A Maçonaria ao encontro da Cidadania

Quem vem lá?

1ª VigQuem vem lá?

2ª VigQuem vem lá?

– Uma mulher livre e de bons costumes.

1ª VigUma mulher livre e de bons costumes.

2ª VigUma mulher livre e de bons costumes.

Uma mulher livre quando portadora de visão límpida e desimpedida de preconceitos, de medos e ideias feitas, comandante no campo de batalha das emoções, caminhante no desconhecido e na experimentação. Uma mulher generosa na acção sempre que se distancia das pressões egoícas e dos interesses individualistas. Uma mulher sábia, trabalhada na pedra de cada encontro em loja, preparada e amadurecida para “continuar lá fora o trabalho começado cá dentro”.

Encontramos, assim, na resposta “uma mulher livre e de bons costumes”, em paralelo com a asserção: “continuar lá fora o trabalho começado cá dentro”, as condições necessárias da movimentação da maçonaria em direcção à cidadania. Os princípios e os valores, desenvolvidos, em loja, e sintetizados no aforismo trinosófico: liberdade, igualdade e fraternidade, quando são realmente assimilados, reflectem-se em cada gesto, em cada palavra, em cada acto na sociedade.

O referencial de valores universais motivou e orientou, ao longo da história, homens e mulheres concretos nas suas visões e acções de inovação cultural, de revolução social e de evolução espiritual. A maçonaria nasceu como um laboratório de cidadania. As Lojas foram espaços de debate entre iguais, quando ainda não eram considerados como tal na sociedade. Foram um laboratório dessa igualdade, da liberdade e, por isso, motor da democracia. O uso da espada pelos membros da loja foi um símbolo da igualdade de direitos e deveres. A qualidade da espada revela-se também na possibilidade de cortar através de obstáculos tão seguramente quanto a razão e a lógica podem cortar problemas.

Assim se explica que, tendo-se a maçonaria desenvolvido na Europa e, quase imediatamente a seguir, nas antigas colónias sejam maçons os mais importantes líderes da implantação da República em França, nos EUA, no Brasil, em Portugal, entre outros. A maçonaria tem tido uma participação relevante no cumprimento do programa de cidadania de cada sociedade.

Compreende-se também que, em momentos de obscurecimento colectivo, essa sua participação seja mais escrutinada: sabem os profanos que os maçons não enjeitam as responsabilidades da cidadania, sabem que essas responsabilidades os obrigam a tomar posição, sabem que as escolhas que são chamados a fazer têm implicações na sociedade. Não poucas vezes o receio desta verticalidade desembocou em campanhas de diabolização ou de delação, e não poucas vezes ainda, para evitar uma exposição mediática, se reforçaram as cautelas e se resguardaram mais os irmãos e as irmãs. É possível que voltem esses tempos, sobretudo, se as sombras do Futuro se adensarem e a humanidade mais consciente não tomar as rédeas dos destinos colectivos.

O significado filosófico do termo “cidadania” difere do seu uso quotidiano. Neste, a cidadania refere-se ao estatuto legal de uma pessoa enquanto membro de um determinado país. E enquanto membro de um país, ser cidadão implica possuir certos direitos e responsabilidades, que, no entanto, variam muito de país para país. Sob o ponto de vista filosófico, a cidadania refere-se a um ideal de pertença e de participação numa comunidade política. Ser cidadão, neste sentido, significa ser reconhecido como membro pleno e livre, com o direito e o dever de participar na vida da Polis (cidade).

Um tal ideal tem sido fundamentalmente um ideal democrático. Na história do pensamento ocidental há uma ligação tão estreita entre cidadania e democracia que chega a ser difícil, enquanto tema filosófico, a sua distinção.

No entanto, as teorias da democracia centram-se mais nos processos e instituições, tais como: constituições, partidos políticos, legislaturas, eleições, e as teorias da cidadania nas virtudes individuais dos cidadãos. Mas as garantias legais das liberdades civis de crença livre, liberdade de expressão, liberdade de associação são de pouco proveito se a liberdade de comunicação na vida diária, isto é, se a partilha de ideias, factos ou experiências for sufocada pela suspeição mútua, pelo abuso, pelo medo e pelo ódio. É aqui que a nossa organização, enquanto ordem iniciática, pode marcar a diferença numa pedagogia experiencial da areté (da virtude). Areté é um termo grego cuja significação primitiva se relaciona com a excelência; algo ou alguém é virtuoso na medida em que desenvolveu, ao máximo, as suas potencialidades. Enquanto organização iniciática e de pensamento, a Maçonaria tem, em primeiro lugar, o dever de facilitar o ambiente para a expansão da visão e plenitude do ser.

E se esta estrutura for construída então a qualidade de intervenção ou de acção dos maçons e das maçonas na sociedade será substancialmente diferenciada. Sabemos que é difícil e trabalhoso adquirir os hábitos que podem trazer excelência à comunicação de uns com os outros e inteligência social à acção, mas é igualmente possível, exigindo principalmente uma coisa: trabalho. Apesar de serem evidentes os méritos de uma mente aberta, de uma forma geral, o ser humano é demasiado preguiçoso, invejoso, defensivo ou tímido para se envolver, numa investigação séria que poderia trazer ao quotidiano uma série de virtudes, como por exemplo: simpatia, bondade, sinceridade, tolerância, criatividade, imparcialidade, independência, iniciativa, integridade e coragem. Tais virtudes em acção tornam a vida melhor. E esse é certamente o horizonte do trabalho maçónico.

Minhas II∴ e meus II∴, vivemos hoje tempos delicados. Estamos cercados de incertezas internas e externas, destituídos de esperança colectiva, esmagados pelas exigências de um Estado que reclama cada vez mais impostos e nega cada vez mais apoios e serviços. O medo infecta a mente de jovens e de velhos, abrindo as portas para novas formas de escravatura no trabalho e nas relações com o poder. A cidadania desequilibra-se, mirrando pelo lado dos direitos e expandindo-se pelo lado dos deveres. Não é altura de recusar os deveres, mas é altura de defender os direitos, sob pena de a cidadania se estiolar. E com as perdas da cidadania o empobrecimento, mais do que económico, é o empobrecimento da realização e sentido humanos.

Nesta época ‟de crise‟ e ‟de mudança‟, a Maçonaria deve ter um papel mais activo? E como? Estamos a cumprir a nossa obrigação de construtores?

Temos tentado encontrar saídas para os graves problemas da nossa sociedade? Sendo a Maçonaria uma instituição que visa tornar o ser humano melhor e cultivar o amor fraternal entre as pessoas, não caberá a ela também uma parcela de responsabilidade sobre o caos social que estamos a viver? Não deve a Maçonaria esforçar-se, principalmente no quadro social que actualmente vivemos, em que a desumanização e a massificação imperam – traduzidas nos hábitos e no modo como vivemos e como nos relacionamos – não deve esforçar-se, repetimos, por criar mais humanismo, mais tolerância, mais solidariedade e Amor ao próximo?

Fazendo parte de uma ordem iniciática de autoconhecimento e de pensamento, reiteramos o facto de o trabalho ter de começar efectivamente cá dentro sob pena de nada poder ser continuado lá fora. Devemos cuidar para que as forças destinadas a se desenvolverem no exterior adquiram o máximo de energia expansiva no interior. E cuidamos com a devida atenção e respeito? É cá dentro que está a primeira oportunidade de iluminar o interesse individualista, a cegueira patológica, a perversidade oculta que, consciente ou inconscientemente, podem minar o coração de qualquer ser humano.

Minhas II∴ e meus II∴,

Que a liberdade nos inspire
Que a igualdade nos fortaleça
Que a fraternidade nos una
Aqui e sempre

Dissemos

Congresso da G∴ L∴ F∴ P∴ de Setembro de 6013

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