A simbólica maçónica existente no Cemitério dos Prazeres

A simbólica maçónica existente no Cemitério dos Prazeres enquanto indicadora de novas sensibilidades perante a morte

A vivência da morte durante o século XIX e inícios do século XX

cemitério dos prazeresGladstone, político liberal britânico do século XIX, disse um dia: “Mostrai-me a maneira como uma Nação ou uma Sociedade se ocupa dos seus mortos e dir-vos-ei com razoável exactidão quais os sentimentos delicados do seu povo e a sua fidelidade a um ideal elevado” (Thomas: 339). De facto, a morte pode ser considerada como o grande revelador colectivo das sociedades e das civilizações (Thomas: 339). O culto dos mortos é, muitas vezes, o único vestígio remanescente de populações cuja memória não sobreviveu ao peso esmagador do passado. O mesmo não acontece numa época mais recente, como os séculos XIX e inícios do século XX, onde dispomos de abundante quantidade de informação. Neste caso, a análise da emergência de múltiplas sensibilidades perante a morte traduz uma crescente complexificação do pensamento e da sociedade.

Michel Vovelle, nos seus estudos sobre a evolução do tratamento da morte na sociedade ocidental [2], inicia sempre os seus capítulos com um breve apontamento demográfico. Indubitavelmente, este factor influi de forma determinante na metamorfose das concepções escatológicas da sociedade [3]. No século XIX, começa a afirmar-se uma descida muito acentuada nas taxas de mortalidade, proporcionada por uma melhor alimentação de base, menor instabilidade política e social, e progressos na medicina. A desigualdade perante a morte mantém-se, porém. Para o mundo rural e para o mundo operário, tardam a surgir as melhorias efectivas que a burguesia urbana começa a sentir logo nos inícios do século. Por isso mesmo, as camadas populares irão reagir com virulência aos novos modelos higienistas propostos para lidar com a morte, uma vez que estes contrariam os seus hábitos mais arreigados. Apenas no final do século, e como consequência da revolução demográfica possibilitada por Pasteur, estes estratos se começam lentamente a converter à morte burguesa.

O período em estudo assiste a uma medicalização efectiva da morte. O médico utiliza o medo largamente difundido em relação à morte aparente para afirmar o monopólio do seu saber. Proclama que as pessoas continuam a ser enterradas vivas porque apenas o exercício da actividade médica confere a autoridade e o conhecimento para determinar a morte. Assim, lentamente, e também como resultado da progressiva secularização da sociedade, o médico vai tomando o lugar do padre à cabeceira do morto. Em breve, as preocupações higienistas que se começam a delinear na sociedade vão-se materializar fisicamente, projectando um novo ideário no espaço. O cemitério romântico, impulsionado pelo decreto napoleónico de 1804, vai-se progressivamente implantando ao longo da Europa. Em Portugal, a gestão pública e laica da morte começa a afigurar-se em 1835 [4], quando uma violenta epidemia de cólera morbus dita a construção de dois cemitérios [5] na periferia da cidade. À luz da mentalidade iluminada da época, a localização fora dos centros urbanos neutralizaria os perigos de infecção. A legislação de Rodrigo da Fonseca Magalhães, publicada em 1835 [6], vai reforçar esta tendência, obrigando à construção de cemitérios públicos por todo o país e proibindo o enterramento intramuros. A esta seguiram-se numerosos decretos até 1881, dada a dificuldade de aplicabilidade da lei em âmbito popular. A célebre revolta da Maria da Fonte, em 1846, é o melhor exemplo de como a mentalidade burguesa e liberal se confrontava na prática com as convicções mais basilares dos estratos populares.

No entanto, esta contradição entre os imaginários burguês e popular era no fundo mais aparente que real. Desde meados do século XVIII que o racionalismo se esforçava por banir o espectro de Thanatos. No campo da medicina, perseguia-se a anulação da morte pelo conhecimento: catalogando, inventariando, e dissecando exaustivamente, médicos e cientistas procuravam controlá-la, subjugando-a ao domínio do racional. Na filosofia iluminista, a dissertação sobre a morte é largamente evitada: Pascal, Voltaire, e Diderot preferem a reflexão sobre a vitalidade; Radicati di Passerano, um dos poucos que se dedica a este tema [7], considera que o medo da morte não é inato mas antes imposto pela casta sacerdotal. Mas a obsessão pelo macabro, com o advento do romantismo, revela a superficialidade desse manto de racionalidade. Ainda que muitos tentem relacionar este retorno às ideias negras com a crescente sucessão de guerras e calamidades, “il verme era dunque nella mela, prima ancora che il vecchio mondo crolasse” (o verme encontrava-se ainda na maçã, mesmo antes que o mundo antigo desabasse) (Vovelle, 2000: 536). A morte enquanto veículo de emoções fortes, evasão, sonho, união entre Eros e Thanatos, enfim, enquanto mistério supremo e insondável é sucessivamente cantada por autores como Goya, Friedrich, Fussli, Goethe, Young, Grey ou Blair. A pulsão do macabro, o ressurgir dos medos irracionais, a atracção pelo desconhecido, todos eles exprimem a visão de uma burguesia que não se identificava com a mundividência iluminista, e que se alimentava ainda de um imaginário popular com reminiscências medievais.

O romantismo encontra-se também ligado à expressão de uma emotividade mais forte em confronto com a morte do outro. A manifestação do afecto familiar transcende o luto tradicional para o estádio de cordoglio, uma dor e perturbação interior muito profunda. É dada toda uma nova importância à morte da mulher e da criança. Este fenómeno encontra-se intimamente ligado com a emergência da individualidade [8], expressão por excelência do liberalismo no plano moral. A análise das novas sensibilidades fúnebres revela a dimensão escatológica deste individualismo, que se traduz no culto da memória e da posteridade. Ainda no século XVIII, Falconet concebia a posteridade como uma prova de imortalidade da alma; Diderot afirmava que esta era para o filósofo o substituto do Além para o homem religioso. Nesta sua dissertação, o filósofo francês enuncia assim o fenómeno de laicização da soteriologia cristã da salvação individual. Assim, a ênfase na posteridade acentua-se sobretudo nos sectores mais ligados à secularização da sociedade. A morte reveste-se então de grande importância para aqueles que desejam deixar um testemunho de anticlericalismo, tendência que se começa a acentuar nos finais do século XIX. A coerência com as convicções de toda uma vida passa a ser tida em grande consideração, em contraponto às múltiplas conversões atemorizadas no leito da morte. A descrença numa vida após a morte prende-se em larga medida com o conceito da morte de Deus na sociedade ocidental. Para o liberal anticlerical, a religião será substituída pela idolatria do Estado, considerada por Nietszche como mais fanática e perigosa [9]. O culto da memória estabelece os novos heróis, figuras glorificadas e por vezes mesmo deificadas. Assiste-se desde o advento da Revolução Francesa à materialização física desta realidade, com a renomeação da toponímia, ou a instituição de Panteões Nacionais [10]. Com a Primeira Guerra Mundial, as camadas populares acabam por se render ao culto da memória, erguendo até na mais pequena aldeia um monumento em honra dos seus filhos caídos.

A Primeira Guerra Mundial marca também o início de uma época onde o enterramento no cemitério romântico começa a cair em desuso. O gigantismo da paisagem de pedra [11] é substituído por soluções mais igualitárias, como a inumação em campas ou a cremação. Progressivamente, a concessão de túmulos ou ossários vai perdendo o seu cariz perpétuo, permitindo à gestão cemiterial desfazer-se dos despojos mortais ao fim de 25 anos. Na era do consumo desenfreado e do encanto pela efemeridade, também a morte ganha um cariz descartável. Paradoxalmente, a morte torna-se omnipresente e invisível: ao mesmo tempo que a comunicação social bombardeia o espectador com sucessões intermináveis de mortes distantes e abstractas, os moribundos próximos são relegados para o facilitismo asséptico dos lares e hospitais, onde permanecem entregues à sua solidão [12]. A morte do próximo é vivida com uma angústia sem precedentes, mas a manifestação do luto deve ser ínfima: o ser em sofrimento é encarado como ser alienado da sociedade, o seu estado como uma anormalidade que deve ser resolvida o mais rapidamente (ainda que superficialmente) possível.

O Cemitério dos Prazeres, na zona Ocidental de Lisboa, é um espaço que patenteia as diferentes sensibilidades que se desenvolveram em torno da morte ao longo de mais de um século e meio. Atravessando um dos mais conturbados períodos da História Portuguesa, é uma fonte inesgotável de conhecimento do passado. Os seus jazigos, túmulos e ossários perpetuam a efemeridade da passagem de aristocratas e populares, monárquicos e republicanos, portugueses e estrangeiros, homens e mulheres, bem como uma parte significativa das suas respectivas mundividências.

No dizer de Francisco Moita Flores, este espaço configura um “mundo onde o imaginário dos vivos prefigurou a ideia da morte e a materializou naquela manifestação arquitectónica, carregada de símbolos que são a memória do tempo e o discurso sobre as últimas finalidades da existência” (Flores, 1992: 66). Este estudo foca-se particularmente na simbologia maçónica, que comporta uma mitologia muito rica e particular. Esta reveste-se ainda de outra significância quando é encarada não apenas enquanto realidade isolada, mas enquanto veículo de atitudes variadas perante a morte. A análise dos jazigos seleccionados é complementada com dados provenientes dos livros de registo cemiterial, que fornece alguns esclarecimentos e informações preciosas nalgumas questões. Um breve tratamento estatístico é também enunciado, com o objectivo de localizar o objecto em estudo no universo mais vasto que representa o Cemitério dos Prazeres.

Breve tratamento estatístico e análise simbólica

O programa de Divulgação e Valorização Cultural do Cemitério dos Prazeres contemplou a elaboração de dez percursos temáticos, entre os quais o Percurso Maçónico. Trinta e dois jazigos foram incluídos neste percurso. Os critérios desta recolha foram não o de um reconhecimento exaustivo, mas a elaboração de um passeio apelativo para os visitantes, com uma significativa variação simbólica e iconográfica.

Entre estes, vinte jazigos possuem simbologia inequivocamente maçónica. De seguida, apresenta-se uma breve exposição dos elementos mais relevantes, bem como o seu significado:

Delta radiante

Quatro jazigos do Cemitério dos Prazeres possuem triângulos equiláteros radiantes: o 6893, o 6891, o 6962, e o 6853, nomeadamente os números 1, 11, 22 e 25 do percurso maçónico. Todos eles foram construídos pelo mesmo arquitecto, C. Dias [13], e apresentam uma estrutura semelhante.

O triângulo é a base da Geometria, a mais nobre das sete ciências liberais (Reghini, 2002: 59). É inseparável do simbolismo do número três e do conceito de trindade. Na concepção maçónica, pode representar os quatro elementos, consoante a abertura dos ângulos que o constituem [14]. O triângulo equilátero é símbolo de harmonia, divindade, proporção. Na tradição judaica, representa Aquele cujo nome não se pode pronunciar, Deus. Alquimicamente, é símbolo do fogo, e encontra-se ligado ao princípio masculino quando o seu vértice se encontra voltado para cima. “Símbolo de perfeição, o triângulo representa em duas de suas pontas a lei da dualidade, as forças básicas da natureza que se combinam com a terceira para produzir a criação e que encontram a perfeição no ponto em que se unem e combinam” [15].

O delta radiante representa a projecção da Luz e Sabedoria divinas. O raio reforça a simbologia do triângulo: manifesta a omnipotência do deus supremo. É ao mesmo tempo vida e morte, porque gera e destrói. Encontra-se também associado, nomeadamente nas concepções bramânicas, à Sabedoria.

Possuidor assim de uma simbologia extremamente complexa, por nele confluírem concepções pitagóricas, cristãs, cabalísticas, herméticas e alquímicas, o delta radiante é, em última instância, o símbolo do Conhecimento, mas um conhecimento que provém de instâncias divinas e que só é revelado aos que percorrem o caminho para atingir a iluminação, aos que afeiçoam a pedra bruta para esta se transformar na pedra cúbica.

Águia bicéfala

A águia bicéfala com o número 33 inscrito no peito é um dos símbolos mais inequivocamente maçónicos. Representa o mais alto grau do Rito Escocês Antigo e Aceite, o de Soberano Grande Inspector Geral. Este símbolo encontra-se patente apenas num jazigo do Cemitério Oriental, o n° 1338 (assinalado no percurso maçónico como 6).

A águia, enquanto rainha das aves, é um arquétipo fundamental de numerosas civilizações. Sendo o símbolo imperial por excelência, frequentemente acompanha ou representa os maiores deuses e heróis (apenas na civilização ocidental, Zeus, Cristo, César, Napoleão.). Para além de transmitir a ideia de vitória, realeza, agilidade, prontidão, engenho, a águia é encarnação dos estados espirituais superiores. Associada à mais alta divindade uraniana e ao fogo celeste, por ser o único animal capaz de olhar o sol de frente, simboliza assim a percepção directa da luz intelectiva. Importa salientar ainda o seu cariz augural, iniciático e psicopompo nas mais diversas tradições. A bicefalia, para além de reforçar todos os aspectos acima referidos, reporta-nos à simbologia binária – como Adão-Eva, Sol-Lua, justiça-misericórdia, Roma-Constantinopla, etc. O número 33 reveste-se de uma dupla importância, porque para além de ser um reforçar o simbolismo do número 3, é também a idade da morte de Cristo e de Alexandre, o Grande.

O jazigo n° 1338 é um dos mais ricos em termos de simbologia maçónica. Para além da águia bicéfala, possui vários outros elementos que reportam à Franco- Maçonaria, como o esquadro e compasso, o martelo, e a coroa de louros. À excepção do primeiro, todos os outros se encontram representados em outros túmulos, como se poderá constatar em seguida.

Esquadro e compasso

São cinco os jazigos assinalados no percurso maçónico deste cemitério que possuem uma inscrição de um esquadro e um compasso entrecruzados: o 6 (1338), o 13 (2398), o 15 (5273), o 17 (4251), e o 30 (3005).

jazigo 673O compasso é geralmente considerado como emblema do rigor matemático, da precisão e da razão. Esta ideia, que surge no final da Idade Média, com o despontar do Humanismo, é precedida de toda um tradição medieval que confere uma carga cosmológica a este instrumento, e que Blake tão bem soube imortalizar na sua célebre obra “O Ancião dos Dias Mede o Tempo”. Aqui, o compasso marca a delineação do firmamento e representa a imposição de Ordem no Caos. Associado ao princípio masculino e activo, simboliza o espírito eterno e infinito, as possibilidades de conhecimento. Este instrumento permite medir e traçar circunferências de diferentes centros e diâmetros, o que representa no patamar filosófico a flexibilidade do pensamento e os diferentes modos de raciocínio. Encontra-se ainda ligado às noções de justiça, exactidão, perfeição, harmonia e sabedoria.

Por sua vez, o esquadro encontra-se associado ao quadrado. Exprime assim o elemento terra, a ideia de matéria, da qual o neófito se deve progressivamente desprender no seu caminho para a perfeição. Transmitindo as noções de feminilidade, passividade e submissão, simboliza a rectidão, o respeito pelas leis e regulamentos. Jóia do Venerável, significa neste contexto que “(.) a vontade de um chefe de Loja não pode ter mais do que um sentido, o do «status» da ordem, e que não deve agir senão de uma única forma, a do bem.” (Chevalier e Gheerbrant, 1994: 305).

Coluna com 3 romãs

Dois dos túmulos pertencentes ao percurso maçónico do Cemitério Ocidental, assinalados como 8 (673) e 10 (842), são constituídos por uma coluna com capitel dórico, sobre o qual se encontram representadas três romãs. Simbolizam as colunas à entrada do templo de Salomão, Jachin e Boaz, que segundo o livro sagrado hebraico continham “duas fileiras de romãs (.) para cobrir os capitéis de cada uma das colunas” (I Reis 7, 18).

Aparentemente, a coluna encontra-se ligada ao pensamento místico e simbólico desde tempos muito remotos. Relacionada com a ideia de suporte e de limite, toma na tradição judaico-cristã um sentido cósmico e espiritual – a árvore da vida, o eixo dos mundos, que une a esfera humana à divina [16]. A romã, para além de símbolo primordial de fecundidade, exprime também em contexto maçónico a ideia de fraternidade[17]. Assim, a associação dos dois elementos pode simbolizar a perpetuação do conhecimento e dos valores adquiridos pelo Homem enquanto elevado espiritualmente, enquanto mediação entre os dois mundos.

Alfabeto maçónico

Esta cifra de substituição mono alfabética, conhecida também como Pig Pen, foi criada pelo místico e alquimista Agrippa de Nettsesheim, nobre alemão que viveu durante o século XVI. Mais tarde veio a ser o alfabeto adoptado pela Maçonaria, instituição que necessitava de um método de comunicação escrito encriptado.

Os jazigos n° 734 e 5428, referenciados como 3 e 19 no mapa onde se encontra registado o Percurso Maçónico, não possuem nenhum elemento que isoladamente se possa associar com o ideário maçon; porém, a conjugação das diversas representações permite de facto fazer esta identificação. O primeiro caso será considerado mais adiante nesta exposição.

Devido à escassez de registos, não foi possível confirmar nas fontes se de facto os chefes de família, ou mesmo os titulares dos jazigos acima referidos, eram filiados na Maçonaria, ou se a inclusão deste tipo de simbologia se encontraria preso a razões de outra ordem. Sabemos, por exemplo, que no túmulo de Sarah de Mattos a figuração de elementos maçónicos se encontra presa a motivos de propaganda política e anticlerical; ou que a influência desta simbologia no jazigo do Duque de Palmela se ficou a dever ao seu arquitecto Cinatti. Apesar de não ser possível no âmbito deste trabalho uma análise exaustiva deste monumental sepulcro, algumas breves referências merecem ser evidenciadas.

O espaço consagrado a este monumento consiste numa gigantesca pirâmide de pedra, em diante da qual se estende uma alameda calcetada, flanqueada por duas fileiras de terra batida, de onde despontam numerosos ciprestes. O terreno, delimitado por um extenso gradeamento, acede-se através da transposição de sete degraus cúbicos. O orientalismo do sepulcro não se limita à sua forma piramidal [18]. De facto, alguns autores, baseados na orientação e racionamento do espaço, falam de uma recriação do Templo de Salomão. “Com uma disposição geográfica que o coloca organizado entre o Ocidente (porta de acesso ao jardim) e Oriente (local onde se encontra o mausoléu), os mortos da família Palmela repousam nesse Oriente Eterno que na simbólica da maçonaria corresponde às zonas do imaginário que integram os maçons falecidos” (Flores, 1992: 74). À entrada da pirâmide, quatro colunas suportam um frontispício em forma de delta, à semelhança dos templos helénicos. Jachin, a coluna direita do Templo de Salomão, posicionada a Sul, encarna o princípio masculino: é apolínica, solar. Boaz, por sua vez, disposta a Norte, é feminina, passiva, regida pela Lua. Assim, na fileira de terra que parte das colunas posicionadas à esquerda, encontram-se sepultadas as mulheres que serviram na Casa Palmela, estando os defuntos servidores de sexo masculino depositados na fila da direita, perto das colunas que simbolizam Jachin. Os investigadores sublinham também a simbologia dos números – os sete degraus para aceder ao jardim, os cinco degraus para entrar no mausoléu, e um duvidoso 3 na chave na mão do Anjo da Morte que encima a pirâmide. Pode apesar de tudo dizer-se que, ainda que algumas ilações pareçam forçadas, e sejam mais um prolongamento da vontade e imaginação dos analisadores, a influência maçónica neste monumento encontra-se bem documentada. Não havendo notícias do ingresso do Duque de Palmela na Maçonaria, a presença do imaginário maçónico neste sepulcro é tradicionalmente atribuída ao seu arquitecto italiano, Cinatti. Moita Flores vai mais longe, considerando que neste jazigo esse mesmo imaginário é revelador de uma lógica de compromisso entre os resquícios de uma mundividência do Antigo Regime e o recente universo liberal (Flores, 1992: 70). Teríamos então patente neste mausoléu, mais do que uma mera leitura política, o simbolismo maçónico enquanto revelador na morte da conciliação de duas cosmovisões distintas.

A alameda calcetada no jazigo da família Palmela é também frequentemente apontada como símbolo intrinsecamente maçónico. De facto, o pavimento dos templos maçónicos é constituído por quadriláteros brancos e negros, que apresentam a dualidade Luz-Trevas; porém, estes jamais se dispõem em posição oblíqua, como neste caso ou no do jazigo n° 1638 (o 12 do Percurso Maçónico) – encontram-se sempre dispostos paralelamente, como representado nos sepulcros n° 6647, 2524 e 6441 (respectivamente, o 26, 29 e o 31 do percurso acima referido). No entanto, resulta impossível determinar se o apontamento axadrezado destes últimos três túmulos se insere intencionalmente na simbólica maçónica, ou não passa de um ditame da Arte Nova sepulcral.

Existem ainda vários outros jazigos que fazem parte do Roteiro Maçónico proposto aos visitantes do Cemitério dos Prazeres. Porém, não nos parece haver qualquer base sólida para figurarem neste percurso. Oito deles são indicados apenas por neles figurar uma estrela de cinco pontas [19]. Ainda que esta se revista de um significado particular para a Maçonaria, uma vez que é símbolo de Perfeição, a manifestação central da luz, a representação do Homem, não é um elemento exclusivo desta organização, e a sua presença isolada não pode ser de alguma forma um indicador seguro de um simbolismo maçónico. Em todos estes jazigos, à excepção do n° 5843 e 6837, a estrela encontra-se em estrita associação com a cruz cristã. Parece fazer muito mais sentido identificar este elemento com a cosmovisão cristã, uma vez que também aqui a estrela se reveste de uma importância significativa – estritamente ligada à simbologia messiânica, esta é a imagem do Messias esperado.

Por fim, não nos parece também correcto relacionar os jazigos 4 e 9 com o ideário maçónico. O primeiro possui quatro patas de leão; o segundo, duas pombas associadas a um triângulo. A simbologia de ambos será explicitada mais adiante neste trabalho, mas mais uma vez é duvidosa uma identificação inequívoca apenas a partir destes elementos.

Por limitações de espaço, não seria possível estudar exaustivamente todos os sepulcros contendo elementos maçónicos. Da lista acima indicada, apenas serão abordados os que mais se adequavam ao objectivo professo do trabalho – a análise de alguns túmulos com elementos maçónicos enquanto veículos de novas sensibilidades perante a morte. Decidimos incluir também o jazigo de Sarah de Mattos, que possui também algum simbolismo pertencente a este ideário, mas não se encontra assinalado neste Percurso elaborado pela Gestão Cemiterial da Câmara de Lisboa.

Breve apontamento sobre os livros de registo do Cemitério dos Prazeres

O propósito original da consulta dos livros de registo cemiterial era o de complementar a informação sobre os jazigos e os indivíduos neles enterrados. Ainda que alguns dos sepulcros analisados pertençam a figuras de vulto do século XIX e inícios do século XX, a maioria destes monumentos contém os restos mortais de elementos que não deixaram qualquer outra marca para a posterioridade para além da sua marca fúnebre. No entanto, a análise do acervo documental deste cemitério providenciou informação tão valiosa para uma leitura da mutação das sensibilidades perante a morte que decidimos incluir um breve apontamento a este dedicado. Foram apenas considerados os registos estudados no âmbito deste trabalho, pelo que será seguramente uma análise muito incompleta; assegura-se deste já que aqui se encontra um terreno fértil de pesquisa, o qual merecerá ser investigado com maior profundidade.

Ao longo de um século e meio de história, alguns campos de entrada nos livros de registos mantiveram-se inalteráveis, nomeadamente os que dizem respeito ao nome do falecido, a sua naturalidade, idade, estado civil, profissão, paróquia/freguesia, causa e data de morte. Encontram-se igualmente sempre presentes durante os diferentes períodos indicações mais específicas ao próprio âmbito cemiterial, como a data de entrada no cemitério, a altura e local de enterramento, a “autoridade que deu o bilhete” e outro tipo de observações. As informações mais relevantes para o estudioso da história das mentalidades encontram-se na forma de preenchimento destes mesmos campos e nas entradas que vão sendo introduzidas ou eliminadas.

Nos livros de registo mais antigos, a informação é mais parca. Para além dos elementos acima referidos, existe apenas mais uma entrada – “Hora determinada para o enterramento depois do falecimento”. Esta mantém-se pelo menos até ao ano de 1911 e é particularmente reveladora do medo da morte aparente. A tafofobia, que se começa a acentuar em meados do século XVIII, vai percorrer todos os estratos sociais, tendo como principal consequência um alargamento do período entre a decretação da morte e o sepultamento. De facto, enquanto se encontram frequentemente nos registos paroquiais indicações de inumações perpetradas no próprio dia, no acervo documental do cemitério o período de espera decretado pelo médico [20] é frequentemente de 24 horas, chegando a 43 horas no caso do Duque de Palmela. Entre as diferentes análises sociológicas para explicar este fenómeno, importa sublinhar a de Philippe Ariès, que defende que o medo da morte se agudizou no plano inconsciente, tomando a forma de tafofobia [21].

Em 1891, foram acrescentadas duas novas entradas: a filiação e a indicação da sua legitimidade. Aqui poder-se-ia ver o convergir de preocupações da organização eclesiástica com as correntes laicas que preconizam a reforma da sociedade: enquanto a primeira indica a ancestral preocupação em relação à ascendência, a segunda demonstra quer a preocupação católica de procriação dentro do casamento, como a legitimação legal do indivíduo perante a sociedade.

A partir de 1907, acrescentaram-se às entradas dos registos, que continham já um campo com “moléstia que causou a morte”, as causas do médico e o nome do médico que declarou o óbito. O registo burocrático assinala assim uma efectiva medicalização da sociedade e uma crença teleológica. A fé inabalável no progresso e na ciência sofre um rude golpe no rescaldo da Primeira Guerra Mundial. Assim, em 1937, estes dois campos tinham já sido eliminados. A estruturação do livro de registo volta a assemelhar-se com os exemplares mais antigos, sendo de assinalar a modificação do campo “Paróquia” para “Freguesia”. Esta modificação assinala o impacto que a Lei de Separação da Igreja do Estado de 1911 teve em termos de organização Estatal. As unidades orgânicas a partir das quais se estrutura a sociedade passam a ser as freguesias e os municípios, deixando o Estado de se servir das habituais divisões em paróquias e dioceses. Importa também assinalar, a partir de 1937, a indicação das agências funerárias no campo “Autoridade que deu o bilhete”. Tal traduz a prática cada vez mais generalizada da família relegar o trabalho de preparação do morto para uma entidade que se propõe para o tratamento de todas as formalidades.

A partir desta época, não se voltam a registar mudanças significativas na organização dos registos, mas o seu preenchimento vai sendo progressivamente mais parco. Em 1988, apenas são completados os campos que dizem respeito ao nome, filiação, morada, os dados concernentes ao cemitério e a entidade que passou o bilhete. É registado o falecimento do defunto no hospital, instituição asséptica onde os indivíduos vão morrer na solidão [22]. A informação relativa ao defunto perde a sua importância, da mesma forma que a sua dolorosa memória vai sendo progressivamente apagada da sociedade.

A emergência de novas sensibilidades perante a morte patenteadas através do simbolismo maçónico

A individualização da morte e o culto familiar: o jazigo da família Magalhães Basto

informação sobre o jazigo e nota biográfica

jazigo 734O jazigo 734 situa-se na rua 27 do cemitério em estudo. O seu titular originário foi António José de Magalhães Basto, que comprou o terreno em 29 de Julho de 1857 por 144$250. A sua propriedade passou para a Câmara em 9 de Agosto de 1924. Os epitáfios do sepulcro assinalam a presença de três defuntos: Maria Thereza, esposa do titular, Maria Amália, sua filha, e António Libânio, seu jovem filho. No livro de registos, porém, apenas se encontram documentados os dois filhos e o proprietário.

Sobre este último foi apenas possível recolher a informação procedente do livro de registo de óbitos e dos próprios epitáfios. Originário de S. Martinho da Trofa, podemos auferir que numa parte da sua vida viveu no Brasil, na província de Pernambuco, onde nasceram os seus dois filhos. Podemos presumir que voltou a casar, uma vez que a data de nascimento do segundo filho é posterior à data de falecimento da sua esposa. Estabelecendo-se a dado ponto em Lisboa, e tornando-se proprietário do Paço do Lumiar, o patriarca da família Magalhães Basto sobreviveu à morte da primeira esposa e dos dois jovens filhos, vindo a falecer a 26 de Setembro de 1889.

Constituição do jazigo

O monumento é constituído por cinco partes. Assente em três degraus encontra-se um cubo maciço de mármore, separado de uma pequena pirâmide por quatro pilares encimados por tochas, dispostos em cada vértice da base quadrangular. No espaço entre estes dois elementos encontra-se uma urna com quatro pés de leão. Uma cruz com uma estrela de cinco pontas no cruzamento dos seus braços encima todo o conjunto. O espaço do sepulcro encontra-se delimitado por um gradeamento em forma quadrangular. Este é constituído por quatro pilares de pedra encimados por pinhas nos vértices do quadrado, que se encontram ligados por uma estrutura de ferro. Cada lado é composto por três unidades de deltas, que se entrecruzam numa cabeça de leão.

Em três das faces do cubo marmóreo existem inscrições epigráficas desgastadas pelo tempo. Na face Este do monumento encontra-se registado o seguinte:

VERBA MEA AURIBUS PERCIPE DOMINE/ PsI V/ AQUI REPOUSÃO US RESTOS MORTAES/ DE/ D. MARIA AMÁLIA DE MAGALHAES BASTO,/ NASCEU NA CIDADE DE RECIFE PROVINCIA DE PERNAMBUCO/ EM 28 DE SETEMBRO DE 1841/ E FALECEU EM LISBOA A 22 DE OUTUBRO DE 1861/ FLOR CEIFADA EM BOTÃO NA MANHÃ DA VIDA DEIXOU/ COPIOSA HERANÇA DE JUSTAS SAUDADES./ ATTENDEI SENHOR AS PRECES ANGUSTIOSAS DO PAE, COMO/ DEVEIS TER ACOLHIDA A INNOCENTE ALMA DA FILHA. A face Norte, que se encontra de frente para o visitante, reza: AQUI JAZ/ MARIA THEREZA DE MOURA MAGALHAES BASTO/ NASCEU/ NA CIDADE DE PERNAMBUCO AOS 12 DE OUTUBRO DE 1807/ FALECEU/ EM LISBOA (A)OS 15 DE NOVEMBRO DE 1856/ ULTIMA HOMENAGEM D’AMOR E SAUDADE/ QUE/ LHE CONSAGRA SEU ESPOSO/ ANTONIO JOZE DE MAGALHAES BASTO. Por último, na face virada para Ocidente, encontra-se o seguinte apontamento: AQUI JAZ/ ANTONIO LIBANIO DE/ MAGALHAES BASTO/ NASCEU A 6 DE SEPTEMBRO/ DE 1858/ NA CIDADE DE RECIFFE CAPITAL DE/ PERNAMBUCO/ MORREO EM/ LISBOA A 6 DE ABRIL/ DE 1860.

Leitura global do monumento

Aparentemente, este monumento, ainda que simbolicamente muito rico, parece não conter em si nenhuma ideologia maçónica. Apenas a sua leitura global revela o universo conceptual em que foi realizado.

De facto, o espaço configurado por este sepulcro pretende emular a Jerusalém celeste, a cidade divina idealizada para onde o maçon se dirige após a sua morte terrena. A sua forma quadrangular permite um relacionamento com o Tetragrama divino [23]; o seu gradeamento, dividido em doze partes iguais, simboliza as doze portas desse mesmo Oriente Eterno. Em cada uma delas se encontra consagrada a cabeça do leão, animal psicopompo destinado à vigilância do espaço. As quatro pinhas que se encontram nos vértices do quadrado sublinham a ideia de imortalidade veiculada por todo o conjunto.

Em todo o monumento predominam as formas quadrangulares e triangulares, símbolos respectivamente da terra e do fogo. A urna encontra-se entre a matéria e o espírito, servindo de mediação entre as duas esferas de existência, o divino e o profano, o mundo dos vivos e dos mortos. Os três degraus acentuam esta ideia, reportando para a simbologia da Escada de Jacob. Ligação entre o Céu e a Terra, esta escadaria representa também o progresso espiritual e o caminho percorrido por cada maçon.

É na parte superior do monumento que iremos encontrar maior profusão de simbologia maçónica – os três deltas inscritos em cada lado da pirâmide, reportando mais uma vez para a simbologia do número 12 (doze signos do Zodíaco, doze meses do ano, doze tribos de Israel.) e a estrela de cinco pontas em alto relevo no cruzamento dos dois braços da cruz. Simbolizando o Homem no esplendor da sua perfeição, a estrela vai posicionar-se no Centro de todos os referenciais de orientação, no Centro da Glória Eterna.

Através de todos estes referentes simbólicos, manifesta-se o despontar de uma sensibilidade diferente perante a morte. A sociedade burguesa dos finais do século XVIII afirma uma organização em famílias nucleares, onde se estreitam os laços entre parentes. O confronto com a morte de um ente querido altera-se radicalmente, começando a parecer insuportável, e originando grandes manifestações de pesar [24]. Philippe Ariès irá mesmo catalogar este período num referencial tanatológico como a morte do outro (Ariès, 1989: 43-54). Cada um dos epitáfios demonstra desolação pela separação da pessoa amada. A mais pungente e comovedora destas anotações consiste naquela dedicada à filha – a morte mais lamentada neste período é a que colhe os jovens promissores, outrora plenos de vitalidade. É igualmente importante assinalar o apontamento dedicado ao jovem filho. Numa época onde grassava abundantemente a mortalidade infantil, revela-se extremamente difícil encontrar um epitáfio que assinale a existência de uma criança de tão tenra idade. Estes raros testemunhos evidenciam porém a germinação de uma nova sensibilidade perante a morte infantil, e no geral, uma nova atitude manifestada pela família no confronto do falecido.

A morte romântica: o jazigo de Joaquim Geadas

Informação sobre o jazigo e nota biográfica

Este jazigo situa-se no cruzamento da rua 19 com a rua 8 do Cemitério Ocidental. O primeiro titular do jazigo foi João António Dias, que efectuou a sua compra a 6 de Maio de 1850. No entanto, a sua concessão sofreu quatro alterações: José d’Almeida Belém em 1890, Leonarda Lemos em 1892, Maria José de Lemos em 1902, e Maria Arsénia Geadas em 1917. Depois desta data foram efectuados três sepultamentos, entre os quais o de Joaquim Geadas, havendo indicação de cinco inumações anteriores.

Tudo leva a indicar que o universo maçónico se encontre associado à figura de Joaquim Geadas, o nome que se encontra gravado na pedra. Sobre ele foi apenas possível apurar que era empregado de comércio, e que faleceu a 26 de Junho de 1917.

Constituição do jazigo

O sepulcro é constituído por três partes. Sobre uma base paralelepipédica orientada na vertical ergue-se uma coluna, encimada por três romãs. A meio da coluna encontra-se a seguinte inscrição:

JAZIGO/ À MEMÓRIA DE/ JOAQUIM GEADAS/ FALLECIDO EM 26-6-917/ SUA MÃE/ MARIA GEADAS. Na sua base, encontra-se ainda um apontamento de teor poético: OH SOMBRA, OH SAUDOSA SOMBRA!/ LÁ DO LÚGUBRE LUGAR/ ESCUTA TERNOS SUSPIROS/ QUE TE VIMOS TRIBUTAR. Nos arabescos gravados sob este epitáfio, encontra-se dissimulado um triângulo com três pontos nos seus vértices.

Leitura global do monumento

Através da simbologia maçónica, este jazigo deixa antever uma sensibilidade romântica perante o confronto com a morte. Esta é configurada na modesta representação de uma coluna do templo de Salomão, componente fundamental na arquitectura de qualquer loja maçónica.

De facto, ainda que admitindo a influência de cultos mistéricos e iniciáticos consideravelmente mais antigos, muitos autores consideram que a Maçonaria nasceu com a construção do templo de Salomão, no século X a.C. Embora não havendo qualquer confirmação histórica para este mito, entendido essencialmente de forma alegórica, este é reclamado como referência fundacional por nas suas premissas conter as bases estruturais fundamentais nas quais a Maçonaria se irá basear ao longo dos tempos [25].

Revestem-se então de particular significado as duas imponentes colunas estabelecidas na entrada deste mítico Templo. Etimologicamente, estas encontram-se associadas à ideia de solidez, estabilidade (Jachin), e de força (Boaz) [26]. A tradição hermética associa Jachin com o princípio activo, masculino e inventivo, com a razão, com a ideia de fecundação – é a coluna apolínica e solar. Por sua vez, Boaz encontra-se relacionado com o princípio feminino e passivo, a compreensão, emotividade e imaginação, com a ideia de concepção e gestação. O seu símbolo alquímico por excelência é a Lua, o astro que reflecte a claridade do Sol.

Por se encontrarem revestidos de significados tão diversos, vale a pena reflectir qual das colunas se encontra representada neste monumento. Normalmente, estas distinguem-se pela sua posição e cor [27], mas estas referências são inúteis neste caso, onde existe apenas uma coluna e esta não se encontra pintada. No entanto, existe toda a probabilidade que esta simbolize Jachin, o princípio masculino e activo. Por uma feliz coincidência, a etimologia do nome Joaquim corresponde à da própria coluna: Jehoiakim (Jeho+Yakim), derivado da mesma raiz hebraica, significa o “elevado de Deus”, ou “Jeová levantado”

Um pequeno detalhe dissimulado nos arabescos que se encontram na base da coluna atenta para o requinte e pelo gosto pelo pormenor maçónicos, que devem ser observados com extrema atenção por parte do investigador. O delta com três pontos nos seus vértices simboliza uma concepção trinitária, como avançado anteriormente, podendo significar liberdade, igualdade e fraternidade; sabedoria, força e beleza; luz, trevas e tempo, etc.

A inscrição que se encontra na base da coluna permite antever a sensibilidade romântica que invadia os entes próximos a Joaquim Geadas. O romantismo ávido de intensidade e de emoções fortes encara a morte como o derradeiro mistério, como algo que pertence ao domínio do inescrutável. Esta é encarada como evasão, repouso, refúgio. O confronto com a morte do outro reveste-se de enorme nostalgia, por vezes mesmo de demonstrações excessivas e desmesuradas de consternação e pesar. O sono eterno de Joaquim Geadas foi encarado com uma enorme dose de melancolismo por parte dos que lhe eram próximos. A quadra que os seus entes queridos lhe dedicaram condensa em quatro linhas toda uma sensibilidade que incendiou a Europa ao longo do século XIX, a vivência de milhares de pessoas que não se coadunavam com uma realidade racionalista e positivista, que advogava a supremacia do Sentimento no confronto com a Razão.

A ostentação de uma ideologia: os jazigos de Jozé Joaquim de Almeida Moura Coutinho e Joaquim José Cardoso Neves

O jazigo de Joaquim José de Almeida Moura Coutinho

Informação sobre o jazigo e nota biográfica

O túmulo de Joaquim José de Almeida Moura Coutinho encontra-se localizado na rua 14 do Cemitério dos Prazeres, entre as ruas 43 e 25. A indicação no epitáfio afirma que o túmulo teria sido oferecido pelos seus amigos. Nestes casos, usualmente, a concessão do jazigo pertence aos irmãos maçons que o mandaram construir, mas nesta situação a titular é Mariana Cândida Moura Coutinho, uma dos seus 8 filhos. Encontram-se sepultadas 13 pessoas, entre as quais a sua esposa, alguns dos filhos e pelo menos uma neta.

José Joaquim de Almeida Moura Coutinho foi uma das figuras mais proeminentes da Maçonaria portuguesa durante o período cabralista. Nasceu no Porto a 5 de Janeiro de 1801, onde aderiu à causa liberal. Combateu na guerra civil, onde a gravidade dos ferimentos o forçou a amputar uma perna. Bacharel em Leis pela Universidade de Coimbra, exerceu funções de juiz nas Relações dos Açores e Lisboa, e foi deputado de 1843 a 1846. Homem ligado às leis, adoptou o nome simbólico de Licurgo, o mítico legislador espartano, na altura da sua iniciação. Esta concretizou-se na loja União Açoreana de Ponta Delgada, filiada no Grande Oriente Lusitano. Foi o segundo maçon português a ascender ao grau 33 do Rito Escocês Antigo e Aceite, que lhe foi conferido por Costa Cabral em Maio de 1842. Participou no Supremo Conselho desde a sua constituição, em 1844, onde obteve os cargos de Soberano Grande Comendador Lugar-tenente (1849-1854) e de Soberano Grande Comendador (1854­1861). Em 1849, na sequência da crise que seguiu as eleições gerais ao cargo de Grão- Mestre do Grande Oriente Lusitano, encabeçou a facção anti cabralista (Marques, 1986, vol. II: 98-99). O triunfo da Regeneração em 1851 foi favorável a este grupo, que entretanto adoptara o nome de Grande Oriente de Portugal. Moura Coutinho desempenhou a função de Grão-Mestre desta organização entre 1853 e 1861. A sua dirigência foi marcada pela sua inflexibilidade e autoritarismo, “o que teria afastado muitos obreiros e impedido um crescimento normal da sua Obediência” (Marques, 1986, vol. II: 98-99). Veio a falecer a Lisboa em 15 de Outubro de 1861, com 60 anos. Entre as suas numerosas publicações sobre justiça, administração pública, política e história contemporânea, destacam-se os Cathecismos referentes aos graus 1 a 7 e o Manifesto do Ir. Lycurgo. Gr. Insp. Geral da Ordem dos Franco-Maçons em Portugal [28].

Constituição do jazigo

O monumento é constituído por 5 partes. Encima o conjunto uma águia bicéfala com o número 33 inscrito no peito. Esta apoia-se numa secção de um prisma pentagonal onde se encontram esculpidos um esquadro, um compasso, uma fita, um martelo e uma coroa de louros. A secção encontra-se suportada por um tronco piramidal com um brasão inscrito, que se encontra sobre dois troncos paralelepipédicos de diferentes tamanhos, com duas inscrições distintas na parte frontal do monumento.

A primeira inscrição reza o seguinte:

À MEMÓRIA/ DO/ CONS.JOZÉ JOAQUIM DE ALMDA MOURA COUTINHO/ OFERECEM OS SEUS AMIGOS/ 1862. Posteriormente, foi acrescentada uma outra inscrição, referente à neta do magistrado: CLAUDINA R. DE A. P. MOURA COUTINHO/ NASCEU A 26-10-1897/ FALECEU A 28-3-1950/ SAUDADE ETERNA DE SUA MÃE.

Leitura global do monumento

Neste túmulo, a importância do conteúdo ultrapassa largamente o da sua forma. O pentágono que encima o monumento pode ser decomposto em duas figuras, triângulo e quadrado, remetendo para a união entre o espírito e a matéria, entre os elementos fogo e terra. Pode também ser relacionado com o simbolismo inerente ao número 5, relacionado nas mais diversas cosmogonias com a perfeição, o Homem, o universo, a vontade divina. No entanto, a mensagem veiculada por este jazigo reside nos elementos ostentatórios que exibe.

A águia bicéfala que encima o monumento, sobre a qual já foi explicitado o significado, é o emblema do Supremo Conselho do Grau 33, o mais alto cargo do Rito Escocês Antigo e Aceite, a que Joaquim de Moura Coutinho pertencia. Sob este símbolo encontram-se um esquadro e um compasso entrecruzados, conjugados com outros elementos. Primeiramente, tal poderá induzir o investigador em erro, uma vez que usualmente estas figuras conjugadas representam o grau de companheiro, que se encontra num estado onde o espírito (compasso) se encontra em equilíbrio com a matéria (esquadro). Porém, a pesquisa mais profunda revelará que a associação destes símbolos ao maço e à coroa de louros representam o Grande Oriente de Portugal, a grande loja da qual Joaquim de Moura Coutinho foi Grão-Mestre.

No dizer de Oliveira Marques, “O Supremo Conselho (.) não tinha, ao tempo, grande significado. O número de lojas do Rito era pequeno e os maçons pertencentes aos altos graus em escasso número. A grande maioria das oficinas do G.O.L. continuava a trabalhar no Rito Francês. (.) Isso não impediu que os “irmãos” decorados com o grau 33 e, provavelmente, com outros graus ao 18, se exibissem ostentando as respectivas insígnias sempre que podiam.” (Marques, 1986, vol. II: 82). Para Joaquim de Moura Coutinho, a exibição adquiriu uma importância tal que devia ser perpetuada no seu jazigo. De facto, tudo neste monumento é ostentação. Desde o brasão familiar, que sublinha as origens nobiliárquicas, aos emblemas do G.O.P. e do Supremo Conselho do Grau 33, tudo neste sepulcro transmite a ideia de autoridade. As preocupações escatológicas encontram-se totalmente ausentes deste jazigo; o discurso tanatológico encontra-se orientado numa lógica de exibição de poder, sacrificando para isso todos os referenciais tradicionalmente associados à ideia de morte. O que importa sublinhar é a vida, e não a morte; o Homem vale pela memória que deixa, pela imagem que transmite à posterioridade. Ainda que não exista nenhuma referência que abertamente aponte para a existência de um anticlericalismo, a ausência de qualquer iconografia cristã e a ênfase na posterioridade preconizam claramente, em 1862, alguns indícios que apontam para um processo de laicização da sociedade e da própria Maçonaria.

O jazigo de Joaquim Neves

Informação sobre o jazigo e nota biográfica

O jazigo n° 3971 localiza-se no cruzamento da rua 7 com a rua 12 do Cemitério dos Prazeres. O seu primeiro titular foi Joaquim José Cardoso Neves, que efectuou a compra em 13 de Setembro de 1893 por 53$460, destinando-o unicamente a si e à sua mulher. Em 1909, a concessão do jazigo passou para Sancho de Jesus Cardoso Ai e Archimedes de Jesus Cardozo Homem. O jazigo foi ainda averbado em 1969 por Arquimedes Monteiro Cardoso Ai. Os restos mortais de 2 senhoras da família Cardoso Ai foram depositados em 1947 e 2007. Sobre o titular original não foi possível obter qualquer informação, por o livro referente ao seu registo de óbito se encontrar actualmente para restauro.

Constituição física

O sepulcro consiste num enorme prisma trapezoidal encimado por um frontispício em forma de delta, enquadrado na sua parte inferior por um friso com motivos espiralóides.

Na parte da frente do monumento, orientada a Sul, encontram-se gravados três degraus que desembocam na representação de uma porta arredondada, e que se encontra ladeada por 2 pequenas janelas compostas por três círculos. A porta contém uma inscrição em alfabeto maçónico, cuja tradução é a seguinte

À/ MEMORIA/ SAUDOSA DE MINHA/ QUERIDA, ESTREMOSA/ ESPOSA,/ ADELAIDE BAPTISTA MEVES/ NESCEU A 27 DE AGOSTO/ DE 1858/ VIVEU 33 ANNOS, 2 MEZES,/ E 19 DIAS/ FALLECEU A 15 DE NOVEMBRO/ DE 1891/ MANDADO ERIGIR/ POR SEU MARIDO/ JIAQUIM JOSE CARDOSO NEVES/ EM 16 DE NOVEMBRO DE 1894/ PAZ, A TUA ALMA.

Leitura global do monumento

Para o viandante, este túmulo é possivelmente um dos mais enigmáticos em todo o Cemitério dos Prazeres. Devido ao facto de a cifra Pig Pen ser relativamente pouco conhecida, não serão muitos os que são sequer capazes de relacionar este mausoléu com o universo maçónico.

Nenhuma leitura de particular interesse pode ser feita em relação à forma do jazigo. Pelo seu frontispício em delta, o monumento reporta a um templo grego, o qual porém não é sustentado por quaisquer colunas. Os três degraus numerados encontram-se também relacionados com o imaginário maçónico e a toda a simbologia inerente ao número três, (desde os graus da Ordem, passando pela idade dos Aprendizes e o número de Luzes da Loja). Neste caso, no entanto, a escadaria não representa a mediação entre o céu e a terra, porque desembocam numa porta permanentemente selada.

No entanto, o factor realmente fundamental neste sepulcro é a utilização de um alfabeto diverso. Usualmente, as cifras são utilizadas para encriptar informação que não pode ser acessível a todos, mas apenas aos que tiverem a chave para a decifrar. É por isso natural que imediatamente se pense que um segredo se deve esconder por trás de tão enigmáticos glifos. Porém, a sua tradução é quase desapontante. O epitáfio não passa de uma sentida homenagem de um maçon à sua esposa, um comum lamento que em pouco difere de todos os outros que o rodeiam. Qual então a necessidade de o redigir num alfabeto diverso?

Na nossa leitura, a explicação mais plausível na interpretação deste facto é que a cifra Pig Pen represente a ostentação de uma ideologia a poucos reservada. A ideologia do túmulo reporta para a ideia do segredo maçónico, de algo apenas acessível aos iniciados. Apresenta um caso de autodefinição e autodescoberta pela exclusão do Outro. A Maçonaria apresenta-se assim como uma comunidade identitária, que enche de sentido uma existência de tal forma que exclui a necessidade dos habituais referenciais escatológicos.

A morte enquanto expressão de anticlericalismo: o jazigo de Sarah de Mattos

Informação sobre o jazigo e nota biográfica

jazigo 4150Este sepulcro localiza-se no cruzamento da rua 12 com a rua 6A deste cemitério. O seu titular é José Joaquim da Silva Graça, na qualidade de Administrador do Jornal “O Século”. Comprou-o a 1 de Outubro de 1895, pela quantia de 23$000. Sarah foi aqui sepultada cinco anos após a sua morte, a 26 de Julho de 1896. No âmbito do projecto de Divulgação e Valorização Cultural desta necrópole, este jazigo foi qualificado na categoria da História do Cemitério.

Sara Pereira Pinto De Matos nasceu em Lisboa, filha de Domingos Martins e de Domília Mattos. Perdendo os pais em tenra idade, foi internada aos 14 anos de idade no Convento das Trinas, com o consentimento do seu tutor – Dr. José Pereira Goulão, 2.° oficial do Ministério da Justiça. Adoeceu gravemente ao fim de poucos dias de internamento, morrendo a 23 de Julho de 1891 sem qualquer assistência médica. Ainda que a causa de óbito que se encontre registada seja síncope, cedo se começaram a espalhar os rumores de envenenamento. A autópsia veio a confirmá-los, bem como a perpetração de uma violação. O caso apaixonou a opinião pública da época. A campanha é instigada pelo jornal “O Século”, pelo seu director Magalhães Lima e redactor Luís Judicibus, que lhe chegam mesmo a subscrever um jazigo mais digno das múltiplas romarias de que era alvo. Sarah torna-se o baluarte do anticlericalismo português, mas é também chorada por uma larga camada popular, cada vez mais desiludida com o modelo de governação vigente.

Constituição física

O monumento consiste numa lápide de mármore, dividida em duas partes através de uma divisória horizontal. A parte de cima é constituída por um pentágono, onde se encontra representada em grande plano uma pomba a debicar uma roseira. Por cima da pomba encontra-se um pequeno triângulo radiante, com um esquadro, um compasso e um olho inscritos. No resto da laje, encontra-se representada uma coroa de flores, nomeadamente a flor do maracujá e a alcachofra, de onde pende um laço. Por baixo, encontra-se a seguinte inscrição:

AQUI JAZ/ SARAH DE MATTOS/ FALLECIDA NO CONVENTO DAS TRINAS/ A 23 DE JULHO DE 1891/ POR SUBSCRIPÇÃO PÚBLICA NO JORNAL “O SÉCULO”/ O POVO LIBERAL DE LISBOA. Uma placa foi acrescentada posteriormente, onde reza: REMEMORANDO/ FAZ HOJE 20 ANNOS SARAH/ QUE DEIXASTE DE EXISTIR VÍCTIMA/ D’UM ABOMINÁVEL CRIME!/ HÁ 20 ANNOS QUE MÃOS PIEDOSAS AQUI VEEM EM ROMARIA/ JUNGAR DE FLORES A TUA CAMPA COMO PREITO DE SAUDADE/ MAS ESTE ANNO É O MAIS SOLEMNE POR SER O DA TUA GLORIFICAÇÃO/ SIM! JÁ FORAM EXPULSOS OS JESUÍTAS! E COMO TRIUMPHO AOS TEUS MARTYRIOS AQUI TE DEPOMOS/ DESCANÇA EM PAZ! ESTÁ VINGADA A TUA MORTE!/ DOS TEUS IRMÃOS CÉLLIA E REYNALDO

Leitura geral do monumento

Este túmulo encontra-se envolto numa das polémicas que mais agitou a opinião pública nos últimos anos do século XIX, e que fez correr largos rios de tinta na imprensa da época. A figura de Sarah de Mattos transformou-se no eixo em volta do qual se reuniu a indignada causa anticlerical, ao mesmo tempo que se tornou também objecto de uma curiosa e interessantíssima devoção popular.

O monumento encontra-se profuso de simbologia maçónica, que ganha um significado ainda mais profundo quando relacionado com toda a controvérsia que na época se viveu. A forma pentagonal da lápide superior remete mais uma vez para a união do espírito com a matéria, para o número cinco enquanto símbolo do Homem e da perfeição. Mas o seu conteúdo é consideravelmente mais significativo. Em plano principal, destacado em alto-relevo, uma pomba debica uma roseira. A pomba é sinónimo de pureza e virgindade; a rosa, símbolo místico riquíssimo em significados, representa neste contexto o sangue derramado. O conjunto é uma alegoria que simboliza Sarah, a jovem e pura virgem que derrama o seu sangue vítima da hedionda organização eclesiástica. Mais abaixo, uma coroa de flores incorpora três alcachofras e duas flores de maracujá. Mais uma vez é vincada a ideia de sofrimento, veiculado pelo símbolo por excelência da paixão de Cristo [29]. Os elementos maçónicos, constituídos por um delta radiante que engloba um esquadro, um compasso, e um olho, pretendem assinalar o seu papel activo na luta da sociedade liberal contra a tirania da Igreja.

Tal foi a comoção que a figura desta jovem menina, violada e assassinada às mãos desse terrível leviatã, que o epitáfio posterior recorda 20 anos de permanentes romarias. Congratula-se ainda pela vitória liberal que assinalou a Lei de Separação da Igreja e do Estado em 1911, em consequência da qual foram expulsos os jesuítas. A vingança encontra-se finalmente perpetuada: a baleia branca não voltará a fazer as suas vítimas, Sarah pode finalmente descansar em paz.

Conclusão

O advento do iluminismo na Europa veio provocar uma profunda mudança no seio da sociedade ocidental. Perante a impossibilidade higiénica de continuar a efectuar o enterramento ad sanctus, cada Estado moderno foi confrontado com um desafio: o tratamento dos seus defuntos. Enquanto nas nações do Norte da Europa optam por soluções mais modestas, o cemitério-jardim, as civilizações latinas vão optar por uma paisagem de pedra, pela ostentação, pela transmissão de uma mensagem através da morte. O romantismo veio adicionar uma quantidade de novas respostas ao problema da morte, onde se assiste a uma maior emotividade e comoção.

A todas as diferentes soluções arquitectónicas que vão manifestar estas diferentes mundividências, vão também somar-se os factores de crescente laicização da sociedade, que se manifesta num abandono significativo de referenciais cristãos e na heroicização de vultos de grande importância para a sociedade.

O simbolismo maçónico será um veículo de transmissão de todas estas novas sensibilidades perante o confronto da morte. Os jazigos do Cemitério dos Prazeres que recriam este imaginário deixam testemunhos de humildade, imponência, ostentação, piedade, romantismo ou anticlericalismo. Porém uma questão se impõe – muito poucos são os maçons que incluem na sua última morada os símbolos da conduta que os guiou durante a vida. Mesmo alguns Grão-Mestres da Maçonaria Portuguesa, como Rodrigo da Fonseca Magalhães, ou António da Costa Cabral, recusam a inclusão deste ideário no seu sepulcro. A esmagadora maioria dos maçons não vai transpor a sua linguagem simbólica para o discurso escatológico, seja pela preferência de outros referenciais, ou por imposição familiar ou social. No fundo, no confronto com o derradeiro mistério, são muitos os que encontram maior segurança no refúgio nos cânones tradicionais, que não se encontram dispostos a danar a sua alma eternamente devido a um mero capricho da sua efémera existência.

Dânia Rodrigues – Licenciada em Arqueologia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Fonte: PDF encontrado na Internet

Notas

[2] Ideia recorrente ao longo da obra de Vovelle, 2000.

[3] Veja-se, a título de exemplo, como a ruptura populacional resultante da Peste Negra que assolou a Europa em 1348 se encontra em estreita relação com o despontar do fenómeno de La Danse Macabre.

[4] Será neste ano que se verão concretizados os esforços precursores de Ribeiro Sanchez, José Alvarez da Silva, Manuel Joaquim de Paiva, José Anastácio da Cunha, Pina Manique, entre outros.

[5] Cemitério dos Prazeres e Cemitério do Alto de S. João.

[6] Decretos de 27 de Setembro e de 8 de Outubro de 1835.

[7] Passerano elabora mesmo uma colectânea de reflexões pessoais sobre este assunto, em Philosophical Dissertations Upon Death.

[8] A preocupação com a individualidade no plano tanatológico pode aferir-se no art° 5° do Decreto promulgado por Rodrigo da Fonseca Magalhães em 27 de Setembro de 1835, o qual estipulava: Cada corpo será enterrado em cova separada, a qual teria pelo menos cinco palmos de profundidade e à distância de palmo e meio das outras covas”. Flores, 1993: 28.

[9] Erradamente, a afirmação de Zaratustra que o Estado era “o mais frio de todos os monstros” tem induzido à interpretação de Nietzsche como anarquista. Como Karl Jaspers sublinha, a ambiguidade de Nietzsche é de tal ordem que “a maioria dos partidos pode abrigar-se detrás da sua autoridade: ateus e crentes, conservadores e revolucionários, socialistas e individualistas, sábios metódicos e sonhadores, homens políticos e apolíticos, espíritos livres e fanáticos”. Medina, 2004: 23.

[10] Em Portugal, a longa controvérsia que se gerou em torno do Panteão Nacional, resolvida apenas em 1916, atesta o quão efémero e volúvel pode ser o culto da memória.

[11] Ideia recorrente ao longo da obra de Vovelle, 2000.

[12] Ideia recorrente ao longo da obra de Elias, 2004.

[13] Esta indicação encontra-se bem visível, inscrita no lado direito de cada monumento.

[14] O triângulo isósceles corresponde ao fogo, o escaleno à água, o rectângulo ao ar e o equilátero à terra.

[15] Nicola Aslan, cit. por Lemos (a): 7.

[16] Esta ideia encontra-se patente na tradição cabalística, onde a coluna liga a última séfira (a terra) à sexta (o céu).

[17] 17 A romã representaria a família maçónica universal, onde os seus grãos, “reunidos numa polpa transparente, simbolizam os maçons unidos entre si por um ideal comum”. Cit. por Pinto, 2007: 102.

[18] Importa assinalar que desde as invasões Napoleónicas ao Egipto, e da subsequente decifração da Pedra da Roseta, as classes abastadas da Europa se encontravam consumidas por uma delirante egiptomania. O Duque de Palmela, nascido em Turim, sede do maior museu egípcio europeu, seguramente assimilou este imaginário desde muito cedo.

[19] São eles os números 14, 21 (6179), 23 (5843), 24 (6837), 27 (3018), 28 (5885) e 32 (1408) do Roteiro Maçónico.

[20] A concepção médica difundida de vários estádios da morte, os primeiros dos quais poderiam ser reversíveis, originou a crença que a morte de um indivíduo só se poderia estabelecer com certeza quando este apresentasse indícios de putrefacção. Em nome da higiene e saúde públicas, os médicos foram forçados a impor a sua autoridade para não deixar que o período de espera se prolongasse até este extremo.

[21] Ideia recorrente ao longo da obra de Ariès, 1989.

[22] Ideia recorrente ao longo da obra de Elias, 2004.

[23] Na tradição hebraica, o Nome da divindade é impronunciável. Constituído pelas letras iod, he, vav e he, convencionou-se que Deus deveria ser referido como Yahweh, aquele que é. Cada elemento que constitui a palavra possui uma complexa simbologia, e é objecto de profunda reflexão por parte da vertente mística do judaísmo, a Cabala. Dispostas no Tetragrama, as quatro letras representam assim o Divino.

[24] Importa assinalar que a dor desmedida no confronto da morte de um ente querido comporta em si laivos de secularização – o bom cristão chora a morte, mas não demasiado, uma vez que o falecido conhece agora o esplendor da glória de Deus.

[25] Reza o mito da construção do Templo de Salomão que foi este foi construído ao longo de sete anos por 100 000 operários, entre os quais 8000 pedreiros. Hiram, o arquitecto do projecto, dividiu-os em três categorias – aprendizes, companheiros, e mestres. Por recusar transmitir a palavra e os sinais próprios do último grau a três companheiros que pretendiam ascender ao nível superior, foi barbaramente assassinado por estes. Com o mestre Hiram foi enterrada a palavra perdida, que os maçons procuram deste então, constituindo esta a essência do segredo maçónico.

[26] Traduzido literalmente, Boaz significa “nele a força”; Jachin, decompõe-se em duas palavras – Jah, “Jeová” e Iachin, “o que estabelece”. Uma interpretação entre muitas para a conjugação das duas seria: “Deus estabeleceu na força, solidamente, o templo e a religião de que ele é o centro” – Crampon, cit. por Chevalier e Gheerbrant, 1994: 211-213.

[27] No Rito Escocês Antigo e Aceite Jachin encontra-se colocada à esquerda e Boaz à direita da entrada no Templo; no Rito Francês, estão posicionadas de forma oposta. Jachin encontra-se sempre associada ao vermelho, e Boaz ao branco.

[28] Manifesto do Ir. Lycurgo. Gr. Insp. Geral da Ordem dos Franco-Maçons em Portugal. Obra cit. por Marques, 1986 ou 1997?, vol. II: 76-214.

[29] Coroa de espinhos, cinco chagas e três espigões.

Bibliografia

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  • MEDINA, João – De Homero a Kafka, passando por Cervantes e Nietzsche: grandes mitos do imaginário cultural europeu. CLIO – Nova Série. XI, 2004.
  • MORIN, Edgar – O Homem e a Morte. Lisboa: Ed. Europa América, 1970.
  • POIRIER, Jean (dir.) – História dos Costumes – Códigos e Modelos. Lisboa: Editorial Estampa, 2001. Vol. VI.
  • SOZZI, Marina – Dispense di Tanatologia Storica, 2006/7. Fotocópias cedidas pelo autor.
  • THOMAS, Louis Vincent – O Homem e a Morte. In História dos Costumes – Códigos e Modelos. Lisboa: Editorial Estampa, [s.d.]. Vol. VI.
  • VOVELLE, Michel – La morte e l’ Occidente. Dal 1300 ai giorni nostri. Bari: ‘Ed. Laterza, 2000.

O simbolismo maçónico:

  • ASLAN, Nicola – Grande Dicionário Enciclopédico de Maçonaria e Simbologia. Rio de Janeiro: Editora Artenova, 1974.
  • BLUNT, Anthony – Blake’s ‘Ancient of Days’: The Symbolism of the Compasses. Journal of the Warburg Institute. London: The Warburg Institute. Vol. 2, n.° 1 (Jul. 1938).
  • BOURDIEU, Pierre – O Poder do Simbólico. Lisboa: Difel, 1989.
  • CHASSAGNARD, Guy – Petit Dictionnaire de la Franc-Maçonnerie. Paris: Éditions Alphée,
  • CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain – Dicionário dos símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. Lisboa: Teorema, 1994.
  • LEMOS, Fernando; CORTINHAS, Ana Lúcia; MOREIRA, André (a) – Leitura Simbólica do Túmulo da Família Santos Monteiro – Jazigo 124 do Cemitério Oriental de Lisboa. Fotocópias cedidas pelos autores.
  • LEMOS, Fernando; CORTINHAS, Ana Lúcia; MOREIRA, André (b) – O Túmulo de José Elias Garcia no Cemitério Oriental de Lisboa. Fotocópias cedidas pelos autores.
  • LIGOU, Daniel – Dictionnaire de la Franc-Maçonnerie. Paris: ed.Ruf, 1987
  • MELLOR, Alec – Dicionário da Franco-Maçonaria e dos Franco-Maçons. Paulo: Liv. Martins Fontes Editora, Lda, 1989.
  • PINTO, M. J. – Do meio-dia à meia-noite – compêndios maçônicos do Primeiro Grau. S. Paulo: Madras Editores, 2007.
  • REGHINI, Arturo – Escritos sobre a Maçonaria. Lisboa: Hugin Editores, 2002.
  • WIRTH, Oswald – O simbolismo hermético na sua relação com a Franco-Maçonaria. Lisboa: Hugin Editores, 2004.
  • ZEFERINO, Joaquim; SANTOS, Manuel – Com a Maçonaria não se brinca! Lisboa: Hugin Editores, 1999.

Os maçons portugueses:

  • ARNAUT, António – Introdução à Maçonaria. Coimbra: Fora do Texto, 2006.
  • CARVALHO, António – No tempo em que a pedra era linda. Ano XXIV (III serie), n.° 46 (Junho 2002).
  • DIAS, Graça; DIAS, João – Os Primórdios da Maçonaria em Portugal. Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica, 1986. Vol.II, tomo II.
  • DIAS, João José – Levantar templos à virtude. História. Ano XXIV (III Série), n.° 46 (Junho 2002).
  • FERREIRA, António Matos; CLEMENTE, Manuel (coord.) – História Religiosa de Portugal. Lisboa: Círculo de Leitores, 2000. Vol. III.
  • FLORES, Francisco Moita – Jazigo da família Palmela: Uma simbólica do Antigo Regime e da Ordem Maçónica. História.° 152 (Maio 1992).
  • GRAINHA, Manuel Borges – História da Maçonaria em Portugal. Lisboa: Tip. A Editora, Lda., 1912. Reedição na Editorial Veja.
  • MARQUES, A. H. Oliveira – Dicionário da Maçonaria em Portugal. Lisboa: Ed. Delta, 1986. 2 vols.
  • MARQUES, A.H. Oliveira – História da Maçonaria em Portugal. Lisboa: Editorial Presença, 1997. 3 vols.
  • MEDINA, João (dir.) – História Contemporânea de Portugal. Lisboa: Amigos do Livro/Multilar, [1986-1990]. Vols. III e IV.
  • MEDINA, João (dir.) – História de Portugal. Lisboa: Ediclube, 1993. Vol. IX.

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