“Conhecer a história da Maçonaria em Lagos é conhecer uma parte da própria história da cidade e compreender como daqui se acenderam as Luzes no Algarve.”
Poucas cidades portuguesas podem afirmar, com sólido fundamento histórico, ter desempenhado um papel tão relevante no estabelecimento e desenvolvimento da Maçonaria como Lagos.
Cidade atlântica, aberta ao mundo desde a Época dos Descobrimentos, Lagos foi, desde sempre, um lugar de encontro de povos, culturas e ideias. A sua posição estratégica na costa sul de Portugal, associada à importância do seu porto marítimo, ao seu papel como centro administrativo do Algarve e, sobretudo, à sua condição de uma das mais importantes praças militares do Reino, criou um ambiente particularmente favorável à circulação das novas correntes filosóficas e políticas que marcaram a Europa dos séculos XVIII e XIX.
Antes de ser conhecida pelas suas praias, e de se afirmar como destino turístico, Lagos distinguiu-se pela sua importância militar e estratégica na defesa da costa algarvia, afirmava-se como um dos mais importantes centros militares do sul de Portugal. A presença permanente do Regimento de Infantaria n.º 2, do Governo Militar e de um significativo corpo de oficiais, engenheiros e médicos militares fazia da cidade um espaço privilegiado de circulação de ideias, de formação intelectual e de contacto com os movimentos liberais que percorriam a Europa. Foi neste ambiente que a Maçonaria encontrou terreno fértil para se afirmar.
Longe de constituir um simples detalhe da história local, este contexto ajuda a compreender porque foi precisamente em Lagos que surgiu, em 1816, a primeira Loja Maçónica conhecida do Algarve.
Em toda a Europa, durante os séculos XVIII e XIX, os militares desempenharam um papel decisivo na difusão da Maçonaria. As campanhas militares, a circulação constante entre diferentes regiões, o contacto com exércitos estrangeiros e a influência das ideias do Iluminismo favoreceram a expansão dos princípios maçónicos e constitucionais. As Lojas militares acompanharam frequentemente os regimentos, proporcionando aos oficiais um espaço onde a disciplina, o mérito, a fraternidade e o aperfeiçoamento moral conviviam naturalmente com a reflexão filosófica e política.
Portugal não constituiu exceção. Após as Guerras Peninsulares e nos anos que antecederam a Revolução Liberal de 1820, numerosos oficiais portugueses tiveram contacto com a Maçonaria através das campanhas militares, da convivência com o Exército britânico e da influência crescente das correntes liberais europeias. Muitos deles tornar-se-iam protagonistas da implantação do constitucionalismo português.
Neste contexto, Lagos reunia condições particularmente favoráveis ao aparecimento de uma Loja Maçónica organizada.
A composição da Loja Philantropia, fundada em 1816, confirma essa realidade. O quadro conhecido dos seus obreiros revela uma expressiva predominância de militares. Entre eles encontramos o Coronel Governador Militar de Lagos, um Coronel de Infantaria, um Tenente-Coronel, Majores, Tenentes, Alferes, oficiais das Milícias, cirurgiões militares, um pagador militar e outros oficiais diretamente ligados ao Exército.
A estes juntavam-se magistrados, médicos, proprietários, comerciantes, altos funcionários da administração régia e membros do clero, entre os quais cónegos, priores e dignitários eclesiásticos.
Esta composição social revela uma realidade frequentemente esquecida: a Maçonaria portuguesa das primeiras décadas do século XIX constituía um espaço de encontro das elites dirigentes do país. Militares, magistrados, religiosos e civis reuniam-se em pé de igualdade, unidos pelo desejo de aperfeiçoamento pessoal, pela valorização do conhecimento e pelo ideal de construção de uma sociedade mais livre e mais justa.
Particularmente significativa é a presença de diversos membros do clero entre os obreiros da Loja. Este facto demonstra que, nas primeiras décadas do Liberalismo, a relação entre Igreja e Maçonaria era muito mais complexa do que frequentemente se supõe, afastando a ideia simplista de uma oposição absoluta entre ambas.
A Loja Philantropia constitui, assim, um retrato fiel da sociedade ilustrada portuguesa do início do século XIX: uma elite culta, cosmopolita, profundamente influenciada pelos ideais do Iluminismo e empenhada na construção de um Estado constitucional, assente na liberdade, na igualdade perante a lei e no progresso.
Mais do que uma associação discreta, esta Oficina representava um verdadeiro centro de encontro entre algumas das personalidades mais influentes do Algarve, muitas das quais viriam a desempenhar papéis determinantes na consolidação do Liberalismo português.
Foi neste quadro que Lagos conquistou um lugar singular na história da Maçonaria Portuguesa. Ao longo dos dois séculos seguintes, a cidade acolheu sucessivas estruturas maçónicas, viu nascer homens que ocupariam alguns dos mais elevados cargos políticos, militares e administrativos do país e testemunhou a perseguição daqueles que ousaram defender os ideais liberais quando isso podia significar prisão, exílio ou mesmo a morte.
A história da Maçonaria em Lagos é, por isso, muito mais do que a história das suas Lojas. É a história de homens que acreditaram que a sociedade podia ser melhor, que colocaram a liberdade acima da segurança pessoal e que ajudaram a construir o Portugal contemporâneo.
O Algarve no início do século XIX
No início do século XIX, Portugal atravessava um dos períodos mais conturbados da sua história.
As Invasões Francesas tinham provocado uma profunda destruição económica e social. A Família Real encontrava-se no Brasil. As estruturas tradicionais do Antigo Regime começavam a ser questionadas, enquanto novas ideias políticas e filosóficas se difundiam pela Europa, inspiradas pela Revolução Francesa e pelo pensamento iluminista.
Defendiam-se princípios hoje considerados fundamentais, mas então profundamente revolucionários: a igualdade perante a lei, a liberdade religiosa, a separação de poderes, a soberania nacional e os direitos individuais.
Estas ideias encontraram expressão organizada também através da Maçonaria.
Ao contrário da imagem frequentemente difundida pelos seus opositores, a Maçonaria não pretendia destruir a religião nem substituir o Estado. Constituiu, antes, um espaço de reflexão intelectual, formação moral e aperfeiçoamento pessoal, onde homens de diferentes origens podiam reunir-se em torno de valores comuns.
Em Portugal, muitos maçons assumiram naturalmente posições favoráveis ao constitucionalismo, vendo nele a possibilidade de construir uma ordem política fundada na liberdade, na justiça e no primado da lei.
A fundação da Loja Philantropia
Em 1816 foi fundada, em Lagos, a Loja Philantropia, a primeira Loja Maçónica conhecida do Algarve.
Este acontecimento representa um marco histórico de grande relevância. Não apenas por assinalar o início documentado da presença maçónica na região, mas também por demonstrar que Lagos possuía uma elite intelectual, militar e administrativa suficientemente estruturada para criar e sustentar uma Oficina maçónica organizada.
A própria designação escolhida — Philantropia — é profundamente reveladora. Na tradição maçónica, a filantropia representa o amor ao próximo, a solidariedade humana, a beneficência e o serviço desinteressado. Ao escolherem este nome, os seus fundadores afirmavam os valores que pretendiam cultivar dentro da Loja e projetar na sociedade.
Os documentos hoje conhecidos permitem identificar cerca de quarenta obreiros ligados à Loja. Entre eles encontravam-se coronéis, juízes, médicos, cónegos, proprietários, comerciantes, militares, religiosos e funcionários públicos.
Esta diversidade social constitui uma das características mais marcantes da Maçonaria desde a sua origem. Nunca foi uma organização limitada a uma única classe social ou profissão. Pelo contrário, oferecia um espaço onde homens de diferentes origens se encontravam em igualdade, unidos pelo aperfeiçoamento moral, pela fraternidade e pelo serviço ao bem comum.
Onde funcionava a Loja?
Ao contrário da imagem romântica frequentemente associada à Maçonaria, as primeiras Lojas portuguesas raramente possuíam edifícios próprios. Reuniam-se onde era possível e onde a discrição podia ser assegurada.
Em Lagos conhecem-se pelo menos dois locais associados aos trabalhos da Loja Philantropia.
Um deles situava-se na residência do Capitão Francisco Xavier de Paiva. Outro funcionava num espaço particularmente interessante: o subterrâneo da casa de Januário José Simões, localizada junto à atual Praça Gil Eanes.
Estes dados permitem imaginar uma Lagos muito diferente da atual. As sessões decorriam de forma reservada, a entrada fazia-se com prudência e o sigilo constituía uma necessidade prática, mais do que uma simples tradição ritual.
Num tempo marcado pela instabilidade política, pela vigilância e pela perseguição aos liberais, a discrição era uma condição essencial para proteger os obreiros e garantir a continuidade dos trabalhos.
Maçonaria e Liberalismo
É impossível compreender a história da Maçonaria lacobrigense sem compreender o Liberalismo português.
Embora Maçonaria e Liberalismo não sejam realidades equivalentes, os seus percursos cruzaram-se frequentemente em Portugal ao longo do século XIX. Muitos dos princípios defendidos pelo Liberalismo — governo constitucional, liberdades civis, igualdade perante a lei e limitação do poder absoluto — encontravam eco nos valores cultivados pela Maçonaria.
Grande parte dos maçons portugueses apoiou o maçom D. Pedro IV [1] e a Carta Constitucional, por entender que o constitucionalismo representava a possibilidade de estabelecer uma ordem política mais livre, equilibrada e justa.
Do lado oposto encontravam-se os partidários do absolutismo de D. Miguel, defensores da restauração plena do poder régio tradicional.
Esta divisão tornou-se particularmente violenta entre 1828 e 1834, durante as Guerras Liberais. Foram anos de perseguição, prisão, exílio e sofrimento para muitos liberais e maçons. Alguns perderam os seus bens; outros foram encarcerados; alguns acabariam executados.
Também Lagos conheceu esse período negro.
As Devassas Miguelistas
Os documentos produzidos pelas autoridades miguelistas constituem hoje uma das principais fontes para o conhecimento da Maçonaria em Lagos.
Paradoxalmente, aquilo que pretendia destruir a Maçonaria acabou por preservar parte da sua memória.
As devassas identificam dezenas de cidadãos considerados suspeitos de serem maçons ou simpatizantes da causa liberal. Entre eles figuram padres, cónegos, magistrados, militares e outras personalidades influentes da vida local e regional.
Particularmente relevante é a presença significativa de membros do clero. Contrariamente a uma ideia muitas vezes repetida, existiram numerosos eclesiásticos que integraram ou simpatizaram com a Maçonaria durante o período liberal. Tal facto demonstra a complexidade política, religiosa e intelectual da época.
Naturalmente, estes documentos policiais e judiciais devem ser analisados com prudência. Os próprios processos revelam exageros, falsificações, suspeitas infundadas e acusações motivadas por conveniências políticas. Alguns dos alegados membros da Loja residiam em Faro, Tavira ou mesmo no Brasil, o que tornava impossível a sua participação regular nos trabalhos.
Ainda assim, muitas das personalidades identificadas nas devassas foram posteriormente confirmadas por outras fontes históricas como efetivos maçons.
Apesar de terem sido produzidos como instrumentos de repressão política, estes documentos continuam a ser fontes indispensáveis para compreender a composição, a influência e a resistência da primeira comunidade maçónica conhecida do Algarve.
As Lojas que se seguiram
Depois da Philantropia, surgiram em Lagos novas estruturas maçónicas, cada uma refletindo um momento próprio da história portuguesa.
- Loja Philantropia (1816), com 43 membros;
- Loja Philantropia (1842), de que se desconhecem os quadros;
- Loja Concórdia II (1847), com 10 membros;
- Loja Resistência à Tirania (1851), de que conhecemos apenas um “Aquiles”, Cavaleiro Rosa-Cruz;
- Triângulo n.º 67 (1905-1911), com 6 membros;
- Triângulo n.º 148 (1911), com 9 membros;
- Loja Lacóbriga n.º 326 (1911-1926), com 32 membros.
A Concórdia II evocava a necessidade de reconciliação nacional após décadas de instabilidade política e conflito civil.
A Resistência à Tirania exprimia, de forma clara, o ambiente político da época e a determinação dos seus membros em defender a liberdade constitucional contra o poder absoluto.
Mais tarde, durante a Primeira República, surgiria a Loja Lacóbriga, responsável por dar continuidade ao trabalho maçónico na cidade até 1926.
Com o golpe militar de 28 de maio desse ano iniciou-se um longo período de silêncio. A Maçonaria seria progressivamente proibida, os seus bens apreendidos, os seus arquivos confiscados ou destruídos e muitos dos seus membros perseguidos, vigiados, presos ou obrigados ao exílio.
Lagos não escapou a esse destino.
Tal como aconteceu noutras localidades portuguesas, a vida maçónica organizada foi interrompida, mas os seus ideais permaneceram na memória daqueles que tinham servido a liberdade, a fraternidade e o aperfeiçoamento humano.
O Regresso da Luz
Após quase sessenta anos sem uma presença maçónica permanente e organizada em Lagos, a Maçonaria regressou à cidade em 4 de maio de 1991, com a consagração da Lodge of Discoveries nº 9409, sob a jurisdição da United Grand Lodge of England.
A sua fundação ocorreu numa época em que não existia em Portugal qualquer Obediência Regular reconhecida pela United Grand Lodge of England. A iniciativa partiu de um grupo de maçons britânicos que haviam escolhido Portugal e, em particular, Lagos, como local de residência, desejando continuar a viver a Maçonaria segundo os princípios e tradições da Regularidade inglesa.
Desde a sua fundação, a Lodge of Discoveries nº 9409 tem desempenhado um papel relevante na promoção da Maçonaria Regular no Barlavento Algarvio, reunindo Irmãos de diversas nacionalidades num ambiente de amizade, beneficência e rigor ritual, fiel aos princípios da Arte Real e às Antigas Obrigações (Old Charges).
Vinte anos mais tarde, em 2012, a cidade assistiu ao levantamento de Colunas da Respeitável Loja Simbólica D. Pedro IV, sob os auspícios do Grande Oriente Lusitano, marcando o regresso de uma Loja da tradição maçónica liberal portuguesa a Lagos. Esta nova Oficina veio reavivar uma tradição cujas origens remontam a 1816, quando a Loja Philantropia se tornou a primeira Loja Maçónica conhecida do Algarve.
Nas décadas seguintes, a Maçonaria em Lagos continuou a evoluir, renovando-se sem nunca perder a ligação às suas raízes históricas. Atualmente, a cidade constitui Oriente de várias Lojas pertencentes a diferentes Obediências, masculinas e femininas, representativas da diversidade das tradições maçónicas contemporâneas. Têm como Oriente/Este – Lagos – a Lodge of Discoveries nº 9409, sob a jurisdição da United Grand Lodge of England; a Respeitável Loja D. Pedro IV, sob os auspícios do Grande Oriente Lusitano; a Respeitável Loja Maria Veleda, da Grande Loja Feminina de Portugal; e a Respeitável Loja Sagres nº 158, sob a jurisdição da Grande Loja Legal de Portugal / Grande Loja Regular de Portugal.
Esta diversidade testemunha a vitalidade da Maçonaria lacobrigense e a sua capacidade de se adaptar aos desafios de cada época sem renunciar aos princípios fundamentais que estiveram na origem da sua implantação na cidade.
Mais de dois séculos após a fundação da Loja Philantropia, a Luz Maçónica continua presente em Lagos. Independentemente das diferentes Obediências ou tradições ritualísticas, subsiste um património comum de liberdade, fraternidade, tolerância, aperfeiçoamento moral e serviço à sociedade. É esse legado, construído por sucessivas gerações de maçons, que continua a inspirar homens e mulheres na procura de uma sociedade mais livre, mais justa e mais fraterna.
Uma elite ao serviço do país
A composição da Loja Philantropia impressiona pela qualidade intelectual, profissional e cívica dos seus membros.
Ali encontramos homens que mais tarde desempenhariam funções relevantes na vida nacional, deixando marca na política, na administração, na cultura, na ciência, no Exército e na história de Lagos, do Algarve e de Portugal.
João Baptista da Silva Lopes (1781–1850) – uma das figuras mais marcantes da história de Lagos, do Algarve e do Liberalismo português. Jurista, político, historiador, geógrafo e escritor, foi também um dos primeiros intelectuais algarvios a estudar a região de forma sistemática. Simpatizante do Liberalismo e da Maçonaria, é fundador da Loja Philantropia, em Lagos, em 1816, desempenhando um papel relevante na introdução e difusão das ideias liberais na cidade.
José António Ferreira Brak-Lamy (1780–1847) – Jurista, magistrado, ministro da Justiça, da Fazenda e dos Negócios Estrangeiros, deputado e Conselheiro de Estado. Natural de Lagos, foi um dos mais destacados liberais algarvios e também ele membro da Loja Philantropia, onde utilizava o nome simbólico Publicula. A sua carreira política e judicial, aliada ao compromisso com os ideais constitucionais, faz dele uma das figuras maiores da Maçonaria lacobrigense e do Liberalismo português.
António José de Lima Leitão (1787–1856) – destacou-se como médico, cirurgião militar, poeta, erudito, tradutor, político e introdutor da homeopatia em Portugal. Natural de Lagos, iniciou muito cedo a carreira militar como ajudante de cirurgia do Regimento de Infantaria n.º 2, sediado na cidade. Em 1808 integrou a Legião Portuguesa organizada por Junot, seguindo para França, onde serviu no Exército Napoleónico. Durante a sua permanência em Paris concluiu os estudos de Medicina e aprofundou o contacto com o pensamento iluminista e com os ideais liberais que então percorriam a Europa. Foi também nesse período que foi iniciado na Maçonaria. Estudos recentes apontam para a sua filiação na Loja Militar Cavaleiros da Cruz, fundada em Grenoble sob os auspícios do Grande Oriente Lusitano e presidida por Gomes Freire de Andrade, uma das figuras mais emblemáticas do Liberalismo e da Maçonaria portuguesa.
João Bonança (1836–1924) – foi jornalista, escritor, publicista, pedagogo e uma das figuras intelectuais mais marcantes do republicanismo português. Natural de Lagos, destacou-se pela intensa atividade política e pela defesa de reformas sociais e educativas, integrando o Diretório do Partido Republicano Português. Após a Implantação da República fundou o movimento político Integridade Republicana e, em 1911, apresentou a sua candidatura à Presidência da República, afirmando-se como um dos primeiros portugueses a disputar a mais alta magistratura do Estado. Embora a sua candidatura não tenha obtido expressão eleitoral, refletiu a independência do seu pensamento político e a defesa de um modelo republicano assente na integridade, na moralização da vida pública e na reforma das instituições. Escritor prolífico, deixou uma vasta obra de carácter histórico, político e filosófico, sendo igualmente reconhecido como uma personalidade ligada à Maçonaria e aos ideais de liberdade, progresso e cidadania.
Alberto Carlos da Silveira (1859–1927) – foi um militar, estadista e destacado republicano natural de Lagos. General de Artilharia, exerceu por três vezes o cargo de Ministro da Guerra, foi deputado à Assembleia Constituinte de 1911, senador da República e membro do Supremo Tribunal de Justiça Militar, desempenhando um papel relevante na consolidação da Primeira República. A historiografia local identifica-o como membro da Maçonaria, integrando o grupo de ilustres lacobrigenses que associaram o serviço público aos ideais de liberdade, progresso e cidadania.
Joaquim Cândido Correia (1856–1944) – foi militar, administrador público e uma das figuras mais marcantes da vida política e cívica de Lagos no início do século XX. Oficial do Exército, atingiu o posto de General, exerceu funções como Administrador do Concelho e foi Presidente da Câmara Municipal de Lagos entre 1920 e 1926. Destacou-se igualmente pela sua atividade no setor agrícola e pelo interesse em matérias de organização e desenvolvimento local. A investigação histórica identifica-o como uma figura destacada da Maçonaria portuguesa e fundador da Loja Lacóbriga, dando continuidade à tradição maçónica iniciada em Lagos pela Loja Philantropia em 1816. A sua ação pública refletiu os ideais de serviço, progresso e cidadania que caracterizaram muitos dos maçons lacobrigenses da época, contribuindo de forma significativa para a modernização administrativa e social da cidade.
António Nogueira Mimoso Guerra (1867–1950) – natural de Lagos, foi militar, engenheiro geógrafo, administrador colonial e uma das figuras republicanas mais influentes da primeira metade do século XX. Coronel do Corpo de Estado-Maior, exerceu os cargos de Subsecretário de Estado da Guerra, Ministro da Guerra, deputado e Governador-Geral interino de Angola, destacando-se igualmente como diretor do Instituto Geográfico e Cadastral e um dos maiores especialistas portugueses em geodesia e cartografia. Iniciado na Maçonaria em 1911, na Loja José Estêvão, em Lisboa, com o nome simbólico Alfa, desempenhou importantes funções no Grande Oriente Lusitano, tendo presidido ao seu Conselho da Ordem entre 1930 e 1931. A sua trajetória constitui um exemplo paradigmático da estreita ligação entre a Maçonaria, o republicanismo e o serviço público, perpetuando o contributo dos maçons lacobrigenses para a vida política e institucional de Portugal.
José Paletti – foi uma destacada figura da vida pública lacobrigense nas primeiras décadas do século XX, reconhecido pelo seu firme compromisso com os ideais republicanos e pela sua dedicação ao serviço municipal. Funcionário da Câmara Municipal de Lagos, distinguiu-se pela competência e integridade com que exerceu funções, merecendo um voto de louvor aquando da sua aposentação. A investigação histórica identifica-o igualmente como membro da Maçonaria, integrando o grupo de republicanos lacobrigenses que encontraram na Ordem um espaço de afirmação dos ideais de liberdade, fraternidade, progresso e cidadania.
Apesar da diversidade dos seus percursos, estes homens partilhavam uma convicção comum: o conhecimento devia estar ao serviço do progresso da sociedade.
Para eles, a educação, o serviço público, a ciência, a cultura e a intervenção cívica não eram apenas ambições pessoais. Eram instrumentos de transformação social e de construção do bem comum.
A Maçonaria e a construção da cidade
O maior legado da Maçonaria em Lagos não reside apenas nas Lojas que aqui existiram, mas sobretudo nos homens que as integraram e no contributo que deram para o desenvolvimento da cidade e do país.
Percorrendo hoje Lagos, encontramos numerosas referências a maçons que marcaram a sua história. As ruas preservam os seus nomes. O Cemitério Velho conserva a sua memória. Os arquivos municipais guardam os seus escritos, decisões, correspondência e testemunhos de serviço público. Por sua vez, o Museu de Lagos – Dr. José Formosinho preserva um importante conjunto de peças, insígnias, paramentos e outros objetos pertencentes a maçons lacobrigenses, constituindo um valioso testemunho material da presença e da influência da Maçonaria na história da cidade.
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As instituições que serviram — e, em muitos casos, ajudaram a criar, reorganizar ou desenvolver — continuam a refletir a sua visão, a sua dedicação e o seu profundo sentido de responsabilidade cívica. Um dos exemplos mais expressivos desta continuidade é a tradição mutualista lacobrigense. Com a extinção das antigas confrarias religiosas no século XIX e a afirmação do Estado Liberal, o espírito de entreajuda não desapareceu; transformou-se. Adaptou-se às novas realidades sociais através do movimento mutualista, que conheceu um notável desenvolvimento em Portugal. Em Lagos sucederam-se o Montepio Artístico Lacobrigense (1877), o Real Compromisso Marítimo de Lagos (1894) e o Compromisso Marítimo e Artístico de Lagos (1932), percurso institucional que culminaria, em 1938, na criação de «A Lacobrigense – Associação de Socorros Mútuos», assegurando a continuidade de uma tradição secular de assistência social organizada.
A própria simbologia destas instituições revela essa permanência de valores. O pelicano, alimentando as crias com o próprio sangue, representa desde a Antiguidade Cristã a caridade, o sacrifício e a dedicação ao próximo, enquanto o aperto de mãos simboliza a confiança, a igualdade, a fraternidade e o compromisso de auxílio recíproco entre os associados. Embora estes emblemas não possam ser considerados símbolos especificamente maçónicos, exprimem princípios profundamente convergentes com a cultura humanista da Maçonaria: a beneficência, a solidariedade organizada, a responsabilidade social e a fraternidade. Não é por acaso que, ao longo do século XIX e das primeiras décadas do século XX, muitos dirigentes dos montepios, associações de socorros mútuos e outras instituições de beneficência pertenciam igualmente aos meios liberais, republicanos e, com frequência, à Maçonaria, contribuindo para afirmar uma sociedade civil mais participativa, solidária e progressista.
Durante décadas, a Maçonaria desapareceu do espaço público. Mas permaneceu viva na cidade: na toponímia, na memória coletiva, na documentação histórica e no legado das instituições que ajudou a inspirar, bem como na ação dos homens que contribuíram decisivamente para construir o Lagos moderno.
Conclusão
A história da Maçonaria em Lagos é, em muitos aspetos, a história da própria cidade. É uma história de coragem cívica, compromisso com a liberdade, serviço público e permanente procura do bem comum.
Desde a fundação da Loja Philantropia, em 1816, até ao renascimento maçónico do século XXI, sucederam-se gerações de homens que, em diferentes contextos históricos, procuraram viver de acordo com os princípios intemporais da fraternidade, da tolerância e da busca da verdade. Uns combateram nas Guerras Liberais; outros serviram o país no governo, na magistratura ou nas forças armadas; muitos dedicaram a vida ao ensino, à medicina, à investigação científica, à administração pública e à cultura.
Apesar das perseguições, das proibições e dos longos períodos de silêncio forçado, a memória destes homens perdurou. O seu legado permanece inscrito nas ruas que conservam os seus nomes, nos Arquivos Municipais, nos monumentos e cemitérios da cidade e, acima de tudo, na identidade histórica de Lagos.
Estudar a história da Maçonaria em Lagos não significa apenas conhecer a evolução de uma instituição maçónica. Significa compreender melhor o percurso de uma comunidade que, desde muito cedo, soube acolher novas ideias, promover o pensamento livre e contribuir para a construção de um Portugal mais livre, mais esclarecido e mais tolerante.
Mais de dois séculos após a fundação da primeira Loja, o legado desses primeiros maçons continua a inspirar-nos. O seu exemplo recorda-nos que a liberdade exige coragem, que o progresso assenta no conhecimento e que a fraternidade permanece um dos mais nobres ideais da Humanidade.
A Luz acesa em Lagos, em 1816, jamais se extinguiu verdadeiramente. Embora, por vezes, tenha sido ofuscada pela perseguição, pelo silêncio e pela adversidade, continuou a brilhar através da vida e da obra daqueles que permaneceram fiéis aos seus princípios.
Hoje, essa mesma Luz continua a iluminar o caminho de novas gerações de maçons que, inspiradas pelo passado, mas firmemente comprometidas com o futuro, procuram construir uma sociedade assente na integridade, na tolerância, no conhecimento, na beneficência e no serviço à Humanidade.
Porque a história da Maçonaria em Lagos não é apenas o relato do que foi realizado; é um legado vivo, que continua a inspirar todos aqueles que acreditam que a verdadeira medida de um Maçom não se encontra apenas na Luz que recebe, mas sobretudo na Luz que deixa como legado às gerações futuras.
Rui Calado, MM
Lagos, 07.07.2026
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Notas
[1] D. Pedro IV (D. Pedro I do Brasil) foi iniciado na Maçonaria em 2 de agosto de 1822, na Loja Comércio e Artes, no Rio de Janeiro, adotando o nome simbólico Guatimozin. Poucos meses depois foi eleito Grão-Mestre do Grande Oriente Brasílico. A sua ligação à Maçonaria esteve intimamente associada ao processo da Independência do Brasil e, mais tarde, à causa liberal em Portugal, tornando-se uma das figuras políticas que mais contribuíram para a afirmação do Constitucionalismo e para o restabelecimento da liberdade maçónica após a Guerra Civil de 1832–1834.
Agradecimentos
Este ensaio não teria sido possível sem o valioso contributo de quem, ao longo de muitos anos, se dedicou ao estudo da história da Maçonaria em Lagos.
Expresso o meu mais profundo agradecimento aos meus colegas Francisco Castelo e Artur de Jesus, cujo rigor, dedicação e perseverança na investigação da Maçonaria lacobrigense constituem um exemplo de verdadeiro serviço à memória histórica da cidade. O trabalho que ambos têm desenvolvido na identificação, recolha, preservação, estudo e divulgação de fontes documentais revelou-se indispensável para aprofundar o conhecimento deste património histórico e representou uma referência fundamental para a elaboração do presente ensaio.
A ambos deixo o meu sincero reconhecimento, não apenas pelo conhecimento que generosamente partilharam, mas também pelo inestimável contributo para a preservação da memória coletiva de Lagos.
Bibliografia
- MARQUES, A. H. de Oliveira. História da Maçonaria em Portugal. Lisboa: Editorial Presença.
- VENTURA, António. Uma História da Maçonaria em Portugal (1727–1986). Lisboa: Temas e Debates.
- VENTURA, António, “120 Anos de Maçonaria no Algarve (1816-1936)”, Edição da Ibn Qasî, Sul, l e Sal, Lda., 2019
- BAPTISTA, José Alberto, João Bonança na Cultura do seu Tempo. Lisboa: Edições Colibri, 2004.
- CASTELO, Francisco, Cem Anos de Indústria Conserveira em Lagos – A Memória em Imagens. Lagos: Câmara Municipal de Lagos, 2008.
- JESUS, Artur de, A Maçonaria e os Maçons de Lagos (Séculos XIX e XX), Ensaios Lagos 2025. Grupo dos Amigos de Lagos, Lagos, 2025.
- JESUS, Artur de, “O Cemitério Velho de Lagos – Arte, Cultura, Sociedade e História de uma Cidade – Séculos XIX e XX”, Lagos, Câmara Municipal de Lagos, 2024
- FERRO, Silvestre Marchão. Vultos na Toponímia de Lagos
- Estatutos de A Lacobrigense – Associação de Socorros Mútuos
- Freemason.pt
- Wikipédia

- Surgimento e o papel da Maçonaria na História de Portugal
- Uma história da Maçonaria em Portugal
- Para a história do ritual maçónico em Portugal no Século XIX (1820 -1869)
- A Maçonaria nos Açores
- Maçonaria e Inquisição em Portugal

