A Mulher na Maçonaria

Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual[1].

Como pudemos verificar, existem, actualmente, na Maçonaria dois grandes ramos: o tradicionalista, dito regular, que representa a corrente conservadora; e o liberal, a que os Irmãos ortodoxos chamam irregular [2]. Por oposição a este, o da Maçonaria Regular, ou de via sagrada, impõe a crença em Deus e na imortalidade da alma, e, além disso, não admite mulheres [3].

Entendemos, tal como António Arnaut, que esta restrição é indefensável à luz das proclamações dos Direitos Humanos (para os quais a Maçonaria contribuiu decisivamente [4]), e viola o princípio maçónico e constitucional da Igualdade (artigo 13.° da Constituição da República Portuguesa).

Já Amando Hurtado manifesta um ponto de vista de cariz mais “filosófico”, segundo o qual cada homem possui uma mesma estrutura física, que se desdobra em homem-mulher, e que está sujeita a variantes circunstanciais que podem condicionar o seu contacto com o mundo, bem como a sua percepção do mesmo. Neste sentido, embora a consciência pessoal de cada indivíduo humano seja constante (porquanto se reporta ao auto-reconhecimento como homem e aos componentes permanentes que a tornam consciência humana individual), esta poderá estar fortemente matizada em cada um, devido a factores de ordem genética, cultural e ambiental [5].

Referindo-se mais concretamente ao “estatuto” da mulher na Maçonaria, Hurtado admite que “(…) ninguém nega hoje a validade da metodologia maçónica para criar lojas femininas nas quais as mulheres possam encontrar-se entre si, sem determinações impostas pelo esquema psicológico masculino. De facto existem lojas femininas em todos os países [6], incluídos os de tradição anglo-saxónica[7]. O autor ressalva, no entanto, que aquilo que se opõe realmente à tradição maçónica é o regime misto no interior das lojas, com a utilização dos mesmos símbolos simultânea e conjuntamente para as duas diferentes configurações psicológicas, determinadas pela distinta constituição psicossomática de homens e mulheres [8].

Amando Hurtado advoga ainda que “[a] iniciação maçónica tradicional, através da simbologia específica da «acção» e da «atitude» masculinas, não se produz somente em função da capacidade de raciocinar, que possuem todos os seres humanos. De igual modo, tão pouco é possível iniciar maçonicamente qualquer homem só por sê-lo. Existem diversas vias e tradições iniciáticas no mundo e a maçónica é uma delas, com características próprias” [9].

No segundo volume de Os Primórdios da Maçonaria em Portugal, Graça e J. S. da Silva Dias explicam que a exclusão do sexo feminino advém das Constituições de Anderson, onde vem expressamente preconizada a não admissão de servos, mulheres, ou homens sem moralidade ou de conduta escandalosa. Os mesmos referem também que a interdição à entrada de mulheres na Ordem tem sido atribuída ao facto de a Maçonaria inglesa se ter modelado pelo sistema de clubes, já existentes na vida social britânica, nos quais vigorava o regime de separação de sexos, ou ainda ao rigorismo puritanista, que nem sequer admitiria a convivência de homens e mulheres em assembleias secretas [10].

Porém, é uma verdade histórica que a mulher foi admitida em Lojas da Maçonaria operativa. As corporações de Chester (1327), de York (1350), e a Guilda dos carpinteiros de Norwich (1375) dirigem-se a Irmãos e Irmãs, e os próprios estatutos da Loja de York referem as obrigações de «aquele ou aquela». Havia estucadoras, argamassadoras e pedreiras [11].

Durante os séculos XII, XIII e XIV, a mulher empunhou o cinzel e o malhete nos pórticos das igrejas, ao lado dos seus Irmãos, pelo que o ritual e simbolismo maçónicos lhe eram acessíveis de direito [12].

Daqui se conclui que a exclusão da mulher da Maçonaria especulativa nada tem a ver com a tradição operativa.

Mais uma vez, subscrevemos inteiramente o ponto de vista manifestado por Arnaut, que afirma que “[a]o manter uma velha regra de [trezentos] anos (…), que teima em não adequar aos valores ético-humanistas do nosso tempo, o ramo tradicional ou anglo-saxónico exclui da dignidade maçónica três quartos da Humanidade” [13].

Observa uma Iniciada (cuja identidade não é revelada ao abrigo do segredo maçónico) que “(…) como disse Maria Deraismes, fundadora, juntamente com Georges Martin, [da Obediência mista] Le Droit Humain, em 1895 [28], a presença da mulher nas Lojas permite que se cumpra, no seio das mesmas, uma obra de elevação geral das consciências, que a presença de apenas um sexo não permite, porque é incompleto” [14].

Esta perspectiva não é, no entanto, partilhada por António Carlos Carvalho, um dos raros autores, de entre os vários que nos serviram de referência, a manifestar uma opinião clara acerca deste assunto. Eis a sua curiosa “justificação” para a proscrição das mulheres no que à Maçonaria Regular diz respeito:

(…) no Livro dos Provérbios encontramos uma descrição simbólica do que deverá ser a atitude tradicional da Mulher. Salomão diz-nos que todas as obras dela são dirigidas para a sua casa, e a lã e o linho, os tecidos e as vestes, o bordado e a tapeçaria são trabalhados pelas suas mãos engenhosas. (…)
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No caso da Maçonaria, por exemplo, temos uma Iniciação apenas masculina até porque o mester de Maçon, de pedreiro, era exercido só por homens.
.
Mas é próprio das condições cíclicas em que se inscreve o Mundo Moderno que se verifique uma abusiva infiltração feminina («feminista») em todos os campos naturalmente reservados aos homens” [15].

No entender do autor, a iniciativa de Maria Deraismes não constituía mais do que uma tentativa de transportar para o domínio iniciático o conceito igualitário, pelo que terão toda a razão as obediências maçónicas que rejeitam a Maçonaria feminina, considerando que esta não é, nem poderá ser tomada por regular [16]. O mesmo classifica ainda o ritual maçónico feminino de “(…) pura invenção, artificial em todas as suas peças (…)” [17], não contendo traços de transmissão autêntica, consistindo, assim, apenas num simulacro de Iniciação.

Além disso, Carvalho refere que tanto as mulheres como os homens portadores de certas enfermidades não são aceites pela razão óbvia de que para eles a Iniciação não poderia ser válida, uma vez que os seus efeitos seriam nulos por falta de qualificação, realçando que os impedimentos corporais da Iniciação se sobrepõem na sua quase totalidade àqueles que obstam à ordenação dos sacerdotes na Igreja Católica [18].

Na verdade, perante um tema tão controverso consideramos que as respostas que encontrámos são escassas e, geralmente, bastante esquivas.

Assim, em entrevista ao Jornal de Notícias, por ocasião do mais recente congresso internacional maçónico, Jean-Charles Darnier e Jean-Pierre Pilorge, representantes da Grande Loja Nacional Francesa, quando questionados acerca da exclusão de mulheres pela Maçonaria Regular, lembraram a jornalista Inês Cardoso que existem movimentos femininos e mistos, salientando, no entanto, que o essencial é “equilibrar os planos feminino e masculino” presentes em cada ser humano [19].

Idêntica resposta podemos encontrar ao ler a obra Diálogos com a Maçonaria [20], bem como ao consultar o sítio da Grande Loja Nacional Portuguesa na web [21]: “[e]xistem em Portugal Grandes Lojas masculinas, femininas e mistas. A Grande Loja Nacional Portuguesa reconhece total liberdade aos candidatos nas opções pessoais e, em função disso, nas opções da Obediência que venham a escolher” [22].

Por seu turno, Mário Martin Guia, empossado Grão-Mestre da Grande Loja Legal de Portugal a 24 de Março do corrente ano, parece pretender “fugir à questão”, colocando-a sob um prisma diferente: “[e] as irmãs da Maçonaria querem lá homens? Se calhar não querem. Homens e mulheres são diferentes; temos processos diferentes de ver as coisas. Elas são mais intuitivas, eles mais ‘massa bruta’” [23]. Perante a insistência das jornalistas, que invocam a igualdade de carácter entre géneros, Martin Guia refere que “[a] beleza da instituição maçónica é sermos diferentes” [24]. Quando, no seguimento desta afirmação, as mesmas perguntam a Guia se é tradicionalista, este assume-se como ritualista. E à questão “O que se ganha em ter só homens na Maçonaria?” [25], Guia responde, finalmente, que “[é] uma questão de tradição. A Maçonaria evolui devagar, mas evolui e é provável que daqui a muito tempo possam entrar mulheres. Mas agora não. As freiras também não podem dizer a missa” [26] – conclui.

Não obstante, e para finalizar a nossa abordagem a este assunto, gostaríamos de proceder à transcrição de algumas passagens de um texto sobre o papel da mulher na Maçonaria, da autoria de Lilly Armellina Ronzi Rodrigues Alves [27], que, a nosso ver, merecem reflexão:

“(…) Se olharmos os murais das pirâmides e seus papiros, acharemos sinais claros e evidentes de iniciações de homens e mulheres.
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A Maçonaria manteve, ao longo dos tempos, um peso político e uma capacidade de actuação decisivos.
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Porventura, a mulher é inferior ao homem? Evidentemente, não.
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Seria porque na Antiguidade a mulher não tinha alma e era considerada no mundo bíblico, jurídico, social e familiar em segundo plano? Não, pois hoje a mulher lidera países como estadista, pilota aviões, sustenta sua família e exerce cargos e funções de altíssimo escalão.
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A mulher não votava: hoje ela tem este direito.
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(…)
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E o «matriarcado» (do Latim mater-tris = três vezes mãe), onde a autoridade suprema era a MÃE, a mulher?
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Já no tempo dos Druidas, estirpe Celta, as mulheres gozavam de liberdade e direito, incluindo (…) mesmo a participação nas batalhas e o direito ao divórcio.
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(…)
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Homens e mulheres devem trabalhar em harmonia, não contradizendo a Natureza, que é nosso maior legado.
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(…)
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Em Portugal (…) já havia prova disto, pois Ana Adelaide Mendanha Temudo Costa (…) foi iniciada em 1904, no Palácio Maçónico, pelo Grão Mestre Sebastião de Magalhães Lima, ilustre figura do Movimento Republicano e Socialista, conhecido como renomado jornalista.
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Outra mulher destemida foi Adelaide de Jesus Damas Brasão Cabete (1867-1935), destacada do Movimento Republicano Feminista, que representou Portugal no Congresso de Roma em 1923; foi iniciada em (…) 1907.
.
(…)
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Nós necessitamos de tudo e de todos para construir um mundo melhor, agradecendo a todo o instante ao GRANDE ARQUITETO DO UNIVERSO.

Liliana Raquel Rodrigues Fernandes

Nota

Este texto integra uma excelente dissertação apresentada por Liliana Raquel Rodrigues Fernandes à Universidade de Aveiro para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Estudos Portugueses.

Dada a sua extensão, os diversos capítulos serão publicados autonomamente, incluindo-se sempre o link para a totalidade do trabalho.

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Notas

[1] Ponto 2 do Artigo 13.° (Princípio da Igualdade) da Constituição da República Portuguesa – VII Revisão Constitucional [2005].

[2] No entender de António Arnaut tal designação é errada, dado que a regularidade de uma Loja se afere pelo respeito das regras para a sua instalação e funcionamento. Cf. ARNAUT, António, Introdução à Maçonaria. 5a ed.. Coimbra Editora, 2006, p. 30.

[3] Note-se a semelhança com o que sucede, por exemplo, na Igreja Católica, que insiste em recusar o acesso da mulher ao sacerdócio.

[4] Cf. loc. cit..

[5] Cf. HURTADO, Amando, Nós, os Maçons. Maia, Ver o Verso Edições, Lda., 2006, p. 73 – 74.

[6] Sobre o caso português vide, por exemplo, ALMEIDA, São José, “Mulheres maçons são 300 e estão a aumentar”, in Público, Sábado, 19 de Maio de 2007, p. 2 – 3.

[7] HURTADO, Amando, Nós, os Maçons. Maia, Ver o Verso Edições, Lda., 2006, p. 163 – 164.

[8] Cf. op. cit., p. 164.

[9] Loc. cit..

[10] Cf. DIAS, Graça e J. S. da Silva, Os Primórdios da Maçonaria em Portugal, Vol. II, Tomo II. Lisboa, Instituto Nacional de Investigação Científica, 1980, p. 803 – 804.

[11] Cf. op. cit., p. 804 – 805. Cf. ARNAUT, António, Introdução à Maçonaria. 5a ed.. Coimbra Editora, 2006, p. 30.

[12] Cf. DIAS, Graça e J. S. da Silva, Os Primórdios da Maçonaria em Portugal, Vol. II, Tomo II. Lisboa, Instituto Nacional de Investigação Científica, 1980, p. 806.

[13] ARNAUT, António, Introdução à Maçonaria. 5a ed.. Coimbra Editora, 2006, p. 21.

[14] Vide http://www.maconaria.net/entrevista.shtml.

[15] CARVALHO, António Carlos, Para a História da Maçonaria em Portugal 1913 – 1935. Col. Janus, 2a ed.. Lisboa, Vega Lda., 1993, p.170.

[16] Este posicionamento, com o qual não poderíamos estar mais em desacordo, afigura-se-nos profundamente primitivo, machista e contrário aos ideais proclamados pelo chamado “mundo ocidental”, mesmo num país latino, como é Portugal.

[17] Loc. cit..

[18] Cf. op. cit., p.170 – 171.

[19] CARDOSO, Inês, “Congresso – Maçonaria duplicou membros e ganhou faixas mais jovens”, in: Jornal de Notícias, Edição Nacional, N° 25 ano 119, Segunda-feira 26 de Junho de 2006, p. 15.

[20] Diálogos com a Maçonaria, Maia, Ver o Verso Edições, Lda., 2006, p. 158.

[21] Vide Frequently Asked Questions (F.A.Q.), em http://www.glnp.pt/index faq.jsp#.

[22] O trecho transcrito encontra-se em qualquer dos dois locais anteriormente referidos.

[23] AZEVEDO, Ana Paula, GUERREIRO Catarina, Entrevista a Mário Martin Guia – “Ainda há quem veja os maçons como mata-padres”, in Tabu, p. 49, Semanário Sol, n° 50, 25 de Agosto de 2007.

[24] Loc. cit..

[25] Loc. cit..

[26] Loc. cit..

[27] Profunda conhecedora da Maçonaria e membro do Oriente São Paulo – Brasil.

[28] Embora a entrevistada refira 1837 como sendo o ano da fundação da Obediência mista Le Droit Humain, verificámos, através do cruzamento de referências bibliográficas, que se trata de uma inexactidão, uma vez que a fundação da Loja mista Le Droit Humain data de 4 de Abril de 1893, sendo constituída em Obediência somente volvidos dois anos, e ganhando dimensões internacionais em 1899.

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