Do Brechó ao Vazio: A Era da Nescionaria na Maçonaria Contemporânea

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medalha maçónica, nescionaria

Em “As Viagens de Gulliver”, Jonathan Swift apresenta um peculiar cientista da Academia de Lagado, obcecado em simplificar a linguagem ao ponto do absurdo. A sua proposta? Substituir palavras por objectos, carregando-os em sacos para estabelecer comunicação. O que parece uma sátira distante encontra, surpreendentemente, um reflexo perturbador na realidade da Maçonaria contemporânea.

O momento actual é a era do que denominamos “nescionaria” – um neologismo que captura perfeitamente o processo de esvaziamento e banalização que assola a Fraternidade maçónica. Como um brechó que comercializa peças avulsas de diferentes origens, a nescionaria oferece uma versão diluída e fragmentada da Maçonaria, onde valores, rituais e tradições são negociados como mercadorias de segunda mão.

Esta transformação não aconteceu da noite para o dia. Foi um processo gradual, impulsionado pela mesma mentalidade que levou o cientista de Swift a acreditar que poderia melhorar a comunicação eliminando a sua complexidade. Na Maçonaria actual, testemunhamos uma obsessão similar pela simplificação, que sob o pretexto de “manutenção dos valores tradicionais” e “acessibilidade”, destrói a própria essência da instituição.

Observe o processo de iniciação: o que antes era um momento solene de transformação pessoal, precedido por cuidadosa selecção e preparação, tornou-se uma espécie de “liquidação de valores”. Candidatos são aceitos em massa, submetidos a rituais realizados de forma apressada, sem atenção aos detalhes da cerimónia e explicações superficiais. Como num brechó onde etiquetas de preço substituem o valor real das peças, a iniciação maçónica foi reduzida a um procedimento mecânico, desprovido do seu significado profundo.

Os trabalhos em loja seguem o mesmo padrão de empobrecimento. As reuniões, que deveriam ser momentos de verdadeiro desenvolvimento moral e intelectual, transformaram-se em encontros protocolares onde rituais são executados mecanicamente, como funcionários entediados de uma loja de departamentos em fim de temporada. A ritualística, antes um veículo de transformação pessoal, tornou-se uma sequência de gestos vazios, executados sem compreensão ou reverência.

A instrução maçónica, por sua vez, assemelha-se cada vez mais a um “outlet de sabedoria”. Apresentações superficiais substituem o estudo profundo, explicações prontas tomam o lugar da reflexão pessoal, e a tradição secular da instituição é reduzida a fórmulas simplificadas e conceitos pré-digeridos. Como num brechó onde peças únicas se misturam a produtos em série, a nescionaria nivela por baixo a experiência maçónica.

Este empobrecimento se reflecte também na selecção de membros. A quantidade é privilegiada sobre a qualidade, os critérios de admissão são flexibilizados ao extremo, e o compromisso com os valores maçónicos é substituído pela mera conveniência. A Maçonaria, que deveria ser uma escola de virtudes, tornou-se um clube social onde o desenvolvimento moral e intelectual é opcional, visto que os “ágapes” tornaram-se o momento principal.

A nescionaria se vende como uma versão “moderna” (porque resgata uma suposta tradição maçónica que nunca existiu!) e “acessível” da Maçonaria, mas o preço desta suposta acessibilidade é a própria essência da instituição. A prática ritualística é colocada em segundo plano, muitas vezes mal executadas, sem a mínima preocupação em compreender o significado de cada passagem, estudos são simplificados para “facilitar a compreensão”, e as tradições são modificadas de forma escancarada por quem não estuda e, assim, não compreende as diversas escolas maçónicas. Como resultado, temos uma versão diluída da Maçonaria, tão distante da sua proposta original quanto o cientista de Lagado estava de uma verdadeira melhoria na comunicação.

Mas, assim como o canário de Machado de Assis que confundia a sua gaiola com o mundo inteiro (sugiro a leitura deste texto: “Por que temos que nos contentar com as sobras?”), muitos maçons modernos parecem não perceber o quanto perderam. Acostumados com a versão empobrecida oferecida pela nescionaria (Rizzardo Da Camino e outros prestidigitadores do saber representam exemplo deste empobrecimento com o uso do “javanês”), contentam-se com as sobras de uma tradição que já foi muito mais rica e significativa.

O resgate desta situação exige mais do que simples ajustes superficiais. É necessária uma mudança fundamental de mentalidade. A Maçonaria não é e nunca foi uma instituição destinada ao consumo em massa. A sua proposta de desenvolvimento moral e intelectual exige dedicação, estudo e comprometimento sincero.

Para superar a nescionaria e romper o círculo vicioso que domina a Fraternidade, é preciso primeiro reconhecer a sua existência e os seus efeitos nocivos. É necessário abandonar a mentalidade de “brechó” e resgatar a dignidade da tradição maçónica. Isso significa restaurar o valor da experiência ritualística, recuperar a profundidade do significado dos rituais e símbolos maçónicos, retomando-se a seriedade na selecção e formação de novos membros.

O verdadeiro desafio da Maçonaria contemporânea não é tornar-se mais “acessível” através da simplificação, mas preservar a sua profundidade e dignidade num mundo que privilegia o superficial e o descartável. Não é possível ou aceitável contentar-se com as sobras das tradições maçónicas, com fragmentos desconexos de um todo que já foi muito mais significativo.

A Maçonaria não é uma loja de departamentos em liquidação, onde valores e tradições são negociados a preço de ocasião. É uma escola de virtudes que exige dedicação, estudo e compromisso sincero com o aperfeiçoamento pessoal e colectivo. Somente rejeitando a mentalidade de brechó e resgatando a sua verdadeira essência será possível devolver à Arte Real o seu papel transformador na sociedade.

Rui BadaróAltStuhlMeister da Justa e Perfeita Loja de São João nº 680

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