Loja Maçónica em Campo de Concentração Nazi

A  Loja maçónica Liberté chérie tornou-se conhecida por ter operado dentro do campo de concentração nazi de Esterwegen durante a Segunda Guerra Mundial.

Fundação da Loja

A Loja foi criada na segunda quinzena de Novembro de 1943 [1], após a chegada do Mestre Maçon Amédée Miclotte à “caserna nº 6” do campo de concentração Emslandlager VII Esterwegen, em 22 de Novembro de 1943, por sete Maçons Belgas deportado por actos de resistência. O nome da loja foi escolhido a partir de palavras de La Marseillaise [2].

Os sete fundadores, foram:

  • Paul Hanson (“Hiram”, oriente de Liège) ; 1889 – morreu em Essen em 26 de Março de 1944
  • Luc Somerhausen (“Action et Solidarité”, oriente de Bruxelas) ; 1903 – morreu em Bruxelas em 5 de Abril de 1982
  • Guy Hannecart (“Les Amis philanthropes”, oriente de Bruxelas) ; 1903 – morreu em Bergen-Belsen em 25 de Abril de 1945
  • Jean Sugg (“Les Amis philanthropes”, oriente de Bruxelles) ; 1897 – morreu em Buchenwald em 6 de Maio de 1945
  • Joseph Degueldre (“Le Travail”, à Verviers) ; morreu em Pepinster em 19 de Abril de 1981
  • Amédée Miclotte (“Les Vrais Amis de l’union et du progrès réunis”, oriente de Bruxelas) ; morreu em Gross-Rosen em 8 de Fevereiro de 1945
  • Franz Rochat (“Les Amis philanthropes”, oriente de Bruxelas) ; 1908 – morreu em Untermansfeld em 6 de Janeiro de 1945

Houve também mais dois “membros” que chegaram a Esterwegen em Fevereiro e Março de 1944:

  • Jean-Baptiste de Schrijver (“La Liberté”, oriente de Gand) ; morreu em Gross-Rosen em 9 de Fevereiro de 1945
  • Henri Story (“Le Septentrion”, oriente de Gand) ; morreu em Gross-Rosen em 5 de Dezembro de 1944

Posteriormente, pouco antes da partida de Luc Somerhausen, em 22 de Fevereiro de 1944, iniciaram e depois elevaram o Irmão Fernand Erauw ao terceiro grau; Morreu em Ottenburg, em 8 de Abril de 1997. O irmão Franz Bridoux, um iniciado no pós-guerra, também foi prisioneiro nos mesmos quartéis de 16 de Novembro de 1943 a 15 de Abril de 1944. Paul Hanson foi eleito como venerável.

Funcionamento

Ao domingo de manhã, quando os católicos se reuniram nos fundos do dormitório para a missa com os dois padres deportados, os irmãos reuniam a Loja no outro quarto da caserna “número 6”, em volta de uma mesa que normalmente era usada para a classificação dos cartuchos. Os deportados, não-maçons e não católicos, asseguravam a vigilância à entrada da barraca.

Planta da Caserna nº 6

A caserna “número 6” era ocupada por prisioneiros estrangeiros (cerca de 85% de belgas, 10% de franceses de Nord-Pas-de-Calais, etc.). Os campos de Emslandlager eram um conjunto de acampamentos cuja história é apresentada na exposição permanente do Centro de Documentação e Informação de Papenburg. Este conjunto de quinze campos foi estabelecido perto da fronteira com a Holanda e foi administrado a partir de Papenburg.

Luc Somerhausen descreveu a iniciação de Erauw e outras cerimónias como sendo muito simples. Estas cerimónias tiveram lugar numa das mesas recorrendo a um ritual extremamente simplificado, no qual todos os componentes foram explicados ao candidato para que, posteriormente, ele pudesse participar do trabalho da Loja. Eles foram protegidos dos olhos de outros prisioneiros e supervisores pelos poucos não-católicos e não-maçons que foram deportados para a mesma caserna.

Havia mais de 100 presos na caserna “número 6”, onde ficavam trancados quase 24 horas por dia, sendo autorizados a sair por meia hora por dia, sob vigilância. Durante o dia inteiro, os prisioneiros separavam cartuchos e peças de rádio. Os prisioneiros alemães de direito comum ou político da outra metade do campo foram forçados a trabalhar em condições terríveis nas pedreiras de turfa próximas. A comida era tão pobre que os prisioneiros perdiam em média 4 kg por mês.

Após a primeira instalação na Loja, outras reuniões temáticas foram organizadas. Uma delas foi dedicada ao símbolo do Grande Arquitecto do Universo, outro ao futuro da Bélgica e outro ao lugar das mulheres na Maçonaria. Somerhausen, Erauw e Dr. Degueldre sobreviveram à detenção e a Loja deixou de funcionar na Primavera de 1944, quando todos os prisioneiros foram transferidos para outros campos na região central da Alemanha.

A respeitável Loja “Liberté chérie” está registada sob o número 29a no Grande Oriente da Bélgica.

Os membros da Loja

O Venerável Mestre da loja, o juiz Paul Hanson, nascido em Liège em 25 de Julho de 1889, era membro da loja “Hiram” em Liège. Participando num serviço de “informação e acção”, foi preso em 23 de Abril de 1942. Foi posteriormente transferido para Essen e morreu nas ruínas da sua prisão, destruída por um ataque aliado em 26 de Março de 1944 [3].

O Dr. Franz Rochat, professor universitário, farmacêutico e director de um grande laboratório farmacêutico, nasceu em 10 de Março de 1908 em Saint-Gilles. Trabalhou clandestinamente para o jornal da Resistência, La Voix des Belges, até à sua prisão em 28 de Fevereiro de 1942. Transferido para Untermansfeld em Abril de 1944, Mrreu lá em 6 de Janeiro de 1945.

Jean Sugg nasceu em 8 de Setembro de 1897 em Gand. De ascendência germano-suíça, ele trabalhou com Franz Rochat na imprensa de resistência, traduzindo textos alemães e suíços, e participou em vários jornais clandestinos, incluindo La Libre Belgique, La Légion noire, Le Petit Belge e L’Anti Boche . Morreu em Buchenwald em 6 de Maio de 1945.

Jean Sugg e Franz Rochat, tal como Guy Hannecart, pertenciam à Loja “des Amis philanthropes” a oriente de Bruxelas.

Guy Hannecart, advogado, poeta, romancista e dramaturgo, nascido em Bruxelas em 20 de Novembro de 1903, pertencia à Loja Les Amis philanthropes nº 3, a oriente Bruxelas. Membro do Conselho Nacional do Movimento Nacional Belga, foi preso em 27 de Abril de 1942. Morreu em Bergen-Belsen em 25 de Fevereiro de 1945.

Joseph Degueldre, Doutorado em medicina, nasceu em Grand-Rechain em 16 de Outubro de 1904 e era membro da Loja “Le Travail” em Verviers. Membro do Exército Secreto, chefe de secção do S.A.R., foi preso em 29 de Maio de 1943. Transferido para a prisão de Ichtershausen em Abril de 1945, participou numa “marcha da morte”, escapou e foi então repatriado pela Força Aérea Americana em 7 de Maio de 1945. Morreu em 19 de Abril de 1981 aos 78 anos de idade.

Amédée Miclotte, professor, nasceu em 20 de Dezembro de 1902 em La Hamaide e pertenceu à Loja ” Les Vrais Amis de l’union et du progrès réunis Chefe da Secção de Informação e Serviços de Acção, foi preso em 29 de Dezembro de 1942. Foi visto pela última vez em detenção em 8 de Fevereiro de 1945 em Gross-Rosen.

Jean De Schrijver, coronel do exército belga, nasceu em 23 de Agosto de 1893 em Aalst e era membro da Loja “La Liberté” em Gand. Em 2 de Setembro de 1943, foi preso por espionagem e posse de armas. Morreu em Gross-Rosen em 9 de Fevereiro de 1945.

Henry Story nasceu em 27 de Novembro de 1897 em Gand. Era membro da loja “Le Septentrion” em Gand. Capitão dos Serviços de Informação e Acção, foi preso em 20 de Outubro de 1943 e morreu em 5 de Dezembro de 1944 em Gross-Rosen.

Luc Somerhausen, jornalista, nasceu em 26 de Agosto de 1903 em Hoeilaart. Pertencia à Loja “Action et Solidarité” nº 3 e foi Grande Secretário Assistente do Grande Oriente da Bélgica. Ajudante nos Serviços de Informação e Acção, foi preso em 28 de Maio de 1943 em Bruxelas. Repatriado em 21 de Maio de 1945, ele enviou em Agosto do mesmo ano um relatório detalhado ao Grão-Mestre do Grande Oriente da Bélgica, no qual conta a história da loja “ Liberté chérie“. Morreu em 5 de Abril de 1982 com a idade de 79 anos.

Fernand Erauw, funcionário do Tribunal de Contas da Bélgica e oficial na reserva de Infantaria, nasceu em 29 de Janeiro de 1914 em Wemmel. Foi preso em 4 de Agosto de 1942 por pertencer ao Exército Secreto, onde ocupou o posto de tenente. Evadiu-se e foi recapturado em 1943. Erauw e Somerhausen encontram-se em 1944 no campo de concentração de Oranienburg-Sachsenhausen e permaneceramm inseparáveis depois disso. Na Primavera de 1945, participaram numa “marcha da morte”. Repatriado em 21 de Maio de 1945 e hospitalizado no Hospital Saint-Pierre, em Bruxelas, Erauw pesava apenas 32kg, para 1,84m de altura. Último sobrevivente da Loja “ Liberté chérie “, morreu aos 83 anos, em 1997.

O monumento

Memorial no Campo de Concentração de Esterwegen

Os Maçons belgas e alemães ergueram mm monumento, projectado pelo arquitecto Jean De Salle, em 13 de Novembro de 2004. Agora é parte do Memorial de Esterwegen. Wim Rütten, Grão-Mestre du Droit humain Belga, disse no seu discurso:

“Estamos hoje aqui reunidos, neste cemitério Esterwegen, não para lamentar, mas para expressar publicamente um pensamento livre:” à memória dos nossos irmãos, os direitos humanos jamais serão esquecidos ” ”

Fonte: diversos artigos

Bibliografia

  • Somerhausen: Une loge belge dans un camp de concentration. In: Feuillets d’information du Grand Orient de Belgique. nº 73, 1975
  • Fernand Erauw: L’odyssée de Liberté Chérie, 1993 – Histoire de la loge
  • Pierre Verhas: Liberté chérie : Une loge maçonnique dans un camp de concentration. Bruxelles, Labor, 2005.
  • Franz Bridoux, La Respectable Loge LIBERTE CHERIE au camp de concentration d’Esterwegen, Logos, 2012 (ISBN 9782960109740)

Notas

[1] Havia pelo menos mais uma: “Les Frères captifs d’Allach” no campo de Allach, anexo ao de Dachau, e cujos dados estão no museu do Grande Oriente da França.

[2] La Marseillaise (A Marselhesa, em português) é o hino nacional de França. Foi composto pelo oficial Claude Joseph Rouget de Lisle em 1792, da divisão de Estrasburgo, como canção revolucionária. A canção adquiriu grande popularidade durante a Revolução Francesa, especialmente entre as unidades do exército de Marselha, ficando conhecida como A Marselhesa. O seu título era originalmente Canto de Guerra para o Exército do Reno. O hino foi composto a pedido do prefeito de Estrasburgo, Philippe-Frédéric de Dietrich, dias depois da declaração de guerra ao imperador da Áustria, em 25 de Abril de 1792. O canto deveria ser um estímulo para encorajar os soldados no combate de fronteira, na região do rio Reno.

[3] Monique Cara, Jean-Marc Cara e Marc de Jode, Dictionnaire universel de la Franc-Maçonnerie, Larousse, Agosto de 2011, 640 p. (lire en ligne), p. 378.

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