A cerimónia de instalação do Mestre Maçon

Qual será a origem desta cerimónia?

Alguns escritores dividem a história da Maçonaria em dois momentos: primeiro, a Maçonaria Operativa ou de Ofício (antiga); segundo, a Especulativa (moderna), que surge com a criação da primeira Obediência Maçónica, a Grande Loja de Inglaterra, em 1717.

No período da Maçonaria Operativa, apenas, existiam os graus de Aprendiz e Companheiro e quando se referia ao Mestre, dizia-se o Mestre da Loja, aquele que a dirigia os trabalhos da construção, um Maçon experiente, escolhido entre os Companheiros do Quadro de Obreiros. O Grau de Mestre Maçon, somente, foi criado em 1723, portanto, depois da criação da Grande Loja de Inglaterra (1717), já na Maçonaria Especulativa, ou Moderna, sendo, somente, implantado, de facto, em 1738, inclusivamente a sua lenda é uma adaptação, embora seja inquestionável a riqueza do conteúdo dos seus ensinamentos.

Vale citar que é um grande erro considerar o Grau de Companheiro como um Grau de transição para se chegar ao mestrado maçónico. O seu conteúdo é de fundamental importância para que, o Maçon, no seu caminho, possa iniciar os primeiros passos nos Mistérios Maiores da nossa Ordem.

O título de Mestre da Loja, ou Venerável Mestre, dado ao presidente de uma Oficina maçónica, tem a sua origem em Inglaterra, nos meados do século XVII, quando já estava avançada a paulatina transformação da Maçonaria de Ofício em Maçonaria dos Aceites.

Deriva da palavra inglesa “worship”, que significa adoração, culto, reverência, quando usada como substantivo; ou venerar, adorar, idolatrar, quando usada como verbo transitivo. Dá origem ao termo “worshipful”, que significa adorador, reverente, ou venerável (neste último caso, como forma de tratamento). Assim, o presidente da Loja tinha o título de Master (Mestre), ao qual se adicionou, posteriormente, o tratamento reverente de “worshipful” (venerável), pois, no início, o termo venerável era aplicado, apenas, às corporações de artesãos, originando a expressão “worshipful master” (venerável mestre). A expressão, todavia, não é muito utilizada nos países de fala inglesa, onde se prefere, simplesmente, o termo “Master”, dando-se o título de Past-Master ao antigo Venerável Mestre, na Maçonaria Inglesa, Rito de Emulação. Past Master, é também um dos quatro Graus do Arco Real Inglês. Nada tem a ver com o R∴ E∴ A∴ A∴.

Na Maçonaria de Ofício, no seu formato original, não era acompanhado de nenhuma cerimónia litúrgica particular, bastando para tal a simples transferência do cargo pelo ocupante que cumprira o seu mandato. A Moderna Maçonaria inglesa, entretanto, introduziu um cerimonial para a posse do Mestre da Loja (Venerável), cuja ritualística se desenvolve por um complexo enredo lendário. Neste sentido, esta Cerimónia é própria dos Trabalhos Ingleses (em Inglaterra não se conhecem “ritos”) e em particular ao Trabalho de Emulação. Já na Maçonaria de vertente francesa (latina), originalmente, não existe esta prática, lembrando, oportunamente, que o Rito Escocês Antigo e Aceito é filho espiritual de França.

Infelizmente, nos meios maçónicos latinos, esta prática acabou por ganhar força, talvez pelo cerimonial investido de pompa e misticismo. Daí, ritos desta origem como o Escocês, o Francês ou Moderno e o Adonhiramita adoptaram a prática, adaptando algumas passagens para suprir às suas características ritualísticas. É bem verdade que muitos ritos de origem não-britânica, porém com base no Trabalho de Emulação, preferiram não aderir a esta prática, mantendo a pureza das suas origens.

Para a Instalação e Posse de um Venerável Mestre é necessário que seja constituído, pelo Grão-Mestre, um Conselho de Mestres Instalados. Este Conselho, vez por outra é confundido com um Conselho permanente, o que não é correcto, pois o dito só é legitimamente formado para a finalidade da Instalação e posteriormente, é desfeito. O que existe na Loja é um “Colégio de Mestres Instalados”, que tem a função, quando solicitado pelo Venerável Mestre, de o assessorar nos assuntos que ainda lhe falte a experiência para resolver.

Após a criação do terceiro grau, passamos a ter no Simbolismo, apenas, os Graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre Maçon. O Mestre Instalado não é Grau, significando, apenas, um título distintivo para o Mestre Maçon que, em cerimónia própria, foi instalado na Cadeira do Rei Salomão, a fim de que possa estar habilitado a conduzir os trabalhos da sua Loja Maçónica. Dadas estas considerações, adquiriu-se o costume de se apor ao nome do Obreiro na qualidade de Venerável, ou antigo Venerável, as letras MI, como rótulo do Mestre Instalado. Esta maneira não tardou a ser qualificada de modo equivocado por alguns como se a qualidade distintiva de um Mestre Instalado fosse um Grau.

Quando do término do mandato, como Venerável Mestre da sua Loja, ele transmitirá o cargo a outro Mestre Maçon eleito regularmente pelos membros do quadro. Sendo um Antigo Venerável, conservará perpetuamente a sua condição de Mestre Instalado ao deixar de exercer as funções de presidente da oficina.

No tocante às Obediências brasileiras e, particularmente, ao Rito Escocês Antigo e Aceito, severamente, o mais praticado no Brasil, o Ritual de Instalação e Posse viria ser introduzido através das Grandes Lojas brasileiras, nascidas da cisão de 1927, quando as suas lideranças buscaram base nos trabalhos perpetrados pelas Grandes Lojas norte- americanas, onde se pratica o Rito de York (Craft Americano) que, de certa forma, seguem o modelo Inglês dos Antigos (1751) que, por sua vez, aderem ao Cerimonial de Instalação. Desta forma, este cerimonial viria aportar na Maçonaria Brasileira, consolidando-se como prática, imediatamente, após a cisão de 1927.

A partir de 1968, o Grande Oriente do Brasil, também, adoptaria este costume, introduzindo-o através de um Ritual específico, para todos os Ritos nele praticados, salvo o inerente aos Trabalhos de Emulação (conhecido, equivocadamente, como York), que já praticava na sua essência, por ser nele um costume original. Salvo melhor juízo, no Brasil, actualmente, este costume está imbuído na Maçonaria Simbólica em geral, sendo uma prática de todos os ritos estabelecidos na constelação das Obediências nacionais.

Vale lembrar que o plano do Templo passou a ter a separação do Oriente e Ocidente após 1820, quando o Grande Oriente de França (G∴ O∴ d∴ F∴) e o Supremo Conselho do R∴ E∴ A∴ A∴  de França entraram em litígio, e com isso a administração dos Graus 1° ao 18°, por determinado tempo, ficou sob a direcção do G∴ O∴ d∴ F∴, surgindo, naquela época, as chamadas Lojas Capitulares, onde o Oriente era mais elevado que o Ocidente, separado por uma balaustrada. No Oriente, somente, tomavam assento o Venerável Mestre, e os Irmãos que possuíam o Grau de Cavaleiro Rosa Cruz (18°).

A Maçonaria no Brasil retomou as suas actividades, com força e vigor, após 1831, com a queda de D. Pedro e o seu retorno a Portugal. Sendo filha da Maçonaria Francesa, este formato de templo passou a ser usado no Brasil, assim como as Lojas Capitulares. Posteriormente, o Supremo Conselho de França reivindicou e retomou a administração dos Graus desde o 4° ao 33°, porém, no Brasil, isto somente veio a ocorrer com a criação das Grandes Lojas, em 1927, quando Mario Behring, Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho do R∴ E∴ A∴ A∴ , denunciou tal prática. Com isto, as Lojas Capitulares, no Brasil, também, deixaram de existir, muito embora, os Templos mantiveram o Oriente elevado e a balaustrada, já que muitas Lojas que aderiram ao sistema de Grandes Lojas, não modificaram os seus templos e assim se mantiveram até aos dias actuais.

A partir de então, o Oriente que era exclusivo dos Cavaleiros Rosacruzes, passou a dar lugar aos Mestres Instalados, mesmo que estes não possuíssem o Grau 18°. Por um lado, tais Irmãos perto do Venerável Mestre, servem-lhe como um órgão consultor, a fim de lhe dar esclarecimentos em situações inusitadas de emergência, utilizando-se da experiência daqueles que, já tiveram a espinhosa missão de dirigir os destinos de uma Oficina.

Enfim, acreditamos que estes factos, sirvam como um estímulo a mais para que busquemos conhecer melhor as origens do Rito e rituais que praticamos. O R∴ E∴ A∴ A∴  devido ter sofrido diversas influências ao longo da sua história e sendo modificado, a bel prazer, por alguns descomprometidos com a sua originalidade, actualmente, tornou-se um trabalho inglório, praticá-lo na sua prístina pureza.

Fica aqui a nossa contribuição, à guisa de estímulo ao estudo e à pesquisa sobre o que estamos a praticar nos nossos templos.

Francisco Feitosa

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