Há tempos, no jornal Público, Ricardo Sá Fernandes, meu colega de profissão e membro do GOL (Grande Oriente Lusitano), publicou um pequeno texto em que se assumia como católico e maçom, defendendo que ambas as qualidades são plenamente compatíveis. Respondeu o padre Gonçalo Portocarrera de Almada, sustentando a posição inversa. Recentemente, um senhor de nome João Mendia afirmou também a incompatibilidade das duas condições.
Decido intervir na polémica. Antes do mais, e como convém, eis a minha declaração de interesses: sou maçom regular, isto é, integro a orientação maçónica original, que só admite no seu seio crentes, qualquer que seja a crença religiosa de cada um. Em termos de convicção religiosa, não me defino como católico, antes como deísta, crente no Criador sem necessidade da intermediação das religiões organizadas, na minha opinião cada uma delas se afadigando a moldar o Criador às suas respetivas conceções particulares. Nesta polémica de se um católico pode ser maçom, parto, pois, de uma posição neutral.
Maçom que sou, mais do que criticar as opiniões expressas pelos que se pronunciaram sobre a questão (opiniões que, concorde ou discorde delas, me cumpre respeitar), vou-me limitar a expor a minha opinião e as razões dela.
Advogado que sou, tenho a deformação profissional de analisar os conflitos, as divergências de opinião, recorrendo ao que está escrito nos livros da lei. E, nesta matéria de religião e espiritualidade, nada me parece melhor do que recorrer ao Volume da Lei Sagrada que é aceite por todas as partes, católicos, maçons e católicos maçons: a Bíblia.
Confiramos então os Dez Mandamentos que Deus transmitiu a Moisés,constantes do Livro do Êxodo, 20, 2-17 (e também em Deuteronómio, 5, 6-21):
2 Eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.
3 Não terás outros deuses diante de mim.
4 Não farás para ti imagem de escultura, nem alguma semelhança do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.
5 Não te encurvarás a elas nem as servirás; porque eu, o SENHOR teu Deus, sou Deus zeloso, que visito a iniquidade dos pais nos filhos, até a terceira e quarta geração daqueles que me odeiam.
6 E faço misericórdia a milhares dos que me amam e aos que guardam os meus mandamentos.
7 Não tomarás o nome do SENHOR teu Deus em vão; porque o SENHOR não terá por inocente o que tomar o seu nome em vão.
8 Lembra-te do dia do sábado, para o santificar.
9 Seis dias trabalharás, e farás toda a tua obra.
10 Mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro, que está dentro das tuas portas.
11 Porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo que neles há, e ao sétimo dia descansou; portanto abençoou o SENHOR o dia do sábado, e o santificou.
12 Honra a teu pai e a tua mãe, para que se prolonguem os teus dias na terra que o SENHOR teu Deus te dá.
13 Não matarás.
14 Não adulterarás.
15 Não furtarás.
16 Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.
17 Não cobiçarás a casa do teu próximo, não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.
Neste texto nada objetivamente se encontra que permita concluir que ser maçom infringe qualquer dos mandamentos divinos. Cuidadoso que sou com os pormenores, esclareço que o Grande Arquiteto do Universo invocado pelos maçons mais não é do que a designação particular que estes dão ao Criador, evitando assim ter de utilizar uma denominação utilizada por uma religião e não por outra, não sendo um qualquer “outro deus”.
Mas prossigamos até ao Novo Testamento e aportemos a Mateus,22, 34-40:
34 os fariseus ouviram dizer que Jesus tinha feito calar os saduceus. Então eles se reuniram em grupo, 35 e um deles perguntou a Jesus, para experimentá-lo: 36″ Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?”
37 Jesus respondeu: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento!’ 38 Esse é o maior e o primeiro mandamento. 39 O segundo é semelhante a esse: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’. 40 Toda a Lei e os profetas dependem desses dois mandamentos”.
Também aqui, obviamente, nada é infringido com a filiação maçónica. Para um católico que não seja um primário antimaçom, parece-me estar qualquer dúvida desfeita: nem os dez Mandamentos do Antigo Testamento, nem os dois mandamentos invocados por Jesus Cristo impedem que um crente, designadamente um católico, possa ser maçom.
Mas houve condenações e proibições papais. Houve! Porém, por grande que seja a importância dos Papas – e só posso aceitar que, para os católicos, o seja -, o certo é que todos foram, e o atual é, apenas homens. Entre as determinações divinas e as humanas eu, simples crente deísta, atribuo primazia às divinas… Confesso que me faz alguma confusão que haja quem, reclamando-se da pureza do catolicismo, roce a blasfémia de sobrepor as determinações humanas às divinas…
Lição a tirar desta polémica? O fundamentalismo religioso é tão irrazoável e tão perigoso sendo cristão, católico ou de outra orientação espiritual, como islâmico. Que ninguém disto se esqueça!
Rui Bandeira
Publicado no Blog “A partir pedra” em 16 de Maio de 2012

- Surgimento e o papel da Maçonaria na História de Portugal
- O Mosteiro da Batalha
- Moral Maçónica
- Presença de Deus nas lojas maçónicas
- Porque os Maçons chamam Deus de Grande Arquitecto do Universo


Partilho muitas das opiniões expressas pelo nosso I. Rui Bandeira, a quem agradeço o tema apresentado. A propósito da questão suscitada, sobre se “pode um católico ser Maçom”, gostaria de salientar o seguinte:
1. Se um católico pode ou não ser Maçom, é uma questão íntima e pessoal que cada um, que o é, tem que dar, a si próprio, a devida resposta antes de aderir à Ordem Maçónica;
2. A Maçonaria, como bem sabemos, não é uma Religião nem se opõe a qualquer uma delas, nem sequer pergunta, na inquirição qual a Religião do candidato ou, depois da sua entrada, inquire qualquer obreiro sobre essa matéria;
3. Como o Novo Testamento relata (Mateus 22:21) um dia os opositores inquiriram, traiçoeiramente, Jesus sobre se se devia ou não pagar um determinado imposto romano. Percebendo a armadilha a que o queriam expor e dado que a moeda com a qual ele era pago tinha a figura do imperador, Jesus respondeu: “Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Deste modo estabeleceu uma base para a distinção entre as esferas política e religiosa.
Esta frase é totalmente aplicável neste preciso contexto, pois não sendo a maçonaria uma Religião, a estrutura hierárquica da Igreja não se deve imiscuir nestes assuntos, visto que não pertencem a Deus, mas a César, dado que as esferas religiosas e maçónicas são também igualmente distintas.
4. Por isso, gostaria de realçar que a melhor postura maçónica sobre esta matéria, que eu advogo, é seguinte: a Maçonaria não tem nenhum problema com a Igreja Católica, mas esta parece ter um problema com a Maçonaria. Então se é a Igreja Católica, que tem um problema com a Maçonaria, ela que o resolva. E meus II. como a Igreja Católica , normalmente demora cerca de 500 anos a resolver problemas desta natureza, (foi assim com os Templários e com Galileu Galilei (1564–1642) e tantos outros), não nos devemos preocupar minimamente com isso, pois temos outras coisas muito mais prementes a que devemos dedicar a nossa melhor atenção. Esta postura tem a vantagem de nos libertar para problemas bem mais urgentes e importantes.
Não por coincidência em 1738 com a segunda versão da Constituição de Anderson temos a primeira bula papal contra a Maçonaria. Temos aqui de certa forma o motivo político do cisma entre o catolicismo e a Maçonaria com o afastamento, de certa forma forçado, dos então operativos católicos em detrimento dos novos membros especulativos com inclinações iluministas e deistas muito ligado à igreja anglicana, tanto que os grãos Mestres ingleses são membros da nobreza real na Inglaterra.
Já o motivo religioso da incompatibilidade do católico com a Maçonaria se encontra justamente na visão diferente do papel de Deus para com os homens. O catolicismo sendo uma religião revelada e tendo a Bíblia como um dos pilares de sua sustentação tem um caráter teísta onde Deus se manifesta para os homens e estes podem se conectar com Deus através das orações por exemplo.
O deísmo indica que Deus criou o mundo e se afastou totalmente dele deixando o homem por sua conta e sem poder se dirigir ao criador.
Por isso que deistas agnósticos, ateus ou qualquer outro homem que não seja crente de uma religião revelada não deveria e não seria membro da ordem no período operativo, atualmente essa exigência é negligenciada é por isso as inúmeras distorções e eliminações dos elementos que formaram a Maçonaria.
“No ofício de Grão-Mestre adjunto, Desaguliers contribui ativamente para a redação dos primeiros rituais. Introduziu nestes a ideia de que os maçons operativos faziam do trabalho, como um ato nobre, um dom de Deus, e não, como se pensava até então, como uma maldição, um castigo devido à expulsão do paraíso, como está no Gênesis (4:17-19). *Por falar em Deus, a expressão GADU, apesar de ter sido introduzida por Anderson, tem também o dedo de Desaguliers, pois o referido conceito – GADU – facilita a introdução do deísmo na maçonaria nascente, substituindo o teísmo católico, tão bem professado pelos maçons operativos, reforçando assim o anglicanismo que era um pouco mais aberto à tolerância do que a religião de Roma. Convém ainda salientar que o deísmo é mais professado entre os cientistas crentes do que o teísmo, o Deus de Leibniz, de Spinoza, de Einstein, dos cientistas enfim, não é o mesmo Deus de Abraão, Isaac e Jacó.* E Desaguliers como cientista…”
Lição a tirar desta polémica? O fundamentalismo religioso é tão irrazoável e tão perigoso sendo cristão, católico ou de outra orientação espiritual, como islâmico. Que ninguém disto se esqueça!
Concordo plenamente com o irmao Rui Bandeira.
Temos que perceber que a Maçonaria do Opus Dei vai sofrer uma perda considerável por ter ligação à Igreja católica romana e Apostólica, pelas noticias que vem a público dos cidadaos catolicos com afetos ao opus dei, com ligações às supostas Milicias e Irmandades que surgiram em 1917.
O caso das milicias e da religiosidade e fanatismo, vai levar a um afastamento das pessoas as causas.
Os senhores Graos Mestres tem que perceber que a religiosidade nao pode entrar na maçonaria, e sei que maçonaria iniciou na casa de David. E nao quero dizer com isto que os religiosos hebreus nao possam fazer parte da maçonaria.
Os conceitos da maçonaria tem a genese em David, que é o oposto da católica com origem em Constantino na Turquia e daqui nasceram as tais religioes opostas a David.
João Felgar
Belíssima reflexão!
Minha família paterna e a melhor parte da minha educação secular são católicas.
Hoje, sou rastafari.
Mas nunca fui cético e/ou conservador.
Se não me querem num canto, não vou.
Religiões, temos aos montes. Maçonaria Regular, só uma…