Ritos, rituais e cerimónias e as suas implicações políticas nas organizações contemporâneas

ritos rituais jhg54erdf

Este estudo aborda as implicações políticas das manifestações simbólicas dos ritos, rituais e cerimónias em eventos realizados nas organizações, e visa aprofundar a crítica necessária para que profissionais da área de Comunicação analisem as estruturas de poder, símbolos, rituais, ritos, cerimónias e linguagens que se inserem nos eventos nos quais se perpetua a ideologia dominante devido à agregação de valores culturais, traços sociais, económicos e culturais inerente a cada tipo de sociedade.

Tem como objectivo realizar um ensaio teórico a respeito dos ritos, rituais e cerimónias na esfera política e económica como modo de promoção de relacionamentos estratégicos. Esta discussão faz parte dos estudos preliminares de Pós-Doutorado, que pretenderá também investigar – em dois momentos: revisão bibliográfica e pesquisa de campo – a prática desses elementos nas organizações contemporâneas.

A unidade de análise da pesquisa será constituída por uma empresa privada e uma pública, a serem definidas posteriormente. Pretende-se contribuir com o estudo e a arte de praticar Relações Públicas nas organizações com maior consistência teórica e aperfeiçoamento técnico. Englobará ainda outros aspectos que não estão aqui mencionados, dada a limitação que uma apresentação em Congresso exige.

Conceitos: ritos, rituais e cerimónias

Numa sociedade em que a imagem pública e privada constitui um factor preponderante de prestígio, credibilidade e liderança, estes elementos estão cada vez mais permeando as nossas vidas, as nossas formas de agir, de decidir, sob a vigilância de olhares sociais atentos e fiscalizadores. Os ritos, rituais e as cerimónias passam a ser elementos estratégicos a serviço da construção e consolidação das imagens das organizações, apoiadas na credibilidade e aceitação social das acções e realizações desenvolvidas.

Segalen (2002, p. 31) preocupa-se com o que considera uma difusão abusiva dos termos rito e ritual, e os define como:

[…] um conjunto de actos formalizados, expressivos, portadores de uma dimensão simbólica. O rito é caracterizado por uma configuração espaço- temporal específica, pelo recurso a uma série de objectos, por sistemas de linguagem e comportamentos específicos e por signos emblemáticos cujo sentido codificado constitui um dos bens comuns do grupo. O uso do ritual é paralelo ao aparecimento da humanidade.

Desta forma, parece ser possível verificar que em todas as sociedades os grupos sociais possuem acontecimentos ou eventos especiais e únicos. Porém, para cada um há um significado diferente. Por exemplo, no Brasil a Copa do Mundo e uma formatura são eventos com rituais reconhecidos por diferentes classes sociais e culturais. Um ritual bem executado é mais que uma mera apresentação teatral. Usa elementos e símbolos e evoca a cultura e as crenças dos povos envolvidos.

Lévi-Strauss (1971) chama a atenção para a importância de realizar uma diferenciação entre o mito e o ritual, uma vez que, para o autor, estes são “o modo pelo qual as coisas são ditas”. Já os mitos seriam “o que dizem as palavras”. Se para Lévi-Strauss (1971, p. 603) os rituais colocam em prática o mito, o pensar humano, percebe-se que não são apenas simples formalidades. As diversas abordagens teóricas demonstram a vitalidade do estudo sobre os rituais, buscando como ferramenta conceitual, para ajudar a entender um pouco mais determinada sociedade, os seus valores pensados e vividos, além da sua importância como acto comunicacional embasado pela simbologia intrínseca na cultura de cada povo.

Os ritos podem ser vistos como algo que não se resume em repetições das coisas reais e concretas do mundo rotineiro. Como coisa real e concreta consiste no que pode ser materializado e simbolizado. Exemplo disto é a troca de presentes entre personalidades de diferentes culturas ou o aperto de mão entre duas pessoas que se saúdam. Este protocolo é uma forma de comunicação na qual os participantes do processo denotam uma mensagem diplomática. Remetem ainda ao protocolo elementar significativo de boas relações entre povos, governos ou grupos. Daí a importância deste estudo e a sua inserção na práxis das Relações Públicas, consideradas nos seus variados modos de desenvolver relacionamentos estratégicos.

Tanto o protocolo como o cerimonial são prolongamentos de outras áreas do conhecimento, como a Antropologia Cultural, a Semiótica, entre outras, e que caracterizam qualquer tipo de evento. É fundamental que os profissionais de Relações Públicas identifiquem as formas de comunicação valorizadas pelas pessoas nas organizações e, a partir daí, evidenciem caminhos para uma reflexão e acção no intuito de integrar as relações organizacionais, aproximar pessoas, construir história, tornando a comunicação efectivamente estratégica.

Reflexão Teórica

Rito, ritual, cerimonial, discursos, festa: quais são os conteúdos semântico e simbólico destas palavras? Para Turner (1974, p. 20),

[…] uma coisa é observar as pessoas executando gestos estilizados e cantando canções enigmáticas que fazem parte da prática dos rituais, e outra é tentar alcançar a adequada compreensão do que os movimentos e as palavras significam para elas.

Os símbolos possuem as propriedades de condensação, unificação e polarização dos significados. Um único símbolo pode representar muitas coisas ao mesmo tempo. Assim, os símbolos utilizados nos ritos e rituais tendem a caracterizar-se pelo seu potencial polissémico. Para reflectir sobre as formas de expressão das culturas e o processo de construção das identidades culturais, é necessário levar em consideração uma série de elementos que fazem parte desse trabalho, que busca identificar, comparar os significados, o valor, a importância dos ritos e rituais por meio de processos discursivos e simbólicos, em diferentes gerações, numa cultura, por meio da comunicação que assim os estabelece.

O conceito de cultura abrange toda manifestação que emana das trocas sociais e é transmitida por meio das gerações. A língua, a música, a arte, a arquitectura, o vestuário, a culinária, o discurso, o conjunto de crenças, os idiolectos e a paremiologia (ditados, provérbios e ditos), a literatura oral (lendas e mitos), as manifestações religiosas, os ritos de passagem, as festas populares, a meteorologia popular, as relações locais com as modalidades de trabalho e lazer, as formas de distribuição, e o exercício do poder local, entre outros, são manifestações da cultura popular. Tem-se internalizado esse rol de significados comunicacionais de relevância nem sempre externada, visto que Freitas e Guerra (2004, p. 3) afirmam que as representações simbólicas inerentes à cultura – seja ela organizacional ou sob qualquer outra manifestação – constituem a fonte comum do pensamento, da linguagem e da sociedade.

Em decorrência desses conceitos demasiadamente amplos quanto ao significado e à abrangência do termo cultura da qual a sociedade é parte integrante, é necessária a integração e a renovação constantes dos elementos que compõem o conjunto que forma esta sociedade a fim de que ela se perpetue.

Esta renovação dá-se por meio dos ritos. Os ritos ou rituais são um conjunto de actos formalizados, expressivos, portadores de uma dimensão simbólica. Os rituais são caracterizados por uma configuração que abrange um espaço-temporal específico, envolvendo objectos, discursos, expressões, narrações, todos dotados de um sistema de linguagem, de comportamentos específicos e de signos emblemáticos cujo sentido se constitui um dos bens comuns de um grupo.

Como se vê, os ritos e rituais fazem parte do processo civilizatório da Humanidade. Presentes em todas as culturas, das comunidades mais primitivas à sociedade contemporânea, os ritos e rituais são fenómenos extremamente diversificados e, sobretudo por esta diversificação, portam uma riqueza extraordinária e muito esclarecem sobre o ser humano. Falar em vida social é falar em ritualização. O mundo social funda-se em actos formais cuja lógica tem raízes na própria decisão colectiva e não em factos biológicos, marcas raciais ou actos individuais. Assim, o rito é a forma de o ser humano expressar e manifestar as suas percepções sensíveis por meio de discursos, narrativas e símbolos que variam conforme a pluralidade de acções inserida em cada ritual específico.

Os fragmentos das práticas sociais e componentes de diversos universos simbólicos, míticos, rurais, urbanos, tradicionais, modernos, sagrados, profanos, cujas significações se entrelaçam, insere-se na percepção humanística, carregada de significados, pois o homem busca a reelaboração do imaginário, manifestando-o de diferentes formas e com rituais diversos a fim de manter a identidade e a cultura do local em que está inserido.

Por meio da capacidade de produzir imagens e signos, o homem consegue determinar e fixar o particular na sua consciência, em meio à sucessão de fenómenos que se seguem no tempo. Os conteúdos sensíveis não são apenas recebidos pela consciência, mas antes são produzidos e transformados em conteúdos simbólicos. O rito é uma linguagem trabalhada no mito.

O mito é também uma forma de objectivação, à qual Cassirer (1946, p.164) chama “energia espiritual”. O mito deve ser compreendido como uma tentativa de explicação da realidade. É aquilo que o sujeito efectua espontaneamente, ou seja, o sujeito não recebe passivamente as sensações exteriores, mas as enlaça com signos sensíveis e significativos. Mas enquanto o “simbolismo linguístico conduz a uma objectivação das impressões sensoriais, o simbolismo mítico leva a uma objectivação dos sentimentos” (Cassirer: 1946, p. 62). Pois, se nos ritos mágicos e nas cerimónias religiosas os homens agem de forma inconsciente, movidos por profundos sentimentos individuais e fortes pressões sociais, no mito já temos um novo aspecto. “Mas se estes ritos se transformam em mitos aparece um novo elemento”, (Cassirer: 1946, p. 62). Este novo elemento é a busca de significado daquilo que o homem faz nos ritos.

Os mitos estão repletos de desejos de imortalidade. É natural, portanto, que as organizações, ao se renovar tecnológica e até administrativamente, queiram preservar a sua institucionalidade, ou seja, os valores e princípios filosóficos que lhe concedem um carácter diferente das demais. Assim, com o intuito de conservar um alicerce firme e capaz de resistir às tendências ou aos modismos passageiros, as organizações que se dizem visionárias costumam apropriar-se de uma variedade de mitos com o fim de mudar aquilo que deve ser mudado e conservar o que deve ser preservado.

Segundo Eugène Enriquez, a organização não pode viver sem segregar um ou alguns mitos unificadores, sem instituir ritos de iniciação, de passagem e de execução, sem formar os seus heróis tutelares (colhidos com frequência entre os fundadores reais ou os fundadores imaginários da organização), sem narrar ou inventar uma saga que viverá na memória colectiva: mitos, ritos, heróis, que têm por função sedimentar a acção dos membros da organização, de lhes servir de sistema de legitimação e de dar assim uma significação preestabelecida às suas práticas e à sua vida (ENRIQUEZ, 1997, p. 34).

Na concepção de Enriquez (1997), o mito é sempre guardião de valores muito importantes para uma sociedade ou para uma organização. Graças a ele, o controle organizacional pode seguir um padrão necessário para fazer frente a inúmeras contingências. Evidentemente o papel do mito é complementado por vários outros actos simbólicos, como rituais, cerimónias, discursos e símbolos.

O Ritual Humano

A trajectória histórica do homem sempre deu destaque aos principais conteúdos culturais, principalmente a cultura que reúne símbolos, normas, valores, mitos e imagens pertencentes a um universo popular e a um universo erudito. O homem não permanece igual durante a sua vida. Inserido numa cultura específica – definível como um jogo de símbolos, uma acção simbólica que constitui a origem do pensamento – ele passa a incorporar esta concepção simbólica que, ritualizada, passa a ser expressa ao nível da linguagem que, por meio da palavra, passa a ser fixada como um acontecimento. O termo grego mito significa dizer, falar, contar. O mito é uma forma de responder às questões sobre a origem do mundo, dos elementos utilizados em rituais, dos fenómenos ligados à religião e ao misticismo, entre outros. O mito serve para estabelecer leis e códigos de ética e moral para que um povo de uma determinada cultura os siga.

O acervo cultural garante ao homem contemporâneo acesso ao conhecimento das gerações passadas que, ao ser registado, inicialmente de modo oral, recebe acréscimos pela influência dos vários povos e raças.

Percebe-se assim que desde o início dos tempos, o mito teve a função de expressar e indagar o ser humano sobre o universo e sobre ele próprio. Ele só fala daquilo que realmente aconteceu, do que se manifestou, sendo as suas personagens principais seres sobrenaturais, conhecidos pelo que fizeram no tempo dos primórdios. Os mitos revelam a sua actividade criadora e apontam para a “sobrenaturalidade” ou a sacralidade das suas obras.

Em suma, os mitos revelam e descrevem as diversas e dramáticas eclosões do sagrado ou do sobrenatural manifestados nos diferentes comportamentos, constituindo-se assim paradigmas dos actos humanos e, principalmente os mais significativos, são norteadores de valores, como o trabalho, a educação, as expressões artísticas, demonstradas nas expressões humanas.

Buscando entender a construção dos mitos manifestados nos rituais, a Antropologia e a Etnografia permitem investigar os cerimoniais humanos, buscando o acesso aos relatos, próprios de um sistema de comunicação. Esta linguagem, em que o ritual se coloca, pode ser caracterizada por um conjunto de símbolos, que ao serem accionados, comunicam socialmente e dão sentido à realidade e ao desejo de conhecer a origem das coisas caracterizada numa cultura específica.

O ser humano necessita manter a ligação entre o tempo e o espaço, por isso os ritos e rituais existem e buscam unir as acções realizadas em épocas diferentes, num mesmo espaço ou em espaços recriados, garantindo assim a manutenção de mitos materializados nos rituais. Uma vez fixada a simbologia de um ritual, a sua eficácia dependerá da repetição minuciosa do rito. Esta forma de expressão existe em todas as sociedades, independente do seu grau ou escala de valores. Esta realidade pode ser confirmada com a afirmação de Rivière (1996, p.15), que diz:

“[…] não há sociedades, qualquer que seja a sua escala, que não sintam a necessidade de, periodicamente, reafirmar em comum os seus valores comuns”.

A análise ritual está sempre relacionada à acção social e à comunicação. Estas buscam estabelecer a forma estrutural de realização de um rito. Neste processo é possível observar a maneira como os indivíduos classificam o mundo e constroem a realidade em que vivem. Nesta realidade, inserem-se as instituições, que nada mais são do que os meios em que o homem propaga a sua existência e projecta a sua forma de existir. E nesse poder de uniformização e de padronização, as instituições servem para estabelecer uma ligação entre o passado e o presente.

Entende-se que, no bojo das mudanças que as diferentes sociedades passaram no último século, os rituais – também definidos como rituais de mudanças – não ficaram à margem das transições. Os rituais utilizados nas cerimónias incorporaram novos formatos e novos movimentos, como foram definidos por Peirano (2003, p. 12): “ritual não é algo fossilizado, imutável, definitivo”.

Diferente é a análise de Rivière, que vê o ritual como um facto social, no qual a realização de um acto ritualístico busca ser o facto para as pessoas estarem juntas. Para o autor (1996, p.16), “o rito busca renovar ou refazer a identidade, a personalidade do grupo e da sociedade”. Nos grupos sociais, sempre existem os participantes e os excluídos, porém os símbolos ritualísticos como o canto, a música, o vestuário, são vistos como uma linguagem específica que serve para afirmar a identidade colectiva que identifica uma cultura própria e reafirma a estrutura social, mesmo com as desigualdades existentes. Os rituais são as sínteses dos valores em evidência numa determinada cultura, e que vão sendo transferidos de geração a geração.

As razões da conservação dos ritos e rituais podem ser confirmadas nas ideias de Leach (1978, P.25), que afirma que “o primitivo e o moderno são iguais. Não apenas pensamos de forma similar. Embora haja diferenças entre sociedades, existe um repertório básico de acções que partilhamos. Somos semelhantes e diferentes ao mesmo tempo”.

Neste lançar de olhares que o pesquisador faz, sobre a aplicação da estrutura ritual na análise dos fenómenos sociais, o desafio reside não somente na observação e interpretação dos rituais e as suas manifestações, mas vai além. Encontra-se no cerne do que expressam as representações colectivas que chegaram até nós por meio de várias gerações. É a palavra, o sentido, o gesto, a narrativa – elementos inseridos no mito.

O mito é a maneira pela qual se estabelecem diferentes ritos de iniciação na vida de um ser humano. Para tanto, é necessário compreendê-lo, pois se ele é verdadeiramente a fonte de tudo o que é autenticamente humano, nada melhor que analisar o comportamento dos primitivos, no qual o mito se encontra no seu estado puro. Expressos em rituais, os mitos definem um comportamento colectivo que passa por uma linguagem simbólica, com valor e sentido ao homem. Assim, os diferentes estágios históricos que o ser humano atravessou são pontuados por ritos e rituais, conforme afirma Campbell (1993, p. 61): “Os mitos oferecem modelos de vida. Mas os modelos têm que ser adaptados ao tempo em que se está vivendo”.

Faz-se necessário esclarecer, nesta tentativa de conceituar o mito, que não se tem aqui a ideia de classificá-lo como fábula, lenda, invenção, ficção, mas a acepção de atribuir, conforme faziam as sociedades arcaicas – impropriamente denominadas sociedades primitivas – nas quais o mito era o relato de um acontecimento ocorrido no tempo primordial, e nada mais que um acontecimento com a intervenção de entes sobrenaturais. Mito é, pois, a narrativa de uma criação; a história de algo, que de alguma forma nos foi contado, que não era, mas começou a ser. Ainda que os mitos ofereçam modelos, mesmo que necessitem de remodelações, há que se levar em consideração que o que era aceitável há cinquenta anos, não o é mais hoje.

O mito sempre demonstra aos mais jovens o sentido da vida. Esta revelação dá-se por meio de uma narrativa e de repetição de rituais, tentando explicar algo construído que justifique a existência da sociedade, a sua história, a sua memória cultural.

O antropólogo Da Matta (1987, p.6) explica que alguns aspectos triviais da vida social são transformados em símbolos que evidenciam uma dada realidade sociocultural. Para ele, é necessário entender os ritos e rituais como um momento da vida das sociedades profundamente ligadas às formas culturais e as suas manifestações, por meio da língua e dos símbolos. Assim, pode-se dizer que os rituais estão presentes no quotidiano da vida em sociedade. O interesse centra-se na questão de como os valores são transmitidos para as gerações seguintes. Para tanto, é importante verificar como os valores são expressos nos símbolos, nas histórias, nos mitos e nos rituais.

Os símbolos são as maiores manifestações da cultura, pois são referências por si só. Os símbolos são objectos, actos, eventos, qualidades ou relações, religião e formações linguísticas que apresentam diversos significados e que evocam emoções e impelem pessoas a agir. A construção e a preservação simbólica servem como meio para a formação da identidade cultural.

É no mito que reside a expressão da cultura, que representa a ligação entre presente e passado. A criação dos mitos é uma forma encontrada para estabelecer o comportamento adoptado por determinados grupos e exercem um papel importante na formação da cultura, pois são rapidamente criados e facilmente percebidos. Fleury e Fischer (1989, p. 32) afirmam, ainda, que “a tentativa de interpretar o mito é crucial para a compreensão do universo simbólico, tanto como elemento integrador, como revelador dos mecanismos de poder”. Nesta lógica, o mito pode ter um papel político. Ao expressar os comportamentos idealizados e aceitáveis socialmente, ele reforça a ideia da cooperação e estabilidade.

Como os mitos e as histórias, os ritos e rituais também expressam valores estabelecidos no passado e ratificados ou reiterados no presente. Ao realizar um resgate da noção antropológica dos ritos das sociedades primitivas e compará-los com os ritos das sociedades contemporâneas, percebe-se que estes ocorrem numa sequência ordenada, mudando somente os detalhes, pois o contexto permanece.

Todas as sociedades humanas praticam algum tipo de celebração. Comemoram, por meio de cerimónias e rituais, eventos importantes na vida das pessoas ou de grupos. As celebrações marcam êxitos, conquistas, alegrias e até mesmo tristezas.

As cerimónias e rituais comunicam de modo diferenciado das demais actividades societárias, por serem realizadas de maneira formal, seguindo um modelo preestabelecido por valores culturais e pela tradição. Distinguem-se também pela sua natureza simbólica e por se realizarem em ocasiões especiais e em períodos determinados. A comemoração da passagem de um status de vida para outro assume um modelo de vida social e é assim comunicado.

Segalen (2002, p. 31). destaca a capacidade que os ritos e rituais têm em assumir formatos adequados a cada circunstância social. Para ela:

O rito ou ritual é um conjunto de actos formalizados, expressivos, portadores de uma dimensão simbólica. O rito é caracterizado por uma configuração espaço-temporal específica, pelo recurso a uma série de objectos, por sistemas de linguagens e comportamentos específicos e por signos emblemáticos cujo sentido codificado constitui um dos bens comuns do grupo.

A conotação dada por Segalen permite afirmar que o ritual é uma linguagem, uma forma de dizer coisas e de representar situações, na medida em que expressa valores sociais, religiosos, políticos e económicos como valores importantes para a sociedade que o pratica. Esta linguagem pode variar em decorrência da importância dada por diferentes sociedades e a cada um dos momentos de transição. Para Wilson (APUD TURNER 1974, p. 18-19), os rituais “revelam os valores no seu nível mais profundo […] os homens expressam no ritual aquilo que os toca mais intensamente e, sendo a forma de expressão convencional e obrigatória, os valores do grupo é que são revelados.

Os movimentos, o canto e a música, os gestos, empregados nas situações rituais são sempre de natureza simbólica. Para entender a mensagem transmitida pelos rituais, é essencial conhecer os significados dos símbolos e dos signos. Para CHANLAT (1996, p. 43), o universo humano “é um mundo de signos, de imagens, de metáforas, de emblemas, de símbolos, de mitos e de alegorias. Todo ser humano e toda sociedade humana produziram uma representação do mundo que lhe confere significado”.

Comportamentos Rituais e Mudanças Sociais

Os comportamentos rituais, mais especificamente aqueles utilizados nas organizações sociais, são constituídos de actividades eminentemente culturais, por meio das  quais se crê ser possível resolver problemas que de outra forma resultariam em situações de difícil convivência.

Segalen (2002, p. 117), ao descrever a dinâmica dos rituais, enfatiza o significado dos ritos que acaba por cristalizar novas sequências rituais. Para ela:

Os ritos insistiram especialmente na recorrência das formas, estruturas ou sentidos. Eles insistiram especialmente nas recorrências das formas, necessárias para fortalecer uma moldura à experiência e para atribuir, à força de repetição, o esboço de uma linguagem de que todos compartilhem os símbolos.

Nos grupos sociais, os ritos e rituais não só assumem função privilegiada quando se instauram e se mantêm coesos, como também são fundamentais para que as estruturas de poder sejam capazes de manter em funcionamento os diversos níveis de dependência nos quais se instalam os vínculos entre as pessoas.

Eliade (1972, p.22) afirma que rito e mito são elementos complementares e interdependentes, formando uma unidade complexa, responsável pelas características individualizantes de cada cultura.

Em qualquer organização, os momentos ritualizados contribuem para a formação da identidade e da imagem do grupo. Esta imagem fortalece-se e torna-se mais intensa quanto mais impregnada de signos simbólicos forem os momentos cerimoniosos. Os ritos e rituais marcam diversos estilos de relacionamentos. Além disso, aparecem com muita força no momento em que acontecem mudanças, em que há passagem de um estado para o outro. São elementos que reforçam a preservação dos valores organizacionais. Segundo Freitas (1991), o rito configura-se num conjunto de actividades elaboradas e executadas através de interacções sociais e mensagens de conteúdo simbólico.

Os ritos são constituídos de um conjunto relativamente elaborado, dramático e planeado de actividades, que consolidam várias formas de expressão cultural num evento, o qual é realizado por meio de interacções sociais (TRICE & BEYER, 1985). Por meio dos ritos, as regras sociais são definidas, estilizadas, convencionadas e principalmente valorizadas. Trice e Beyer (1985) identificam seis tipos básicos de ritos: passagem, degradação, confirmação ou reforço, reprodução ou renovação, redução de conflitos e integração.

Gennep (1978) diz que os ritos de desagregação sinalizam a saída do indivíduo de um grupo, de um estado para outro. Ele reaparece em solenidades de despedida, ou de rememoração de um estado, como o de solteiro, e celebra sensações passadas. Normalmente, são acompanhados de discursos, expressos numa linguagem gestual e corporal, cheia de  alegria e optimismo. Os rituais de agregação, segundo Gennep (1978), denominados de pós-liminares, têm a finalidade de integrar e garantir a continuidade dos sistemas já em funcionamento.

As manifestações rituais que guiam os comportamentos necessitam incorporar marcas físicas que reforcem a transição e fortaleçam as marcas da passagem, não deixando dúvidas quanto à consagração de uma mudança, qualquer que seja. Os diferentes fenómenos culturais enfocam os processos de mudanças que no decorrer da vida os indivíduos alcançam. Estas passagens, muitas vezes, asseguram uma nova identidade, um novo espaço que se abre para o grupo social.

Este fenómeno, que ocorre no campo social, alarga a extensão do seu alcance como processo de transmissão cultural, essencial para a perpetuação dos grupos e da sociedade. Os ritos, que possibilitam a mudança social, revivem os mitos, fundam os costumes da vida e das sociedades. Neste sentido, os rituais concedem autoridade e legitimidade quando estruturam e organizam as posições de indivíduos e grupos, os valores morais e as visões de mundo.

Rivière analisa uma variedade de ritos e rituais, mais ou menos expressivos, que compõem um evento que sugere mudanças, com a intenção de mostrar a dinâmica que estes ritos fornecem aos grupos sociais. Em todos os exemplos, eles seguem mudanças de posição social e de comportamentos, atribuindo a cada um deles novas identidades e novos papéis a serem desempenhados junto ao grupo e a sociedade. O autor destaca que os ritos e rituais “fornecem uma representação do drama social segundo determinadas regras e uma sucessão ordenada de sequências” (1996, p. 55).

Os rituais, ritos, mitos, heróis, tabus, histórias, o uso de linguagem específica e outros mecanismos procuram orientar os indivíduos e grupos e levá-los a agir numa dada direcção; fornecem, com a ideologia, o sentido a ser dado aos acontecimentos; atribuem a cada pessoa um papel a desempenhar e a sustentam nesse papel; criam a comunidade ideológica através de uma comunhão de ideias. Da mesma forma, as cerimónias e os símbolos ajudam a reforçar os laços de afiliação, solidariedade, lealdade e comprometimento.

O termo cerimónia é frequentemente usado como sinónimo de ritual, porém o emprego os diferencia um do outro. Beals e Hoijer (1953, p. 496-497) definem ritual como um modo prescritivo para realizar determinados eventos, e cerimónia como um evento que envolve um conjunto de rituais entrelaçados e seleccionados, desempenhados num determinado momento e num determinado espaço físico. Por estas definições, entende-se a cerimónia como um evento mais elaborado, mais amplo, que envolve um conjunto de rituais, ritos e símbolos.

As cerimónias podem ser definidas como a manifestação de sentimentos ou atitudes em comum através de acções formalmente ordenadas. São de natureza essencialmente simbólica, sendo que, no contexto cerimonial, gestos, posturas corporais e objectos específicos estão presentes. Por exemplo, as pessoas curvam-se, apertam as mãos, sentam em lugares previamente estabelecidos na mesa, levantam e sentam a todo o momento, cantam hinos, aplaudem, discursam por ordem de importância dos seus cargos e assumem outras posturas e gestos condizentes com o local, a hora e o tipo de cerimónia.

A cerimónia geralmente envolve o uso de objectos tais como bandeiras, cartazes, flâmulas, flores, cadeiras com espaldares mais ou menos altos de acordo com o nível hierárquico da pessoa que terá assento à mesa. Todos estes objectos possuem significações simbólicas e, portanto, é necessário saber o significado de tais actos nas cerimónias para captar os seus sentidos.

De uma maneira geral, as cerimónias desempenham certas funções para o grupo social, tais como: ajudam a expressar, perpetuar e transmitir os elementos do sistema de valores e crenças; a preservar de dúvidas e oposições valores, crenças, normas, regras; e a intensificar a solidariedade dos participantes. Certas cerimónias podem desempenhar funções específicas. Assim, as que envolvem os ritos de passagem ajudam o indivíduo a efectuar uma mudança de status; as de deferências reconhecem a superioridade e a subordinação, ajudando a manter uma determinada estrutura hierárquica. As que envolvem os ritos de intensificação ou de reforço ocorrem em épocas de crise e actuam para aumentar a solidariedade do grupo e para diminuir a tensão existente, servindo, portanto, para neutralizar a crise e os conflitos por ela gerados.

Da mesma forma, Deal e Kennedy (1982) afirmam que os ritos, os rituais, as cerimónias e os símbolos assumem importantes funções, tais como: comunicar de que maneira as pessoas devem se comportar e quais os padrões de decoro aceitáveis; chamar a atenção para o modo como os procedimentos são executados; estabelecer a maneira como as pessoas se podem divertir; liberar tensões e encorajar inovações, aproximando as pessoas, reduzindo conflitos, criando novas visões e valores; guiar o comportamento dos membros da organização através da dramatização dos valores básicos; exibir e fornecer experiências agradáveis para sempre serem lembradas.

Considerações Finais

No plano de trabalho parte-se da perspectiva de análise fundamentada na observação e compreensão dos fenómenos. Com a análise busca-se identificar quais são as contribuições para a área de Comunicação e para as Relações Públicas, mostrando a perspectiva das implicações políticas dos ritos, rituais e cerimónias nas organizações contemporâneas. Portanto, identificar estes elementos e desenvolver estudos nestas áreas pode criar a oportunidade a criação de novos conceitos e também de novas áreas para desenvolvimento de estratégias para as organizações.

Salienta-se que, em razão das diferentes experiências compartilhadas por esta pesquisadora, têm-se plenas condições de propor novas perspectivas para o estudo dos ritos, rituais e cerimónias nas organizações contemporâneas e evidenciar as suas aplicações estratégicas, avançando assim novas pesquisas relativas a este campo do conhecimento. Desta forma, pretende-se apontar uma leitura mais sólida e, consequentemente mais crítica de forma a permitir outras observações na vida profissional de comunicadores sociais.

A troca de experiências nas empresas (pública e privada) que serão objectos do presente estudo, assim como a oportunidade de conviver com diferentes áreas e profissionais, poderá criar a oportunidade para capacidade de análise, direccionamento de novas propostas e difusão de conhecimento para a área. Assim, este estudo poderá oferecer contribuições para o desenvolvimento de novas pesquisas para profissionais de Relações Públicas por incorporar novos aspectos práticos e teóricos pelas descobertas a que se propõem. É para onde os resultados preliminares já apontam.

Mariângela Benine Ramos Silva

Bibliografia

  • BEALS, R. L.;HOIJER, H. An introduction to anthropology. New York, Macmillan, 1953, p. 496-497.
  • CAMPBELL, Joseph. O poder do mito. São Paulo: Palas Athena, 1993.
  • CASSIRER, Ernest. O Mito do Estado. Trad. Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: Zahar, 1976 (1946) [?]
  • CHANLAT, Jean-François (org.) O Indivíduo na Organização. Vol. I e II. São Paulo: Atlas, 1996.
  • DA MATTA, Roberto. Relativizando: uma introdução à antropologia social. Rio de Janeiro: Rocco, 1987.
  • DEAL, Terrence; KENNEDY, Alan. Corporate culture: the rites and rituals of corporate life. Massachusets: Addison-Wesley, 1982.
  • ELIADE, M. Mito e Realidade. Tradução: Póla São Paulo: Perspectiva, 1972.
  • ENRIQUEZ, Eugène. A organização em análise. Petrópolis: Vozes, 1997.
  • FLEURY, M. T. L.; FISCHER, R. M. Poder e cultura nas organizações. São Paulo: Atlas, 1989.
  • FREITAS, Maria Ester de. Cultura organizacional: formação, tipologia e impactos. São Paulo: Makron Books, 1991.
  • FREITAS, Sidinéia Gomes; GUERRA, Maria José. A Linguagem Comum dos Linguistas e dos Pesquisadores em Relações Públicas – resultados parciais de um trabalho interdisciplinar. Trabalho apresentado no XXVII CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO. Porto Alegre, 2004.
  • GENNEP, Arnold Van. Os Ritos de Passagem. Trad. Mariano Ferreira. Petrópolis: Vozes, 1978. (1909).
  • LEACH, Edmundo. Cultura e comunicação: a lógica pela qual os símbolos estão ligados; uma introdução ao uso da análise estruturalista em antropologia social. Tradução: Carlos Roberto Oliveira. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
  • LEVI-STRAUSS, Claude. Antropologia Estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1970.
  • PEIRANO, Marisa. Rituais ontem e hoje. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 2003.
  • RIVIÈRE, Claude. Os ritos profanos. Tradução: Guilherme João Freitas Teixeira. Petrópolis: Vozes, 1996.
  • SEGALEN, Martine. Ritos e rituais contemporâneos. Rio Janeiro: FGV, 2002.
  • TRICE, Harrison M.; BEYER, Janice M.. “Using six organizational rites to change culture” In: KILLMAN et al. Gaining control of the corporate culture. San Francisco: Jossey-Bass, 1985.
  • TURNER, Victor. O processo ritual: estrutura e anti-estrutura. Tradução de Nancy Campi de Castro. Petrópolis: Vozes, 1974.

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *