O quadro de loja de aprendiz no R:.E:.A:.A:. – História e simbólica

Por Quadro, Painel, ou Tapete de Loja entende-se a representação gráfica colocada, na maior parte dos ritos maçónicos, no centro do Templo, sobre o pavimento de mosaico. Neste quadro alegórico encontram-se plasmados os simbolos associados ao grau a que se reportam os trabalhos em curso.

Este elemento de decoração do Templo simboliza a Loja, é um dos símbolos presentes na Loja e, constitui uma verdadeira “caixa de ferramentas” simbólicas de elevado valor pedagógico, no desenvolvimento do trabalho maçónico.

Muito embora existam evidencias da sua utilização em Inglaterra, na tradição da Grande Loja dos Modernos, é na Maçonaria Continental oitocentista que se encontra a verdadeira génese do Quadro de Loja, na sua concepção actual.

“Catéchisme des franc-maçons “ de Leonard Gabanon, 1744

Assim:

  • Na mais antiga divulgação publicada em França, datada de 1737 e, denominada de “Recepcion d’un frey-maçon”, documento este transcrito do relatório do tenente de polícia Herault, elaborado com base em informações recolhidas por Mle. Carton, corista da Opera de Paris, encontra-se a referência “em volta de um espaço delimitado sobre o pavimento, onde se desenhou a giz uma espécie de representação, sobre duas colunas do átrio do Templo de Salomão”.
  • Em 1744 o “Catéchisme des franc-maçons “ de Leonard Gabanon (pseudónimo de Louis Travenol) para além de incluir reproduções de um “Plano da Loja para a recepção de um Aprendiz-Companheiro” e, de um “Plano de Loja para a recepção de um Mestre” apresenta uma série de gravuras, que ilustram a realização das cerimónias de iniciação e, de exaltação, confirmando a descrição de Herault.
  • Em 1745 a exposição “L’Ordre des franc-maçons trahi et le secret des mopses révélé“, reproduz igualmente modelos de Quadros de Loja para os mesmos graus, precisando que “o que se denomina propriamente a Loja, quer isto dizer as figuras desenhadas sobre o pavimento nos dias de recepção deve ser desenhado a giz literalmente e não pintado sobre uma toalha que se guarda expressamente para estes dias em algumas Lojas”.

De toda esta informação e, em especial, das gravuras de Léonard Gabanon, ressalta que a importância do Quadro de Loja era, à época, marcante na realização das cerimónias maçónicas.

Verdadeiro polo estruturante da vida e, da circulação na Loja, o Painel constituía-se como imagem-arquétipo, simbolizando o estaleiro de construção do Templo de Salomão.

O Quadro transportava, pois, para um espaço e, um tempo, que religavam a Loja à existência da sua origem mítica e, permitia um suporte catequístico para um trabalho didáctico, o qual fruto das reflexões e, contribuições interpretativas de sucessivas gerações de Irmãos, deu origem ao que hoje se designa de Simbólica Maçónica.

A posição central do Quadro favoreceu o desenvolvimento de uma deambulação circular, um posicionamento face-a-face alinhado com as colunas, uma estruturação na direcção do Oriente e, uma distribuição espacial dos Oficiais suportada em critérios de ordem funcional e, simbólica.

Quadro de Loja para a recepção de um Aprendiz-Companheiro “L’Ordre des franc-maçons trahi et le secret des mopses révélé“, 1745

Das primeiras representações de Quadros de Loja publicadas ressalta, desde logo, a forma rectangular que assumem, em perfeita analogia com as características geométricas da maior parte das salas onde se realizavam as Sessões.

Outro aspecto fundamental consiste na orientação espacial denotada por estes painéis, materializada através da referenciação dos pontos cardeais convencionalmente atribuídos aos seus quatro lados, indicados na forma iniciática: (Ocidente – Oriente – Setentrião – Meio-Dia).

Os Quadros desta época são muito “operativos”, com grande ligação simbólica à construção.

Em geral, assentam sobre a representação de um pavimento de mosaico em dois níveis, ligados por um lanço de escadas composto por sete degraus, dotados de geometria semicircular. O nível superior encontra-se, correntemente, protegido por uma balaustrada.

Os degraus são ladeados pelas duas colunas evocativas das existentes à entrada do Templo de Salomão, dispostas segundo a disposição moderna (J à esquerda – B à direita), uma vez que durante todo o século XVIII a Maçonaria masculina praticada em França derivou, essencialmente, desta tradição.

Na maior parte dos exemplos, localizando-se o espaço mítico retratado no Templo em fase de construção, aparecem representadas as suas três portas e, as suas três janelas, localizadas no Ocidente, Oriente e, Meio-Dia.

Os símbolos ligados à construção apresentam-se com disposição espacial variável sendo corrente encontrarem-se representações de outros apetrechos, para além dos que correspondem às jóias móveis (esquadro-nível-fio de prumo) e, dos inerentes ao Aprendiz (malhete e cinzel). Destes utensílios, hoje em desuso nos Quadros do 1° Grau, salientam-se o machado, a trolha e a picareta.

A corda, dotada frequentemente de um ou dois laços de Amor, aparece apenas como símbolo de utensilio ligado à construção, encimando o Quadro.

Durante todo o século XVIII as representações do Sol e da Lua aparecem, indistintamente, à esquerda ou à direita da parte superior do painel, configurando um triangulo com a estrela flamejante, que então representava o Mestre da Loja, símbolo este de outro símbolo, o Supremo Arquitecto do Universo.

Refira-se, ainda, que é frequente a marcação, nos cantos superiores do Quadro e, no seu canto inferior do lado do Meio-Dia, das posições nas quais deveriam ser dispostos os candelabros das “estrelas” que o circundavam, e que também simbolizavam o ternário “Sol – Lua – Mestre da Loja”, configurando um esquadro, com a respectiva base voltada para o Oriente

No último terço do século XVIII os Quadros de Loja passaram a ser, generalizadamente, pintados sobre tecido, tendo as salas onde se realizavam as sessões vindo a assumir um carácter e, uma decoração específicas para o efeito. Os símbolos empregues nos Painéis, a sua distribuição espacial e, o seu aspecto gráfico foram também denotando uma maior dispersão de critérios conceptuais, acentuando- se esta diversidade com o advento de distintos ritos.

O Quadro de Loja integrava a decoração do Templo no Rito Francês, de 1801, conforme se encontra definido no “Régulateur du Maçon”, ocupando a posição central da loja, circundado por três “estrelas” com a mesma disposição atrás descrita.

Segundo René Desaguliers, pode-se começar a falar de Ritos Escoceses quando aparecem rituais, relativos aos graus simbólicos, nos quais esta disposição das “estrelas” é invertida, passando a base do esquadro que configuram, a estar a Ocidente e, a sua interpretação simbólica a identificar-se com o ternário “Sabedoria – Força – Beleza”.

Não é, pois, de estranhar, que os primeiros Rituais de Loja de S. João do R:.E:.A:.A:., de 1804, tenham adoptado esta disposição, evoluindo a simbologia considerada nos respectivos Painéis para os modelos constantes em vários Telhadores publicados na primeira metade do séc. XIX, dos quais os mais significativos são os apresentados no Tuilleur de Vuillaume, de 1820.

Quadro de Loja de Aprendiz, “Tuilleur de Vuillaume”, 1820

Constata-se, da observação dos Quadros de Loja desta época, que a sua geometria convergiu para a forma de um rectângulo pitagórico, cujos lados se relacionam dimensionalmente na proporção de três para quatro.

Por vontade de precisão técnica, decorrente do desenvolvimento do pensamento científico, os pontos cardeais iniciáticos, utilizados no século anterior, foram correntemente substituídos pelos pontos cardeais profanos (Norte-Sul-Este-Oeste).

A corda passou a simbolizar a Cadeia de União, circundando todo o painel, com excepção do Ocidente, no qual permanece aberta, para ilustrar que a Maçonaria se encontra sempre receptiva a receber novos obreiros. No princípio do século XIX o número de laços de Amor mais frequentemente encontrado é de sete, dado que sendo este o número simbólico da conclusão, a corda assim representada pretende transmitir que o objectivo final da Arte Real é a Cadeia de União.

A definição da localização espacial da Loja de Aprendiz, relativamente ao Templo de Salomão, tornou-se objecto de interpretações divergentes, que perduram passados dois séculos, tendo esta questão dado origem a que nos Quadros de Loja do inicio do século XIX tenha desaparecido o pavimento de mosaico, por ser entendido que o Aprendiz ainda se encontra à porta do Templo, sendo pois confrontado com esta, depois de ter subido uma escada com numero de degraus idêntico à da sua idade simbólica. Tal critério foi igualmente adoptado na elaboração dos emblemas dos dois primeiros graus do R:.E:.A:.A:., ilustrados no livro de J. T. Loth, publicado em 1875.

A porta, em alguns painéis fechada, noutros aberta, apresenta-se ladeada pelas duas colunas. Estas, nos Quadros de Loja do R:.E:.A:.A:., cujos graus simbólicos nasceram em 1804, encontram-se já dispostas segundo o posicionamento Antigo (J à esquerda – B à direita).

As colunas aparecem, em geral, encimadas por três romãs e, o frontão do Templo, que se sobrepõe à porta, normalmente é espiritualizado através da ostentação de um Delta Radiante.

Não encontramos mais, neste período, representações de portas a Oriente e, no Meio-Dia, mantendo-se a presença das três janelas, nas suas formas e disposições habituais.

Para além das jóias móveis, imóveis, do malhete e, do cinzel, não subsistem outros símbolos no primeiro grau, sendo estes, em geral, representados desagrupados.

O Sol e a Lua aparecem na parte superior do Painel, estabilizando-se o primeiro à direita e, a segunda à esquerda.

Entre os simbolistas do princípio do século XX verificaram-se divergências de opiniões no que concerne à geometria a adoptar para a pedra trabalhada, à inclusão do pavimento de mosaico e, ao número de laços de Amor a adoptar na corda, perdurando muitas delas até à actualidade.

O padrão geral manteve-se, contudo, inalterado por cerca de século e meio, verificando-se já em meados do séc. XX a introdução de modificações significativas, decorrentes da evolução dos rituais, muitas delas devidas a uma tendência de Britanização do Rito, nos seus graus simbólicos, que ocorreu a partir dos anos 50, na Grande Loja de França.

Esta evolução (ou involução, conforme as diferentes opiniões) deveu-se à vontade desta Obediência de ser reconhecida pela Grande Loja Unida de Inglaterra, o que motivou esta tentativa de tornar a prática ritualística dos graus simbólicos do R:.E:.A:.A:. mais semelhante aos “workings” ingleses e, como tal, mais aceitável pelos Irmãos do outro lado do Canal da Mancha.

Quadro de Loja de Aprendiz, Grande Loge de France, 1962

Neste exemplo extraído do ritual de referência da G:.L:.d:.F:., de 1962 podemos constatar o desaparecimento da representação da Porta do Templo e, do seu frontão, verificando-se já uma tentativa de distribuição espacial dos símbolos analógica com o seu posicionamento na decoração da Loja.

Aparecem-nos, assim, o pavimento de mosaico na sua forma reduzida (actualmente a mais utilizada em França), o Altar dos Juramentos com as três Grandes Luzes da Maçonaria agrupadas na posição correspondente ao Grau de Aprendiz, as Pedras Bruta e Trabalhada colocadas na sua disposição habitual em Loja, as ferramentas do Aprendiz situadas do lado da sua coluna e, as Jóias Móveis dispostas nos locais onde se situam os altares dos Oficiais respectivos:

  • Esquadro – Venerável Mestre;
  • Nível – 1° Vigilante;
  • Perpendicular – 2° Vigilante.

Como elementos característicos de uma influência Britânica notória destacam-se:

  • A Bíblia, que não existiu no R:.E:.A:.A:. como Livro da Lei Sagrado, em França, entre 1829 e 1953;
  • A Régua de 24 Polegadas, como símbolo do Primeiro Grau;
  • Três pilares, de ordem arquitectónica Jónica, Dórica e, Coríntia, respectivamente, que simbolizam o ternário Sabedoria – Força – Beleza e, que se encontram dispostos nas posições de cada um dos Oficiais que o personificam:
    • Venerável Mestre/Coluna Jónica/Sabedoria;
    • 1° Vigilante/Coluna Dórica/Força;
    • 2° Vigilante/Coluna Coríntia/Beleza.

Refira-se, ainda, que neste exemplo a corda só se encontra dotada de três laços de Amor, correspondentes à idade simbólica do Grau (três anos) e, saliente-se o facto de nos Painéis de loja só constarem duas cores, o negro e o branco, à semelhança das existentes no pavimento no qual assenta, de modo a serem evitadas controvérsias no que concerne à interpretação simbólica de outras cores, as quais suscitariam sempre opiniões divergentes.

No exemplo seguinte, correspondente ao modelo de referência introduzido na mesma Obediência francesa, em 1979, e que permanece em vigor, reflecte-se alguma preocupação de retorno à simbólica tradicional do R:.E:.A:.A:., não deixando, contudo, de transportar tendências da versão atrás descrita.

Quadro de Loja de Aprendiz, Grande Loge de France, 1979

Assinale-se um regresso aos pontos cardinais iniciáticos, à reintrodução do Pavimento de Mosaico, da Porta do Ocidente e, do Frontão do Templo segundo formas análogas às utilizadas no século anterior.

Um pouco ao encontro de ideias já defendidas por Oswald Wirth, no princípio do século XX, a corda, nesta versão, apresenta doze laços de Amor. Este número de nós permite que, ao longo da largura do Painel se encontrem evidenciados três intervalos entre laços e, ao longo do seu comprimento, estejam aparentes outros quatro, todos de igual extensão, ilustrando assim a natureza pitagórica do rectângulo que o contém.

Para este número de laços de Amor Oswald Wirth, tão ao seu gosto sincrético, encontrou uma interpretação simbólica, identificando-os com os signos do zodíaco.

Fruto da diversidade simbólica existente entre os diversos ritos maçónicos, em outros sistemas, os Painéis de Loja assumem aspectos substancialmente distintos dos considerados no R:.E:.A:.A:..

No Rito Francês Groussier, muito embora o Quadro de Loja não seja um elemento de decoração do Templo indispensável, ou sequer recomendado, o Ritual de Referência G:.O:.d:.F:. 6009 inclui um modelo tipo, a ser seguido pelas Oficinas, pelo menos no seu trabalho simbólico.

Este não difere substancialmente, relativamente ao R:.E:.A:.A:., nos símbolos considerados, apresentando apenas outra disposição para os mesmos e, omitindo o Livro da Lei Sagrada, bem como a Régua de 24 Polegadas.

Destaca-se, ainda, que este Painel não é orientado, uma vez que neste Rito não existe sacralização ritual do espaço iniciático, sendo apenas convencionado o tempo mítico no qual decorrem os trabalhos.

Quadro de Loja de Aprendiz Rito Francês Groussier, Grande Orient de France, 2009

Em Inglaterra a utilização do Quadro de Loja só se fixou e, generalizou após o Acto de União de 1813, tendo os modelos ainda hoje utilizados nos Ritos Anglo-Saxónicos sido pintados por retratistas famosos, do princípio do séc. XIX, tais como John Harris (1791-1873) ou Josiah Bowring (1757-1832).

Nestes painéis, que se caracterizam por serem desenhados em perspectiva, abundam as cores utilizadas, constando a respectiva interpretação do Ritual de Iniciação de alguns “Workings”, como é o caso do Emulation.

Como elementos simbólicos específicos deste “Working”, presentes no Quadro de Loja do Primeiro Grau destacam-se os seguintes:

  • Os três Pilares, representados nas ordens de arquitectura atrás referidas simbolizam, para alem do ternário Sabedoria – Força – Beleza, também Salomão, Hiram Rei de Tiro e, Hiram Abiff;
  • A escada simboliza a visualizada por Jacob, no seu sonho, através da qual os Anjos se deslocavam entre a Terra e o Céu;
  • Os três símbolos presentes sobre esta escada representam as Virtudes Teologais: Fé, Esperança e, Caridade;
  • As quatro borlas, desenhadas nos cantos do Quadro simbolizam as Virtudes Cardinais: Justiça, Temperança, Prudência e, Coragem;
  • As sete Estrelas que rodeiam a Lua representam os sete Irmãos necessários para tornar uma Loja Justa e Perfeita;
  • A Estrela Flamejante simboliza a Glorificação do Centro, representando a Orla Denteada de triângulos negros e, brancos, tudo o que O circunda.

No Rito de Adopção, através do qual começaram a ser iniciadas Mulheres, no século XVIII, o conteúdo simbólico baseia-se, essencialmente, em vários temas vetero – testamentários.

Os Painéis do Primeiro Grau deste Rito são, pois, substancialmente diferentes dos ligados aos Ritos, à época, exclusivamente masculinos, mais centrados na construção do Templo de Salomão. Os relativos à Maçonaria de Adopção exibem, assim, imagens alusivas aos três grandes temas da Aprendiza Maçon, os quais são a escada de Jacob, a Arca de Noé e, a Torre de Babel.

Quadro de Loja de Aprendiz, Rito de Adopção, Séc. XVIII

Por último assinale-se que os Quadros de Loja do Rito Escocês Rectificado, por obedecerem a directrizes constantes dos Rituais de Willermoz, de 1782, são os que reflectem mais a prática do século XVIII.

O Painel de Loja do R:.E:.R:. apresenta de específico uma porta fechada, símbolo da Porta do Templo Interior à qual se acede por uma escada composta por séries de três, cinco e, sete degraus, separada por patamares. Tendo-se presente que o Catecismo do Primeiro Grau deste Rito descreve o Pavimento de Mosaico como “o que se encontra sobre o subterrâneo do Templo”, encontramos aqui uma temática presente nos graus crípticos de outros Ritos.

Esta Porta é ladeada pelas duas Colunas habituais, mas apenas a da esquerda exibe a letra J, dado que o Aprendiz ainda não conhece a da direita.

Para além destes aspectos o Painel apresenta três conjuntos de símbolos, compostos cada um deles por três símbolos dispostos em triângulo. Estes três ternários integram as Jóias Móveis, as Jóias Imoveis e, o conjunto Sol-Lua-Estrela Flamejante, contabilizando o número nove (3 x 3), presente no R:.E:.R:. de várias formas, tais como o número de Oficiais, ou o número de Luzes da Ordem.

Um dos aspectos que não foi normalizado nos Rituais de 1782 foi o número de Laços de Amor da Corda, pelo que em muitos Painéis deste Rito se adoptam nove Nós.

Para além do Quadro de Loja, no R:.E:.R:. existe, ainda, um Quadro do Grau, colocado em frente ao altar do Venerável.

O do Primeiro Grau, que foi herdado da Estrita Observância Templária, reflecte bem a dupla natureza Cavaleiresca e Cristã deste Sistema.

A coluna quebrada pelo fuste, mas cujas fundações permanecem firmes (em consonância com a divisa “Adhuc Stat”), que na Estrita Observância simbolizava a Ordem do Templo, assume todavia, no RER, uma interpretação mais espiritualista, representando o Homem, que muito embora se encontre corrompido pela queda, conserva em si os meios que lhe permitirão a sua regeneração, permitindo-lhe a Maçonaria a sua descoberta, no interior de si mesmo.

Este Quadro é sempre desenhado em branco, sobre fundo negro, em analogia com o teor do Prologo do Evangelho de João, segundo o qual

A Luz brilha nas trevas, mas as trevas não a compreenderam

Para além de conter os símbolos do grau, o Quadro de Loja é, por si só, um símbolo, que assume no R:.E:.A:.A:. um papel indispensável.

Assim, no nosso Rito, o Painel, disposto no local onde se projecta o eixo vertical da Loja, que liga o Zénite ao Nadir, representa o terceiro termo que equilibra o binário plasmado no pavimento de mosaico, orientando o espaço iniciático no qual se desenvolvem os trabalhos e, sobrevalorizando o centro, no qual todo o Maçon se deve situar.

Ao repetir em si toda a decoração simbólica do Templo, o Painel de Loja reafirma que a unidade contém, na sua essência, o Todo, ilustrando o princípio hermético de que

Tudo o que está em baixo é igual ao que está em cima

Este símbolo interage dinamicamente com o ritual, encontrando-se aberto, quando não estamos mais no mundo profano e, fechado, quando a Loja não está em Trabalhos, configurando assim a via traçada que levará o Maçon de Ocidente para Oriente, no caminho do Conhecimento e da Luz.

Quadro de Loja de Aprendiz, R:.E:.R:., Séc. XX

Acentua-se, ainda, que se o Quadro simboliza a Loja e, a Loja simboliza o Mundo, tudo isto ilustra que a Maçonaria é Universal.

Como tal, prolonga-se de Ocidente a Oriente, do Setentrião ao Meio-Dia e, do Zénite ao Nadir, numa única Cadeia de União intemporal, que nos religa ao passado, se materializa no presente e, se projecta no futuro, numa demanda constante do Belo, do Bom e, do Verdadeiro.

Como “caixa de ferramentas” de suporte dos Aprendizes, mais antigos ou mais recentemente iniciados, o Tapete de Loja reveste-se de uma riqueza pedagógica excepcional, permitindo um trabalho de reflexão simbólica extremamente profícuo, que possibilita a cada Irmão ir acrescentando o seu contributo às primeiras letras, que os Irmãos, por quem anteriormente circulou a palavra, lhe dão.

De tudo o atrás exposto, sobressaem as seguintes questões:

  • A evolução histórica da simbólica associada ao R:.E:.A:.A:. corresponde a uma tendência de aprofundamento iniciático crescente ou, pelo contrário, seria mais interessante proceder-se a uma abordagem revivalista, remontando-se aos rituais e, às construções simbólicas do séc. XVIII ?
  • Qual a actualidade e, a evolução previsível do nosso Rito, neste início do séc. XXI ?

Quando falamos de conhecimento iniciático, não estamos perante uma realidade estática, como a do conhecimento escolástico, que apenas se renova ao ritmo do reconhecimento oficial das novas descobertas científicas.

O conhecimento iniciático revivifica-se permanentemente, na medida em que o mesmo só é adquirido quando às interpretações que recebemos, dos elos da cadeia que nos antecederam, acrescentamos o nosso contributo reflexivo pessoal, transmitindo aos elos seguintes o valor acrescentado da nossa opinião.

O Rito Escocês Antigo e Aceito é, congenitamente, sincrético e, consequentemente, abrangente, o que lhe permite englobar todo um vasto universo de pensamento e, de símbolos, que lhe tem permitido adaptar-se a praticamente todos os quadrantes geográficos e, todos os sentidos de prática maçónica.

É certo que nem sempre os sincretismos introduzidos têm contribuído para uma maior coerência do sistema, mas coerência será sempre a ultima coisa a exigir de um Rito cujos graus simbólicos foram desenvolvidos em França, em 1804, sobre uma base Antiga e, em que a maior parte dos seus altos graus foram gerados, no mesmo país, entre 1740 e 1760, por Maçons que não conheciam outra forma de prática maçónica que não a Moderna e, onde coexistem influencias filosóficas tão distintas e, por vezes antagónicas como, por exemplo, a hermética e, a iluminista.

Devemos, contudo, pensar que um regresso às origens, levado até às suas últimas consequências, obliteraria todo o contributo de diversos simbolistas notáveis, tais como Oswald Wirth ou, Jules Boucher, que contribuíram, já no séc. XX, para que o R:.E:.A:.A:. assumisse a riqueza simbólica presente, constituindo-se como verdadeiro viveiro e, veículo transmissor da Tradição Maçónica, nas suas dimensões material, intelectual e, espiritual.

Quadro do Grau de Aprendiz, R:.E:.R:., Séc. XX

No que concerne à actualidade deste sistema face às questões contemporâneas, convém realçar que a Maçonaria se fundamenta em símbolos e, mitos que, por remontarem a fontes tradicionais, transportam uma essência intemporal, associada à natureza humana, que lhes tem permitido servirem de suporte à busca da Verdade, em contextos muito diversificados, espacial e, temporalmente.

A Verdade não se alcança, é fruto do momento e, tem sido esta sua busca que tem permitido aos Maçons encontrar respostas, em termos de valores éticos, face aos novos paradigmas das sociedades, em constante mutação, constituindo-se assim a Nossa Augusta Ordem como verdadeiro factor de elevação da Humanidade, numa constante busca de valores civilizacionais mais justos e, mais solidários.

Na reflexão filosófica maçónica contam mais os raciocínios que se produzem do que a base que os sustenta. Ao comportar fontes tão abrangentes, o R:.E:.A:.A:. possibilita uma escolha das ferramentas adequadas à situação concreta, permitindo que a interpretação dos seus símbolos, que pode sempre ser focalizada sobre diversos pontos de vista, tenha uma leitura analógica que transporte para as questões contemporâneas, permitindo ao Maçon Escocês do séc. XXI continuar a trabalhar, à semelhança dos seus antepassados, para o seu progresso pessoal e, da Humanidade.

Não julgo, pois, que visões radicalmente revivalistas sejam as mais indicadas face ao futuro, mas, também em matéria de prática ritualística, temos sempre de saber donde vimos e, onde estamos para, em consciência, podermos decidir para onde queremos ir.

Nesta linha de raciocínio, nada de coerente se poderá construir sem se entender a mensagem que os Irmãos que nos antecederam nos deixaram, pois só assim será garantida a continuidade da Cadeia Iniciática e, convenientemente, assegurada a Transmissão.

Adaptado de Joaquim G. Santos

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