Como interpretar os símbolos e alegorias maçónicas

Partilhe este Artigo:

g entre nuvens, símbolos

A Loja Maçónica não é um lugar de psicanálise, onde cada qual interpreta os Símbolos como lhe apetecer. Esta é a resposta que damos aos que afirmam que os Símbolos Maçónicos são interpretados subjectiva e livremente, isto é, deixados ao livre arbítrio. É também a resposta aos que afirmam que as Colunas Vestibulares são os órgãos sexuais masculino e feminino, que o Esquadro e o Compasso unidos representam o coito, que a letra “C” alude ao órgão gerador masculino. Geralmente há autores de livros que defendem ou copiam tais tolices, como há aqueles que, por nada entenderem de Maçonaria, defendem a liberdade da interpretação dos Símbolos. São ignorantes, desconhecem a História, as Filosofias (e muitos dizem-se “filósofos” e chegam a fundar associações ditas filosóficas). Falam talvez, mas os seus discursos não passam de generalidades pueris bem tramadas, como na táctica usada por espertas cartomantes.

Vejamos, em primeiro lugar, o que é “simbólico“.

A palavra deriva do grego “synbalon” que traduzida para um português mais coloquial é “símbolo”. O prefixo “syn” já revela “conjunto”, “reunião”. Todo o símbolo, seja convencional, histórico ou tradicional, representa geralmente uma reunião de ideias ou princípios, quando não signifique uma só ideia ou expressão. É importante assinalar que o Símbolo Maçónico é sempre ideológico e não simplesmente ideográfico.

O Símbolo Maçónico distingue-se pela sua universalidade e como expressão de ideias pacificamente aceites pela humanidade civilizada. Por conseguinte, o Maçon não deve “particularizar” o símbolo a seu gosto.

Todo o Símbolo Maçónico é de comunicação nos âmbitos da Sublime Instituição, ainda que, por motivos históricos, não seja originário da Maçonaria, mas de tradições morais profanas. Assim, o Maçon desregrado ou indisciplinado prejudica a comunicação universal; é um obreiro pernicioso e vaidoso, ainda que invoque a liberdade de opinião a seu favor, ou a sua (falsa) maneira de se defender e de impor as suas ideias pessoais.

Acresce que, todo o Símbolo Maçónico requer interpretação coerente, lógica, e inspiradora de lições morais. Dissemos “inspiradora”, porque iniciação é inspiração e não simplesmente ensinamento ou pregação.

Muitas vezes a interpretação universal profana pode na Maçonaria tornar-se complexa, isto é, toma outros sentidos além do original. Isto graças aos autores Maçons chamados “clássicos”. Tal complexidade converte-se em tradição maçónica e passa aos Rituais. É preciso, porém, que subsista uma conjunção perfeita de sentido moral ou razões da História e da Evolução do Pensamento e das “verdades superadas”, ou melhor, daquilo que não é mais verdade.

Vejamos, por exemplo, o que aconteceu com a letra “G”, do Grau de Companheiro.

Quando surgiu a Maçonaria Especulativa, ela significava somente “GEOMETRIA”, a ciência de origem egípcia considerada pelos filósofos gregos como base Moral e da Filosofia. Aliás, os antigos Pedreiros livres falavam de “Boa Geometria” como base do comportamento moral e profissional (v. Poema Regius).

Voltando aos antigos gregos, os seus filósofos basearam na Geometria a Ordem, Equilíbrio e Harmonia do Universo. Citemos, agora, o catecismo do ano de 1730, conforme as rigorosas pesquisas da Loja “Quatuor Coronati” em velhos Rituais (v. Bernard E. Jones, em “Freemason Guide and Compendium”, págs. 299 a 301):

  • Why was you made a Mason?
  • For the sake of the Letter G.
  • What does it signify?
  • GEOMETRY
  • Why GEOMETRY?
  • Because it is the Root and foundations of all Arts and Sciences.

Aí está a letra “G” com o significado original de “Geometria”, a quinta ciência, tida como o caminho e a base fundamental de todas as artes e ciências. Realmente, na escala das Artes Liberais e no “trivium et quadrivium” a Boécio (470 a 525, m. ou m., de nossa E:.V:.), a Geometria era a quinta arte da série de sete muito antes e remotamente adoptada pelos gregos e outros povos: GRAMÁTICA, RETÓRICA, (ou Dialéctica), LÓGICA, ARITIMÉTICA, GEOMETRIA, MÚSICA e ASTRONOMIA.

As quatro últimas ciências constituíam a MATEMÁTICA. Daí, esta outra lição do Grau de Companheiro, da mesma época:

  • Why was made a Fellow-Craft?
  • For the Sake of the letter G.
  • What does that G denote?
  • Geometry or the Fifth Science.

Nos dois exemplos vemos que o Maçon ou Companheiro (Fellow) era Iniciado por devoção à letra “G”.

Já no mesmo século (XVIII), a imaginação de Maçons começa a acrescentar ao original outros significados. Eis um exemplo do ano de 1766:

  • Why was Made a Fellow-Craft?
  • For the sake of the letter G, which is included in a Great Light. (A Grande Luz é a “Blazing Star”, de seis pontas.)
  • What does the G denote?
  • GLORY, GRANDEUR and GEOMETRY, or the Fifth Science, Glory for God, Grandeur for the Master of the Lodge, and Geometry for the Brothers (Glória para Deus, Grandeza para o Venerável e Geometria para os Irmãos).

 Afirma-se, de acordo com escritos por volta de 1730, bem antes do exemplo referido, que em algumas Lojas se adoptava esta lição:

  • When you came into the middle, what did you see?
  • The Resemblance of the letter G.
  • Who do that G denote?
  • One That’s greater than you. (ortografia original.)
  • Who’s greater than I, that am a Free and Accept Mason, the Master of the Lodge?
  • The Grand Arquitect and Contriver of the Universe, or He that was taken up to the Top of the Pinacle of the Holy Temple.

Então, chegado ao Meio (ou meio-dia), o Maçon vê a letra “G” a representar algo de grandeza muito maior, sumamente maior do que aquela de qualquer Irmão; o Grande Arquitecto do Universo e Construtor de todos os mundos.

Aí se reproduziram, por conhecimento, imitação ou sugestões, as ideias de Platão (420-347 a. C.), na sua obra “Timeu” (VI, 29, 30, VIII, IX, 34-37), onde o filósofo, discípulo de Sócrates e seguidor, em parte, de Pitágoras, identifica o GRANDE GEÓMETRA, O MAIOR EM BONDADE, QUE CRIOU A OBRA MAIOR DE TODAS. E como ele criou o Universo? Responde o filósofo: “Ordenando o Caos, por formas (Geometria) e números”. Por sua vez, Aristóteles (384-322 a. C), na sua obra “De Caelo” (1/10, 380), analisando as ideias platónicas, afirmou: “Fala-se da criação do mundo, de modo análogo aos geómetras”.

Provamos assim, que o Simbolismo Maçónico não é uma invenção arbitrária. As suas bases assentam no profundo conhecimento da História da Filosofia. Por isso mesmo sustentamos que o Maçon pouco versado nas ciências ou mal-informado não deve abalançar-se a ensinar Maçonaria. Os Símbolos, todavia, instruem os leigos e constituem a síntese do conhecimento humano (Gnose), através da História. E aí está a interpretação da letra G deste a sua génese e o seu desenvolvimento, como exemplo.

Luiz Gusmão – M:. M:.

Artigos relacionados


Partilhe este Artigo:

2 thoughts on “Como interpretar os símbolos e alegorias maçónicas”

  1. Pedro Paulo Buchalle

    Belíssima matéria. Sempre achei que eu estava sozinho, ou no máximo com meia dúzia de comprometidos com este sentido filosófico.
    Fico pensando, aqui dos meus 62 anos de vida e 23 na Ordem Maçônica; quanto desperdício de conhecimento !
    Quantos, em 1.000 maçons têm noção da grandeza de seus símbolos e alegorias ? Quantos, mesmo que preliminarmente, conseguiram sair do entendimento meramente literal ? Para não dizer do absurdo maior: Quantos terão noção, minimamente, do que é ser iniciado ?
    Quanto desperdício ? Quem reponde primariamente por este absurdo que são as inomináveis iniciações vazias e sem nenhum sentido ?

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *


Scroll to Top