A Maçonaria é herdeira dos Templários?

Vejo e ouço muita polémica na maçonaria sobre a questão dos Templários.

Há os que contestam de pés-juntos, que a Maçonaria não tem nada a ver com os Cavaleiros Templários (reparem que eu escrevo maçonaria com “m” minúsculo – que são as instituições; e Maçonaria com “M” maiúsculo – que é conhecimento & consciência).

Há, por outro lado, os que defendem, com unhas e dentes, que a Maçonaria é a herdeira legítima da Ordem dos Cavaleiros Templários [1].

Nem uns, nem outros, meus caros Watsons! Tanto os “de pés-juntos” como os de “unhas e dentes” estão míopes. A realidade passou bem debaixo dos seus poderosos narizes e não conseguiram sentir o cheiro, nem viram – não leram nem ouviram o que foi ministrado nas sessões maçónicas – por mera distracção ou por dormirem com a boca aberta [2].

Muitos destes actuais sábios vão aos rituais e Iniciações para uma boa prosa. Aproveitam o ensejo para entabularem as suas sessões particulares de piadinhas e risos abafados [3].

Por causa de tanto sono e da exagerada gaiatice que citei [próprios dos maçons brasileiros], há os que contestam que a Maçonaria nada tem a ver com os Templários, e os que defendem ser a nossa Ordem a legítima herdeira daqueles bravos cavaleiros, notórios saqueadores.

Não preciso fazer uma releitura dos Rituais ou das Instruções para os Irmãos, nem ministrar aqui uma “aula de História”. Está tudo nos rituais, e muito bem exposto.

É evidente que não somos os “continuadores” ou sequenciais da “Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão”; nem podemos imaginar que aqueles Cavaleiros – que viveram há mais de 800 anos, entre 1119 e a sua extinção em 1312 -, fossem pacatos e barrigudos cidadãos, usando óculos, bigode aparadinho e terno preto, que saíam dos seus lares à noite, uma vez por semana, para participarem de sonolentas reuniões com o intuito de trocar elogios e se bajularem mutuamente (como acontece hoje).

Se pelo contrário, imaginássemos a História, ninguém em juízo normal haveria de supor, mutatis mutandi, que somos guardiões do misterioso tesouro dos Templários; ou que, nas nossas Lojas, ocultamos cofres e baús milenares com ouro do Templo de Salomão e (Publicado em freemason.pt) jóias roubadas entre Corinto, Creta e a Ilha de Chipre. Nem as nossas mulheres terão motivo para permanecerem em casa, torcendo as mãos, a imaginar que estamos tramando novo cerco à cidade de Ascalão e uma praça de guerra no Acre (cidade de Israel na região da Galileia) ou as batalhas de Montgisard, Hattin e Arsuf.

Entretanto estamos “carecas de saber” que a culminação dos Ritos Escocês e York acontecem nos Graus que levam os seguintes nomes: Cavaleiro do Oriente, Cavaleiro do Oriente e do Ocidente, Grande Cavaleiro Escocês, Patriarca dos Cruzados, Grau de Cavaleiro Templário, Ilustre Ordem da Cruz Vermelha, Ordem de Malta, Ordem Templária do Rito York, Príncipe de Jerusalém, etc… [4]

Dirão os risonhos doutores da maçonaria que “isso são perfumarias”…, como se em terreno desta seriedade e magnitude, homens de bons costumes se dessem a emanações aromáticas de flores mimosas e chiliques por agradáveis ou inebriantes doçuras.

Esquecem-se também, estes afoitos camaradas, que dedicamos aos nossos jovens do sexo masculino uma sociedade para-maçónica educativa denominada “Ordem DeMolay”, criada por Frank Sherman Land a partir princípios filosóficos, fraternais, iniciáticos e filantrópicos, com o título distintivo e nome do último Grão-Mestre da “Ordre Du Temple”, Jacques de Molay – borgonhês de nascimento e cujo nome completo era Iacobus Burgundus Molayensis (ou de Molay – cidade do seu nascimento em 1246, na França).

Caramba! – dirão os precipitados e ansiosos companheiros de armas: isto é muito complicado, hem???

É sim, meus caros Watsons; é muito complicado. É ainda mais complicado o significado histórico e templário que têm os punhos usados nos paramentos dos Veneráveis Mestres e Vigilantes das Lojas; assim como aquelas indecifráveis espadas de punhos em cruz lobulada, aquelas cruzes vermelhas, cruzes triplas (de Lorena) ou aqueles mantos que ninguém sequer desconfia de onde vieram.

Considerações

Não podemos perder de vista que a Maçonaria e as suas instituições são fundamental e essencialmente UMA ORDEM TRADICIONAL.

A Maçonaria é uma escola iniciática e não um clube; portanto, espera-se dos seus membros que eles sejam ESTUDANTES do conhecimento profano (Filosofia, História, Direito, Antropologia, Ciência da religião, Arqueologia, teoria da Arte, etc.) e BUSCADORES da Sabedoria INTERIOR.

As instituições maçónicas não poderão sobreviver como forças civilizatórias da humanidade sem que pratiquem o ideal TRADICIONAL e ensinem através do exemplo.

Enquanto estes aspectos não forem realizados, continuaremos existindo como um “clubinho de passatempo”, batendo palmas para o passado (Publicado em freemason.pt) como “bois diante de castelos” (ou bodes diante de Templos) sem identificarmos em que somos HERDEIROS DO IDEAL TEMPLÁRIO.

Na dúvida, recomento: JUÍZO !

José Maurício Guimarães

Notas

[1] Também conhecidos como Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão [“Ordo Pauperum Commilitonum Christi Templique Salominici” ou “Ordre du Temple”], foi uma ordem militar de Cavalaria fundada no ocaso da Primeira Cruzada com o suposto propósito de proteger os cristãos em peregrinação a Jerusalém.

[2] É notório e até compreensível que, durante as sessões ritualísticas dos Graus Superiores [Rito Escocês ou York], muitos Irmãos cochilem ou durmam. Geralmente esses rituais e Iniciações acontecem em cansativos finais de semana e alguns aproveitam o momento para dormir. E acabam perdendo o melhor da história.

[3] Estive presente numa dessas reuniões de Graus Superiores em que um notável Irmão contou piada para um neo-maçom ao seu lado – ambos riram literalmente o tempo todo como se estivessem numa arquibancada de circo. Não ouviram nada e ainda distraíram a atenção de algumas dezenas de Irmãos que tiveram a infelicidade de estarem ao lado da dupla gaiata.

[4] Limito-me a citar apenas o que conheço (possuo o Grau 33° do REAA e Knights Templar no York (americano e inglês)).

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