Ser e parecer

Diz-nos o nosso Querido Irmão Arthur Powell o seguinte:

Só quando se silencia e aquieta o tumulto das paixões egoístas, dos veementes desvios, do ódio destruidor ou da malevolência é que se pode ouvir a voz do Guia Interior – que é o homem verdadeiro – e é quando o Venerável Mestre pode dirigir a Loja. As mensagens e ordens do Mestre, do Ego Sábio, não podem ser transmitidas a elementos de natureza inferior, nem podem ser obedecidas com toda a exactidão, enquanto não houver silêncio na Loja, nem cessarem as lutas emocionais e mentais, mas apenas quando todas as partes do organismo se subordinarem à direcção silenciosa do Dono da Consciência, ou seja, do Ego

Estas sábias palavras levantam obviamente várias questões. A primeira poderá ser enunciada como a extrema necessidade de todos nós sem excepção não profanarmos o Templo nem o seu espaço sagrado, deixando do lado de fora do mesmo os nossos pensamentos, comportamentos e vontades profanas, como os problemas do dia a dia, com quem me irei reunir no dia de amanhã, o que fiz hoje, o que tenho ainda para fazer, o cão que terei que levar a passear à rua quando chegar a casa, a esposa, a namorada e a amante, etc, etc, etc.

Não profanemos (que é a sobreposição do profano sobre o sagrado), também com a voz. Deixemos as nossas urgentíssimas e inadiáveis trocas de impressões com o Irmão que se encontra a nosso lado nas colunas ou no Oriente, para um tempo após a sessão de Loja, durante o ágape ou outro qualquer convívio profano que se siga ao mesmo. Esse será o momento ideal para a troca de impressões e jamais durante a sessão, onde deveremos observar um absoluto silêncio. Repito, absoluto silêncio.

Não profanemos também por intermédio da consulta dos nossos gadgets tecnológicos, sms, facebook, whatsapp, durante a sessão. Não se esqueçam que a sessão decorre num outro tempo e num outro lugar, diferentes do espaço físico-temporal do mundo profano. Não interrompamos essa manifestação mágica e transcendental com a ligação ao mundo profano para consulta da vida que retomaremos dentro de alguns minutos mas que deverá ser deixada do lado de fora do Templo, também na sua forma electrónica.

O silêncio não é somente uma característica dos graus de Aprendiz e Companheiro, mas também do Mestre, o qual se manterá em absoluto silêncio até que o Venerável Mestre o autorize a falar e sempre a bem da Ordem, quando a palavra for concedida às colunas.

É no silêncio que se expressam as mais sublimes emoções. Abramos pois o caminho para que as mesmas se manifestem.

Estamos cada um, na sua individualidade, por si só, a vivenciar uma experiência individual, no conjunto da Loja, a qual se reflectirá em nós próprios e também em todo o conjunto. Todos somos, per si, um bago da romã, a qual será tão melhor fruto se todos os seus bagos, sem excepção, estiverem na melhor das suas condições. Na sequência do que acabei de referir, diz-nos o Nosso Querido Irmão Oswald Wirth:

Assim, qualquer Loja Maçónica é uma oficina onde os pensadores se exercitam a trabalhar em comum. A fim de pensar em coro, cada um contribuindo com a sua nota pessoal para a harmonia do conjunto. Da colectividade liberta-se assim um pensamento sinfónico, muito mais poderoso do que o pensamento individual, pois é criado a partir de notas afinadas, cujas ondas encontram eco em qualquer cérebro receptivo, isto é, harmonizado para vibrar correctamente

Todos nós sem excepção estamos em sessão de Loja por nossa vontade expressa, ninguém está aqui obrigado. Como tal, estejamos aqui com verdadeira vontade de estar e de participar na Sessão de Loja. Se não o conseguirmos ou não nos acharmos em disposição para tal, permaneçamos então no mundo profano, sob pena de estarmos a estragar a sintonia obtida pelo conjunto dos nossos Irmãos.

Retomando o título: Ser e parecer. De onde surge isto?

Roma, ano de 62 A.C. Pompeia, esposa de Júlio César deu uma festa na residência de ambos, onde só poderiam participar mulheres. Um homem, de sua graça Públio Pulcro conseguiu entrar na festa, com o único objectivo de tentar seduzir Pompeia. Este foi apanhado e julgado, tendo-se provado que estava inocente. Mesmo assim, Júlio César divorciou-se de Pompeia, alegando que a sua esposa não deverá estar nem sob suspeita. Daqui nasceu o conhecido provérbio “À mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. Ser e Parecer.

Se por um lado todos nós somos Irmãos, somos Maçons e nos reconhecemos mutuamente como tal, resta-nos tão somente parecer que estamos de facto aqui reunidos numa sessão de Loja. Se por outro lado todos nós parecemos Maçons, pela nossa indumentária e paramentos, pois sejamos verdadeiramente esses Maçons, desligando-nos do espaço profano e religando-nos aqui, neste espaço-tempo mágico, um outro tempo, um outro lugar, e deixemo-nos envolver pela simbologia maçónica e pelo ritual, enquanto somos conduzidos pelo malhete do Venerável Mestre.

Sejamos e pareçamos Ser em simultâneo, Maçons.

Disse!

Mike Lima

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