Carta de um Profano aos Bons e Regulares Maçons

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juventude, carta

O Dr. João Branco, Professor do ensino secundário, é um colaborador que me tem ajudado de forma preciosa em todos os problemas relacionados com a falta de visão de quem pretende escrever e muito num computador. Isto para não falar já de toda a ajuda no que diz respeito ao computador propriamente dito.

Conhecedor dos temas do Congresso por dever de ofício e por que é um homem de notável inquietação cultural, resolveu por bem escrever-me uma carta na qual me comunica a sua visão no que respeita aos problemas do envolvimento dos jovens com a Maçonaria. Aqui fica pois a opinião de um semi-profano (espero que um dia deixe de o ser), transcrevo a parte mais importante da carta.

Fernando Teixeira [1]

Os motivos que me levaram a escrever esta missiva não albergam pretensiosismos de espécie alguma, nem tão pouco me orientam quaisquer intenções de pseudo-iluminidade. Tão somente, a minha colaboração com o Sr. Professor F. Teixeira, permitiram-me tomar conhecimento de alguns dos mais pertinentes problemas com que se debate actualmente a Maçonaria Regular e, julgo poder enunciar uma modesta opinião partindo do princípio mediático, tão em voga “ao encontro do país real”.

E porque ouso, eu um profano, dissertar sobre tão delicado assunto? Bem, partindo do enunciado Aristotélico que a potência precede o acto, penso que, qualquer homem de bons costumes constituirá um Maçon em potência, daí que esta missiva imbuída da maior descrição vale por si só o que vale, a opinião de um indivíduo de bons princípios.

É sobejamente conhecido, dos problemas com que se debate a Maçonaria neste virar de século, a cativação da Juventude, assume contornos de especial preocupação. Tendo leccionado a disciplina de História, durante três anos na Escola Secundária Dr. Manuel Fernandes, em Abrantes, partindo do facto de que a dita cidade tem pouco mais que 13.000 habitantes, fácil é constatar, que a relação professor-aluno, excede a área da Escola propriamente dita, evadindo a esfera do familiar e do social. Daí que, principalmente no que diz respeito aos alunos dos anos terminais do Secundário, são muitos os que deixando a Escola, prosseguindo na estrada da vida, continuam a ser rostos conhecidos, alguns, outros mais que isso continuam sempre a ser o André, o Marco, a Isabel, etc., etc., jovens que fazem parte de universo real, onde é fascinante observar a evolução, a regressão ou estagnação do seu carácter, dos seus sonhos, das suas ambições, das suas opiniões, etc., etc…

É deste “laboratório real” que retiro as impressões que adiante registo, e que constituem a razão desta missiva.

O problema da falta de interesse dos jovens pela Maçonaria, não pode ser visto como um problema particular, ou seja, em relação à Maçonaria, mas sim inserida num todo – a falta de interesse dos jovens, por tudo em geral – Daqui resulta saber separar o trigo do joio, a maioria dos jovens, por razões diversas (que segundo o meu ponto de vista e que tentarei explicar), não têm interesse por coisa alguma que não seja tangível e imediatista, portanto não constituem a priori um universo ideal, de onde surgirão os continuadores da Obra.

Recorro à minha (pouca) experiência docente (mas pertinente, pois decorre em circunstâncias especiais, como acima refiro), para ilustrar esta afirmação.

Começo por dividir o universo total dos jovens em três grupos:

O primeiro de cerca de 10% dos jovens em idade escolar pré-selectiva (nos anos terminais do secundário, e onde tomam as primeiras opções), estão hiper-preocupados com o seu futuro, planificando mais ou menos ao milímetro as suas carreiras, inclusive até as suas opções mais privadas (casamento, constituição de família, etc.). Este grupo é constituído por jovens cujos pais exercem profissões liberais, os quais cedo imbuem os seus filhos de um feroz espírito competitivo, onde os desvios (actividades sociais, desportivas, de entretenimento, ou outras), não são bem-vindos, funcionando esporadicamente como um prémio pontual para o sucesso dos seus filhos.

Não é neste universo (apetecível, se atendermos meramente nas características sociais, culturais e intelectuais), que a Maçonaria encontrará o terreno de recrutamento para o desenvolvimento e perpetuidade da mesma. Pois, é bom de ver, que salvo uma ou outra excepção, a devoção e dedicação à causa Maçónica não poderá coexistir com as pressões familiares rumo ao sucesso, e mais importante com as opções pragmáticas e excessivamente materialistas destes jovens, cuja opção de vida é estritamente individualista, portanto contrária aos princípios de Irmandade e Fraternidade.

Surgirá depois um segundo grupo de cerca de 70% que constituem o comumente designado por geração Pepsi-Vídeo, ou seja, não possuem um mínimo de bagagem intelectual e cultural que lhes permita aceder a algo mais do que os esforço racional para abrir uma lata de Pepsi ou entender um filme Stallone.

Sobre estes poderia dar inúmeros exemplos, desde o que julga que D. Afonso Henriques foi o primeiro Presidente de Portugal, passando pelas hilariantes e confrangedoras afirmações do Muro de Berlim ser uma antiga muralha da cidade de Lisboa, até ao completo desconhecimento de que decorreu (decorre?) uma guerra civil na antiga Jugoslávia.

Enfim, nem já a actividade chewing gum Televisiva, fonte cultural de tantas gerações nos vale. Estes jovens, alguns simpáticos sem dúvida, perpetuam uma matriz familiar no que ela tem de pior (o nacional parolismo) e acrescentam-lhe os modelos estrangeirados, completamente deturpados e desfasados que nos chegam através da maioria dos mass media. Ainda com a agravante de serem a primeira colheita semeada há anos atrás, fruto da total e completa devastação do Sistema de Ensino.

Sei que é lugar comum considerar a geração anterior como detentora de todos os defeitos, carimbando-a com o estigma no hope, no future, quando os nossos pais diziam exactamente o mesmo, os nossos avós, e assim regressivamente. Mas atenção! Há vinte anos atrás a evolução dos costumes e tradições ainda respeitava um natural processo que evoluía lentamente. Pegue-se por exemplo, nos rituais de acasalamento e na sua projecção pública. Se partirmos dos anos 40 verificamos que até à década de 70 (30 anos), a demonstração pública do afecto evoluiu decorosamente do casto e cavalheiresco beija-mão, até, quando muito um beijo na face, quase somente após consumação do matrimónio. Pois foram precisos somente 10 anos, para assistirmos ao desmoronamento de todas as regras e princípios. É esta velocidade e a consequente chegada a um ponto terminal de evolução, que constitui a diferença entre as anteriores gerações e a actual. Nos nossos dias, tudo se passa muito rápida e superficialmente – alcançámos a técnica e perdemos a civilidade.

Pois, atendendo às características de quem viver terreamente de forma “aligeirada”, não é neste universo que se irão encontrar indivíduos com sensibilidade para as causas Maçónicas.

Restam 20% (terceiro grupo), que se encontram no meio termo entre o primeiro e o segundo grupos. Destes se considerarmos que um pouco mais de metade são do sexo feminino ficam 10%. São aqueles que demonstram voluntariedade nas iniciativas escolares e programas de formação e esclarecimento (sobre a sida, a droga, etc.), cujo empenho e interesse pelas causas sociais de solidariedade e outras, pode em devido tempo, e quando devidamente esclarecidos despoletar o seu interesse pela Maçonaria.

Neste pequeno, mas qualitativo universo pode a Maçonaria conquistar inúmeros adeptos. Como? Antes de enunciar a minha opinião para esta interrogação, permita-se-me referir o que julgo que estará a ser impeditivo de uma maior adesão de jovens (ressalvando o universo de recrutamento, que já referi). Penso que, e dando o meu exemplo pessoal, partindo do principio de que antes de conhecer o Sr. Professor F. Teixeira (e apesar de possuir formação universitária), nem sabia distinguir Regularidade de irregularidade, julgo que a grande pecha reside (perdoe-se-me se vou ao engano), na falta de marketização e definição das características de um mercado-alvo, neste caso a juventude, e num menos eficaz modo de fazer chegar a ela uma mensagem susceptível de lhe gerar interesse. É que sem dúvida, iniciativas como por exemplo a ocorrida na Universidade Nova (“O ponto de vista da G∴ L∴ R∴ P∴ acerca das Religiões”), são importantíssimas e louváveis, mas não se dirigem, em minha opinião ao tal mercado-alvo – a juventude.

Quem assistiu, verificou que a ilustre assistência era constituída na sua maioria por já convertidos, pertencentes a um escalão etário médio su­perior. Conclui-se porquanto que, para um alvo específico é necessário um discurso e uma acção específica.

Retomo, agora a pergunta com que iniciei o parágrafo anterior, cativar a juventude, como?

Aponto duas soluções distintas :

  1. A primeira consistiria na formação, de como direi, uma comissão, que tomaria a seu cargo a iniciativa de contactar Associações de Estudantes, Associações Académicas, Tertúlias (estas com a vantagem de serem na sua esmagadora maioria constituídas unicamente por indivíduos do sexo masculino), etc. etc., e promover sessões de esclarecimento (parece soar um pouco a PREC, mas julgo fazer entender o sentido), de preferência promovidas por elementos na sua maioria ainda jovens, ou melhor ainda, com a intervenção de figuras de reconhecido peso público.
  2. A segunda, mais virada para o futuro, e de resultados menos ¡mediatos seria a directa intervenção no próprio processo de formação e educação dos jovens, ou seja a constituição de Colégios e até de um estabelecimento de Ensino Superior, onde se aliassem a qualidade de ensino (pré-contando com o exercício da docência por parte de ilustres Membros da Maçonaria) com vista a uma real capacidade de integração no mercado de trabalho (pré-contando com a absorção por parte de alguns membros da Maçonaria ligados aos sectores empresarial, comércio, serviços e outros), com uma adequada formação Humanística que realça-se os valores e princípios, como direi, filosóficos que sustentam a Maçonaria Regular.

Eis portanto, em síntese a minha opinião acerca de tão delicado assunto.

  • Definição e Caracterização de um M/A [2]
  • Identificação dos Processos anteriores
  • Planificação de Medidas com vista ao M/A [2]
  • Execução do Piano

Ressalvo mais uma vez, que nenhum outro interesse me moveu ao promover esta minha opinião, que não fossem as anteriormente descritas.

João Branco [3]

Notas

[1] Antigo Grão-Mestre da Grande Loja legal de Portugal / Grande Loja Regular de Portugal, já falecido

[2] Modo de Actuação (????)

[3] Carta escrita em data desconhecida na década de 90 do Século XX

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