O caçador de pedreiros-livres (III)

Partilhe este Artigo:

José Anastácio Lopes Cardoso e sua acção contra a Maçonaria luso-brasílica (1799-1804)

(Continuação –

Ligação para a Parte II)

inquisição, pedreiros

O genial mulato bahiense

Em 1803, com Hipólito e Couto presos no Santo Ofício, a maior preocupação e desafio para Cardoso era o baiano José Borges de Barros, que continuava na activa, executando em Londres um ambicioso plano com o objectivo de sublevar o Brasil. Nas palavras do corregedor:

Por occazião de outro Processo que tenho entre maons, e Reflicto que existe hum projecto de Rebelar o Brazil. Hé Aucthor Joze Borges de Barros, segunda vez agora convencido da falsificação de papel moeda Portugueza, e contra quem há as uniformes confissoens de seos Corrêos (Vejão se as perguntas dos R.R. Gillington, e Farrel) Este Borges he famozo Franc-Maçons, Brazileiro de origem, e adiantado nos graós da seyta na Ilha da Madeira onde Rezidio annos; que parece entrou na projectada sedicção da Bahia em 1796 como dizem os ditos Corrêos; e implicado na delligencia que eu fiz contra os Maçoens em 1799 com os Irlandezes; envolvido nas ordens da seyta na Ilha da Madeira, e propagador de principios anarchicos e sediciozos no Brazil, e Madeira, e que projectava emittir similhantes princípios para Lisboa; e hé este assumpto muito grave para ser desprezado; envio portanto as provas que tenho contra elle nas perguntas dos Corrêos do papel moeda falso, sendo também notavel que a hum Corrêo que havia em Lisboa Alexandre Assupard de Barros se aprehenderão na busca de Papeis e Cathecismos Maçónicos.

José Borges de Barros, envolvido na Conjuração Baiana de 1798, destoava da origem social dos condenados pela sedição interceptada. O mulato Borges era filho do capitão Sebastião Borges de Barros (falecido a 9 de Dezembro de 1766) e de sua concubina, Izabel do Carmo, mulher solteira [81]. Seu pai era um dos homens mais poderosos da Bahia, tendo sido capitão de Sergipe do Conde e chefe político de Santo Amaro da Purificação (1743-53), além de integrar a Mesa de Inspecção da Bahia (1760), dispondo de centenas de homens para executar suas ordens. Irmão de João Borges de Barros e do cónego Luis Antonio Borges de Barros, Sebastião circulava bem nos meios intelectuais da capitania, sendo sócio da Academia Brasílica dos Renascidos (1759) e publicando seus poemas em Lisboa.

Os historiadores da Conjuração de 1798 discutem a existência de uma sociedade maçónica chamada Cavaleiros da Luz, que supostamente seria a primeira loja maçónica no Brasil. Não é possível confirmar sua existência, mas decerto que indivíduos iniciados na maçonaria transitavam pelo Atlântico e pela capitania da Bahia pelo menos desde 1760, a exemplo de José Mascarenhas Pacheco Pereira Coelho de Melo, com ordem do poderoso ministro e pedreiro-livre Sebastião de Carvalho e Melo para extinguir os jesuítas. Coelho de Melo era, portanto, confrade de Sebastião Borges de Barros, pai de José Borges de Barros, na Academia Brasílica dos Renascidos. Naquele espaço intelectual privilegiado da colónia, transitavam também outros indivíduos suspeitos de pertencerem à maçonaria, como o poeta Cláudio Manoel da Costa, que se correspondia com membros da família Borges de Barros e viria a ser partícipe da Inconfidência Mineira. A presença de maçons na Academia Brasílica dos Renascidos, por volta de 1760, pode ser uma explicação para a controversa afirmação de Joaquim Felício dos Santos, publicada em 1868, de que “no meio do século passado já funcionava na Bahia o grande oriente maçónico” [82].

Possivelmente, José Borges de Barros foi admitido na maçonaria na Ilha da Madeira, por volta da década de 1780. Cardoso diz que Barros era um “famoso franco-maçom, [_] brasileiro de origem e adiantado nos graus da seita na ilha da Madeira onde residiu anos”. Ser adiantado em graus confirma que Barros pode ter sido admitido na maçonaria pelo menos cerca de dez anos antes. Em outra carta, do próprio punho de Cardoso, o corregedor afirmou que “Benger da Madeira, [era] antigo patrão de José Borges de Barros” [83]. Foi possível identificar esse indivíduo como John Light Banger, rico maçom inglês e construtor da Torre de Banger, no Funchal [84].

Borges voltou à Bahia na esquadra de Bernardo Esquível em 1795. Nos dois anos seguintes, estabeleceu um círculo de amizade com indivíduos que compartilhavam ideais semelhantes. Sua real participação nas conspirações que precederam a sedição de 1798 ainda é obscura. É descrito nos Autos da Devassa de 1798 como “homem pardo, que pouco tempo antes tinha vindo aqui da Ilha da Madeira, com o dizignio de se estabelecer em negócio” [85]. Um processo do Santo Ofício de Lisboa regista que “o Borges se gabava de ter entrado em uma sedição no Brasil, em que houve alguns réus justiçados” [86]. Sabemos, contudo, que estava fora da Bahia desde meados de 1797, quando seguiu para Lisboa.

Na Corte, em Março de 1798, tentou conseguir o cargo de escrivão da correição da Ilha da Madeira, por concessão dos serviços militares de um suposto primo baiano chamado José Ângelo Jordão, mas seu pedido foi indeferido [87]. Ainda em Lisboa, em 1799, a Intendência de Polícia estava observando Barros por conta de sua ligação com a maçonaria, e os agentes de Cardoso tentaram detê-lo “por ser franco-maçom, [_] mas que tendo notícias antes desta diligência queimara muitos papeis sediciosos” [88]. Mais uma vez, ele escapou e, por volta de 1800, estava na Inglaterra, onde planejou seu grande golpe contra a o sistema colonial, um projecto de falsificação de papel-moeda.

A notícia de que estava envolvido na falsificação de moedas já havia sido revelada pelos historiadores Oliveira Marques e István Jancsó, mas ambos não aprofundaram suas investigações para conhecer os detalhes do plano e os cúmplices de Barros. É possível, agora, escrever as nuances dessa história. As autoridades policiais inglesas divulgaram para a imprensa londrina algumas informações sobre os planos de José Borges de Barros e de seus associados, publicadas sob o título de Particulars of a Forgery attempted to he practised on the Bank of Lisbon. Barros é descrito como um homem “visando à total subversão de toda a ordem e subordinação” [89]. A Walker’s Hibernian Magazine de 1803, impressa em Dublin, define o mulato como “um homem que possui poderes intelectuais surpreendentes”, mas que “representava perigo para a sociedade por uma base perversa de princípios” [90], por conta das suas operações audaciosas na capital da Inglaterra. Seu plano de falsificação de moedas foi detectado pelo que os jornais da época chamaram de “ocorrência providencial”. A acção policial contra Barros chegou a ser noticiada no The Times, o mais famoso jornal londrino da época, com o título de Forgery on the Bank of Lisbon [91].

No dia 2 de Junho de 1803, o embaixador português na Inglaterra, D. Lourenço José Xavier de Lima (1767-1839), foi à casa do magistrado John Bond, em Sloane Street, acompanhado por um “técnico respeitável”. Esse técnico havia afirmado que vira no extremo oeste da cidade uma impressora que produzia “uma imensa quantidade de notas do Banco de Lisboa”, que havia sido fundado há pouco tempo. O embaixador pediu o conselho do Mr. Bond, que sugeriu não alardear o caso enquanto o investigavam.

Segundo o Cobbett’s political register, anteriormente, Barros já havia sido preso na Inglaterra por falsificação, mas, devido à imprudência e precipitação das autoridades judiciais, “fugiu com a punição insignificante de ser enviado para fora do país como um estrangeiro”. Ainda segundo o periódico, “desprezando o perigo, […] voltou, e renovou suas depredações associado a Silvester Godlia [.] e John Farrell, um delegado de Manchester”. Isso está de acordo com o processo no Santo Ofício, que regista que Barros foi exilado para a Holanda e depois regressou para Londres [92].

O outro sócio desse grupo era Diogo (ou James) Gillington, apontado pela imprensa como membro da Society of United Irishmen, organização republicana criada em 1791 para afastar da Irlanda o controle político britânico. Os United Irishmen, em Abril de 1794, entraram em negociação com a França revolucionária e conseguiram, entre 1796-97, o apoio militar e naval francês contra a monarquia inglesa, mas a Rebelião Irlandesa de 1798 foi derrotada pela superioridade militar dos ingleses. Gillington conheceu

Borges na cadeia, em Londres, e o encarregou, posteriormente, de espalhar papéis sediciosos em Lisboa [93].

De Silvester Godlia só foi possível apurar que vivia num sítio em Bethnal Green Road, onde John Farrell conheceu Barros e Gillington. Barros enviou Godlia para a cidade do Porto em 1802 durante sete semanas para buscar os bilhetes bancários a serem falsificados. Um certo Diogo (ou James) Smith, que morava em Fetter Lane, foi contratado para abrir as chapas, sendo dois selos em aço e cinco de madeira, que produziram quatro mil bilhetes [94]. Farrel confessa que Godlia também era maçom [95].

José Borges de Barros sabia escolher seus aliados e possuía pelo menos dois agentes em Lisboa. O primeiro, possivelmente maltês, chamado Alexandre Assupard (ou Azupard ou Azzopardi), que em alguns documentos também surge com o sobrenome Barros. O segundo, de acordo com o depoimento de Gillington, era “um fulano Sardinha” que foi o procurador de Borges de Barros e quem lhe remeteu, de Lisboa para Londres, os bilhetes encontrados com Farrell [96]. Segundo Adelto Gonçalves, que conheceu o relatório de 14 de Abril, o documento “não aventava a possibilidade de envolvimento directo dos inconfidentes de Minas Gerais com o projecto de Borges de Barros” [97].

Pela primeira vez desde que Joaquim Felício dos Santos publicou suas Memórias do Distrito Diamantino (1868), nas quais afirma que Tiradentes saiu para Minas Gerais com ordens secretas de um Grande Oriente que funcionava na Bahia (a fonte do cronista era Teófilo Ottoni, sobrinho de José Eloy Ottoni), por meio de um detalhe no processo inquisitorial dos irlandeses, foi possível perceber mais uma ligação entre um representante dos inconfidentes de Minas com um elemento ligado à conjuração baiana. Passou despercebido pelos historiadores quem era o tal “fulano Sardinha”, procurador de Barros em Lisboa, citado no referido processo. Trata-se de Simão Pires Sardinha (1751-1808), nascido em Tijuco, Minas Gerais, filho de Manuel Pires Sardinha com a célebre Chica da Silva, mulato tal qual Borges. Começou a carreira como militar em Minas, mas seguiu para a Universidade de Coimbra e foi admitido como sócio correspondente da Academia de Ciências de Lisboa. Amigo de Joaquim José de Silva Xavier e de Joaquim Vieira Couto, Simão Pires foi procurado em sua casa no Rio de Janeiro pelo próprio Tiradentes para traduzir o Recueil des loix constitutives des colonies angloises, confederees sous la denomination d’Etats-Unis e, segundo os autos da devassa mineira, era dele a arma usada por Silva Xavier no momento em que agentes do governo invadiram sua casa. Foi implicado na Inconfidência Mineira e, mesmo morando em Lisboa, foi apanhado pela devassa e preso por Pina Manique [98]. A denúncia de falsificação de moedas em 1803, além de ser o primeiro indício documental de uma ligação, pessoal ou política, entre sujeitos ligados aos episódios de 1789 em Minas e de 1798 na Bahia, demonstra que as observações de Cardoso sobre a existência de uma ampla conspiração envolvendo brasílicos não era absurda. Era certamente no seio da maçonaria e do silêncio em torno dos seus iniciados que esses indivíduos poderiam gozar de alguma protecção política e pessoal.

Considere-se mais um elemento sobre a acção de José Borges de Barros: não se trata de uma simples falsificação de moedas de cobre portuguesas, de pouco valor. O plano de Barros era muito mais sofisticado e ambicioso, projectando a falsificação de 40 mil libras. Em 1803, cada libra esterlina valia 3.561 réis e as 40 mil libras falsificadas equivaliam em moeda portuguesa a 360 mil cruzados, correspondendo a cerca de 1% do que rendia anualmente à Espanha todas as suas minas de prata e ouro das Américas (36 milhões de cruzados), o equivalente a 22 arrobas ou 330 quilos de ouro.

Barros, contudo, precisava de recursos para obter a tecnologia de impressão necessária para falsificar o papel-moeda. Seu financiador foi Thomas Pemberton, morador em Foley Street, Westminster, “que emprestara dinheiro [100 libras] para as despezas de falsificação com promessa do competente lucro” [99]. A Cobbett’s political register assinalou que, em maio de 1802, Gillington e John Farrell já haviam sido trazidos presos de Liverpool, sob a acusação de forjar notas pequenas em circulação. Farrell afirmou aos inquisidores de Lisboa que seu “verdadeiro ofício é de impressor” [100], ou seja, deveria saber operar a parte tecnológica do plano. Assim, informa a Cobbett’s, Farrell foi posto sob vigilância durante dois meses e cada procedimento realizado diariamente era reportado para Mr. Bond e o embaixador, que receberam um relatório revelando “que alguns portugueses neste país foram os principais agentes no exercício da falsificação, que alcançaram £ 40.000 em notas de Lisboa, de £ 5 cada”. Por portugueses, entenda-se Borges de Barros.

Barros determinou que Farrell e Gillington transportassem as quatro mil notas de Londres para Lisboa, a bordo da escuna Antuérpia, comandada por George Dickenson. Mr. Bond e o embaixador, cientes dessa remessa, enviaram uma carta às autoridades em Lisboa, imediatamente após a escuna deixar o rio Tamisa. O Antuérpia entrou no porto de Lisboa a 16 de Março, onde já era aguardado pelos agentes de Cardoso, que detiveram Farrell e Gillington, encontrando no fundo falso de um baú as notas falsificadas.

No que seria empregue essa fortuna? A resposta está no processo do Santo Ofício em que John Farrell afirma que Barros dizia “que logo que tivesse soma suficiente, principiava uma revolução no Brasil contra Portugal” e que “o principal objecto de falsificação do papel moeda era o adquirir grandes somas para passar ao Brasil, e aí administrar a sublevação fazendo espalhar muitos papeis sediciosos” [101]. O irlandês revela que Barros “elogiava muito a conduta dos ditos Rebelliães que tinham morrido como homens [na Bahia], e que ele queria fazer uma acção heróica, ainda que tivesse o mesmo fim” [102].

Farrel denuncia os três aspectos do plano de Barros. Primeiro, dizia que “logo que tivesse considerável soma de dinheiro adquirido com a falsificação de moeda papel e metálica, se havia de oferecer ao governo francês para a sublevação do Brasil” [103]. Em segundo, “que com o dinheiro que levava, havia animar os pobres a fabricarem manufacturas mesmo no Brasil aonde são proibidas as fábricas. Que então o Governo havia por segui-los na criação das ditas manufacturas, e que nesta perseguição havia de indispor o povo, e dar ocasião a insurreição apoiada pela Tropa para este fim disposta, e comprada, e que esta insurreição havia ser acontecida na Patria delle Borges” [104], ou seja, na capitania da Bahia. Farrell ainda confessa ao inquisidor que o plano de Barros consistia em convocar “um oficial de maior Patente, hum fulano Paulo, e fazendo erigir manufacturas contra a vontade do governo” [105]. O “fulano Paulo” era Paulo José de Mello Azevedo e Brito (1779-1848), então tenente do 2° Regimento de Infantaria de Linha, possivelmente pedreiro-livre e que galgou amplo prestígio político na Bahia nas décadas seguintes. Por fim, planejava matar os oficiais portugueses, “substituindo-lhes por Americanos” [106].

Ainda segundo o Cobbett’s political register, “um homem chamado Alexander Assupard de Barros foi detido em Lisboa, de cuja conexão nesta operação não pode haver dúvida, a partir de cartas com a sua assinatura de Borges encontrada em sua posse” [107]. Com Gillington, ainda foi apreendida uma planta da cidade de Lisboa, assinalando a Ribeira Nova, o arsenal, as ruas, praças, edifícios públicos e casas, que confessou ter-lhe sido entregue por Barros. Uma das casas assinaladas no desenho era a casa de Assupard.

Os quatro cúmplices de Barros na falsificação de papel-moeda tiveram sorte diversa. Silvester Godlia conseguiu fugir da prisão em Lisboa, no que a imprensa britânica chamou de “wonderful escape” ou “extraordinary escape”, possivelmente facilitada por pessoas influentes. Alexandre Assupard, prosteriormente, adquiriu propriedades no Rio de Janeiro. O mais interessante deles, o irlandês John Farrell, com 43 anos, foi descrito pela Cobbett’s como “íntimo aliado do traidor Despard”. O nome completo do “traidor” é Edward Marcus Despard, militar irlandês que serviu na Guerra de Independência Americana e em Honduras, onde casou, em 1790, com a afro-americana Catharine. Pouco conhecido entre os historiadores brasileiros, o coronel Despard (1751-1803) retornaria para a Inglaterra, onde militou, junto com sua esposa, pela causa abolicionista. Despard comandou uma fracassada conspiração contra a monarquia britânica em 1802, denominada Despard Plot, que planejou assassinar o rei George III e ocupar lugares estratégicos da capital inglesa, como o Banco da Inglaterra e a Torre de Londres, como um prelúdio para uma rebelião mais ampla dos habitantes da capital. A conspiração foi interceptada pelas autoridades e resultou na execução de Despard e seis de seus cúmplices, sob acusação de alta traição, a 21 de Fevereiro de 1803 [108]. Thomas Pemberton, o financiador de Borges de Barros nos negócios de impressão, também foi implicado na conspiração de Despard [109].

Enfim, o último enigma do relatório de Lopes Cardoso: por que razão o corregedor associou o nome de Borges de Barros à distribuição de um impresso introduzido em Lisboa em Março de 1803? Ele registou: “Parece ser a Carta sedecioza que aparece de novo em Lisboa em Março do prezente anno, impressa em Londres, e que se atribue ao Padre Francisco Manoel”. Trata-se, decerto, do padre Francisco Manoel do Nascimento (Filínto Elysio). A carta sediciosa a que se refere o policial é, certamente, a Epistola Ao Mt. Revol.do. S.nr F.r Jozé do Carmélo, que começa com “Em quanto punes pelos sacros foros, Da lesa humanidade”. Apesar de a epístola ser impressa no volume VIII (1806) dos Versos de Francisco Manoel do Nascimento, ele nunca assumiu a sua autoria. Em 1803, Filínto, aliás, estava há anos vivendo em Paris, e não em Londres. Diz Inocêncio da Silva:

A celebre epistola “Em quanto punes pelos sacros fóros” que ao aparecer pela primeira vez em Lisboa, no anno de 1803, em um pequeno folheto, concitou contra si os rigores do então Intendente Geral da policia Pina Manique, a ponto de solicitar este permissão do Governo para publicar, como fez, um edital, em que infligia sem mais forma de processo a pena de dez annos de degredo em Africa a quem, tendo em seu poder algum exemplar da dita epistola, não fosse immediatamente entregal-o na secretaria da Intendencia. […] Mas cumpre notar, que Filinto não dava por suas estas obras; lá ia procurar para subscrevel-as uns nomes, não sei de verdadeiros, se suppostos, de individuos a quem as attribuia [110].

A epístola glorifica a Independência Americana e Benjamin Franklin. Essa leitura, em 1803, soa algo estranha vinda da pena de um português, por mais liberal que fosse, como Filínto. Foi possível localizar apenas a versão parisiense de 1806, que estampa “Londres, 29 de 9bro de 1791”, assinado por um incógnito Ignacio Sequeira Massuelos e dedicada a fr. José do Carmelo. Nenhum exemplar de 1803 foi encontrado (Pina Manique era inegavelmente eficiente), mas, considerando que o impresso de 1806 reproduza as informações da edição primitiva, a data impressa e o pseudónimo eram certamente estratagemas para confundir a polícia portuguesa, visto o carácter incendiário dos versos apresentados no panfleto, que exaltam o projecto de ruptura colonial dos Estados Unidos:

America feliz! Nação briosa,
Que rompeste os grilhões do cativeiro!
Tu os fachos viste, viste as labaredas
Que os livres pensamentos, que os da pluma
Rasgos mais nobres, linhas mais valentes
Com soffrega violencia consumiam.
Oh ditosos! Oh bons Americanos,
Porque o tam venturoso exemplo vosso,
As protectoras azas despregando,
Não visita, e empenhado não consola,
Com seu vôo, os impérios desastrosos,
As miserandas gentes oppimidas
Da fradesca rele tyrana, e nescia!
Oh França illustre, das nações rainha,
Tu sacudiste o vergonhoso encargo
Que á imprensa abafava o claro grito:
Tu a remiste, ella hoje te liberta
Povo feliz, que resgataste os foros
Da Liberdade, a tantos desvestida!
Só vós sois homens. Sim, que os mais quaes brutos.
Enfreados por mão do despotismo,
De ouça Superstição, de enredo cego
De tantas leis dolosas e oppressivas.
Sentem nas curvas, fustigados costas
Do açoute despiedado os vergões roxos
Por mãos impiedosas sacudido. . .
Quem forjará na nossa Elysia, (oh Pátria,
Claro nome) quem forjará os raios
De livre ideia , que de Deus vem livre,
Raios que assustem pálidos Tiranos?
De vós nos venha, oh Povo generoso,
Que em vós achou asilo, em vós impera
A Verdade, a Razão, a Estima, Brio,
Avexados no mundo e foragidos.

Isto posto, há alguma relação possível entre Borges de Barros e a epístola, como Cardoso dá a entender em seu relatório? Seria ele o editor do folheto? É certo que possuía um impressor a seu serviço. Somente o exame de algum exemplar poderia resolver essas questões. Barros, tal qual seu pai, era afeito às letras e traduzira Os direitos dos homens, de Thomas Paine, cuja tradução também está perdida.

A 30 Junho de 1805, morreu o ex-intendente Pina Manique, mentor de Cardoso, que continuou seu trabalho sob a intendência de Lucas Seabra da Silva. No ano seguinte, em 1806, o caçador de pedreiros-livres virou caça, sendo assassinado por envenenamento. Tanto as versões sobre as razões do assassinato quanto sobre quem seria o assassino têm variado ao longo do tempo, mormente na literatura, mas decerto o acontecimento está relacionado à Conspiração de Mafra, de 1806. A devassa contra a “rapaziada”, como os conspiradores foram denominados pelo ministro conde de Vila Verde, seria a razão do assassinato [111]. Em 1814, no poema “Os burros, canto segundo, afirma que “Do Diogo Manique o substituto, / Que o chocolate atroz sepulta em Mafra / Quando agarrando o Hyppolyto espiolha / da Confraria Pedreiral as opas”. Camilo Castelo Branco, no romance Carlota Angela (1858), diz que:

Fallava-se na morte violenta de José Anastacio, em Mafra, empeçonhado por ter sido o espia e delator da conspiração urdida contra o principe, em Arroios, n’uma casa da condessa de Alorna, que emigrara para a Inglaterra, descoberta a conjuração. Os rumores surdos contra os pedreiros-livres indicacavam os individuos suspeitos, mormente depois que o escriptor publico Hyppolito da Costa fugira dos carceres da inquisição, que lhe foram abertos pelo braço poderoso da maçonaria.

Gonçalves afirmou que Cardoso morrera “envenenado no Paço, depois de beber uma xicara de chocolate que lhe teria sido oferecida por Gomes Freire de Andrade com outros da súcia” [112]. O único consenso é de que o corregedor foi assassinado por envenenamento.

Robert Darnton, no quarto capítulo de O grande massacre de gatos, apresentou a história do inspector Joseph d’Hémery, que coleccionava e classificava informações dos autores de sua época, desde os philosophes até os mais obscuros escritores [113]. Como d’Hémery, o corregedor Lopes Cardoso coleccionou suas próprias histórias, dispersas em suas cartas e relatórios, nos quais ele próprio ora actuava como protagonista, ora como coadjuvante. Sua particular visão dos acontecimentos assinala aos investigadores contemporâneos alguns caminhos possíveis para restabelecer a história da sociabilidade maçónica luso-brasílica.

Pablo A. Iglesias Magalhães

(Continua – Ligação para a Parte IV)

Notas

[81] AHU. Bahia. Catálogo Eduardo Castro. Doc. 18.858 e 18.859; TAVARES, Luis Henrique Dias. Da sedição de 1798 à revolta de 1824 na Bahia. Salvador: Edufba, 2003, p. 38. Há uma confusão em torno da filiação de José Borges de Barros. Luís Henrique Dias Tavares, seguindo historiadores que o precederam, afirma que o referido era filho do Capitão Francisco Borges de Barros e de Luísa Clara de Santa Rita, portanto, irmão do poeta Domingos Borges de Barros, que seria Visconde de Pedra Branca. O próprio José Borges, contudo, em documentos custodiados no Arquivo Ultramarino de Lisboa, afirma ser filho de Sebastião Borges de Barros.

[82] SANTOS, Joaquim Felicio dos. Memórias do districto diamantino da comarca do Serro Frio: (provincia de Minas Geraes). Rio de Janeiro: Typographia Americana, 1868, p. 253.

[83] IGHB. DL 21, doc. 6, fl. 10-11.

[84] MARQUES, Antonio de Oliveira. História da Maçonaria em Portugal: das origens ao triunfo, op. cit., p. 138.

[85] ARQUIVO PÚBLICO DO ESTADO DA BAHIA. Autos da devassa da Conspiração dos Alfaiates, vol. 2. Salvador: SECULT: APEB, 1998, p. 887.

[86] ANTT. Santo Ofício. Processo n° 18.805, fl. 34vol.

[87] AHU. Lisboa. Cat. Eduardo Castro. Doc. 14.806.

[88] ANTT. Santo Ofício. Processo n° 18.805, fls. 33vol.

[89] COBBETT, William. Cobbett’s political register: from January to June, vol. 3. London: Cox and Baylis, 1803, p. 562-563.

[90] Walker’s Hibernian Magazine, Or, Compendium of Entertaining Knowledge for the year 1803 , , Dublin: Richard Gibson, 1803, p. 195-197.

[91] FORGERY ON the Bank of Lisbon. The Times, London, 06/04/1803, n. 5679, p. 3.

[92] ANTT. Santo Oficio. Processo n° 18.805, fl. 33vol.

[93] Ibid., fl. 35.

[94] Ibid., fl. 29v-30.

[95] Ibid., fl. 33vol.

[96] Ibid., fl. 5v-6.

[97] GONÇALVES, Adelto. Gonzaga, um poeta do Iluminismo, op. cit., p. 420.

[98] AUTOS DE perguntas indiciais feitas a Simão Pires Sardinha: Lisboa, 13 de agosto de 1790. Anuário do Museu da Inconfidência, Ouro Preto, vol. 2, 1953, p. 109.

[99] ANTT. Santo Ofício. Processo n° 18.805, fl. 31.

[100] Ibid., fl. 29.

[101] Ibid., fl. 33-33vol.

[102] Ibid., fl. 39-40.

[103] Ibid., fl. 39-40.

[104] Ibid., fl. 42.

[105] Ibid., fl. 34vol.

[106] Ibid., fl. 42.

[107] COBBETT, William. Cobbett’s political register: from January to June, vol. 3. London: Cox and Baylis, 1803, p. 563.

[108] LINEBAUGH, Peter & REDIKER, Marcus. The many-headed Hydra: sailors, slaves, commoners, and the hidden history of revolutionary Atlantic. London: Verso, 2000, p. 248-286.

[109] MCCALMAN, Iain. Radical underworld: prophets, revolutionaries, and pornographers in London, 1795-1840. Cambridge: Cambridge University Press, 1988, p. 15, 121 e 124. WORRALL, David. The Mob and “Mrs Q”: William Blake, William Benbow, and the context of Regency radicalism. In: DISALVO, Jackie & HOBSON, Christopher (org.). Blake, politics, and history. New York: Garland, 1998, p. 178.

[110] Grifo nosso. SILVA, Inocêncio Francisco da. Diccionario bibliographico portuguez, vol. 23. Lisboa: Imprensa Nacional, 1860, p. 453-454. A Biblioteca Nacional de Portugal possui um exemplar primitivo desses versos: 7917//10 P; Epístola ao muito Reverendo Senhor Frei José do Carmelo / Massuelos, Inácio de Sequeira, [Londres: s.n., 1791] 14 p; 17 cm. A Coleção Lamego possui um exemplar manuscrito: Cod. 96.3, A8 3353 – Epístola a Frei José do Carmelo. Londres, 29 de novembro de 1791. Ignacio de Seqrr Massuelo. 15p. Em 1821, foi reeditada por ocasião da Revolução Liberal portuguesa: “Sahio á luz a Epistola ao muito Reverendo Fr. José do Carmelo, preço 80 réis. Vende-se nas lojas do costume”. Diário do Governo, Lisboa, 24/10/1822, n. 59. Supplemento. Da edição de 1821 há um exemplar na coleção do autor deste artigo.

[111] MATTOSO, José. Historia de Portugal: o liberalismo (1807-1890), vol. 5. Lisboa: Estampa, 1998, p. 46.

[112] GONÇALVES, Adelto. Bocage: o perfil perdido, op. cit., p. 346.

[113] DARNTON, Robert. O grande massacre de gatos e outros episódios da história cultural francesa. São Paulo: Graal, 2011.

Artigos relacionados


Partilhe este Artigo:

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *


Scroll to Top