França, a reconquista da Espanha dos Mouros e as campanhas contra os Turcos Otomanos, desviaram a atenção do Santo Sepulcro. Além disso, os Papas, desde o cisma com a Igreja Ortodoxa, nunca mais estiveram em condições de pregar por novas cruzadas com sucesso.
Finalmente, o nascimento das monarquias nacionais, a difusão do comércio, o aumento de influência da classe média, a gradual eliminação do feudalismo, a Renascença, as Grandes Descobertas Marítimas de Portugal e da Espanha, e a Reforma de Lutero, tudo isto contribuiu para que o ideal das cruzadas desaparecesse da mente colectiva europeia.
Os resultados das cruzadas
Um trágico resultado das cruzadas foi a destruição do império e da civilização Bizantina. Os Bizantinos nunca se recuperaram depois da quarta cruzada. O seu governo, restaurado em Constantinopla em 1261 era uma pálida sombra do império anterior, e caiu para os Turcos Otomanos em 1453, ano que marcou a Renascença europeia. Desde daí ocorreu o declínio da cultura cristã ortodoxa. Assim foi destruída a esperança do Papa Urbano II de unir a cristandade do Oriente com a do Ocidente.
Um segundo resultado das cruzadas foi o triunfo militar do Islão no Oriente Médio. Não só os cruzados foram rechaçados, mas o Islão, sob o comando dos turcos otomanos, atacaram e conquistaram parte dos Balcãs nos séc. XIV e XV, chegando às portas de Viena d’Áustria nos séc. XVI e XVII. Somente em Portugal, na Espanha e na costa oriental do mar Báltico, conseguiu o movimento dos cruzados estender a conquista Cristã de maneira permanente.
Por outro lado, o Islão também foi muito afectado pelas cruzadas. Considerando que os muçulmanos tinham sido bastante tolerantes com os cristãos e judeus cujo território tinham conquistado, o rude tratamento que receberam dos cruzados por três ou quatro séculos tornou-os totalmente intolerantes, principalmente nas regiões governadas pelos sultões Mamelucos e Otomanos. A própria cultura árabe sofreu com as invasões dos cruzados.
Quando as cruzadas começaram, o Islão possuía um notável nível cultural, bastante superior ao da Europa. Quando as cruzadas terminaram a situação estava invertida, com os europeus ostentando nível cultural superior ao dos árabes. Esta mudança não pode ser atribuída às cruzadas, mas sim à transferência do conhecimento árabe para a Europa, através da Espanha, da Sicília e da Renascença.
O comércio no Mediterrâneo foi altamente estimulado pelas cruzadas. Especiarias, tapeçarias, almofadas, drogas, frutas, açúcar, joalheria, perfumes, vidro e refinados produtos de aço, além de grãos, madeira, cavalos, eram trazidos dos portos árabes da África e do Mediterrâneo Oriental para a Europa. Os navios árabes passavam o Estreito de Gibraltar (Djebel al Tarik. Obs. Tarik foi o árabe que comandou a invasão da Europa no ano 711. Daí o estreito ter o seu nome) e subiam até ao norte da Europa.
Uma outra importante consequência das cruzadas no ocidente foi, a introdução da cultura árabe que trouxe, além dos novos conceitos de arquitectura e de pintura, também trouxe a vasta literatura em forma de histórias, lendas, canções, crónicas e a historiografia. Muitas destas canções e contos fazem parte hoje do vernáculo e da cultura de vários países, principalmente de Portugal, da Espanha e da França.
Ao contrário, a Europa ocidental pouco ou nada contribuiu para enriquecer intelectualmente o mundo islâmico. Na época das cruzadas, o Ocidente tinha muito pouco para oferecer ao Islamismo.
António Rocha Fadista, M∴ I∴

- Templos Maçónicos II
- Adão: foi o primeiro Maçom?
- A Cruzada dos Descobrimentos
- Liberdade, Igualdade, Fraternidade na civilização digital
- A Maçonaria nos dias de hoje


Excelente
Texto execente alguns trechos eu desconhecia