A Maçonaria Mista é inevitável? (Parte III)

(continuação) – Link para a parte II

O que é a diversidade de géneros numa sociedade iniciática?

Colocadas na entrada do templo maçónico as duas colunas abrem a passagem sobre um simbolismo que não para de fazer correr muita tinta e produzir muitas interpretações. Concebidas como macho e fêmea, estas colunas inscrevem-se naturalmente numa reflexão sobre a diversidade de géneros.

A mensagem destas duas colunas é uma advertência à presença conjunta de irmãos e irmãs em sessão? Os textos não dizem que elas são simétricas nem semelhantes. Uma das colunas é descrita pela sua altura, a outra pelo seu diâmetro. Estabelece-se assim uma correspondência, uma alteridade sem identificação, daquela que é alta daquela que é larga. Isto é afirmar a diferença, manter e deixar livre a dimensão da estranheza e do outro lugar. Isto significa que a outro não é sempre a mesma. O outro não é de modo algum, oposto ao seu outro. A alteridade, a presença do outro, em si mesmo uma diversidade de géneros, e não é indispensável ter, para isso, considerações que se situam abaixo da cintura. As colunas são separadas, uma ao lado da outra. Porque separadas elas traçam um limite entre duas polaridades. Cruzá-las para entrar no Santuário, é deixar-se irradiar pela magia da passagem ao meio que realiza a síntese do princípio macho e do princípio fêmea abertos ao mundo superior da unidade.

A diversidade de géneros no ser impõe-se como interpretação da obra de Hiram.

Pela percepção simbólica de uma origem única que se diferencia apenas na percepção humana, o Maçon pode apegar-se a ver mais longe do que com o único olhar maniqueísta do profano, deixando de se submeter a toda afirmação moralista ou dogmática.

O que é chamado “mental” é o mundo em movimento, intermediário entre o corpo terreno e o espírito de natureza universal: ele é feito de troca das nossas emoções, da nossa imaginação, dos nossos pensamentos que temos com o universo e connosco mesmos, ele é chamado segundo as metamorfoses e as transformações. Eu sinto que Platão diz a mesma coisa no seu Theaetetus nesta passagem onde ele mostra que a percepção que afectam os nossos cinco sentidos não pode exceder o que ela é. Ele escreveu: ”É nas suas abordagens mútuas que todas as coisas nascem do movimento sob formas de todos os tipos, porque é impossível conceber firmemente o elemento activo e o elemento passivo como existindo separadamente, porque não há nenhum elemento activo, antes que ele seja unido ao elemento passivo … De tudo isto resulta que nada é em si, a não ser uma coisa que se torna outra e que é preciso de tudo retirar a palavra ser … É preciso dizer, de acordo com a natureza, que ela está a tornar-se, está a fazer-se, está a destruir-se, está a alterar-se”. O mental flutuante do mundo sensível e dual não pode, portanto, aproximar-se do Um universal e, por isso, não podemos atingir este nível de unidade somente pelo mental. Esta concepção está na filosofia oriental que conclui “não é pelo pensamento que se atinge o Caminho“. Afinal, se a Energia é o único caminho, e a Razão o terminal de circulação da Energia, cada um deve escolher estar no centro das coisas ou na sua periferia.

Será a diversidade de género uma androginia?

Para o alquimista, o mundo é andrógino, em princípio, não hermafrodita, mas andrógino, de uma reunião em si mesmo e de uma síntese de todos os opostos. Trata-se de restaurar um isomorfismo entre o macrocosmo e o microcosmo, entre o seu e o meu. Este símbolo deve ser entendido como um estado de plenitude. No limite, ele substitui-se ao vir a ser, escapa e toca a morte terrena das fronteiras das origens.

Pode-se tomar como exemplo desta diversidade absoluta de géneros, o pleroma hebraico da árvore da vida.

Em termos extremamente simplificados pode-se dizer: o pleroma é um símbolo que representa 10 Sephirotes dispostas numa determinada ordem e ligadas entre si por trilhas. Estas representações da relação da Divindade com o cosmos estão dispostas em três colunas verticais, a da direita chamada masculina e a da esquerda feminina, e a do centro é a do equilíbrio.

A primeira sephira, esfera de manifestação, é colocada mais alto do que as outras no pilar do meio. Ela une-se com a segunda sephira do pilar à direita e ela própria se une sobre o mesmo plano à terceira Sephirah no pilar esquerdo formando assim um triângulo, dito triângulo supremo. Esta triangulação surgida do nada, da origem, é muito especial. É o começo. É como uma frase ou ideia em germinação, mas que só encontrará a realização, numa fase posterior: uma idealização do universo.

Kether, traduz-se por coroa, a primeira Sephirah é colocada, assim, no cume, no início da manifestação primordial. Ela representa um tipo de cristalização primitiva daquilo que até agora não foi manifestado e permanece incognoscível por nós.

Não existe em Kether nenhuma forma mais exclusivamente da intenção pura, que ela pudesse ser: é uma existência latente separada por um grau da origem, do não-ser; do Aïn-sof. Esta sephira contém tudo o que foi, é e será. Ela é aquela-que-é. É com a existência manifestada nos pares de opostos que esta unidade terá um sentido acessível, mas em Kether ainda não há diferenciação alguma. Ela permanece ela mesma nela mesma. Estas diferenciações que no-las tornam inteligíveis somente aparecerão Chochmah e Binah, nomes da segunda e terceira Sephiroth, tiverem emanado. Kether é a mónada existente sem atributos notáveis, embora os contenha todos. Por isso, ela contém as potencialidades de todas as coisas. Não podemos definir Kether, só podemos referir-nos a ela. A experiência espiritual atribuída a Kether é chamada União com Deus: objectivo e fim de toda a experiência mística ou alquímica. Não é surpreendente localizar aqui como virtude, aquela da realização, da conclusão da grande obra alquímica, o retorno final. O ponto porque ele não tem dimensão é naturalmente associado a ela como um símbolo referente. Mas encontraremos outros títulos para ela, tais como Existência das existências, o ponto primordial, o ponto no círculo, o macroposopo inicial, a luz interna, Ele, a cabeça branca e o seu arcanjo é Metatron.

A energia de Kether desdobra-se e este dinamismo primeiro, este ponto em movimento traça uma linha que vai na direcção da segunda sephira chochmah: a Sabedoria. Esta expansão da força não-organizada e não compensada seria, antes, uma energia incontrolável: o grande estímulo do Universo. Mas é impossível compreendê-la sem associá-la a Binah terceira sephira da árvore e primeira sephira organizadora e estabilizante, Binah: a compreensão. Se os títulos dados a Chochmahsão Ab, o Pai Supremo, Tetragrammaton, IHVH, Yod do Tetragrama (muitas vezes representada em francês pela letra J) e se os símbolos ligados a ela são o falo, o lingam, a pedra que mantém de pé, a torre, a vara do poder que se veste, não ficaremos surpreso ao ver e entender em Binah (a compreensão), ima, a mãe sombria Elhoim, a brilhante mãe fértil, o Grande Mar, Mara, raiz de Maria e reconhecê-las na taça, o cálice, o Yoni, a roupagem exterior de dissimulação (termo Hindu e gnóstico que designa os órgãos sexuais da mulher).

Assim, Kether é o ser puro, todo-poderoso, mas não activo. Quando uma actividade dela emana, o que chamamos Chochmah é um fluxo descendente de actividade pura, que é a força dinâmica do universo e que se estabiliza em Binah. Ele então toma forma em Binah. A Unidade de Kether é uma mónada dando a si mesma a ver nas duas Sephiroths. Elas formam assim a tríade Suprema. A unidade do início, nos seus dois aspectos diferenciados pode ser representado por um triângulo: Kether, Chokmah, Binah.

O Delta dos nossos templos é um triângulo deste tipo? Sim, nós ainda diríamos que fixamos aqui a tríade supremo, mas é também a mónada pitagórica. O nosso Delta é a consubstancialidade do Espírito manifestado (a energia), a matéria (a forma) e do universo seu filho. Ele é colocado no lado dos mundos superiores, quer dizer para nós no oriente. No outro extremo, no mundo da formação, considerado inferior porque mais distante da origem, temos o mesmo simbolismo. Sob uma outra forma, J e B representam, na fase do mundo da dualidade, os dois aspectos diferenciados, mas separados da unidade ideal do Delta que os contém em ideação onde eles ainda se encontram reunidos na perfeição andrógina. Pode-se dizer que a partir do topo do Delta passando pelos seus pontos baixos, ligado às colunas do Templo são traçados os pilares da árvore da vida, onde os II∴ e Irmãs são ao mesmo tempo as esferas de luz e os caminhos pelos quais se actualiza a transcendência.

É uma geografia sagrada que o iniciado terá de remontar partindo do limiar até a coroa como um Cavaleiro para se unir à sua Rainha. Note-se que na árvore da vida, o primeiro sephira partindo de baixo (a última na manifestação) é chamada Reino.

É dizer e repetir que somos machos e fêmeas, como imagem da criação. É uma consubstancialidade da unidade vista nos seus aspectos diferenciados, mas é a unidade que ainda é uma questão.

Como a diversidade de géneros é encarada nas diferentes potências?

  • Grande Oriente de França (G∴ O∴ d∴ F∴): 50.000 membros, 2,6% irmãs.
  • Federação Francesa do Direito Humano (F∴ F∴ D∴ H∴) 17 000 membros, 67% irmãs.
  • Grande Loja Mista de França (G∴ L∴ M∴ F∴): 4.900 membros, 45% irmãs.
  • Grande Loja Europeia da Fraternidade Universal (G∴ L∴ E∴ F∴ U∴): 2.400 membros 22,5% irmãs.
  • Grande Loja Mista Universal (G∴ L∴ M∴ U∴): 1.400 membros, 52% irmãs.
  • Ordem Iniciática da Arte Real (O∴ I∴ A∴ R∴): 1.200 membros, 50% irmãs.
  • Grande Loja de Culturas e Espiritualidades (G∴ L∴ C∴ S∴): 900 membros, 30% irmãs.
  • Grande Loja Simbólica de França (G∴ L∴ S∴ F∴): 550 membros, 47% irmãs.
  • Grande Loja Francesa de Memphis-Mizraim (G∴ L∴ F∴ d∴ M∴ M∴): 500 membros, 25% irmãs.
  • Grande Loja iniciática soberana de Ritos Unidos (G∴ L∴ S∴ R∴ U∴): 280 membros, 45% irmãs.
  • Grande Ordem Tradicional do Mediterrâneo (G∴ O∴ T∴ M∴): 140 membros, 33% irmãs.

Conclusão

Em França, nas palavras de Bruno Etienne, a Maçonaria produziu duas maçonarias que convivem, volens nolens durante três séculos, mas que parecem prestes a se chocar hoje. A primeira tem por slogan “liberdade, igualdade, fraternidade” e pretende participar activamente na construção da sociedade ideal. A segunda tem por divisa “força, sabedoria, beleza” e prefere trabalhar na construção do Templo da Humanidade a partir da construção do templo interior através do domínio do ego.

Uma é extrovertida, progressista, mundana; a outra é voltada para o interior, progressiva e mística. Alguns pensaram que poderiam, sem esquizofrenia excessiva pertencer a ambas as tendências.

Na verdade, apropriando-se do monopólio da interpretação republicana, identificando-se com a única República monista, a Maçonaria arrisca-se a perder a sua capacidade de orientar o neófito para a iniciação a favor de uma inclinação para as correntes à moda do mundo secular.

A diversidade de géneros pode não ser inevitável; ela só pode ser, dentro de cada Loja, um consenso unânime, anunciado claramente para que aquele que vem em direcção à Maçonaria possa ter a escolha no seu recrutamento, sem o qual a palavra liberdade nada mais seria que um chamariz.

Por Solange Sudarskis 

Adaptado de tradução feita por J. Filardo

Nota: Solange Sudarskis, antiga professora da Universidade de Lyon, Claude Bernard, foi iniciada em 1977 na Loja da Ordem Maçónica Droit Humain, “Evolution et Concorde”. Membro fundador da Loja da Ordem Maçónica Droit Humain “L’arbre de Liberté”, tem publicados vários livros maçónicos.

Notas

[1] Nascida em 1693, o seu pai e os seus irmãos eram maçons aristocratas, em County Cork, Irlanda. Em 1712, quando Lord Doneraile, seu irmão, era venerável, a sua loja organizava as suas sessões dentro do domicílio da família. A jovem tinha assistido a uma sessão maçónica, graças a um buraco numa parede em construção, numa biblioteca adjacente à loja. Tendo sido surpreendida, o seu caso deu lugar a uma reunião de mais de duas horas, depois da qual foi decidido oferecer-lhe a escolha entre a iniciação e a morte. Ela aceitou a iniciação e teria permanecido membro da loja até à sua morte com a idade de 95 anos

[2] Nos EUA, um Maçon de Boston chamado Robert Morris fundou em 1850 uma ordem mista de inspiração maçónica, chamada Ordem da Estrela do Oriente, que se abriu às mulheres, desde que fossem filhas, viúvas, esposas, irmãs ou mães de um Maçon. Esta ordem, que ainda existe, conheceu um grande sucesso nos EUA, mas dificilmente se desenvolveu fora dali. Ele fornece educação baseada na Bíblia e ocupa-se principalmente com actividades morais ou de caridade.

[3] O local foi escolhido para evocar a dissolução de sociedades secretas pelo marechal Pétain, exactamente 70 anos atrás.

2 Comentários em “A Maçonaria Mista é inevitável? (Parte III)

  • Boa noite.
    A minha opinião sobre a mixidade na maçonaria parece-me em parte uma não questão. Uma não questão porque a maçonaria mista, existe desde 4 de Abril de 1893 através da actual Ordem Maçónica Mista Internacional Le Droit Humain. Depois desta obediência outras de natureza mista se lhe seguiram.
    O que se debate verdadeiramente nos dias actuais é se determinadas obediências mono-género (masculinas ou femininas ) devem passar a ser Obediências mistas.
    Para mim esta é verdadeiramente a questão. É simples, para que complicar. É simplesmente uma questão de vontade, opção , decisão, portanto mais que de igualdade, é questão de liberdade e de organização. As Obediências do tipo mono-género e mistas devem continuar a coexistir. As que forem mistas, ou optarem por o ser, devem permitir ás suas oficinas escolher a forma como pretendem funcionar e se organizar ( masculinas, femininas , mistas ).
    Concordo em pleno com Solange Sudarskis ,na forma como conluí o traçado : “A diversidade de géneros pode não ser inevitável; ela só pode ser, dentro de cada Loja, um consenso unânime, anunciado claramente para que aquele que vem em direcção à Maçonaria possa ter a escolha no seu recrutamento, sem o qual a palavra liberdade nada mais seria que um chamariz.”

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  • Com todo o respeito e sem querer polêmica, penso que há espaço para todos, porém cada qual no seu lugar. Eu não comungo com Maçonaria Mista. Respeitando a opinião alheia, passo longe dessas teses.

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