Silêncio. Esse som por vezes ensurdecedor, é a chave para o nosso templo mais íntimo de reflexão, de meditação e após o qual, geralmente, descobrimos a voz da razão. O silêncio nas colunas, o silêncio da mestria e o silêncio da sabedoria.
Nasci e passei os primeiros anos da minha vida numa aldeia na serra transmontana. Um daqueles locais, onde só o ladrar dos cães, o chiar dos carros de bois e o repicar dos sinos da igreja, rasgam o silêncio em que se vive. Não havia luz eléctrica, e o rádio de válvulas, só o rádio!, tocava à noite sempre alimentado por duas baterias de automóvel.
Aprendi portanto a viver em silêncio. Um exercício e uma aprendizagem que me seriam úteis, quando anos depois, consegui por força dessa experiência, aguentar a «prisão», o isolamento e uma solidão de dois anos num aquartelamento militar perdido no leste de Angola. Depois a vida profissional proporcionar-me-ia um frenesi inusitado: stress, muito ruído, correrias, tensão sempre presente. O coração a bater e discussões acaloradas, de onde nem sempre se alcançava a luz…
E eis-me muitos anos depois a entrar neste templo, onde venho a reencontrar de novo o valor do silêncio. Onde aprendi outra vez a escutar, como exercício activo da atenção prestada aos outros. Ou seja a alegria e o prazer de escutar silenciosamente. Confesso que no inicio foi difícil, mas aqui vim a encontrar o silêncio como manifestação de amor, o mesmo silêncio que só reforça os rituais de grupo.
Como podemos chegar ao silêncio interior? Não apenas por nos calarmos, mas sobretudo por ouvirmos e depois discutirmos interiormente connosco mesmos. Os momentos de silêncio são pausa, são repouso, são trégua… Mas há também um silêncio da imaginação e da memória. Aquele silêncio que diz respeito ao nosso mundo íntimo e interior. Também há o silêncio do espírito, e o do juízo. E depois há muitos outros: o silêncio acusador, o meditabundo, o silêncio gelado e o embaraçoso. O silêncio dos pactos, e o silêncio ensurdecedor. Os silêncios comprados, e os rompidos e os guardados…
Culturalmente o silêncio remete para a ideia da morte, do vazio. E no entanto todos sabemos como são diferentes os silêncios dos cemitérios, dos dos hospitais, dos das igrejas, das prisões ou até dos das bibliotecas. E temos que falar porquê? Porque cedemos ao compromisso social de ter que dizer alguma coisa? Já pensamos quantas vezes somos intolerantes perante os silêncios dos outros?
No Mosteiro de Singeverga passei, uma vez e durante uma semana, pela experiência do cumprimento dos rituais monásticos, e portanto também do silêncio conventual. Silêncio durante as refeições, silêncio nos quartos, silêncio na capela, silêncio como valor dinâmico da vida psíquica. O silêncio sempre presente, mesmo enquanto ajudava a fazer o famoso Licor Beneditino de Singeverga. Portanto o silêncio associado ao segredo, com quem anda por vezes de mãos dadas. O silêncio da vida interior, junto daquele segredo que ajuda a criar o imaginário.
O silêncio não pode portanto ser uma estação de serviço para descansarmos dos ruídos da vida. Mas pode dar sentido à frase «Quando falares procura que as tuas palavras sejam melhores que o teu silêncio».
Neste templo confirmei que o silêncio é moldável, que em silêncio amamos, pensamos, sofremos, e choramos. Em silêncio lemos, meditamos, sonhamos mas também comunicamos. Ao aceitar a disciplina maçónica, aprendi outra vez a não interpretar o silêncio como uma barreira ou um obstáculo á comunicação, mas sim como um modo de expressão. Um modo de expressão que permite transmitir algo, que vai para além das palavras.
A reflexão faz-nos fortes! O silêncio faz-nos fortes e se canalizarmos adequadamente essa força, podemos compreender-nos melhor e começar a compreender os actos dos outros. Construamo-nos a partir de dentro de nós próprios, e não a partir do que ouçamos dizer aos outros, na televisão ou no café. Procuremos não andar ao sabor do vento, pois ouvir em silêncio propicia o amadurecimento das ideias, ajuda a preparar a intervenção futura, deixa pistas para discernir e escolher alternativas…
Dizia-me a minha avó: «O homem fala, o tolo discute, mas o sábio escuta» A esta e a muitas outras frases que me inculcou, acrescentarei também esta: «O que se faz de grande, faz-se em silêncio…»
Porque tememos estar calados, se o silêncio faz parte de nós? Será porque temos medo de nós próprios? Será porque desde pequenos nos inculcaram o medo no desconhecido? Será porque os primeiros desconhecidos, somos nós próprios? Todos reconhecemos que dedicamos pouco tempo a nós próprios. Temos muitas reuniões. Temos música e muitas palavras à nossa volta quando nos deslocamos. O ruído tomou-se uma liturgia e é omnipresente. Falamos, falamos e tomamos a falar uns com os outros. E connosco próprios? Quando falamos? Quando paramos para nos interrogarmos a nós próprios?
Cada vez gosto mais do silêncio, para viajar nas profundezas do meu ser e do meu íntimo. Para tomar as decisões mais importantes da minha vida necessito do recolhimento e de silêncio interior. O mesmo silêncio que o professor pede aos seus alunos; o silêncio que o maestro pede à audiência; o silêncio do escritor enquanto escreve; o silêncio que a assembleia oferece ao tribuno; o silêncio que me oferecem enquanto me escutam na apresentação desta minha primeira prancha.
O muito que já aprendi neste templo, aprendi em silêncio, estando em silêncio e pensando enquanto vos fui ouvindo a todos. O recolhimento fez com que sentisse e apreciasse o peso da solidariedade universal. O silêncio aqui dentro ajudou-me, e tomou-me seguramente mais atento aos outros. Porque não estive concentrado em mim, fiquei mais solidário. A solidão e o silêncio são os grandes lugares da luta da transformação interior, e do grande encontro connosco próprios.
Depois, o silêncio ensina a falar…
PLC
Silêncio
Longe dos ruídos,
Posso ouvir os sons da natureza,
A cantiga do vento,
O sentir da vegetação,
As vozes dos animais.
Distante dos barulhos,
Consigo alcançar o silêncio,
O meu silêncio e
Viajar pelo meu interior,
Descobrindo os sinais,
Os vestígios da presença de Deus, revelados.
Em total silêncio,
Posso intuir as vozes dos anjos,
Dos mentores espirituais
E captar as mensagens,
Levando-me à sabedoria existencial.
Com extremo silêncio,
Escuto a voz de Deus a me tocar,
Tomando-me por inteiro,
Divinizando-me de intenso amor.
Quando em absoluto silêncio,
Ouço as batidas de meu coração,
Que estão a me dizer:
Nascemos para amar,
Unicamente amar,
Incondicionalmente a todos amar.
Moacir Sader

- Desenho do Quadro de Loja do grau de Aprendiz
- O silêncio no grau de Aprendiz
- Jesuítas bretões – fonte da maçonaria francesa?
- A origem da Maçonaria na Escócia
- Os Segredos da Maçonaria, o silêncio e o saber calar-se


Excelente trabalho!
Se aprendêssemos a “escutar” o silêncio, muitos males se evitariam…