Irmãos ou Amigos?

Há muito tempo, ouvi um Maçom dizer a outro que “não deveriam ser amigos” dos seus Irmãos. Foi um comentário estranho para mim, pois pensei que, quando ingressasse na Maçonaria, encontraria pessoas com ideias semelhantes com as quais eu poderia passar tempo conversando e mudando o curso do universo, alcançando todos ambições surpreendentes e elevadas. Estas são as coisas que fazemos com as pessoas de que gostamos. E você não gosta dos seus amigos?

Mais tarde, quando evolui para os graus mais elevados, outro Maçom mais experiente disse a mesma coisa, acrescentando: “é um caminho solitário, estar nestes graus mais altos”. Embora eu pudesse ter duvidado antes, não duvidei agora. Já vi muitas coisas darem errado para questionar esta sabedoria. O meu dilema, no entanto, estava em tentar descobrir qual é a diferença entre o Maçom e o amigo. Porque é que um Irmão também não pode ser amigo? Porque é que um Irmão não deveria ser amigo? Como é que comunico isto a outras pessoas que se depararam com algumas situações embaraçosas e emocionalmente perturbadoras? Como é que as evito também?

Permitam-me que comece por dizer que esta descoberta, este entendimento entre amigo e Irmão, foi uma longa jornada. Eu aprendi muito sobre mim, como a Maçonaria costuma disponibilizar a uma pessoa no seu caminho. Eu sou o tipo de pessoa que tenta ter um comportamento agradável e ser acolhedor. Chamem-lhe ser uma Libriana, uma cuidadora, filha mais velha ou o que quiserem; a minha personalidade é trazer o máximo de hospitalidade possível com minhas atitudes, pensamentos e sentimentos, de modo a criar um círculo de cordialidade, confiança e autenticidade. Sinto que é a única maneira de se comunicar bem com as pessoas e como quero que as pessoas se comuniquem bem comigo. Estar aberta, dá-me uma visão de quem eles são. Muitas pessoas confundem isto com amizade; eu acho que, em geral, as pessoas dos Estados Unidos confundem bastante com amizade, mas isso pode ser um tópico para outra hora. Ser gentil não significa amizade. Ser gentil é, simplesmente, ser gentil. Eu tive este problema a vida toda e é algo que eu entendo sobre mim. Enquanto tento ficar claro, às vezes não distingo a floresta das árvores. Eu luto para perceber como ser gentil pode causar mal-entendidos. Vamos chamá-lo de ingenuidade experiente.

Um amigo é alguém com quem criámos um vínculo, alguém que conhecemos bem e com quem temos um carinho mútuo. Alguém me disse uma vez, você ganha amigos. Eles são criados através de experiências de confiança, partilha e ter alguém com quem se é comum. Você pode ou não fornecer algum tipo de apoio para um amigo; pode ser apoio emocional, mental ou físico.

Amigos diferentes têm diferentes níveis de envolvimento e significado. Um amigo pode ser alguém com quem partilhamos eventos ao longo da nossa vida ou alguém com quem somente partilhamos café de vez em quando. Não há expectativas na amizade em geral; cada relacionamento cria os seus próprios limites e formas de pensar e de estar juntos. Na Europa, conhecidos não são amigos. Pode-se conhecer alguém por 20 anos, mas eles não são seus amigos. Eles são alguém que você conhece. Temos menos distinção sobre isso aqui nos Estados Unidos. Confiamos muito mais noutras pessoas que nos dizem o que devemos ser. Amigos são necessários para todos; eles fornecem-nos uma janela para o mundo e um ouvido para nos ouvir, quando precisamos daquele confidente, daquele apoiante, daquela pessoa que nos conhece melhor.

Um Irmão é muito diferente. Enquanto escolhemos os nossos Irmãos na Maçonaria, é um processo muito democrático e cheio de discussões. Irmão, deve ficar claro, é um título. Pode significar um companheiro Maçom, mas também é o título de alguém que é Maçom. Para alguém se tornar um Irmão, há um processo longo e rigoroso, em que os requisitos são definidos com base na organização ou no corpo maçónico. Por exemplo, é preciso ser justo, recto e livre, com idade madura, mente sã e moral estrita. Eles não precisam de conhecer a minha moral; eles precisam demonstrar uma moral que sustente os princípios da Maçonaria – por exemplo, tolerância e prudência. Como Maçom que julga um candidato, posso afirmar com autoridade que este não é um concurso de popularidade: o candidato deve atender aos critérios e a maioria dos membros da Loja concordar com a adesão. Embora seja bom que as pessoas se entendam, certamente não é um requisito, a menos que algo seja seriamente desarmónico. Alguns grupos maçónicos não admitem o outro género, ou alguns não admitem não-cristãos. Quaisquer que sejam as regras de entrada, elas são rigidamente controladas pela organização global.

Na minha opinião, quanto mais diverso o grupo de maçons, melhor o crescimento do ser humano e da humanidade. Que melhor maneira de nos entendermos melhor a nós mesmos do que nos depararmos com aquelas pessoas com as quais não nos encaixamos particularmente? Pense … um copo liso e uma pedra. Gostamos de pensar que não temos arestas, mas todas as arestas num copo são esquisitas. Se “agarrar” alguém, não é porque a sua superfície é super lisa. Você tem solavancos, como todos nós. É assim que melhoramos. Ao trabalhar com eles. Falaremos mais sobre isto, mais tarde.

Seleccionar quem se tornará Irmão é apenas uma parte da resposta à pergunta. Qual é a diferença entre Irmão e Amigo? A segunda parte vem de trabalharmos repetidamente em Loja, juntos como maçons. Os seres humanos normalmente são atraídos uns pelos outros à medida em que percebem interesses comuns. Na Maçonaria, muitos Irmãos viajam juntos ou oferecem as suas casas para visitas e convívio. No mundo exterior, o mundo não-maçónico, isto indica ou implica amizade. Para alguém que não tenha claros os seus limites maçónicos, este tipo de interacção pode ser mal interpretado. Ser gentil não é ser amigo; ser bom na Maçonaria é esperado e hospitaleiro. Por outro lado, como observei acima, concordar com alguém não é um requisito para ser ou permanecer um Maçom. Nós não temos todos os mesmos pensamentos, opiniões, nem gostaríamos. Debate e retórica são coisas que criam seres humanos melhores, e os Maçons valorizam o debate bem informado e opinativo. Se você não consegue discutir assuntos importantes com os seus Irmãos, poderá não ter sucesso como Maçom. Por outras palavras, desacordo ou debate não é motivo de ódio ou conflito. É uma forma de crescimento.

Pedra… copo liso…

Existe um código de conduta que os Maçons respeitam para interagir uns com os outros que é bastante formal e que se mantém, estejam eles numa reunião da Loja ou em público ou num evento não-maçónico. Nenhum Maçom sonharia em atacar outro fisicamente, chamando-lhe nomes a eles ou às suas famílias, ou tratando-os com algo que não fosse decência humana. Há um respeito por eles como ser humano, mas ainda mais, eles ganharam respeito porque têm o título de Irmão. Também existe um respeito pelo trabalho árduo que alguém colocou na sua Ordem Maçónica, seja por anos de serviço, viajar para ensinar ou ser mentor, horas de reuniões e comités ou outro tempo de voluntariado. Existe um respeito pela posição formalmente concedida pela Loja àquela pessoa que deve gastar o seu tempo coordenando, planeando, instruindo e promovendo uma influência maçónica adicional, bem como os oficiais da Loja que realizam o trabalho. Há respeito pela memorização, trabalho que leva a subida de Grau e espera-se que, pela execução do ritual. Tudo isto exige um sentido de respeito para com os Irmãos e uma dedicação real para apoiar o que eles fazem, mesmo que não desejemos, não possamos ou não sejamos capazes de o fazer. Respeitamos o mérito e a capacidade. Este respeito é apoiado por regras e regulamentos que exigem respeito e por uma jurisprudência que impõe essas regras.

Eu penso que é aqui que as águas se tornam turvas. No mundo não-maçónico, concedemos respeito pelo nosso próprio juízo. Ganhamos amigos vivendo de acordo com os nossos próprios ideais e, às vezes, comprometemos esses ideais pelo benefício de ter à nossa volta, aqueles que partilham as nossas inclinações. Nós tendemos a escolher os nossos amigos porque eles pensam como nós, não porque pensam de maneira diferente. Geralmente escolhemos amigos com os nossos egos. Numa sociedade cada vez mais polarizada, precisamos de ter os nossos “exércitos” ao nosso redor para nos fazer sentir melhor. Numa sociedade cada vez mais constituída por ilhas, confundimos a menor sugestão de gentileza pessoal como um sinal, como uma afinidade. Não se pode afirmar o suficiente de que não devemos trazer o mundo exterior para a Maçonaria e esperar que ele se adapte. Da mesma forma, não devemos interpretar mal a hospitalidade e a fraternidade da Maçonaria, como amizade.

À medida que percorremos o caminho que é a Maçonaria, as responsabilidades, deveres e obrigações tornam-se maiores e mais abrangentes. O dever cresce e a nossa mente deve pensar não apenas na nossa própria Loja, mas também no distrito, na província e, até, em toda a Ordem; pode até crescer até se ser responsável pelo crescimento da própria Maçonaria. Embora um amigo verdadeiro e autêntico nunca lhe peça que comprometa a sua vocação por eles especificamente, isto coloca todos num equilíbrio precário, se se misturar responsabilidades, deveres e obrigações ao sair para tomar algumas cervejas numa noite de sábado com um único Irmão. É preciso ter muito cuidado sobre onde termina um limite e começa o outro. Como alguém se comporta está em relação directa com a forma como se obrigou ao assumir uma posição dentro da Maçonaria.

O maior e mais difícil desafio é ser “amigo” das pessoas no início da sua carreira Maçónica e depois fazer coexistir isso com maiores obrigações à medida que você cresce. À medida que mudamos, às vezes nossos amigos não. Talvez não saiamos tanto para uma cerveja, mas fiquemos em casa e desfrutemos de um bom grupo de estudo on-line. Pode haver uma amargura ao colocar a Maçonaria acima da amizade. Pode haver tristeza porque você passa um tempo com uma Loja em vez de com uma única pessoa. Conheço alguém que se tornou o líder da sua Loja local. Quando isto aconteceu, as pessoas rodearam-na para que as colocasse em posições de aparente importância na Loja, nas funções de Oficiais que desejavam. A pessoa acedeu a colocá-los nessas posições e a Loja sofreu por causa disso, porque eles não estavam preparados para fazer os trabalhos que desejavam; ela pensou nos seus desejos e não nas necessidades do grupo. Amizade acima da Maçonaria – aprendeu uma lição valiosa naquele primeiro ano.

Em alguns casos, talvez nunca tenham sido amigos, mas simplesmente Irmãos, mas é aí que as subtilezas e a hospitalidade da Maçonaria se confundem com o mundo exterior. Quando se entra na Maçonaria pela primeira vez, talvez se esteja à procura de amigos ou até mesmo de família. Pode-se estar à procura de pessoas com ideias semelhantes e ter esperança de amizade. Sair e tomar café e conversar sobre assuntos esotéricos pode ser algo que se faz com amigos ou com Irmãos; é a construção do relacionamento e do contexto que faz a diferença. Não é impossível ser amigo de um Irmão – nem de longe. No entanto, o que vejo que funciona, é quando a Maçonaria é a base do relacionamento e isso tem precedência. Eu posso pensar em muitos casos em que o inverso não funciona.

Na Maçonaria Mista (Co-Masonry), há o desafio adicional de mães, pais, filhos, filhas e outros membros da família se tornarem Maçons, às vezes na mesma Loja. Isto parece levar a um relacionamento familiar moderno e torná-lo ainda melhor. Todos têm o objectivo comum de se tornares pessoas melhores, em conjunto, com uma compreensão mais profunda do seu relacionamento. Talvez seja porque esse relacionamento de “amizade” nunca existiu entre irmãos ou pais – afinal, é a família. Era a família em primeiro lugar, mesmo que os adultos também fossem amigos. A Maçonaria, no seu formato familiar, apoia profundamente essas ideias e relacionamentos e ajuda-os, na minha opinião, a se tornarem mais ricos. Vi famílias inteiras ingressando na Maçonaria e isso cria um vínculo muito forte, ao longo da vida.

Vi muitas pessoas que dedicaram toda a sua vida adulta a ajudar a Maçonaria a crescer, e esse não é um caminho fácil. Eles estão ao telefone o dia todo, enviam e recebem e-mails e participam em reuniões, planeando e executando o tempo todo. Se tiverem sorte, conseguirão tempo para a família e alguns amigos íntimos, algumas viagens e risadas. Eles criaram famílias que eram quase todos Maçons e talvez tenham criado outros que eram amargos com a influência da Maçonaria. Alguns trabalham há décadas para melhorar a vida de todos os Maçons, sem pensar no seu próprio serviço ou sono. É tudo uma escolha, e esse sacrifício pode ser tão difícil quanto aqueles que abandonam as suas vidas individuais para criar uma família ou um bando de paroquianos. Para esses poucos dedicados, eles têm muito poucos amigos, mas muitos, muitos Irmãos. Para eles, isso é satisfatório e saudável, e ajuda-os a criar o Verdadeiro, o Bom e o Belo no mundo.

Então, Amigos? Ou Irmãos?

Kristine Wilson-Slack

Tradução de António Jorge

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