Antigo Venerável “Dono da Loja”

É uma situação que ocorre com frequência um pouco por todo o lado, em todo o tipo de organizações e, porque não dizê-lo, também na Maçonaria. O que vem a ser esta situação?

Simplesmente, conforme o título do trabalho já sugere, é um Irmão que exerceu a sua gestão como Venerável de uma loja e que o seu desempenho pode até ter sido muito bom ou muito mau, mas que o seu mandato terminou, e ele esquecendo que já passou o seu momento como principal gestor da loja e que deveria ficar quieto no seu canto, insiste em se intrometer nos trabalhos da nova liderança que democraticamente surgiu na sua Loja através do voto.

Apegado ao poder, chega aos limites da hipocrisia que como se sabe é o acto de fingir qualidades, ideias ou sentimentos que na realidade ele não tem e isto às vezes torna-se para ele uma verdade, ainda que falsa; um verdadeiro sofisma, acreditando ser o que sabe tudo, que sabe mais que os outros, enfim que é o dono da verdade.

Ele não sabe conter-se, não consegue ficar sem dar palpites, ou dar ordens ao novo venerável, ou criticar o novo líder, não somando as suas forças com as da nova gestão, pelo contrário, atrapalhando-a. Se o novo venerável não for um líder pragmático, de pulso forte, que não saiba impor-se, ficará a mercê do antecessor, não podendo exercer a sua gestão a contento como planeou.

Todavia, numa loja democrática, não faltarão Irmãos que com coerência e bom senso, tomam o partido do novo líder e os mais habilidosos, chegam ao “ex” e com muito jeito, com parcimónia tentam fazê-lo compreender a nova situação, o que às vezes não conseguem, havendo até em certos casos uma cisão na loja. Muitas novas lojas foram fundadas por antigos Veneráveis que não souberam respeitar a nova liderança. Este é um facto incontestável.

Este apego ao poder é algo que o Antigo Venerável às vezes não consegue controlar, porque ele não estava preparado quando exerceu o seu mandato, para um dia deixá-lo como costuma acontecer nos regimes democráticos e uma loja maçónica não tem dono justamente por ser uma democracia. Ele encontrou-se Venerável, e não entendeu que apenas estava Venerável. Acha que continua Venerável.

Este tema abre um leque mais profundo em relação à análise do poder nas lojas e como ele é manipulado.

Este tipo de “dono da loja” não é o pior entrave para uma loja. O pior Antigo Venerável é aquele tipo de irmão matreiro, político, de fala mansa, que sorri para todo o mundo, abraça a todos três vezes e que se derrete em falsos elogios aos Irmãos do quadro e procede assim porque é uma das suas estratégias para se manter no poder eternamente. Ele vale-se de bonecos ou títeres para cobrir uma gestão que por imposições das constituições das potências ele não pode ser reeleito mais do que uma ou duas vezes. De seguida ele volta gloriosamente na próxima. Mas durante a gestão do seu proposto, quem dirigirá de facto a loja, será ele. Não de direito, mas de facto. Ele tomará todas as decisões e o venerável de plantão cumprirá rigorosamente o que o seu chefe determinar.

Geralmente ele tem o seu grupo, formado por outros irmãos que são coniventes, que antecipadamente já decidiu quem será o venerável para os próximos seis ou oito anos, mas ele voltando sempre após as gestões dos seus substitutos arranjados ou então apenas preferirá ser o chefe por trás, nos bastidores, mandando em tudo e por muito tempo.

No fundo a sede de poder, nada mais que uma auto-afirmação, insegurança, incapacidade de ser transparente com os seus semelhantes e com o meio em que vive, vaidoso, mentiroso, geralmente tendo uma visão unilateral dos processos de interacção entres os Irmãos, tornando a sua personalidade a de um verdadeiro psicopata social. Não sabe mais discernir os seus limites. Não tem sentimentos. Chega a ser uma doença de desvio de personalidade e de comportamento.

Isto não é bazofia ou piada. Isto realmente acontece na Maçonaria num índice maior do que se pode imaginar, mas não como rotina. Infelizmente esta situação vem ocorrendo e muitos irmãos fingem não vê-la ou senti-la, porque os membros das lojas com excepção de verdadeiros maçons agem passivamente como cordeiros, esquecendo que uma loja aberta em sessão é uma tribuna livre onde ideias são criadas, sonhos são idealizados que podem mover o mundo – um verdadeiro laboratório social que pode mudar tudo para melhor e por isso todos os problemas devem ser discutidos e todos devem participar.

Uma situação esdrúxula aconteceu numa loja em que será omitido o nome da cidade, onde isso ocorreu. Um Irmão destes tipos de donos da sua loja, fez a sua loja votar o título de “venerável perpétuo” para ele. Até aí, nada de mais; a loja votou, está votado. Mas ele exigia que a loja só abrisse os trabalhos nas suas sessões normais quando ele estivesse presente, e ele atrasava-se sempre cerca cinco a dez minutos; aí, a sessão podia começar. Isto é o cúmulo da hipocrisia, tanto deste sociopata Antigo Venerável como da loja que aceitava tal situação. Pasmem! Parece uma estória inventada, mas não é. Isto é verídico!

Mas é bom que se frise que a maioria dos antigos Veneráveis não se enquadram nesta descrição. Existem muitos bons maçons na Ordem. Felizmente a maioria. São excelentes Irmãos, preparados, humildes, que sabem qual é o seu lugar dentro de uma loja, bons conselheiros; conhecem o peso de um malhete, porque já o manejaram quando foram veneráveis. Aprenderam mais a ouvir do que a falar.

A Maçonaria valoriza a Dialéctica, que é a arte do dialogo, ou a discussão, como força de argumentação que permite que se contrariem ideias, que elas sejam discutidas em todos os sentidos e que dessa situação nasça um ideia concreta, inteligente, e perfeita, uma verdadeira síntese de tudo o que foi tratado, desde que venha em favor da Ordem e da humanidade. A Maçonaria prega a igualdade e a liberdade de pensamento entre os seus adeptos.

Esta situação de dono de loja é uma das causas maiores do afastamento de muitos honrados irmãos da Ordem. Se um irmão, sem medo, com coragem, falar em nome da democracia e dos verdadeiros princípios da Ordem, e isto ferir os desígnios destes déspotas, será marcado, perseguido e descriminado.

Considerando-se que temos cerca de seis ou sete mil lojas no Brasil, imagine-se o número de Irmãos que agem desta forma, considerando-se que a natureza humana é complexa e estranha e que muitos homens possuem a síndrome do poder em função do seu DNA animalesco onde um quer ser o dominante sobre o outro, ou sobre os outros. Geralmente estas pessoas são inseguras, não são felizes, não estão de bem com a vida e esta forma de querer exercer um suposto poder sobre os outros é a sua maneira de tentar equilibrar os seus próprios defeitos.

A síndrome do poder também chamada de síndrome do pequeno poder é uma atitude de autoritarismo por parte de um indivíduo que recebeu um poder e tenta usá-lo de forma absoluta e imperativa sem se preocupar com os problemas dicotomizados que possam vir a ocasionar. A síndrome do pequeno poder pode tornar-se uma patologia, quando se torna crónica. Existem aqueles Irmãos que mesmo longe do poder pensam que o possuem. Quando a realidade lhes é mostrada, entram em depressão.

Mas a Maçonaria prega justamente o contrário. Ela é democrática. Quando se fala em vencer as paixões significa que o maçon deve fazer prevalecer o seu consciente racional sobre as programações erradas do seu subconsciente, ou seja, sobre a parte ruim que o ser humano tem dentro de si – segundo São Francisco de Assis, é o “burro” ou a “besta” que o ser humano carrega dentro da sua consciência. Uma das condições mais exigidas pelos princípios maçónicos é justamente fazer prevalecer o lado bom, vencendo o lado mau.

A condição para um irmão ser venerável em primeiro lugar é que ele tenha méritos pessoais e que tenha um conhecimento profundo da ciência maçónica em todos os seus segmentos, tais como história da Ordem, ritualística, simbologia, administração, legislação e justiça sendo tudo isto associado à sua capacidade de liderança.

Evidentemente a Maçonaria terá de renovar os seus líderes, para que novas ideias, novos postulados, novos rumos e até novos paradigmas sejam estudados, adoptados e postos em acção.

Todavia correrá o famoso risco:

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Por fim, enfatiza-se que este trabalho foi escrito para uma minoria de Irmãos, que são gananciosos do poder. Ressalve-se aqueles Irmãos antigos Veneráveis pessoas intocáveis que não se enquadram neste contexto. Felizmente, a maioria. Estes são os sustentáculos da Ordem.

Adaptado de texto publicado por Hercule Spoladore

Loja de Pesquisas Maçónicas “Brasil” – Londrina – PR

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