Evasão versus Permutação!

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Empresa familiar com nome sugestivo de “Metáfora”, produzindo artigo fundamental para o bem-estar geral, cresce ao longo de um tempo imemorial, sempre baseada nas suas mais arraigadas convicções e tradições. Parece inatingível pelas nuances de mercado, pois os seus colaboradores são escolhidos com muito critério e os seus propósitos os mais nobres. Nem as campanhas negativas a fazem perder força.

Mas este mercado sofreu as habituais mudanças drásticas de interesses e costumes que ocorrem no tempo contado por séculos, sem que os seus administradores as valorizassem adequadamente; os seus métodos de trabalho, até então, conceituados, começaram a tornar-se menos interessantes e atractivos para as novas gerações; mas a empresa continuava arraigada nas suas mais básicas crenças, buscando apoio na convicção de que continuaria a produzir marca e produto sem igual; propagava mesmo, que nenhum outro agente ofereceria produto tão adequado à qualidade de vida individual ou em grupo. Confiança absoluta!

Ao longo do tempo, num fenómeno que se habituou chamar de evasão, muitos que nela trabalhavam e conviviam saiam, mas outros eram admitidos numa rotina cíclica entendida como normal em qualquer segmento da actividade humana.

A partir de um determinado momento, os seus dirigentes despertaram e perceberam que esta encruzilhada levava a uma dificuldade crescentemente maior de repor esta evasão e acharam, como sói acontecer, os seus culpados: o mercado e os outros!

Este incompreensível mercado parecia já não oferecer obreiros com conhecimento, interesse em aprender e assumir responsabilidades como dantes; começava a predominar a turma ligada e, aparentemente, com interesse único, em redes sociais electrónicas.

Os outros é que não sabem fazer! O que lá acontece, não acontecerá aqui; não cometeremos os mesmo erros! Aqui somos diferentes! E este pensamento autístico predominou e continua predominando em alguns rincões privilegiados deste enorme mundão.

A empresa continuou a diminuir em tamanho e importância, mantendo, contudo, a tradição de um produto que cada vez mais encontrava dificuldade em ser aceito pelo mercado.

Chegou o momento em que a preocupação transformou-se num sentimento integrante das conversas do dia a dia e, pasmem, depois de longo tempo assistindo passivamente, decidiu-se estudar o fenómeno.

E escreveu-se sobre o assunto! Fez-se pesquisas; publicou-se inúmeros textos; talvez mesmo, até tratados; cada director, cada interessado, cada obreiro e até alguns analistas externos, pareciam ter as suas próprias convicções, teorias e respostas; apontavam causas várias para o fenómeno; aliás, estes trabalhos, encontros, seminários e discussões em todos os níveis pareciam ter identificado todas as causas!

Como sempre, no final, a culpa deveria mesmo do mercado e dos outros, pois, pouca ou nenhuma mudança significativa foi proposta para o produto oferecido.

E assim continuou, pois, mudar o mercado para atingir objectivos próprios não é nada muito simples!

Presos aos mecanismos de produção tradicionais, pensaram alguns dirigentes ter encontrado a solução na criação de novas filiais, buscando, numa crença no mínimo discutível, ampliar a oferta; para tanto, até dividindo algumas filiais já bem consolidadas; assim, também poderiam demonstrar aos accionistas uma pretensa actividade incessante, apresentando números positivos ao final de cada exercício; como fazem os políticos!

Porém, seguindo a regra, sem qualquer estudo mais aprofundado que embasassem estas acções e atitudes ou que buscassem, primariamente, a consolidação das existentes; a ideia é a antiga “dividir para conquistar” ou a mais recente “dividir para enfraquecer”? Esta não é a, mas é uma boa questão para discutir; se permitirem a discussão…

Na Maçonaria que conheço há, é verdade reconhecida, uma continua preocupação com o problema e as suas causas; o que não vejo é uma real preocupação em agir sobre elas!

Não vejo, repito, quaisquer acções objectivas para seu enfrentamento.

Navegamos em mar de rosas, especialmente no nosso país onde, ao final de cada gestão, estes números absolutos são apresentados como positivos; mas como diz a canção:

Você bem sabe
Que não lhe prometi um mar de rosas
nem sempre o sol brilha
Também há dias em que a chuva cai;

e em outra estrofe:

É bem melhor você pensar
No passo que vai dar
Pois há sempre alguém querendo ver
Um grande amor como o nosso no fim
Isso mesmo você disse pra mim

(Mar de Rosas – The Fevers – Joe South).

No resto, a culpa persiste sendo das novas gerações, os seus smartfones, os seus inúmeros aplicativos e plataformas e as mais recentes ameaças como os chatbots; fora outros factores externos como os económicos, sociais e de costumes.

Endomarketing, reengenharia, instrumentos de auto-avaliação, identificação e valorização das inúmeras competências individuais e outros, não são necessários entre nós, pois já decidimos: nada é ou será culpa nossa. Conheço excepções, é lógico! Para quantos?

Mas não cabe aqui uma discussão de visões.

De forma geral, em qualquer sector da sociedade, somos campeões em apontarmos as causas dos problemas; apresentar soluções é raro, difícil e demorado; e como requer negociação! Somos assim!

Será que a evasão é o problema?

Sim, é “um problema”, mas é minha convicção de que não é “o problema; é muito mais consequência!

Evasão sempre existiu na Maçonaria ou em qualquer outro tipo de actividade humana; muitos saem e outros tantos entram; e isto acontece e continuará acontecendo; o círculo fecha e a vida segue; é o que podemos chamar de substituição de recursos. Afinal, classicamente dizemos que ninguém é insubstituível!

O que preocupa é a conta “débito e crédito”; onde sai mais recurso do que entra, haverá muitos problemas.

Esquecendo bastante a questão da análise combinatória que nos dava dor de cabeça na matemática escolar, o conceito de permutação pode ser usado para caracterizar este aspecto: fazer uma permuta é realizar uma troca; e aí vem a fórmula:

  • Permutação > Evasão? Nem conversaríamos sobre isto!
  • Permutação = Evasão? Ainda não vemos problemas.
  • Permutação < Evasão? Estamos encrencados!

Então, o problema não é a evasão e sim a permutação?

Está saindo mais que entrando? Não conseguimos substituir os recursos?

Mas no final, não é a mesma coisa? Na minha visão, não!

O foco é conseguirmos interessar pessoas a ingressarem na Instituição; o foco muda; a luta vai além de acções internas para somente manter o contingente; está imbricada com acções que possam despertar o interesse não só de ficar, mas especialmente, de convidar; ou ainda, melhor, de sempre ser capaz de, pelo menos, permutar; porque saídas sempre existirão.

Permutação, muitas vezes, é até beneficioso para qualquer instituição; novas cabeças, novas sentenças; novas visões, novos entusiasmos; contra certas mesmices, empoderamentos ou acomodações.

Então, aquela grande empresa, a “Metáfora”, para conseguir manter ou substituir o seu pessoal, deve, para a sua subsistência, oferecer atractivos.

Esta busca por novos horizontes não pode ser responsabilidade única dos dirigentes; até podem mostrar um determinado caminho, contudo, é praticamente impossível imaginar que todos o possam trilhar; assim, o desbaste dos espinhos fica também na conta destes todos; especialmente, no caso da nossa Instituição, das lojas, segmentos básicos com variáveis mosaicas, sejam internas, sejam externas.

Nesta luta, cada uma conhece a sua realidade, os recursos existentes, os alcançáveis e destes, os utilizáveis. É assim, imperioso, que a cadeia hierárquica facilite e não atrapalhe com desejos ou metas individuais de dirigentes que parecem ter mais valor que o conjunto. Até porque na Maçonaria que conheço, tenho dificuldade de ver iniciativas de planeamento a médio e longo prazo.

Inútil é ficarmos reclamando que as reuniões não são boas se nada fazemos para mudar.

Inútil é criticarmos atitudes, se não damos exemplo.

Inútil é acusarmos a falta de acção se nada propomos.

Inútil é apontarmos a baixa participação como causa se não somos assíduos, não nos importamos com os faltosos, não questionamos o porquê e nem buscamos lhes dizer o quanto nos são importantes.

Inútil é julgarmos e classificarmos de alguma forma nem sempre muito técnica, as propostas lidas ou ouvidas, sem buscarmos formas de ajudar no seu aperfeiçoamento e viabilização.

Inútil é esforçarmo-nos para identificarmos defeitos na Instituição e nas pessoas que a frequentam sem nos fazermos presentes nas discussões dos assuntos trazidos à pauta.

É muito cómodo e fleumático dizermos que não estamos satisfeitos, que não era como imaginávamos ou que não gostamos deste ou daquele e, por isto, vamos sair e tentar encontrar noutro lugar o que nem sabemos que procuramos.

É como reclamar de quem joga lixo no chão e acharmos que não é nosso papel juntá-lo.

É sair em busca de uma quimera que não acontecerá, pois seremos os mesmos em qualquer lugar onde estejamos.

Na UGLE, em publicação recente, a depender do local, verifica-se até 30% de desistências entre os novos admitidos na Ordem (Freemasonry Today – Issue 61 – Spring 2023 – págs. 6-7)!

E não é estimulante, nem compensador, ficarmos atónitos quando soberbamente sofremos acção deletéria das vaidades de superiores hierárquicos que se vão após o mandato e deixam um rastro de tristeza, desânimo, insatisfação, quezília e arrelia.

Devemos ter posicionamentos fortes contra estas vaidades excessivas próprias de quem não tem preparo para os cargos exercidos; mesmo que incompreendidos pelos acomodados nos fleumáticos cómodos do consuetudinário, devemos lutar a luta do bem, da manutenção e da valorização dos ensinamentos da própria Instituição! A qualquer custo!

Não precisa muito: basta que participemos activamente, façamo-nos presentes, lutemos por nossas ideias e os nossos ideais; façamos história ao lutar por melhorar o que vemos de errado; façamos sugestões; analisemos e contribuamos para o aperfeiçoamento de propostas feitas e seguramente tornaremos o local de reunião mais activo, participativo e atraente.

Dizer que alguns não deixam e nos acomodarmos na aceitação passiva, é terreno fértil para a desilusão; mesmo com montanhas, sempre haverá caminhos para contorná-las.

Quando criamos um ambiente bom, ele passa a ser estimulante, contagiante e importante; não queremos abandoná-lo e naturalmente pensamos, nos motivamos e, é isto mesmo, temos coragem para convidar a quem queremos ou respeitamos para compartilhar desta alegria produtiva de bem-estar social e cognitivo; ambientes tóxicos, afastam muitos, que falam a muitos e que não convidam ninguém!

É a evasão sem permutação!

Não compliquemos com ideias, programas e projectos complexos e mirabolantes; uma solução que a minha mente simplória entende como muito clara é nos voltarmos para a Instituição de forma global e para as Lojas de forma focal, trabalhando para conseguirmos um ambiente atractivo: este é o truque!

É difícil abandonar ou deixar de propagandear o prazer! Especialmente, se for abrangente: social, fraterno e cognitivo.

Mas como fazê-lo?

Volto a dizer: cada Loja deverá buscar o seu caminho, pois é fortalecendo-as e não as dividindo, que fortaleceremos o todo. Dividir aqui, como dito, não é conquista, é derrota!

O crescimento de número de lojas que se anuncia, como um ganho, ao final da gestão, pode ser muito enganoso e representar apenas, um crescimento vegetativo em quantidade, sem qualidade de grupo; e aqui não estou falando de individualidades; todos que são admitidos têm o seu enorme valor; porém, qualquer individualidade depende de grupo forte para fazer vivificar as suas qualidades; somos um time ou um grupo de excelentes jogadores desinteressados no time?

Qualquer acção que queiramos empreender, vai dar trabalho; tudo dá trabalho!

Alegar falta de tempo é mostrar desinteresse com o seu próprio tempo, pois, sempre haverá um cantinho de tempo para priorizarmos, valorizarmos, querermos melhorar, mudar e outros verbetes a mais. Seja o que seja!

Trocar mensagens, incompatibilizar-se e reclamar nas redes sociais electrónicas é muito fácil, nada produtivo e favorece o ambiente tóxico, desestimulante, pouco participativo e propenso a dificultar a permutação.

Trabalho dá trabalho!

Mas quanto prazer nos dá qualquer trabalho bem-feito?

Walter Roque Teixeira, M. M.CIM 184.372 – ARBLS Palmeira da Paz nº 2121, Oriente de Blumenau – GOB/SC – GOB

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1 thought on “Evasão versus Permutação!”

  1. Marcos Carvalho

    Excelente reflexão. O autor aponta problemas e joga luz sobre possíveis soluções. Ao trabalho!

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