O Oriente no Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA)

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Rito Escocês Antigo e Aceite REAA

Estudo da planta do Templo Maçónico e sua evolução no Rito Escocês Antigo e Aceito, desde 1730

O começo

Alguns “estudiosos” acreditam que as old charges (Antigas Obrigações) seriam a origem dos primeiros rituais, embora não possuíssem o formato actual; além disso, existe o Poema Regius que dataria de 1390 e que traria algumas instruções de funcionamento adequados à época.

Há de se convir que não existiam as tipografias e nem tiragens de larga escala dos manuscritos, daí a dificuldade de se extrair rituais, além do mais, as instruções eram de difusão controlada de ensinamentos e, portanto, não eram tão difusas assim como hoje.

As Antigas Obrigações descreviam como o Maçom se deveria portar e agir, como entender a origem da sua profissão e os seus deveres e direitos como construtor. Estes Old Charges ou Antigos Deveres se referem também a um conjunto de escritos antigos sobre guildas de maçons, do período medieval e renascentista que podem ser associados ao Poema Regius, Manuscrito Cooke, Manuscrito Dowland, Grande Loja N° 1, Lansdowne, Iorque N° 4, Melrose N° 2, Edimburgo.

O Poema Regius começa descrevendo como Euclides de Alexandria simulou a geometria e a chamou de Maçonaria, para o emprego de filhos da nobreza no Antigo Egipto; ele reconta a divulgação da arte da geometria em terras diversas. O documento relata como o ofício da Maçonaria foi levado para a Inglaterra durante o reinado do Rei Athelstan. Conta como todos os maçons da terra vieram ao Rei Athelstan por influência da sua própria boa governança e como, junto com a nobreza e a aristocracia rural, forjaram os quinze artigos e quinze tópicos das suas regras.

A Maçonaria especulativa pode ser classificada em duas eras, antes e depois de Samuel Princhard publicar no seu livro A Maçonaria Dissecada, 1730, numa afronta aos princípios da Ordem e aos rituais maçónicos nos seus graus simbólicos. O desafecto Princhard foi iniciado com o nefasto propósito de desvendar os segredos da Maçonaria e vazá-los para o mundo não-maçom; a propósito, foi com aquela estrondosa publicação que o mundo profano soube que havia sido criado o terceiro grau ou o grau de Mestre.

A encenação dos nossos rituais vivifica toda a nossa simbologia, dentro de um templo carregado de alegorias, transformando-a numa egrégora.

Os rituais, portanto, tornam-se a primeira fonte de pesquisa para aqueles que pugnam pelo aperfeiçoamento intelectual; foi neste diapasão que investigamos as causas da elevação de presbitérios dos templos maçónicos.

Considerando que o Princhard procurou ser fiel a tudo que tenha visto e aprendido ou memorizado, que os rituais publicados e, por óbvio, não se conheciam as plantas do templo, que a expressão quadrilongo sempre foi utilizada para dimensionar a arquitectura dos templos, que os templos imponentes mais antigos não guardavam as famosas medidas áureas, hoje pacificamente aceitas e que os rituais não tratava o Oriente como uma região, depreendemos que o Oriente mencionado naqueles rituais tratava-se de um mero ponto cardeal, no mesmo nível do ocidente.

Na descrição da Loja, os rituais Princhard esclarecem que para se chegar ao trono do Mestre, no oriente, era necessário subir por três degraus e mais, os Vigilantes ficavam no Ocidente sendo que o Aprendiz Aceito mais Antigo ficava ao Sul e o mais Recente, ao Norte.

Esta mesma lição aprendemos lendo tais rituais datados de 1760 e 1765, vendidos em Amsterdão em 1956.

Ritual de 1804

É incontestável que o primeiro ritual escrito e oficial do Rito Escocês Antigo e Aceito – REAA foi em 1804; nele se percebe com facilidade que na iniciação de um candidato, num certo momento, o Venerável Mestre ordena que ele seja levado à parte mais baixa do seu Trono (indicação que este ficava degraus acima do piso), ao Altar dos Juramentos; não se fala do Oriente, por igual forma, nem na hora do juramento. Esta tónica permanece até os dias de hoje, em todos os rituais. Observe-se que o Ritual de 1804 faz menção ao quadrilongo, contudo, o Oriente era uma mera posição do Venerável!

É, ainda, no Ritual de 1804, o nosso primeiro ritual oficial, que nos deparamos com uma planta do quadrilongo compatível com os escritos em todos os rituais anteriores.

Adiante, a planta mencionada sem indicação de desnível entre os pontos oriental e ocidental.

Cremos que se trata de um esboço sem escala, porém, ficando claro que todo o Templo tem a forma básica de um rectângulo e abaulado no fundo do Templo.

Neste Ritual, há menção explícita sobre o posicionamento dos Vigilantes e do Venerável, na parte da Decoração da Loja:

  • Um lugar elevado sobre um degrau com um altar rectangular, um pouco à frente da coluna J, para o Segundo Vigilante.
  • Um lugar elevado de dois degraus com um altar rectangular, um pouco à frente da coluna B, para o Primeiro Vigilante.

  • O trono e o altar onde fica o Venerável ficam elevados de três degraus.

Planta do templo

Loja de Aprendiz – REAA
Paris – 1804

oriente reaa

Observação: o desenho esquemático erra ao admitir dois degraus para a cadeira do Segundo Vigilante.

Rituais de 1822, 1834 e 1857

Um ritual manuscrito de 1822, da Loja Primaz do Brasil, a Commercio e Artes na Idade do Ouro, traz apenas a abertura e o encerramento de uma sessão económica e nada diz sobre a descrição do templo.

O ritual de 1834, na Biblioteca da USP, de igual forma, não traz a planta do Templo e contém indicações que o quadrilongo era no mesmo nível do oriente ao ocidente.

O ritual de 1857, ano presumido, foi vendido com a dispersão da biblioteca de Le Brignon, montado com fragmentos das cópias de cada função e também, nada traz de novo acerca do plano do Oriente em relação ao Ocidente

Ritual de 1874

O ornato do Templo no Ritual de 1874 traz a seguinte descrição:

O throno estará sobre um estrado de três degraus e o altar dos juramentos sobre outro estrado de um degrau, porém, dentro das grades do Oriente. …

Tal descrição confirma o ornato do primeiro Ritual para os altares.

Mais adiante, encontramos o seguinte texto:

Dentro das grades do Oriente haverão também duas mesas, uma à direita para o Orador e outra à esquerda para o Secretário, e fora das grades haverão duas, uma para o Tesoureiro e outra para o Chanceler .

Bem, aqui já nos deparamos com uma inovação: as grades entre as mesas dos Orador e Secretário e as dos Tesoureiro e Chanceler.

As balaustradas surgiram nos anos 50 do século XVIII, na Inglaterra, nos primeiros templos construídos, com a precípua finalidade de servirem como sala de reuniões maçónicas, não sagradas, por William Preston, James Heseltine e Thomas Dunckerley, por influência das balaustradas construídas nas basílicas e catedrais, servindo como separador entre o ocidente (nave) e o oriente (presbitério).

Esta alteração, na arquitectura dos templos no Brasil, pode ser creditada ao Francisco Gomes Brandão, mais tarde, Francisco Gê Acayaba de Montezuma, o Visconde de Jequitinhonha, criador do Supremo Conselho do Brasil, em 1832, das Lojas Capitulares ou seja, apensando os graus superiores aos três graus existentes desde a criação do Grande Oriente Brasílico, imitando o Supremo Conselho de França que já estava em processo de extinção das Lojas Capitulares.

As mencionadas grades, então, eram característica das Lojas Capitulares.

No Brasil, as Lojas Capitulares capitularam em 1951, mas, as suas grades permanecem até hoje, quer nas Lojas seculares, quer nas mais recentes.

Folheando, ainda, o ritual de 1874, na sua parte dedicada aos companheiros, encontramos a seguinte citação:

O throno estará sobre um estrado de cinco degraus e o altar dos juramentos sobre um outro estrado e um degrau, porém dentro das grades do Oriente. …

Confessamos que não conhecemos nenhuma loja do Grande Oriente do Brasil – GOB que possua essa adaptação.

Na ornamentação da loja para trabalho em grau de Mestre não há nenhuma alusão aos estrados exigidos nos dois graus inferiores, no entanto, no desenvolvimento da ritualística, há cenas que comprovam a existência de degraus no acesso ao Altar do Venerável.

É possível e provável que não houvesse desnível entre o piso onde se assenta o Venerável e o dos Vigilantes por três motivos:

  1. diferentemente de hoje, somente existe conferência da qualidade dos maçons nas colunas pelos vigilantes, ou seja as colunas se estendem do ocidente ao oriente, pois não há o conhecido “eu respondo pelos do Oriente” dito pelo Venerável Mestre;
  2. em nenhum momento o oriente como região, embora gradeado, é mencionado no ritual;
  • o número de degraus dos estrados do trono do venerável é variável e suficiente como indicação do grau em que a Loja está trabalhando.

Ritual de 1898

A leitura do Ritual de 1898 revela-nos a existência de um ou três degraus de acesso do Ocidente ao centro do Oriente e a permanência da balaustrada:

A parte do fundo, à qual se soube por um degrau (ou por três pequenos degraus se a altura da sala o permitir), chama-se Oriente, que é separado à direita e à esquerda por uma balaustrada. …

O Trono do Venerável permanece sobre um estrado de três degraus:

… Debaixo do dossel está a cadeira do Venerável, sobre um trono ou estrado, ao qual se sobe por três degraus…

Curiosamente, este Ritual destinou cadeira de honra à esquerda do Venerável, sem degraus no estrado ao Deputado da Loja. Retirou um degrau do estrado do Primeiro Vigilante.

Estava implantado oficialmente o desnível entre o Oriente e o Ocidente, bem como uma região chamada Oriente, haja vista que este Ritual autoriza os maçons do grau 18 a lá tomarem assento, além de, textualmente, durante uma iniciação, permitir que o candidato vá ao Oriente onde se localiza o Altar do Venerável Mestre e o Altar dos Juramentos.

Fica evidente, então, que em 1898 já existia o desnível, bem como a adopção das grades do Oriente devem ter sido, no REAA, inventadas antes de 1874.

Ritual de 1962

Este ritual adoptado pela Maçonaria regular do Brasil diz que o Ocidente tem uma forma de quadrado e o Oriente a de um rectângulo igual à metade daquele quadrado.

Permanece a grade do Oriente que tem o soalho mais elevado do que o Ocidente por quatro degraus (incluindo o soalho).

O Trono do Venerável fica sobre três degraus pequenos; ao lado da cadeira do Venerável há mais duas, porém sem destinatários.

Há previsão de assentos no Oriente a serem ocupados por ex-veneráveis.

Os altares dos Vigilantes ficam no Ocidente, sobre estrados, sendo o do Primeiro Vigilante um pouco mais elevado que o do Segundo Vigilante. Durante a iniciação, o candidato é levado ao Trono de Salomão ou ao Altar dos Juramentos e não ao Oriente.

Planta do templo – ritual 1962

oriente reaa

Rituais de 2001 e 2009

Do ponto de vista do objecto deste trabalho, os rituais de 2001 e de 2009 determinam que o Altar do Primeiro Vigilante seja fixado sobre um estrado de dois degraus e o do Segundo Vigilante sobre outro de apenas um degrau.

Determina, também, que além do Venerável, Orador, Secretário, outros mestres com cargo, somente autoridades maçónicas e mestres instalados podem sentar-se no Oriente.

Nenhuma outra importante alteração, em relação aos rituais anteriores, foi encontrada.

Planta do templo – ritual 2001

oriente reaa

Planta do templo – ritual 2009

oriente reaa

Análise crítica

Outras fontes foram consultadas e todas elas ratificaram o extraído desses antigos rituais que o autor teve acesso.

  1. A Augusta e Respeitável Loja Simbólica Cotinguiba, por exemplo, fundada em 1872, praticante do REAA, já ostentou o título honorífico de Loja Capitular e tem uma planta mais próxima ao Ritual de 1898 do que o de 1874, ambos presumidos, demonstrando ser um Templo vanguardista ou tenha sofrido reformas.
  2. Fisicamente impossível é converter os inúmeros templos espalhados no Brasil em verdadeiros quadrilongos como o de 1804.
  3. Simbolicamente, aprendizes e companheiros, em iniciação e elevação, respectivamente, dirigem-se ao Altar do Venerável Mestre e ao Altar dos Juramentos e não ao Oriente conforme os actuais rituais admitem. Isto se deve ao facto de nos primórdios as Luzes da Loja ficarem sobre o altar do Venerável e posteriormente, criarem o Altar dos Juramentos logo à frente do Altar do Venerável Mestre, copiando o presbitério da Igreja Católica.
  4. Em Loja aberta conforme o Ritual, somente mestres com cargo, mestres instalados e autoridades maçónicas têm permissão de tomarem assento no Oriente.
  5. Aprendizes, Companheiros e Mestres ficam acomodados nas colunas.
  6. Durante as sessões ritualísticas, apenas, o Mestre de Cerimónias, o Cobridor Interno, os Diáconos, o Orador e o Secretário se podem movimentar em momentos próprios.

Conclusão

  1. A evolução do oriente do Templo no REAA e noutros ritos, teve forte influência dos movimentos políticos e religiosos a partir de 1832.
  2. Não há impedimento ritualístico que aqueles Irmãos que tomam assento nas colunas, acessem o Oriente desde que sob ordens do Venerável Mestre.

Este estudo oferece argumentos àqueles que defendem um oriente, apenas como uma referência cardeal, sem grades e sem degraus, bem como, aos legalistas (como o autor) que reconhecem os preceitos do Ritual vigente, onde alguns podem ocupar a região do Oriente por conseguinte, lá proibido o assento de aprendizes, companheiros e mestres sem cargos ou títulos.

Natanael Fernandes de Souza, com revisão de Rocelito Paulo Pinto

Bibliografia

  • GRAND ORIENT DE FRANCE. (2000). Origens Históricas do Rito Escocês Antigo e Aceito para os Graus Simbólicos. Rituel des Trois Degrés Simboliques.
  • GRANDE ORIENTE DO BRASIL. (1° de Julho de 1898). Ritual REAA. 1° – Aprendiz.
  • GRANDE ORIENTE E SUPREMO CONSELHO DO BRASIL. (22 de Setembro de 1874). Ritual de 1874. Guia dos Trabalhos Symbolicos do Rito Escosses Antigo e Aceito. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil: Typografia do Grande Oriente do Brasil.
  • ISMAIL, K. (12 de Novembro de 2019). Simbologia. Fonte: NO ESQUADRO: https://mail.google.com/mail/u/0/#search/balau/KtbxLwGkJJTqFXKvjdGxPKqBcwQJJ txFkL
  • JUK, P. (6 de Outubro de 2019). SÓ MESTRES PODEM OCUPAR O ORIENTE – REAA. Fonte: Blog do Pedro Juk: pedro-juk.blogspot.com/2018/06/so-mestres- podem-ocupar-o-oriente-reaa.html
  • PIKE, A. (1871). Moral e Dogma. Washington: Conselho Supremo do Trigésimo Terceiro Grau – Jurisdição do Sul dos Estados Unidos.
  • PRINCHARD, S. (2018). Maçonaria Dissecada (1730). Publicação
  • SECRETARIA GERAL DE ORIENTAÇÃO RITUALÍSTICA DO GRANDE ORIENTE DO BRASIL. (1857). Guia dos Maçons Escocezes ou Reguladores dos Três Graus Simbólicos. Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil.

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