Reflexões pessoais sobre a dimensão política do caminho Maçónico

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caminho

Considerações iniciais

Este pequeno ensaio, que não se propõe trazer verdades absolutas ou esgotar a temática, está relacionado com alguns aspectos que considero relevantes no que diz respeito ao nosso vínculo, na qualidade de maçons, com a dimensão política que caracteriza a nossa existência como seres humanos.

O ponto central, que ancora estas reflexões, está situado no facto de integrarmos uma Ordem que se propõe ao desenvolvimento do indivíduo através de um rico processo de formação teórica e prática que visa remeter cada obreiro a uma lapidação interior da Pedra Bruta que representa a sua pessoa.

As reflexões, aqui expostas em duas partes, foram extraídas de trabalhos apresentados em 2019 respectivamente para os Confrades da Academia Amapaense Maçónica de Letras (O Maçom e a Política) e para os integrantes de uma Loja Simbólica no final de uma gestão (Olhando as Ferramentas após o Trabalho ).

Considero estes dois materiais profundamente interligados tendo em vista que nos relacionamos continuamente com os outros em processos de gestão do colectivo e vivenciamos periodicamente mudanças das equipes responsáveis pela administração da coisa pública, tanto no meio maçónico, quanto no meio social em geral.

A questão de fundo que paira na motivação deste ensaio apresenta-se através da seguinte indagação: “O que nos diferencia como maçons?”.

Espero que este singelo material possa contribuir em estudos, debates e reflexões que nos possibilitem aperfeiçoarmos cada vez mais o desbaste da nossa Pedra Bruta.

Reflexões durante um fórum sobre o Maçom e a política

Frente à referida provocação emito um posicionamento fundamento em 12 pressupostos:

  • Pressuposto 1 – O desenvolvimento maçónico é teórico e Prático.
  • Pressuposto 2 – O exercício maçónico é Individual e Colectivo.
  • Pressuposto 3 – O exercício maçónico é Amplo, através dos valores trabalhados em Loja e Restrito, através da actuação operativa do homem no meio social.
  • Pressuposto 4 – Existe diferença entre a Ordem e o obreiro.
  • Pressuposto 5 – A questão central da reflexão é: “Em que momento, e como, o Maçom / Maçonaria se deve envolver com a política?
  • Pressuposto 6 – Política é o exercício que envolve o colectivo em todos os níveis e planos.
  • Pressuposto 7 – Dois importantes agentes determinantes dos frutos da Política são os Indivíduos e as Instituições.
  • Pressuposto 8 – Existe uma inevitabilidade Política na sociedade humana, pois, tanto os indivíduos, quanto as instituições, possuem espaços colectivos a serem ocupados e papéis a serem desempenhados dentro do ambiente social.
  • Pressuposto 9 – Tanto na dimensão mística, quanto na filosófica ou social, existe uma inevitabilidade política da Maçonaria, pois existem campos onde a “relação com o outro” definem as suas naturezas.
  • Pressuposto 10 – Na realidade, os dois pontos subjacentes da questão levantada no Fórum são:
    1. “O Maçom está preparado para exercer o seu papel de maneira alinhada com os preceitos da Ordem?”
    2. A Instituição Maçónica está estruturada para manter firme e integro o processo de formação dos seus obreiros e implementar as suas dinâmicas de tal forma que os preceitos da Ordem possam estar claramente perceptíveis nos seus processos, acções, projectos, programas?
  • Pressuposto 11 – No caminho de desenvolvimento da formação maçónica o eixo (ou coluna de sustentação) da acção política interna da ordem se apresenta como sendo: “O estudo teórico e prático na busca de tornar claro ao Obreiro o que é Maçonaria e qual o seu propósito.
  • Pressuposto 12 – Qual o propósito político da Ordem, na medida em que, mesmo não devendo fomentar sectarismo político em Loja (conforme estabelecem alguns Landmarks) a ordem exerce política na sua plena manifestação?: Como pressuposto, podemos elencar o seguinte propósito: “Desenvolver Obreiros que através do exemplo se tornam Agentes de Transformação!”

“O Maçom e a Política”

No meu entendimento, Política, entendida como exercício que envolve o colectivo em todos os níveis e planos, é um tema relevante no processo de formação do integrante da Ordem e também representa uma dimensão específica na qual o exercício prático do Maçom se torna inevitável. Este exercício maçónico da política, que em nada tem a ver com sectarismo político-partidário, se faz tanto sob a perspectiva lato (envolvendo a actuação pautada nos valores trabalhados em Loja, através do exemplo sincero, em todas as relações e ambientes sociais em que convive), quanto sob a perspectiva Stricto (envolvendo a mesma actuação em ambientes específicos a exemplo quando da ocupação de postos na estrutura do estado ou em diversas instituições públicas ou privadas).

Como é frequentemente externado por diversos membros da Ordem, “ Uma coisa é a Maçonaria, outra coisa é o Maçom!”. Entretanto, por mais que este seja um assunto ainda muito polémico entre os próprios membros da Ordem (pois em determinadas circunstância a Instituição não deve ser confundida com o indivíduo que a integra), prefiro nesta minha presente fala tratar conjuntamente estes dois termos (maçonaria / maçom) de forma integrada.

Percebo que uma das questões que estão profundamente relacionadas com esta dimensão de prática maçónica pode ser resumida da seguinte forma: “Em que momento, e como, o Maçom / Maçonaria deve envolver-se com a política tanto sob a perspectiva Lato quanto Stricto?

De certo, compreendo que na esfera política (em termos gerais caracterizada como àquela que engloba todas as relações humanas para além do individual/ privado e que envolve tudo relacionado com o colectivo/social) a intervenção dos agentes se faz através do transbordamento dos seus interesses fundamentados por valores intrínsecos. Cada ente carrega os seus valores, que podem mudar no tempo, sendo considerados como resultados da manifestação da sua natureza interna somados aos processos de formação originados pela sua relação com o(s) meio(s) em que convive.

Baseado neste entendimento, ouso afirmar que Instituição vazia de conteúdo e de propósito relacionados com valores elevados e indivíduo vazio de conteúdo e de propósito relacionados com valores elevados não promoverão efeitos correspondentes à magnitude dos respectivos valores. Em outras palavras: “Fruto sem semente não germina!”

Amparado nos pressupostos acima, defendo a ideia de que tanto a instituição maçónica, quanto o indivíduo Maçom, possuem espaços a serem ocupados e papéis a serem desempenhados dentro do ambiente social, visando promover o seu desenvolvimento. Considero que a relação inversa também é verdadeira, na medida em que o ambiente social também influencia e promove mudanças tanto nas estruturas/dinâmicas da Ordem Maçónica, quanto no próprio interior do Maçom.

Desta forma, tenho a opinião de que o envolvimento do Maçom e da Maçonaria na política é inevitável com graus diferenciados de amplitude e profundidade, de acordo com o meio social onde as interacções estão ocorrendo e com os desafios que o tempo elenca em cada ambiente.

Entretanto, ao indivíduo Maçom, independentemente do tipo de interacção política (se partidária ou não), cabe-lhe estar preparado para exercer o seu papel de maneira alinhada com os preceitos da Ordem. Este sim, é o ponto central da questão. Se o Maçom não possui, no seu ser, a incorporação dos valores elevados da Ordem (que devem ser continuamente trabalhados em Loja), provavelmente encontrará dificuldades de estar alinhando os seus actos com os seus discursos e com os fundamentos, princípios e valores que caracterizam a Maçonaria como uma Ordem que visa o desenvolvimento humano e social.

A instituição Maçónica, também está sujeita aos mesmos desafios, na medida em que necessita estar estruturada para manter firme e integro o processo de formação dos seus obreiros e implementar as suas dinâmicas de tal forma que os preceitos da Ordem possam estar claramente perceptíveis nos seus processos, acções, projectos, programas, etc.

A Ordem Maçónica frequentemente é definida de forma variada como “Instituição”, “Ciência”, “Sociedade de Pensamento”, “Centro de União”, etc. Entretanto, podemos também ousar pretender enquadrar a Maçonaria nas suas definições não como uma “Instituição”, “Ciência”, “Sociedade de Pensamento” ou “Centro de União”, e sim, apenas como um IDEÁRIO, que aglutina pessoas em prol de determinados preceitos e se manifesta em formas variadas de Ordens, Organizações e Instituições, as quais estabelecem critérios e mecanismos de reconhecimento mútuo e realizam trabalhos no sentido de promover o desenvolvimento do homem e da sociedade.

Neste sentido, somos nós (e não os outros), como Obreiros, dentro e fora das Lojas, que devemos através do EXEMPLO sermos verdadeiros agentes de transformação.

Reflexões ao final de um ciclo de gestão de uma loja maçónica

Este ensaio teve o propósito de, ao final de mais um ciclo de veneralato, externar a gratidão por fazer parte de uma Loja Maçónica e humildemente destacar o Compasso, o Esquadro, o Cinzel e o Maço usados pelos obreiros nos trabalhos de desbaste e lapidação da Pedra Bruta na dimensão subtil do exercício de gestão numa Oficina Maçónica.

“Olhando as Ferramentas após o Trabalho”

Entendo que ao se incorporar o propósito de desenvolver o homem (e consequentemente a humanidade), a Maçonaria, entendida como instância de formação, não poderia se eximir de se debruçar sobre a relação entre espírito (dimensão intangível do ser) e a matéria (dimensão tangível e manifesta do ser).

Neste sentido, a reflexão sobre a relação entre estas duas dimensões, remete a Ordem a se posicionar sobre o dilema natural da preponderância entre elas. Sobre este aspecto, a ideia da prevalência do espírito sobre a matéria, leva ao entendimento de que o caminho de evolução e aperfeiçoamento humano transcende as limitações do manifesto e que a essência da vida vai para além das finitudes inerentes às limitações do espaço-tempo características do mundo percebido.

O estudo e reflexões sobre esta questão, leva o Maçom na actualidade a se posicionar de forma mais cautelosa em relação às dinâmicas da sociedade contemporânea, de tal maneira, que o induz a incluir nos seus critérios de percepção da realidade a ideia de que existem dimensões (ou planos) mais elevados que devem ser levados em consideração nos seus pensamentos, julgamentos, palavras e acções.

Esta atitude, tem consequências directas frente a aplicabilidade e utilidade dos conhecimentos do indivíduo nos ambientes maçónicos e não-maçónicos, gerando impactos profundos na harmonia, na fraternidade, na urbanidade, no auxílio, na caridade e na qualidade das obras realizadas por cada indivíduo e pelos próprios grupos sociais em que ele participa. Desta forma, e por outros motivos os quais o tempo e o espaço não nos permitem citá-los aqui, o princípio da prevalência do espírito sobre a matéria deve estar incorporado como elemento pétreo das constituições e práticas maçónicas.

Entretanto, há de convir que no plano da manifestação física estamos sujeitos as leis da matéria e que a intercessão entre os planos material e imaterial é fortemente influenciado pela concretude do manifesto. Mesmo assim, entendo que os elementos que compõe o plano imaterial (os quais em vários aspectos são associados ao conceito de espírito) são determinantes na diferenciação entre uma vida estritamente conduzida pelos ditames materiais (que muitas das vezes nos remeteria a viver como selvagens fortemente presos à matéria) e uma vida estritamente conduzida pelos ditames da imaterialidade reintegrada à essência cósmica.

Compreendo que estes dois pontos são extremos e devemos buscar encontrar o melhor ponto de equilíbrio a cada contexto do viver. Quando me questiono se sei onde se demarcam os pontos que definem a trajectória do equilíbrio, sou honesto em afirmar que não sei. Talvez esta seja a lição a ser aprendida na Senda do Caminho que vai do aprendiz ao mestre nas escolas iniciáticas.

Eu vejo a prevalência do espírito sobre a matéria como um fio que guia o nosso caminho do extremo da matéria para o centro. Entretanto, entendido na sua plenitude extrema, somos levados a supor que ao atingirmos esta prevalência não estaríamos no plano das coisas materiais. Neste sentido, a concretude do plano manifesto nos remete frequentemente a situações onde a prevalência da matéria sobre o espírito é o único fio que nos levaria ao centro. Dentre estas situações que nos põem a prova podemos destacar àquelas em que a sobrevivência está em risco, como nas guerras, nas agressões e na fome.

Entretanto, ao observarmos o plano do manifesto, percebemos a existência de três grandes forças propulsoras de transformação. Estas forças estão mais evidentes ao observarmos os seres vivos, mais especificamente o ser humano pelo óbvio motivo de sermos ao mesmo tempo observador e observado.

Estas forças, que se apresentam intrinsecamente incorporadas na natureza humana possuem a capacidade de promover mudanças nos elementos que integram o ambiente e nos processos que promovem movimento.

Estas três forças surgem da ideia de transbordamento do ser no plano mental em três níveis. Um nível mais profundo e não externado, um segundo nível onde a externação se manifesta através do processo verbal e o terceiro nível expresso pela mobilização integral do indivíduo na direcção da sua intencionalidade. Respectivamente denominamos estas três forças de Pensamento, de Palavra e de Acção.

Os pensamentos provocam mudanças; as palavras provocam mudanças e as acções provocam mudanças. Mudanças tanto no indivíduo, quanto no ambiente em que está inserido. Vale destacar que estas forças, mesmo podendo se manifestarem isoladamente, apresentam relações de interdependência e são passíveis de serem influenciadas pela vontade.

É neste sentido que a Razão, o Conhecimento e o Livre-Arbítrio se apresentam como elementos moduladores no processo de desenvolvimento humano no sentido de conscientemente promover mudanças harmonizadas com as leis universais (que chamo genericamente aqui de LEI) e seus fluxos.

O Homem sábio, dialoga com os seus pensamentos, as suas palavras e as suas acções no sentido de poderem estar coerentes com os seus valores morais, e de produzirem efeitos harmonizados para a sua pessoa e para o universo a sua volta, estando sempre atento aos possíveis efeitos cármicos provocados por cada uma destas três forças.

A desarmonia é provocada quando existe desalinhamento entre os valores intrínsecos do homem com os seus pensamentos palavras e acções, bem como, quando existe desalinhamento entre os pensamentos palavras e acções do homem com a LEI. No primeiro caso, podemos chamar de desarmonia moral e no segundo de desarmonia cósmica.

O caminhante da Senda que integra uma Ordem Iniciática, a exemplo da Maçonaria, trilha o “Percurso ao Mestre” em contínuo processo de aprendizagem que o conduz ao domínio de si mesmo através do diálogo permanente entre a sua consciência e os seus pensamentos, palavras e acções.

Ao utilizarmos a Maçonaria como exemplo, evidencia-se a necessidade do Maçom estar atento sobre a necessidade de coerência entre os preceitos da sua Ordem Iniciática e aquilo que pensa, aquilo que fala e como age. Este é o exercício atitudinal a ser realizado pelo buscador desde o início da sua jornada.

Na prática do Círculo Externo da Ordem, o Maçom é remetido a buscar coerência entre os preceitos maçónicos e a sua atitude frente a si e ao universo que o cerca. O Maçom, deve estar atento ao teor dos seus juramentos, e aplicá-los. Deve estar atento aos princípios, directrizes e regulamentos da Ordem e aplica-los. Aplicá-los não via dogma, e sim via consciência e uso do Livre-Arbítrio.

Desta forma, as atitudes, frente a si, bem como, frente ao outro e ao meio que o cerca, devem estar coerentes com os valores maçónicos e perceptíveis aos olhos de quem observa.

Este é o nosso trabalho como obreiros da Loja. Este é o exercício do Maçom que trilha o “Caminho ao Mestre”.

Epílogo à guisa de prólogo

De certa forma, todos os nossos ciclos de estudos maçónicos desaguam na nossa prática, tanto na dimensão privada, quanto na pública, onde a política se torna o objecto da aplicação daquilo que estudamos na Ordem.

Os pensamentos, as palavras e as acções, para além de qualquer Ordem Iniciática, são tanto vias provocadoras de transformação, quanto elementos a serem utilizados como base para o desenvolvimento do ser humano.

A prevalência do espírito sobre a matéria, num sentido ampliado, é via na Senda do Caminho ao Mestre, na medida em que a noção de imortalidade da alma nos remete a transcender a nossa existência para além da matéria, onde o conceito de “Oriente Eterno”, muita das vezes traduz parte deste entendimento.

Saudações aos Obreiros que concluem cada ciclo de aprendizagem! Congratulações aos Obreiros que iniciam cada ciclo de aprendizagem!

Alexandre Gomes Galindo

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