A Maçonaria Mista é inevitável? (Parte II)

(continuação) – Link para a parte I

A diversidade de género cria polémica nas potências masculinas?

As discussões sobre o G∴ A∴ D∴ U∴, adesão política e religiosa, segregação racial e, claro, a diversidade de género constituem as principais razões de cismas sobre a regularidade maçónica.

A consideração das irmãs pelas chamados potências liberais é adquirida eelas são até mesmo recebidas nas lojas do G∴ O∴ desde 1974.

Hoje, a exclusão sistemática das irmãs de visitas a lojas masculinas liberais ainda existe com várias escalas de valor, embora o reconhecimento das potências mistas e femininas seja admitido por um lado e pelo outro.

O Grande Oriente de França, antes de iniciar mulheres, tinha 30% das suas lojas que recusavam a visita de Irmãs, seja durante as suas sessões, ou para uma cerimónia como a iniciação. Mais ainda, em 2008, o G∴ O∴ suspendeu 169 dos seus membros por terem iniciado seis mulheres em cinco Lojas daquela potência. O Grande Oriente optou por deixar cada Loja livre para decidir se aceita ou não a visita de irmãs.

A G∴ L∴ D∴ F∴ – Grande Loja de França não recebe irmãs. Eles inventaram por volta de 2010, um “ritual especial” para as receber.

A G∴ L∴ T∴ S∴ O∴ só recebe irmãs da G∴ L∴ D∴ F∴, mas trabalhou e organizou por volta de 2005, sessões comuns com potências mistas ou femininas.

A G∴ L∴ A∴ M∴ F∴ e a G∴ L∴ I∴ F∴ não reconhecem nenhuma obediência mista e feminina. Consequentemente, no caso delas, é inútil fingir que visitação recíproca seria possível para as irmãs. O mesmo vale para a Grande Loja Nacional Francesa – G∴ L∴ N∴ F∴.

O reconhecimento das irmãs não é um objectivo maçónico, mas uma escolha das potências.

O debate relativo à maçonaria liberal não se situa, portanto, sobre o reconhecimento de irmãs (como ocorre com a existência de potências mistas), mas sobre o seu direito à iniciação nas diferentes potências que, embora reconhecendo o seu direito de ser maçons, ainda lhes proíbem esta cerimónia.

Já em 1869, o Irmão Frédéric Desmons, pastor e venerável da Loja de Saint Géniès de Malgoirès, na província de Gard e depois Grão-Mestre do Grande Oriente de França manifesta a esperança de “que no futuro, as mulheres sejam admitidas no seio das oficinas e possam participara nos trabalhos”. O Conselho da Ordem do Grande Oriente de França recusa-se. Lembremo-nos de passagem que é também o irmão Frédéric Desmons que fez votar pelo Grande Oriente de França a supressão da obrigação de acreditar em Deus e na imortalidade da alma para solicitar a iniciação maçónica.

Em 22 de Janeiro de 1961, a CLIPSAS (Centro de Ligação e Informação de Potências Maçónicas signatárias do Apelo de Estrasburgo) foi formada a pedido do Grande Oriente de França e de outras onze potências maçónicas soberanas que, movidas pela intransigência e exclusões que elas consideravam abusivas de determinadas outras potências, lançaram um apelo a toda a Maçonaria mundial, para reuni-las no respeito pela sua soberania, dos seus ritos e dos seus símbolos.

Os princípios fundamentais deste grupo de potências diferem dos princípios básicos ingleses e dos landmarks norte-americanosem dois pontos essenciais: O princípio de uma fé necessária em Deus (ou similar) é substituída pela da “liberdade absoluta de consciência.” Mas acima de tudo, no que diz respeito aos nossos propósitos, este grupo não impede o reconhecimento de potências femininas ou mistas.

Nestes tempos de recuperação mediática para a Maçonaria, com a semana especial sobre França Cultura, com difusões e transmissões nos principais canais de radiodifusão, a cobertura de todos os principais semanários, passeata em apoio, etc., uma pergunta inevitavelmente volta à baila: a proibição de iniciar mulheres no Grande Oriente de França.

O convento de 2009, que reuniu em Lyon delegados das 1200 lojas do G∴ O∴ d∴ F∴, pronunciou-se da última vez a 56% contra a diversidade de género nas lojas.

Esta votação foi cancelada por questões de forma. Uma comissão de especialistas finalmente admitiu que “homens livres e de bons costumes” designados nos estatutos da obediência na época do Iluminismo, não deviam ser entendidos no sentido masculino do termo.

Em 22 de Janeiro de 2010, num comunicado à imprensa, o Conselho da Ordem do Grande Oriente torna oficial a mudança de estado civil de Olivia Chaumont. Esta, regularmente iniciada em 1992 como homem na Loja “Universidade Maçónica” torna-se após a sua trans-identidade, a primeira mulher oficialmente membro do Grande Oriente de França desde a sua criação. Instalada Venerável da sua loja, ela foi eleita delegada da sua Loja, fazendo entrar, então, a diversidade de géneros no Convento realizado em 2 de Setembro de 2010 em Vichy [3]. Durante esta convenção, por uma estreita maioria de 51,5%, os membros do Grande Oriente de França (G∴ O∴ d∴ F∴) tomam a decisão de iniciar mulheres. O passo foi dado na quinta-feira, 3 de Setembro, pelos 1150 delegados das lojas do Grande Oriente.

Embora o regulamento não especifique e em aplicação do princípio da liberdade das lojas que preside igualmente para as visitas de irmãs, o Grande Oriente, agora deixou as lojas livres para iniciar mulheres ou as filiar segundo as modalidades que se apliquem a todos os membros masculinos do Grande Oriente.

Não se pode dizer que o G∴ O∴ se tornou misto; o que prevaleceu é a liberdade das lojas como única solução maçónica: que nenhuma [loja] tem a pretensão de impor às outras a sua própria escolha iniciática, uma vez que todas [as lojas] respeitam os princípios e os estatutos da associação que as federa. Imaginemos que por um acaso digital, uma oficina seja predominantemente feminina e, posteriormente, se recuse a iniciar homens, teremos em breve, lojas estritamente femininas no G∴ O∴?

O artigo aprovado esta semana prevê que “não se pode mais recusar quem quer que seja na obediência, por qualquer tipo de discriminação que seja, incluindo o género“. Até hoje, “irmãs” podiam ser acolhidas como visitantes, mas não podiam ser iniciadas no âmbito da principal obediência maçónica de França, que reivindica cerca de 50.000 membros.

Podia ela filosófica e legalmente negar aos membros de lojas de uma associação indiferente ao género, o direito de iniciar as mulheres? Obviamente que não. Nós não podemos mais, em tal associação, negar o direito a certas Lojas de receber apenas homens, desde que eles não imponham esta “regra” em particular, a toda a obediência.

Esta decisão do Convento provocou algumas centenas de transferências e demissões de irmãos descontentes do G∴ O∴. Não podemos nem mesmo entendê-los numa reflexão sobre o destino das grandes minorias nas votações que modificam os seus horizontes e que não são unânimes. A decisão democrática não é suficiente para garantir a sua legitimidade quando o consenso é tão pouco claro, mas a sábia decisão do G∴ O∴ permite espaços de iniciação em oficinas que escolhem o seu modo de funcionamento. Como se diz “vítima” no masculino?

Além disto, de acordo com o relatório de actividades do executivo do G∴ O∴ d∴ F∴ publicado em 31 de Março de 2013, a partir de 2008, a data de início das iniciações, a associação recrutou 1403 mulheres, sendo 45,54% por meio de transferência de obediência a obediência e 54,46% por recrutamento directo.

Com mais de 50.000 membros, a G∴ O∴ d∴ F∴ é a principal obediência maçónica em França.

Grand Orient de France

Porque o G∴ O∴ d∴ F∴  se afirma fortemente progressista, com membros vindos principalmente das fileiras da esquerda, e se afirma na vanguarda das lutas por isso é que que o seu lema desde o século XIX é: liberdade, igualdade, fraternidade, entendemos, a partir daí, que uma conquista do feminismo encontra ali um terreno fértil para a semeadura. A abertura do G∴ O∴ às mulheres, com as suas 1300 lojas irrigando todo o país, presente em cada cidade, quase cada cantão de França, oferecendo a mais ampla variedade de ritos (o ∴ O∴  é uma federação de ritos), dá certamente um verdadeiro impulso à chegada de mulheres na maçonaria com, em especial, a abertura para mulheres vindas de outros horizontes, além das categorias mais urbanas e qualificadas que actualmente predominam nas obediências que as iniciam.

Esta perspectiva constitui a reflexão de alguns membros proeminentes do Direito Humano, uma concorrência no recrutamento de novos membros, com o medo de uma rivalidade discriminatória. O poder, tanto financeiro quanto espiritual, de uma obediência é também devido aos seus membros!

Quais são, ainda, as relutâncias à diversidade?

O ”última palavra” avançada em 1884 pelo jornal Le Matin enfatiza … os bons costumes! “Vocês vêem, especialmente nas províncias, vinte homens e tantas mulheres reunidos num salão, onde nenhuma pessoa não-filiada podia ver o que se passava, era o golpe que as boas línguas da localidade conversariam com gosto”.

Se eles se prestam a sorrir este propósito anuncia a satisfação, ainda hoje, que as esposas (companheiras) ou esposos (companheiros) têm de saber que só nos encontramos entre homens e mulheres para trabalhar à noite em loja. Afinal, sexualizar as pessoas é também sexualizar as relações! Portanto, nada de diversidade de género, para maior tranquilidade conjugal.

Não nos esqueçamos que Georges Martin, fundador do Direito Humano, excluía as irmãs da Grande Loja Simbólica Escocesa nº 2, porque ele não podia verificar a moralidade delas.

Esta presença do sexo oposto durante as sessões é percebida pelos próprios membros como perturbadora. A concentração no único trabalho em sessão pode ser desviada pelo charme que inspira a presença do outro sexo. Esta presença por si mesma, os reduziria a uma dimensão do preocupação e desejo, a uma espiral de luxúria incompatível com os trabalhos filosóficos realizados em Loja.

A acreditar em Jean-Francois Remond, a diversidade de género seria uma operação de apagamento, introduzindo um discurso de ordem moral, ao final do qual se deveria abster de abordar qualquer assimetria (e particularmente aquelas relacionadas com a diferença entre os géneros) como inconveniente ou negligenciável. A diversidade de género neste caso seria apenas uma operação de censura politicamente correcta.

O problema não é, aliás, o da emoção. Com o devido respeito aos irmãos, aqui está o que dizem irmãs de uma obediência feminina: obviamente, há os visitantes, mas aqueles por vezes incomodam, porque eles são barulhentos, não respeitam as regras, intervêm completamente equivocados e com muita segurança, por vezes no estilo gascão, bebem excessivamente, e flertam.

Mais profundamente, se as suas estruturas administrativas cumprem as regras da lei das associações de 1901 e que ela apela aos seus membros a participar plenamente na vida da cidade, a Maçonaria, na sua essência se define como uma experiência, tanto íntima quanto atemporal, mais próxima da psicanálise, das fraternidades medievais e antigas iniciações, do que dos nossos partidos e sindicatos contemporâneos.

Uma vez que o percurso Maçónico se situa no registo do esotérico ou do ritualismo para alguns, da psicanálise ou da pesquisa filosófica pessoal para outros, tais recusas não têm de se justificar: todos são livres na forma das suas reflexões íntimas. Porque, sim, a Loja faz, sem dúvida. parte do íntimo de cada um dos seus membros, o trabalho colectivo sobre si mesmo sendo a esse preço …

Se este raciocínio pode parecer chocante, em total contradição com as posições tomadas pelo G∴ O∴ fora do Templo, ela não é menos na pura lógica maçónica, sociedade que se vê simbolicamente detentora de experiências seculares.

Considerando a sua loja como um espaço privado, até mesmo íntimo, vivendo a sua iniciação como pertença a uma comunidade fora do campo social, estes últimos também activistas ou activos em muitas associações, vêm justamente procurar um espaço de reflexão colectiva, mas íntima que não reproduza necessariamente a fisionomia da cidade de onde eles se querem afastar por um momento. Um certo número de maçons do G∴ O∴ ainda se recusam a trabalhar em loja com mulheres, sem que isto seja implacavelmente contra uma evolução da obediência.

Se este argumento não responde necessariamente pela negatividade da diversidade de géneros na Maçonaria, ele agrega, incontestavelmente, nova luz ao debate!

Convém, de facto, separar bem o que pertence à ideologia da maçonaria liberal, muito progressista, e à “jornada maçónica” em si, mais íntima e menos subordinados às regras sociais.

E é forçoso constatar que, neste contexto, muitos destes novos maçons buscam justamente um discurso puramente masculino (ou feminino) para esta busca interior.

Muitas mulheres maçons reivindicam ainda este estar-entre-si que permite nas lojas exclusivamente femininas, “abordar o Universal a partir da singularidade feminina”, para usar as palavras de muitas delas.

E agora, imagine o desconforto de maçons, ingressados na base de uma estrutura de género único, a quem é anunciado que, doravante, eles deverão compartilhar todas as suas sessões no contexto de uma loja mista. As suas escolhas iniciais não têm mais sentido. Por lei, eles não podem considerar que houve quebra de contrato? Escolher uma potência, ou uma oficina masculina (ou feminina) é uma decisão que implica uma cláusula estimado implícita – rebus sic stantibus – (as coisas permanecendo no estado em que se encontram).

Passar à diversidade de género é uma modificação tal que, sem o consentimento dos interessados, a rescisão do compromisso é logicamente aberta. Se a diversidade de géneros se tornasse imperativa em todas as lojas, não haveria lugar para acolher estes ou aqueles que, contra esta eventualidade, desejam definitivamente continuar o seu trabalho iniciático num ambiente protegido contra a diversidade.

A questão da “preferência” ter-se-ia tornado questionável em nome da diversidade de géneros? O significado de um pensamento único seria o árbitro do “colectivo” íntimo dos membros, que ainda têm o direito de decidir e fazer valer a sua liberdade de se encontrar sob as condições que lhes convêm.

Para muitos irmãos e irmãs, introduzir a diversidade de géneros nas suas lojas de género único, não significa continuar a Loja, expandindo-a, mas significa inventar um outro tipo de sociabilidade maçónica a que eles (ou elas) não estão inclinados. Assim se expressa Charles Arambourou no seu excelente artigo “Diversidade de Géneros? – Não: liberdade das Lojas“:

“Eu exijo nos termos da lei a possibilidade para toda Potência, ter o facto da identidade de género como suficientemente determinante para escolher um único género. Eu o reclamo com tanta ou mais força que o que eu chamo de uma característica determinante não estabelece a discriminação porque, uma vez mais, as potências propõem também um tipo de sociabilidade mista“.

Os rituais só são convenientes para um determinado género em particular?

A Maçonaria é mais uma comunidade pneumática que um clube, porque ela também afirma assumir a transmissão de uma tradição dupla: a dos maçons “francos, ou livres” e, portanto, do “mestier”, tradição fundada sobre uma interpretação do mito de Hiram, o construtor do Templo de Salomão, acoplado a outro relacionado com o mito fundador, a cavalaria Templária, que formam um fundo arquetípico e paradigmático, com, neste caso, os seus ritos, os seus mitos e especialmente o seu processo iniciático.

Na verdade, ela é uma das raras sociedades iniciáticas que propõem no Ocidente uma via para vencer a morte. Este método particular é baseado no simbolismo e raciocínio por analogia. Estes são os seus verdadeiros valores universais que a ligam ao que Jacquart chama “a humanidade”.

Eu coloco-me a questão de saber o que a convivência de homens e mulheres pode trazer a mais para os ritos, os mitos, o sistema iniciático. Será que falta introduzir, paralelamente, uma lenda fundadora em que uma mulher seria a heroína? Hiram poderia ser uma mulher! Afinal, a suposição mais curiosa sobre a identidade de Hiram já foi feita pela misandra Céline Renooz no seu livro “A era da verdade (História do pensamento humano, evolução moral da humanidade através das épocas e entre todos os povos) ” publicado em 1925, alegando que, de facto uma mulher, a filha do rei de Tiro se escondia sob o nome de Hiram. Com base no texto hebraico da Bíblia marcado pela feminização dos adjectivos que descrevem o rei Davi, Renooz considera também curiosamente que, na verdade, ele foi uma rainha, chamada Daud, que fundou a cidade de Jerusalém e começou a construir ali um Templo. A rainha Daud não foi a única a fundar a instituição secreta que se devia propagar através da Maçonaria. Ela tinha duas colaboradoras, duas Rainhas-Magas (ou mágicas), com quem formava o tríptico sagrado que os três pontos da Ordem representaram depois. Uma delas é Balkis, rainha da Etiópia (chamada de Rainha de Sabá), a outra é uma rainha de Tiro, que estava escondida atrás do nome de Hiram. Esta rainha de Tiro sendo Elissar ou Dido.

Seria preciso encontrar princesas, cavaleiras, os “pontífices”, inspectoras, soberanas escondidas nos títulos dos altos graus escoceses?

Tradição contra o “entrismo” feminino!

Por Solange Sudarskis 

Adaptado de tradução feita por J. Filardo

Nota: Solange Sudarskis, antiga professora da Universidade de Lyon, Claude Bernard, foi iniciada em 1977 na Loja da Ordem Maçónica Droit Humain, “Evolution et Concorde”. Membro fundador da Loja da Ordem Maçónica Droit Humain “L’arbre de Liberté”, tem publicados vários livros maçónicos.

(continua) – Link para a parte III

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