Cultura, transformação e mídia: uma breve reflexão “também maçónica”

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cultura

O termo cultura, originalmente vinculado com o processo de desenvolvimento e aplicação de saberes relacionados ao cultivo agrícola, é incorporado na esfera dos estudos sociológicos pela primeira vez por Edward Taylor [1], representando, no pensamento alemão (que o distingue do conceito de civilização),

a vida espiritual, religiosa, literária, artística, os costumes e o género de vida que fazem que um povo se afirme na sua particularidade e se diferencie dos outros”, sendo também o seu uso alargado “a todo o estado de espírito próprio de um grupo social seja ela qual for” ou a “tudo o que diz respeito às artes no sentido vasto[2].

A culturalização de um povo é considerada como um processo que possui origem a milhões de anos, sendo resultado de um conjunto de experiências vividas no tempo/espaço que são incorporadas de forma intrínseca, ou extrínseca, nos traços e valores culturais e particulares nos mais variados grupos, sociedades ou povos. A cultura, como objecto de estudo, traz para si acepções que se esforçam em percebê-la (dentre um horizonte amplo de sistemas simbólicos [3] como objectiva/subjectiva, material/não-material, real/ideal [4].

Além da sua demarcação ser complexa, percebe-se que a noção de cultura incorpora em si a característica de se manifestar ao mesmo tempo através de traços que denotam singularidades e semelhanças entre grupos de pessoas, fazendo com que, ao mesmo tempo em que sejam distintos, sejam indistintos como unidades sociais. Desta forma, somos remetidos a nos afastar de uma noção singular do termo e adoptarmos a noção de “culturas” como manifestação dos traços que definem determinados recortes da sociedades.

Partindo deste ponto de vista, não é difícil de perceber que as dinâmicas e movimentos de (e entre) pessoas, grupos e povos representam condicionantes que induzem contínuas mudanças. Este fenómeno, é capturado pela noção de “Culturalismo” [5], se caracterizando como um elemento propulsor de transformações e adaptações das sociedades. Como exemplo destas dinâmicas, podemos resgatar os desafios e conflitos gerados pelas transformações que ocorrem nos sistemas de valores e práticas sociais de grupos de pessoas que se deslocam entre regiões [6], ou os impactos provenientes da vida urbana contemporânea frente a mudanças que estão ocorrendo nos paradigmas da modernidade nas esferas da individualidade, do tempo/espaço, do trabalho e da noção de Estado-Nação [7].

Vistas como processos fluidos e complexos que se manifestam de maneira peculiar, dependendo do aspecto observado, as dinâmicas de culturalismo dialogam com perspectivas descritas como pluralismos, interculturalismos, multiculturalismos, hibridismos, diversidade cultural, dentre outras [8].

Entendido como uma constante em países como o Brasil, o hibridismo cultural ganha espaço como fenómeno perceptível, frente a intensa conexão entre povos contemporâneos oferecendo oportunidades para criação tanto de culturas globalizantes, quanto globalizadas, circunscritas em espaços de diversidade e pluralismo culturais. Sobre este aspecto podemos identificar três pontos de inflexão que se ocultam frente a um olhar menos atento aos elementos de fundo que actuam como influenciadores [9]. O primeiro diz respeito a dicotomia entre “assimilação” e “autonomia” das estruturas de valores de determinada sociedade frente as pressões localizadas nos sistemas de capitalismo tardio advindas do processo de globalização. O segundo, está relacionado com as causas da ingénua impressão da existência de autonomia das manifestações culturais, na medida em que o processo globalizante das sociedades contemporâneas também se caracteriza como sendo uma universalização das contradições dos actuais sistemas económicos dominantes. E o terceiro vincula-se aos fundamentos da cultura mercantilista de consumo que, de certa forma, incorpora uma integração que permite a inclusão selectiva associada a concomitante produção de exclusões.

Ainda sob a égide dos efeitos da globalização, o multiculturalismo caracteriza-se pelas pressões oriundas de demandas lançadas ao estado, ao mercado e a outros actores sociais, bem como de movimentos de retorno ao passado, de reconstrução/invenção de identidades colectivas e de redefinições de padrões societários, que submetem a identidade pessoal e colectiva a enfrentar quatro desafios [10]. O primeiro é o desafio da “abertura” que põe em confronto os processos tradicionais de produção e reprodução da identidade com a própria historicidade, remetendo os sujeitos à necessidade de reconhecer dentro de si a presença/ausência de outros sujeitos e negociar com eles os seus valores e demandas. O segundo é o desafio da “reflexividade” que confronta a “ameaça” de destruição ou subordinação dos elementos identitários frente às relações com outras identidades, levando o sujeito ao constante trabalho reflexivo sobre si mesmo. O terceiro desafio é o da “política” que está relacionado com a dimensão política da identidade frente às constantes perdas de referência histórica, e deslocamentos, geradas pelo contacto com os elementos da globalização, exigindo uma constante negociação com as assimetrias que pressionam (re)construções e (re)significações. Finalmente, o quarto desafio é o do “pluralismo” que compreende a congregação de macro e micro actores em ambientes de regime de repartição que se caracterizam muitas das vezes como injustas, assimétricas e excludentes entre diversos grupos, comunidades e povos.

A sociedade contemporânea, que percorre a segunda metade do século XX até os dias actuais, incorpora também na sua trajectória as influências positivas e efeitos colaterais do expoente desenvolvimento das tecnologias de informação e comunicação (TICs) ao ponto de ser denominada tanto de “Sociedade da Informação”, quanto de “Sociedade Digital”, na medida em que os meios de comunicação tradicionais abrem espaço para dispositivos e redes digitais provocando profundas transformações nas amalgamas culturais dos povos ao contacto com os computadores, videogames, internet, cartões de crédito, aparelhos celulares e outras tecnologias que proporcionam conforto e segurança, destroem barreiras territoriais, aceleram o tempo, aproximam pessoas, promovem melhoria da saúde, mas também segmentam, afastam e excluem [11].

Dentro deste contexto, a mídia torna-se poderoso agente indutor de transformação cultural e social na medida em que se utiliza das tecnologias e da sua força influenciadora no contacto com os indivíduos. Para além da influência determinante no estabelecimento de pautas políticas, esta midiatização transforma o presente em palco orquestrado (a exemplo do fenómeno midiático gerado durante a Guerra do Golfo, e outros conflitos armados, e das performances musicais, tanto ao Vivo, quanto mediadas por produções digitais), em plataforma geradora de tendências e valores (a exemplo das experiências e influências provocadas pelo arcabouço midiático do Burger King ou ao McDonald’s que não se restringe apenas às instalações das suas lanchonetes) e em dimensão virtualizada da experiência da vida (a exemplo dos Vídeo Games e Bancos Online) [12], de tal forma que se torna evidente que

“Os meios de comunicação influenciam e intervêm na actividade de outras instituições, tais como família, política, religião organizada etc., ao mesmo tempo que também proporcionam um espaço público para a sociedade como um todo, isto é, fóruns de comunicação virtuais compartilhados que outras instituições e actores, cada vez mais, utilizam como espaços para a sua interacção”.

(HJARVARD, 2012. p. 68).

Após tecer estas considerações finalizo o presente ensaio ressaltando que, para além de algo preconcebido e imutável, os sistemas culturais são sensíveis à influência midiática que provoca constantemente mudanças a medida em que o processo ocorre na intensidade e direcções resultantes da confluência das relações entre indivíduos e instituições de determinado grupo, povo ou sociedade. Desta forma cabe a cada um exercitar frequentemente o olhar atento e crítico sobre a influência das mídias nas suas leituras da realidade, principalmente ao lidarem com processos de mudança ou de permanência de culturas e tradições.

Alexandre Gomes Galindo, Grande Oriente do Brasil-Amapá (GOB/AP) (CIM 277.063)

Notas

[1] Edward Burnett Taylor, antropólogo inglês autor do livro “Cultura Primitiva” em 1871 que define cultura (ou civilização) como sendo um “todo complexo que inclui conhecimento, crença, arte, leis, moral, costumes, e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem enquanto membro da sociedade” (Taylor, 1920. p. 01).

[2] (MORFAUX; LEFRANC, 2009. p.131-132).

[3] (VELHO; CASTRO, 1978).

[4] (BATISTA, 2010).

[5] Culturalismo: Corrente da sociologia americana “que caracteriza uma sociedade pelo modo como os indivíduos se integram na sua cultura, nos sistemas de valores, nos esquemas de pensamento e nos modelos de comportamento (patterns) transmitidos por essa sociedade: os problemas postos são aqueles da coerência dos elementos culturais e dos processos de integração dos indivíduos”. (MORFAUX; LEFRANC, 2009. p.132).

[6] (GALINDO, 2016).

[7] (BAUMAN, 2001).

[8] (Pluralismo) – pensamento, doutrina ou conjunto de ideias segundo as quais os sistemas políticos, sociais e culturais podem ser interpretados como o resultado de uma multiplicidade de factores ou concebidos como integrados por uma pluralidade de grupos autónomos, porém interdependentes; (Interculturalismo) – refere-se à interacção entre culturas de uma forma recíproca, favorecendo o seu convívio e integração assente numa relação baseada no respeito pela diversidade e no enriquecimento mútuo; (Multiculturalismo) – coexistência de várias culturas num mesmo território, país etc.; (Hibridismo) – língua ou palavra resultante da mistura dos vocabulários de duas ou mais línguas e/ou da interpenetração de sintaxes provenientes de línguas distintas; (Diversidade cultural) – Em sociologia, diversidade cultural diz respeito à existência de uma grande variedade de culturas antrópicas. Há vários tipos de manifestações culturais que nos revelam essa variedade, tais como: a linguagem, danças, vestuário, religião e outras tradições como a organização da sociedade. Fonte: Wikipedia verbetes “Pluralismo”; “Interculturalismo”; “Multiculturalismo”; “Hibridismo”; “Diversidade cultural”. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Wikip%C3%A9dia:P%C3%A1gina_principal>. Acesso em: 18 Jun. 2020.

[9] (CEVASCO, 2006).

[10] (BURITY, 2001).

[11] (KOHN; MORAES, 2007).

[12] Midiatização aqui é entendida como conceito usado para caracterizar uma determinada fase ou situação do desenvolvimento global da sociedade e da cultura no qual os meios de comunicação exercem uma influência particularmente predominante em outras instituições sociais. (HJARVARD, 2012).

Referências

  • BATISTA, Jefferson Alves. Reflexões sobre o conceito antropológico de cultura. Revista Saber Eletrônico, v. 1, n. 1, p. 102-109, 2010. Disponível em: <https://pt.scribd.com/document/207398428/reflexoes-sobre-o-conceito-antropologico-de-cultura-pdf>. Acesso em: 18 Jun. 2020.
  • BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
  • BURITY, Joanildo A. Globalização e identidade: desafios do multiculturalismo. Conselho Latino-americano de Ciências Sociais (CLACSO), 2001. Disponível em: <http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/Brasil/dipes-fundaj/20121130113705/joan9.pdf>. Acesso em: 07 jul. 2020.
  • CEVASCO, Maria Elisa. Hibridismo cultural e globalização. Revista ArtCultura, v. 8, n. 12, p. 131-138, 2006. Disponível em: <http://www.seer.ufu.br/index.php/artcultura/article/view/1408>. Acesso em: 18 Jun. 2020.
  • GALINDO, Alexandre Gomes. Inquietações diaspóricas: um prelúdio vindo da foz do rio amazonas conectando pontos entre três autores. Revista Textos e Debates, n. 29, p. 43-50, 2016. Disponível em: <https://revista.ufrr.br/textosedebates/article/view/3142/pdf>. Acesso em: 20 Jun. 2020.
  • HJARVARD, Stig. Midiatização: teorizando a mídia como agente de mudança social e cultural. Revista Matrizes , v. 5, n. 2, p. 53-91, 2012. Disponível em: <http://www.redalyc.org/articulo.oa?id=143023787004>. Acesso em: 07 jul. 2020.
  • KOHN, Karen; MORAES, Cláudia Herte de. O impacto das novas tecnologias na sociedade: conceitos e características da Sociedade da Informação e da Sociedade Digital. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 30. 2007, Santos. Anais… Santos: Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação- INTERCOM, 2007. p. 1-13. Disponível em: <https://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2007/resumos/R1533-1.pdf>. Acesso em: Acesso em: 07 jul. 2020.
  • MORFAUX, Louis-Marie; LEFRANC, Jean. Novo Dicionário da Filosofia e das Ciências Sociais. Lisboa: Piaget, 2009. Verbete “Cultura”. p.131-132.
  • MORFAUX, Louis-Marie; LEFRANC, Jean. Novo Dicionário da Filosofia e das Ciências Sociais. Lisboa: Piaget, 2009. Verbete “Culturalismo”. p.132.
  • TAYLOR Edward Burnett. Primitive Culture: researches into the development of mythology, philosophy, religion, art, and custom. 6. Ed. London: John Murray, Albemarle Street, W., 1920.
  • VELHO, Gliberto; CASTRO, Eduardo Viveiros de. O conceito de Cultura e o estudo das sociedades complexas: uma perspectiva antropológica. Artefato -Jornal de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, 1978. Disponível em: <https://docero.com.br/doc/nsncec>. Acesso em: 18 Jun. 2020.

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