Filhos da luz na Terra Santa: os Maçons fundadores da moderna Israel

grand lodge israel 87uy676556Introdução

Este artigo é baseado no livro “Filhos da Luz na Terra Santa”, escrito pelo excelentíssimo Irmão Leon Zeldis, Fellow da Philalethes Society, membro da Sociedade dos Frades Azuis, 33°, Past Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho do Rito Escocês para o Estado de Israel, Grão-Mestre Adjunto de Honra da Grande Loja do Estado de Israel.

O escritor deste artigo não tem qualquer intenção de discutir o âmbito completo do profundo e sério trabalho histórico do ilustre Irmão Leon Zeldis. Na verdade, opta-se aqui por seguir um argumento específico que sugere que o Estado de Israel foi concebido e fundado por Maçons e por pessoas ligadas a estes.

Os Judeus e a Maçonaria Operativa

Não é de surpreender que o povo judeu tenha sido de alguma forma, e alguns judeus ainda estão, interligados com a Maçonaria. Como é de conhecimento público, alegoricamente a Maçonaria considera Israel, mais especificamente Jerusalém, como seu berço. Afinal de contas, o Templo de Salomão tem uma importância significativa para a Maçonaria em todos os ritos maçónicos regulares (p. 7).

Embora não há evidência histórica de que qualquer tipo de organização dos Maçons operativos tenha existido até, pelo menos, a fundação do Reino Latino de Jerusalém pelos cruzados no século 11 d.C. (p. 8-9), algumas características desse tipo de organização podem ser encontradas na comunidade de Qumran, um grupo judaico messiânico que viveu nas proximidades do Mar Morto (p. 8-9). Entre estas características, pode-se notar o termo pelo qual o grupo era conhecido, “Filhos da Luz”; o processo de admissão na comunidade, que correspondia a um lento progresso dos recém-chegados, que eram supervisionados e avaliados periodicamente; e o simbolismo baseado em pilares e pedreiras (ibid.). Alguns historiadores afirmam que Jesus de Nazaré tenha pertencido a esta comunidade, também conhecida como dos essénios.

Em Jerusalém, podem-se ainda encontrar vestígios da Maçonaria Operativa relacionados com lendas maçónicas. O Muro das Lamentações, situado em Jerusalém, é na verdade a única relíquia que sobrou do Templo de Herodes [1]. Os registos oficiais indicam que durante escavações arqueológicas feitas no seu subsolo, um túnel foi encontrado. Os arqueólogos então encontraram as pedras da fundação, que aparentemente sustentavam a base das paredes do templo. Elas tinham sido esculpidas tão perfeitamente, que não se pode sequer enfiar uma faca com a lâmina mais fina entre elas (p. 28). Isto pode ser uma evidência da existência de pedreiros profissionais há mais de 2.000 anos.

Na opinião de vários historiadores, debaixo da bela Cúpula da Rocha, na Mesquita de Al-Aksa, situa-se a pedra fundamental ou pedra santa do Templo de Herodes. De acordo com a Bíblia, a Arca da Aliança foi colocada à frente dela (p. 29-30).

A importância de Jerusalém para o Judaísmo pode ser demonstrado na seguinte antiga crença judaica: a) a Terra de Israel é o centro do mundo; b) Jerusalém é o centro de Israel; c) o Templo é o centro de Jerusalém; d) O Dvir [2] é o centro do Templo; e) A Arca da Aliança é o centro do Dvir; (f) A pedra fundamental ou pedra santa está na frente da Arca da Aliança (p. 30).

Maçonaria Especulativa no Oriente Médio

Antes de começarmos a explorar a Maçonaria judaica, é de extrema importância situarmo-nos no contexto histórico para o desenvolvimento da Maçonaria no Oriente Médio. Em 1798, Napoleão Bonaparte conquistou o Egipto, seguindo para o Norte e conquistando também Gaza, Jaffa e Ramallah. Muitos oficiais e soldados do seu exército eram Maçons. Talvez daí a forte predominância da Maçonaria francesa sobre a Maçonaria judaica em Israel durante o início da sua formação (p. 32-33).

Uma das empreitadas mais intrigantes dos oficiais de Napoleão foi o estabelecimento de uma loja em Alexandria com o nome de “Isis” (p. 33). Por que razão esses oficiais escolheriam especificamente este nome para a Loja? Alguns cépticos provavelmente podem sugerir que a razão foi, obviamente, a localização da Loja no Egipto. Porém, um Maçom bem instruído provavelmente levará em consideração que a deusa egípcia Isis simboliza conhecimento, a ordem temporal do sacerdócio e do corpo cumulativo de iniciados. Ela é personificada como o Templo, Ela é a mãe de todo o bem, a protectora do certo e a patrona de todo desenvolvimento. É relevante também mencionar que Isis era a patrona das artes mágicas entre os egípcios, enfatizando que a magia deveria ser usada exclusivamente para o propósito da redenção da alma humana. Enquanto Isis_ é identificada com o Templo, ela representa apenas um dos lados de um triângulo místico. Os outros dois lados são Osíris, simbolizando a aprendizagem dos ritos antigos, e Hórus, simbolizando os adeptos que “nasceram de novo”, fora do útero da mãe Isis, que representa a escola de mistérios ou a iniciação.

Alguém poderia perguntar por que o autor dá tanta atenção ao Egipto e à sua mitologia. A resposta encontra-se na conexão entre o Antigo Egipto, o povo de Israel e a Maçonaria judaica moderna. A Bíblia conta a história do povo de Israel, que serviu governantes egípcios como trabalho escravo. De acordo com as antigas fontes, o povo de Israel trabalhou na construção das pirâmides. Considerando isso, os judeus foram antigos Maçons operativos profissionais (infelizmente não podemos acrescentar o termo “livres”, neste caso). A partir daí, pode-se imaginar a atractividade da filosofia maçónica aos judeus. Afinal de contas, foi Moisés quem disse ao Faraó: “Deixa ir o meu povo”. Ou seja, por outras palavras: “Liberta-os!

Porém, somente a partir do Século 19 há evidências de actividades maçónicas na terra de Israel (p. 14). No ano de 1860, a “Alliance Israelite Universelle” foi fundada na França, com o objetivo de incentivar a educação judaica no Oriente. Um dos seus fundadores foi eleito em 1869 como Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho do Rito Escocês Antigo e Aceito em França (p. 19). A “Aliança” teve um grande impacto sobre a educação secular judaica e israelense antes do estabelecimento do Estado de Israel, e maior importância ainda após a sua criação.

Outra organização com uma extrema importância para a formação de Israel foi o movimento “Hibbat Zion” (Amor de Sião), que foi fundado em 1889 por intelectuais judeus russos, na cidade de Odessa (p. 20). O objectivo principal desse movimento era encorajar os judeus à imigração para Israel e estabelecer assentamentos agrícolas e industriais com base em princípios democráticos e liberais (ibid.). Este movimento estabeleceu a Sociedade Secreta “Bne’I Moshe” (Filhos de Moisés) a qual foi fortemente inspirada pela Maçonaria (p. 21). Um dos seus principais fundadores era Asher Ginzberg (“Ahad HaAm”), que afectou profundamente a motivação dos judeus europeus a emigrar para Israel. Asher Ginzberg tinha conexões com a Maçonaria: a sua filha era casada com um Maçom activo (ibid.).

O chamado “Caso Dreyfus” [3], que reflectiu em violência e anti-semitismo na Europa, levou ao surgir do líder do movimento sionista, Theodor (Binyamin Zeev) Herzl (p. 24). Embora o próprio Herzl não fosse Maçom, o seu pai era, e Herzl tinha sido “adoptado” num ritual maçónico de adopção de lowtons [4], realizado nas dependências de uma organização chamada “Chevra Kadisha” (Sociedade Sagrada) em Budapeste (p. 25). O movimento sionista culminou numa onda de imigração de judeus para Israel, e de uma das suas principais criações, a Organização Sionista Mundial – OSM, quando surgiram as instituições nacionais iniciais de Israel e os seus primeiros líderes políticos.

Seria interessante notar que, em 13 de Maio de 1868, o Mui Venerável [5] Irmão Robert Morris, Past Grão-Mestre da Grande Loja de Kentucky, dirigiu uma cerimónia fechada na caverna de Zedequias, popularmente conhecida como “Pedreiras do Rei Salomão”, numa profundidade abaixo das muralhas da cidade velha de Jerusalém. O Dr. Morris trabalhou incessantemente para erguer a primeira Loja Maçónica regular em Israel e, em 1873, ele finalmente conseguiu obter uma carta constitutiva da Grande Loja do Canadá, com sede em Ontário, para a “Royal Solomon Mother Lodge” n ° 293, para trabalhar “na cidade de Jerusalém ou locais adjacentes”. Esta foi a primeira Loja Maçónica regular em Israel. A maioria dos seus membros fundadores eram colonos americanos que viviam em Jaffa (p. 33-37).

Como já assinalado neste artigo, os Maçons judeus tinham desempenhado um papel importante na formação da educação judaica e israelense. Um deles foi o Irmão Karl Netter, que estabeleceu a “Mikve Israel”, a primeira escola a ensinar métodos de agricultura moderna em Israel (p. 46). Outro famoso educador judeu foi o também Maçom David Yellin (1864-1941). O Irmão Yellin foi um dos primeiros professores de hebraico em Israel, e um dos fundadores da Biblioteca Nacional e do Comité da Língua Hebraica (p. 69). Além disto, ele actuou como Vereador da cidade de Jerusalém e Vice-prefeito (ibid.). E por último, mas não menos importante, é um agradável dever mencionar o Irmão David Yudilevich, que foi um dos fundadores da cidade de Zichron Yaakov, e que estabeleceu a escola “Haviv”, a primeira no mundo a ensinar apenas em língua hebraica. Ele também actuou como Vereador, na cidade Rishon Le Tzion (p. 70-72).

Outra anedota sobre as conexões históricas entre Jerusalém e a Maçonaria pode ser encontrada na história do Irmão e Sir Charles Warren. Em 1867, o General Charles Warren iniciou um período de escavação clandestina, que durou cerca de três anos. Uma das suas descobertas mais curiosas foi o “Salão Maçónico” sob as paredes do Monte do Templo [6], em Jerusalém. As paredes do “Salão Maçónico” foram construídas com pedras cortadas e contêm duas colunas quadradas com títulos esculpidos, aros e batentes (p. 42-43).

Apesar de se esperar que os Maçons não tratem de questões políticas e religiosas dentro das suas Lojas, nada impede que um Maçom seja engajado politicamente fora dela. Pelo contrário, um Maçom deve ser, acima de tudo, livre para lutar por aquilo que acredita. Esse foi o caso de um dos mais importantes e influente ideólogos sionistas, Irmão Vladimir (Ze’ev) Jabotinsky (1880-1940). O Irmão Jabotinsky foi o fundador do movimento revisionista na organização sionista, que mais tarde deu origem ao nascimento do partido de extrema-direita sionista: o “Likud”. Menachem Begin e Benjamin Netanyahu são os dois Primeiros-ministros israelenses que surgiram a partir desse movimento (p. 143). Além disto, o Irmão Jabotinsky também foi um escritor, poeta e tradutor (ibid.).

A primeira Grande Loja Nacional em Israel foi constituída em 1933, mesmo antes da criação do Estado, e reuniu todas as Lojas que estavam trabalhando sob jurisdições egípcias ou francesas. As lojas de língua inglesa, no entanto, recusaram-se a aderir à nova Grande Loja e continuaram trabalhando separadamente. A falta de reconhecimento por parte da Grande Loja Unida da Inglaterra resultou em um quase completo isolamento internacional (p. 156-158).

A 2ª Guerra Mundial teve um efeito tremendo e desastroso sobre a Maçonaria em todo o mundo e, especialmente, sobre os judeus Maçons. Um caso especial, neste contexto, é a história das cinco Lojas Maçónicas de língua alemã, fundadas em Israel em 1931 pelo Grão-Mestre da Grande Loja Simbólica da Alemanha, o Mui Venerável Irmão Otto Muffelmann. Ele percebeu que a ascensão de Hitler na Alemanha poderia significar o fim da existência da Maçonaria no seu país. Então ele viajou para Israel e, com a ajuda de Irmãos alemães que emigraram para escapar das leis raciais nazistas, fundou Lojas nas três principais cidades: Jerusalém, Telavive e Haifa. Logo depois, a Maçonaria foi realmente proibida na Alemanha, as Grandes Lojas alemãs fecharam as suas portas, e muitos Irmãos Maçons foram brutalmente assassinados nos campos de concentração. Lojas de língua alemã em Israel e Chile, por exemplo, mantiveram viva a chama da Maçonaria alemã durante aqueles anos terríveis e, após o fim da guerra, foram cruciais no restabelecimento da Maçonaria na Alemanha (p. 114-116).

Após a 2ª Guerra Mundial, houve a necessidade da (re)criação de uma Grande Loja em Israel, que fosse capaz de promover a unidade dentro da Maçonaria israelense e conquistar reconhecimento internacional. Este ideal foi alcançado em 1953, no edifício da YMCA [7] em Jerusalém, quando, numa cerimónia impressionante, conduzida pelo Conde de Elgin e Kincardine, na posição de Past Grão-Mestre da Grande Loja da Escócia, a Grande Loja do Estado de Israel foi instalada e o Mui Venerável Irmão Shabetay Levy foi empossado como seu primeiro Grão-Mestre (p. 189-200).

Este autor opta por concluir este breve artigo com um modelo humilde e reservado da Maçonaria israelense: Irmão Shabetay Levy. O Irmão Levy ajudou judeus, cristãos e muçulmanos perante as autoridades otomanas [8] (p. 149). O Irmão Levy também serviu como Vereador da cidade de Haifa, Vice-prefeito e, finalmente, Prefeito (ibid.). Além disto, o Irmão Levy assumiu, como já mencionado, como o primeiro Grão-Mestre da Grande Loja do Estado de Israel, em 20 de Outubro de 1953 (p. 192-200).

Comentários Finais

Em resumo, na verdade muitos Maçons estiveram envolvidos na criação do moderno Estado de Israel. O autor deste artigo gostaria de sugerir ao leitor mais esclarecido que evite confundir entre Sionismo e Maçonaria. Estas duas instituições filosóficas não são uma. São claramente diferentes, conjuntos separados de ideias e ideais. Deve-se ter em mente que, apesar do facto de muitos Maçons terem participado de forma profunda e relevante na criação e formação da Israel moderna, eles fizeram isto como indivíduos e das suas próprias iniciativas. Logicamente foram positivamente influenciados pelo espírito humanista da Maçonaria, o qual preconiza princípios como de liberdade, igualdade, fraternidade e verdadeira amizade entre as pessoas, independentemente de religião, raça, status social ou convicções políticas.

Como se pode facilmente observar, há uma virtude fundamental que é incutida pela iniciação maçónica nos seus membros, que é auto aperfeiçoamento. Todos e cada um dos heróis Maçons judeus começaram com a busca pelo aperfeiçoamento de si mesmos antes de tentarem melhorar o mundo exterior em que viviam. Esta é provavelmente a chave que dá acesso ao maior segredo maçónico, a construção de um Maçom sério e dedicado.

Yaron Gal Weis [9]
Tradução e Comentários: Kennyo Ismail [10]
Publicado originalmente na Revista Fraternitas in Praxis

Notas

[1] N.E.: Flavius Josephus (37 d.C. – ca. 100 d.C.), judeu e romano, regista que o Templo de Jerusalém foi totalmente reconstruído por Herodes, o Grande (ca. 73 a.C. – 4 a.C. ou 1 d.C.). Ficou conhecido como Templo de Herodes ou Terceiro Templo de Jerusalém, após a construção por Salomão (ca. 957 a.C.) e a reconstrução após o cativeiro na Babilónia (ca. 515 a.C.).

[2] Dvir, que significa “o lugar mais sagrado”, mais conhecido como Sanctum Sanctorum.

[3] Dreyfus foi um oficial do exército francês, de origem judaica, que, inocente, sofreu um processo judicial coberto de fraudes que levou à sua condenação. Para reduzir os efeitos públicos do erro judicial, iniciou-se uma campanha nacionalista e xenofóbica na França, a qual alcançou toda a Europa ainda no final do século XIX.

[4] Cerimónia pela qual uma Loja Maçónica assume o compromisso de apoiar e orientar na formação moral e intelectual do filho de um dos seus membros, no caso da sua ausência.

[5] Em todo o mundo os Grão-Mestres são chamados pelo termo de tratamento “Mui Venerável”. Já no Brasil, como sempre, modificações ocorreram. Uns são chamados de “Soberano”, outros de “Sereníssimo” e outros de “Eminente”.

[6] Um dos locais mais sagrados de Jerusalém, tido como sagrado para judeus, cristãos e muçulmanos. Os judeus consideram que se trata do sagrado Monte Moriá, onde foi construído o Templo de Salomão. Há um aviso para que os judeus não se aproximem, visto o risco de, sem saberem, invadirem o território do Sanctum Sanctorum, o qual, mesmo com o desaparecimento total do Templo, é tido como restrito ao Sumo Sacerdote.

[7] N.E.: YMCA, do inglês Young Men’s Christian Association, Associação Cristã de Moços.

[8] O Império Otomano foi um dos maiores e mais duradouros impérios da Era Vulgar, durando mais de 600 anos. Entre o final do século XIX e início do XX, concentrou-se no território correspondente actualmente ao Egipto, Oriente Médio e Turquia. A sua queda ocorreu em 1922.

[9] Yaron Gal Weis é cidadão israelense, funcionário do Ministério de Relações Internacionais do Estado de Israel em serviço no Brasil, e membro da Loja Maçónica “Flor de Lótus” nº 38 – GLMDF. Apresentou este artigo como exigência parcial do grau de Aprendiz Maçom.

[10] Kennyo Ismail teve a honra e o prazer de ser o padrinho maçónico do Ir. Yaron, tê-lo iniciado durante a sua gestão como Venerável Mestre numa Iniciação bilíngue, e auxiliá-lo com a tradução deste artigo.

Bibliografia

  • ZELDIS-MANDEL, Leon. B’nai Or Be’Eretz HaKodesh, (Sons of Light in the Holy Land). Israel: E. Narkis, 2009.

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One thought on “Filhos da luz na Terra Santa: os Maçons fundadores da moderna Israel

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    Muito interessante !!!!

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