Algumas reflexões epistemológicas sobre desenvolvimento do conhecimento em Maçonaria: entre tradições, factos, ideologias, mitologias e lendas
A Maçonaria possui ampla gama de definições de acordo com quem a define. É farta a relação de adjectivos que visam defini-la. Dentre eles, encontramos Instituição, Ordem, Escola, Associação, Entidade, Ideário, dentre outros. Entretanto, a Maçonaria, entendida como um fenómeno social, cujas origens remontam desde antes da Idade Média, aglutina em todos os continentes pessoas em diversas instituições, ritos, obediências e potências que se autodenominam maçónicas e estabelecem processos conjuntos de reconhecimento mútuo.
Reflectir e escrever sobre Maçonaria significa estar constantemente frente ao desafio de diferenciar factos, de mitos, de lendas e das próprias opiniões individuais. Este quadro se configura de forma explícita ao se perceber a amalgama de símbolos e alegorias adoptados pelos mais variados rituais, ritos e sistemas que se autodenominam maçónicos, bem como dos sincretismos formados pelas influências das mais variadas correntes de pensamento místico, filosófico e religioso que são incorporadas pelas diversas ordens maçónicas.
Sobre esse ponto de vista, os membros das Ordens e estudantes são levados a adoptar um esforço epistemológico sério e honesto no intuito de distinguir de forma adequada as mais variadas manifestações do fenómeno maçónico nos diversos planos da realidade. É neste momento que surge o desafio de buscar a utilização adequada das possíveis vias de construção do conhecimento (senso comum, religião, mito, arte e ciência) que podem ser adoptadas como ferramentas para leituras e intervenções.
Factos “históricos”, bem como símbolos, mitos, alegorias e lendas convergem frontalmente para compor o extenso mosaico de expressões que caracterizam a Maçonaria nas suas dinâmicas de desenvolvimento e manifestações. Esta característica é frequentemente e fartamente observada na literatura maçónica, bastando apenas, a título de exemplo, apontar algumas obras de autores brasileiros como Louro (2006), Monteiro (2002), Da Camino (1982?), Cortez (2005), e Carvalho (1994; 1995; 1999) que resgatam a vasta gama de tradições, interpretações simbólicas, alegorias, lendas, histórias, usos e costumes maçónicos nos mais variados ambientes, níveis e graus.
Em consonância com esta necessidade de desenvolvimento do hábito de estudo e discernimento vale trazer a luz o que um destes estudiosos, acima citados, nos alerta:
Como temos destacado, sempre e constantemente, o conhecimento maçónico é adquirido dentro das Lojas tanto simbólicas como filosóficas; o aproveitamento de cada palavra, de cada gesto, é o alimento quotidiano; sem conhecer o significado de cada elemento, pouco progredirá o estudioso.
Recordemos o mistério da “cabala”, que nos indica os valores das letras e dos números; a emissão de uma letra, quer no mistério do seu lançamento conjugado para formar a palavra e a frase; quer por escrito ou na magia da palavra oral, na valorização dos sons; e exacta expressão, leva ao entendimento e esse à conscientização do porque, estamos participando de uma Instituição Milenar, embora, buscando com os homens seleccionados, uma total integração fraterna. (DA CAMINO, 1982?. p. 10),
Entretanto, o cuidado em separar factos registrados de opiniões/mitos/lendas deve ser evidenciado como traço moral básico dos estudantes e/ou membros sérios das Ordens maçónicas sob o risco de, propositalmente, ou não, haver profundas descaracterizações que podem provocar afastamentos significativos das raízes que sustentam várias das tradições originais, conforme a preocupação defendida por Carvalho:
[…] Numa tradição de mais de 660 anos repassada por muitos países e mais de 200 ritos, a Maçonaria enriqueceu os seus Usos e Costumes.
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O Manancial é tão grande e tão rico, que não se pode e não se deve deixar de divulgar para o maior número de Irmãos, possível. Desde o Poema Régius, e mais de 138 Old Charges, que foram recolhidas pelos pesquisadores, nossos Irmãos antepassados – através de mais de seis séculos. Muitos Usos, já não se praticam mais. O tempo – essa revolução permanente, na construção do presente – vai soterrando o passado. Todavia, em alguma Biblioteca Particular ou Pública, ou mesmo algum Diário guardado como recordação de algum ente querido, pode ter guardado um facto, um acontecimento maçónico, que não consta de nenhum outro registro. Às vezes é um facto desimportante para o homem comum, mas para o pesquisador maçónico, é mais um elo elucidativo, de uma cadeia rompida.
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[…] Temos muitos defeitos como Maçom e como escritor maçónico, mais ainda, todavia o “germe destruidor do Achismo”, nunca não nos atacou. Podemos ser [a]tacado e criticado como transcritor de textos de autores famosos – isso nunca negamos. Todavia, também, nunca deixamos de citar as fontes. As Notas Explicativas dos nossos livros, estão aí confirmando o que dizemos. Sendo quase que um dicionário de Fontes de Pesquisa.
(CARVALHO, 1994. p. 15-16).
A postura de separação de factos, opiniões, mitos e lendas, por mais que aparentemente seja tarefa simples, nem sempre é assumida com êxito, pois o que pode ser denominado de “distorção histórica” nem sempre é capaz de ser facilmente classificado, através do rigor, como uma distorção propriamente dita, pois muitas vezes representam processos de “distorções de distorções”. Sobre este aspecto, podemos citar o facto de que “histórias comprovadas por documentos escritos” são baseadas nas “histórias escritas por àqueles que elaboraram os documentos”.
Além disso, muitas das “distorções” não se tornam elementos descaracterizadores da Maçonaria entendida como um processo em constante transformação, pois o que pode considerado “distorção” num momento histórico se transforma em “tradição” em momento subsequente, a exemplo da própria origem do famoso terceiro grau da Maçonaria simbólica, chamado de Mestre Maçom (CARVALHO, 1991. p. 51-58).
A complexidade do desafio do estudante/pesquisador também se torna evidente ao olharmos as próprias Old Charges e os próprios Landmarks, visto que, em muitos destes documentos (considerados como fundadores e demarcadores do que chamamos de Maçonaria moderna) há a incorporação convergente e explícita de mitos, lendas, histórias, dogmas religiosos e marcos regulatórios de condutas para os membros que integram as Ordens. Como exemplo ilustrativo podemos destacar as obrigações para com as igrejas contidas na Carta de Bolonha (CARTA, 1248); as lendas, episódios bíblicos e enunciações envolvendo personagens históricos contidos no Poema Régius e nas Constituições de Anderson (O POEMA, 1390; CONSTITUIÇÕES,1723) e os próprios Landmarks 3º referente a Lenda de Hiram, 19º referente ao Grande Arquitecto do Universo e 20º referente à imortalidade da alma publicado por Albert Gallantin Mackey entre os anos de 115%6 a 115%9 (CARVALHO, 1999. p. 118-121).
Neste sentido, ao tecermos uma leitura de sobrevoo entre as diversas fontes de estudo maçónico, não se torna difícil perceber críticas de estudiosos que ancoram as suas reflexões predominantemente nos factos históricos registrados em documentos aos estudiosos que se fundamentam em interpretações baseadas em afirmativas sem fortes lastros históricos/documentais.
Entretanto, se houver o esforço em compreender o fenómeno maçónico como um processo de construção histórica e cultural que tem sofrido transformações provocadas pelas diversas sociedades a cada ciclo evolutivo, pode-se, desta forma, ampliar o leque de percepções e, em alguns casos, integrar de forma dialógica concepções que à primeira vista seriam consideradas antagónicas.
Uma das possibilidades de exercitar essa leitura dialógica em relação à Maçonaria como fenómeno histórico e social pode estar ancorada na incorporação cuidadosa do conceito de “Tradições Inventadas” proposto por Eric Hobsbawn (HOBSBAWN; RANGER, 2008). Sobre esta perspectiva, a história, o mito, a lenda e a opinião “distorcida” da realidade podem dialogar num campo de análise que engloba as relações de práticas, rituais, costumes e tradições maçónicas.
Por mais que Hobsbawm busque demarcar a diferença entre costumes (que se situam na dimensão das convenções ou rotinas pragmáticas da vida) e tradições (que se situam na dimensão dogmática que envolve elementos simbólicos distintivos entre membros de determinada sociedade ou grupos sociais), o mesmo foi cauteloso em apontar que as tradições, entendidas como processo de formalização e ritualização buscam conexões com o passado e são inventadas com mais frequência:
[…] quando uma transformação rápida da sociedade debilita ou destrói os padrões sociais para os quais as “velhas” tradições foram feitas, produzindo novos padrões com os quais essas tradições são incompatíveis; quando as velhas tradições, juntamente com os seus promotores e divulgadores institucionais, dão mostra de haver perdido grande parte da capacidade de adaptação e de flexibilidade; ou quando são eliminadas de outras formas. […] Ainda assim, pode ser que muitas vezes se inventem tradições não porque os velhos costumes não estejam mais disponíveis nem sejam viáveis, mas porque eles deliberadamente não são usados, nem adaptados.
(HOBSBAWN; 2008. p. 12-16.).
Sobre este ponto de vista, fundamentado nos estudos das transformações de práticas sociais escocesas, nórdicas, britânicas, indianas, africanas e europeias entre os séculos XVIII a XX, o referido pesquisador categoriza as tradições inventadas naquelas que 1) simbolizam coesão social ou as condições de admissão de um grupo, 2) estabelecem ou legitimam instituições, status e/ou autoridade e 3) buscam socialização, inculcação de ideias, sistemas de valores e padrões de comportamento, devendo as mesmas serem analisadas como processo. Neste sentido, ainda vale o destaque de Cannadine (2008) que alerta para o facto de que a análise limitada aos registros de textos, deixando de lado a natureza do processo e a descrição do contexto, se tornam frágeis e superficiais, destacando dez aspectos dos rituais que devem ser também concomitantemente investigados, conforme apresentados no quadro 1.
Quadro 1 – Aspectos que devem ser investigados ao se analisar os ritos sob a perspectiva da invenção das tradições
| ASPECTO | DESCRIÇÃO |
| Primeiro | Poder Político do Líder (grande/pequeno; crescente/decrescente). |
| Segundo | Personalidade e imagem do Líder (amado/detestado; respeitado/insultado). |
| Terceiro | Natureza da estrutura económica e social da sociedade por ele governada (local/provincial/pré-industrial/urbana/industrial/regida por critérios de classe). |
| Quarto | Tipo, alcance e posicionamento dos meios de comunicação (vivacidade e a imagem que a imprensa descreve a cúpula/nobreza/Liderança). |
| Quinto | Tecnologia e costumes (de que forma a liderança faz uso das tecnologias e das modas). |
| Sexto | Auto-imagem da sociedade (confiante/preocupada/ameaçada; aderente/resistente a determinados temas sociais locais/regionais/nacionais/internacionais). |
| Sétimo | Condição da Sede/Capital dos cerimoniais da Liderança (medíocre/sem atractivos; magnífica/ostentadora; cenário, propício ou não, para os rituais e cerimónias). |
| Oitavo | Atitude dos responsáveis pela liturgia, música e organização (indiferentes/incompetentes; dispostos/competentes) |
| Nono | Natureza do cerimonial segundo a sua execução (medíocre/descuidado; magnífico/espectacular). |
| Décimo | Exploração comercial (fabricantes acreditam ou não que podem lucrar com a venda de produtos vinculados). |
Fonte: adaptado de Cannadine (2008)
Após trilhar este breve percurso, que evidencia alguns elementos relacionados com o estabelecimento de métodos de leituras mais apurados das tradições sociais, não se torna muito difícil apontar processos de estabelecimento de tradições criadas nos diversos ritos/rituais da Maçonaria desde os seus primórdios. Neste sentido, podemos destacar os processos de iniciação de novos membros; o estabelecimento de paramentos distintivos dos vários graus, ritos e autoridades/dignidades; as incorporações de elementos das mais diversas correntes místicas, filosóficas e religiosas nas práticas ritualísticas e litúrgicas da Maçonaria; as adopções de regras e rituais de tratamento e precedência maçónicas; a adopção de sinais toques e palavras de identificação e diferenciação maçónicas; dentre outras.
Vale destacar, que as linguagens simbólicas e alegóricas tradicionalmente usadas na Maçonaria (e ancoradas numa multiplicidade de objectos e temáticas), por suas naturezas, possibilitam a existência e surgimento de planos capazes de gerar e sustentar mitos e lendas ao lado de factos históricos que, em conjunto, são incorporados nas tradições maçónicas para dar sustentação ao desenvolvimento de valores considerados pelas ordens maçónicas como nucleares da prática humana.
Baseado neste pressuposto, percebe-se que o mítico e o místico (que também demandam um cuidado especial nas suas definições conceituais) são continuamente alimentados e reforçados como ferramenta de formação humana que frequentemente se materializa de forma diversa, a exemplo do mito do bode; da prática do uso do triponto nas assinaturas; do descalçamento e da corda no pescoço em cerimoniais de iniciação; dos ângulos do compasso nos trabalhos dos graus simbólicos; do significado da “Loja de São João”; do local de acento dos aprendizes; da circulação durante os trabalhos nas Lojas; no formato das Lojas e dos seus Pavimentos Mosaicos, Orlas Dentadas e Colunas; dos significados do Sol, Lua, Estrela Flamígera e Letra G; dentre outros, que, conforme Ismail (2012) possuem sentido e origem fundamentados em práticas lastreadas em factos, mas que também incorporam múltiplas interpretações fundamentadas em mitos, lendas e opiniões pessoais.
Percorrendo o epílogo da presente reflexão, vale destacar o facto de que a partir do iluminismo do século XVIII várias transformações na Europa ocorreram, gerando alterações significativas nos diversos sistemas políticos e culturas existentes, processos esses largamente estudados por uma gama significativa de pesquisadores, inclusive no que tange aos limites (ou “ingenuidades”) dos paradigmas modernos adoptados, onde podemos trazer as reflexões de Souza Santos (2005) referentes às crises nas dimensões sociais, políticas e culturais e de Bauman (1999) referentes aos efeitos da ambivalência gerada pelo confronto entre as concepções do moderno e do contemporâneo.
Para Hobsbawn (2008b), o processo histórico de transformações na Europa durante os séculos XIX e XX foram também marcados por “novas tradições” oficiais (políticas) e não-oficiais (sociais) podendo ser considerado o período de maior produção de tradições observadas.
Ao concluirmos esta trajectória temos o nítido entendimento da importância do cuidado metodológico necessário durante a pesquisa maçónica e da necessidade do estudante e praticante buscarem permanentemente assumir as suas posições como observadores rigorosos da realidade e moralmente honestos ao explicitarem o que, nos seus entendimentos, compreendem como história, mito, lenda ou visão conspirativa daquilo que está sendo abordando.
Alexandre Gomes Galindo
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Referências
- BAUMAN, Zygmunt. Modernidade e ambivalência. Rio de Janeiro: Editora Jorge Zahar, 1999.
- CANNADINE, David. Contexto, execução e significado do ritual: a monarquia britânica e a “Invenção da Tradição”. In: HOBSBAWN, Eric.; RANGER, Terence (Org.) A Invenção das Tradições. 6. ed. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2008.
- CARTA de Bolonha: Statuta et Ordinamenta Societatis Magistrorum Tapia et Lignamiis. 1248.Disponível em: <https://bibliot3ca.com/a-carta-de-bolonha-de-1248-e-%C2%B4-v-%C2%B4/>. Acesso em: 03 out. 2018.
- CARVALHO, Assis. A Maçonaria: usos e costumes. Vol. 1. Londrina: “A Trolha”, 1994.
- CARVALHO, Assis. A Maçonaria: usos e costumes. Vol. 2. Londrina: “A Trolha”, 1995.
- CARVALHO, Assis. A Maçonaria: usos e costumes. Vol. 3. Londrina: “A Trolha”, 1999.
- CARVALHO, Assis. O Mestre Maçom: Grau 3. Londrina: “A Trolha”, 1991.
- CONSTITUIÇÕES da Antiga Fraternidade dos Maçons Livres e Aceitos sob a guarda da Grande Loja de Londres fundada em 24 de Junho de 1717: Constituições de Anderson. 1723. Disponível em: <https://bibliot3ca.com/constituicao-de-anderson-texto/>. Acesso em: 04 Maio 2019.
- CORTEZ, Joaquim Roberto Pinto. Maçonaria: origens, teoria, prática. Londrina: “A Trolha”, 2005.
- DA CAMINO, Rizzardo. Lendas Maçónicas: Literatura Maçónica- Rito Escocês Antigo e Aceito. 3. ed. Rio de Janeiro: Editora Aurora, 1982?.
- HOBSBAWN, Eric. A Invenção das tradições. In: HOBSBAWN, Eric.; RANGER, Terence (Org.) A Invenção das Tradições. 6. ed. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2008a.
- HOBSBAWN, Eric. A produção em massa de tradições: Europa, 1870 a 1914. In: HOBSBAWN, Eric.; RANGER, Terence (Org.) A Invenção das Tradições. 6. ed. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2008b.
- HOBSBAWN, Eric.; RANGER, Terence (Org.) A Invenção das Tradições. 6. ed. São Paulo: Editora Paz e Terra, 2008.
- ISMAIL, Kennyo. Desmistificando a Maçonaria: rituais, simbologia, ordens, Maçonaria brasileira, religiões e mulheres na Maçonaria. Londrina: Editora Universo dos Livros, 2012.
- LOURO, José Barbosa. Símbolos. Londrina: “A Trolha”, 2006.
- MONTEIRO, Eduardo Carvalho. Maçonaria e as tradições herméticas. Londrina: “A Trolha”, 2002.
- O POEMA Regius ou Manuscrito Halliwell. 1390. Disponível em: <http://www.geocities.ws/solabif/regius.html>. Acesso em: 03 out. 2018.
- SOUZA SANTOS, Boaventura de. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade.10 ed. São Paulo: Editora Cortez, 2005.


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