A Transmissão Maçónica

Conceito da transmissão em Maçonaria

Centre de Liaison International de la Maçonnerie Féminine

A palavra transmissão deriva de transmitir, ou seja, realizar com êxito. Ela é constituída pelo prefixo “trans” que significa o desfilar das mediações, o esforço e a viagem, dito de outro modo: realizar com êxito. Não há movimento sem os órgãos de transmissão que não pode ser feito sem o imediatismo. Quanto à palavra tradição, ela vem do latim “tradere” que quer dizer transmitir. Assim, Transmissão e Tradição estão irremediavelmente ligadas. A raiz etimológica entre transmissão e tradição é a mesma: trans, dare, ou seja, fazer passar a outro; mas ela é também comum a trair. Assim, nós devemos ser vigilantes e responsáveis. Sem o poder da transmissão oral ou escrita, pelo gestual e pela imitação, pela dádiva aos outros das experiências vividas, graças ao rasto deixado pelos nossos passos, a tradição não existiria. As lendas continuam a transmitir-se oralmente. No Cazaquistão, por exemplo, a transmissão sempre foi oral até há cerca de 250 anos. Depois a escrita passou pelo árabe, depois o latim, depois finalmente o cirílico. Apesar de tudo, há uma forte ressurgência dos rituais xamânicos e um regresso a si mesmo, à procura do passado e das suas tradições.

Desde a criação da Europa política, é interessante constatar até que ponto as identidades culturais e linguísticas das regiões – seja qual for a sua pertença a um país – retomaram força e vigor e fazem questão em colocar a sua própria língua ao sabor da actualidade. Pensemos no gaélico da Bretanha e do País de Gales, ao “escocês” da Escócia à língua de Oc do provençal ao basco, à língua “franconiana” – ou Platt – da Lorena; tantas línguas transmitidas principalmente pela oralidade… é preciso também pensar nas minorias que se fecham nas suas tradições, mas também no mundo dos inválidos, tantas vezes esquecido ou ocultado, em todos aqueles e aquelas fechados no sofrimento de não poderem comunicar, com os quais a transmissão não pode fazer-se senão por sinais e toques….

A palavra transmissão é uma palavra corajosa que evoca a imagem da dependência de um para o outro. Actualmente sabemos que na evolução do indivíduo, no início da vida, a imitação permite a passagem do objectivo ao subjectivo. Quem diz transmissão diz movimento e desfiar do tempo. Para a Maçonaria, a Tradição é essencial e desde os seus primórdios, ela transmitiu-se pela palavra, porque como se sabe, nós não sabemos nem ler, nem escrever. Será por esta razão que o mundo profano nos diaboliza pensando que o segredo que nós anunciamos esconde muitos pensamentos ou acções inconfessáveis? Então, a “pen” dos nossos conhecimentos, do nosso famoso segredo seria uma enciclopédia, uma memória morta? De facto, podia mesmo ter acontecido que, com o tempo, a palavra se tivesse perdido… e que com a chegada dos livros e da internet ela possa ser facilmente encontrada no caminho da escrita! Apesar de tudo, ela vem do passado e vai para o futuro… Se é evidente que a cultura da escrita pôs muitas vezes de parte a da transmissão oral que apenas está presente em alguns povos ditos “primitivos” ou “primeiros”, tais como na Papuásia, Sibéria, Amazónia…, não é menos verdade que a cultura escrita está quase a tornar-se obsoleta por via do desenvolvimento a uma rapidez sem precedentes dos diversos e variados i-fones e i-pads. Neste contexto, o que dizer da evolução da ortografia – de uma língua qualquer – que passa alegremente, graças aos SMS, das regras estritas definidas desde há tanto tempo pelas academias e aprendidas com tanto trabalho pelos alunos de todas as escolas do mundo, às abreviaturas e onomatopeias de todo o género conhecidas e compreendidas apenas pelos seus usuários! Sem dúvida que o virtual está a perturbar fortemente a transmissão, fechando os indivíduos na não comunicação.

Para os seres vivos, a transmissão sempre foi uma questão de sobrevivência. A este título, ela é portadora de identificação simultaneamente consciente e inconsciente, e constitui a coerência e a coesão do grupo assegurando a sua perpetuação. Criadora de identidade colectiva, ela remete para a noção de herança. Ela é também um desafio para o tempo e para a morte. Podemos perguntar-nos como certas palavras, em certos momentos, abalam o mundo? Como é que há vestígios de algumas tradições e não de outras?

Transmitir é continuar a ser. E seria bastante errado que o termo transmissão fosse substituído pelo de formação, no qual encontramos a raiz de formatação, ou seja, aprender sem reflectir. Transmitir é um gesto regulador e gestor, em função do seu triplo alcance – material, diacrónico, político -. No plano material, transmitir aplica-se tanto a bens como a ideias (transmitimos um bem, um resultado de comércio, uma recomendação, um poder…). Por exemplo, a ideia de nação perpetua-se pela bandeira e pela evocação dos mortos, o túmulo de Napoleão, o frontão da câmara municipal, e não apenas pelos livros escolares ou o preâmbulo da Constituição. A transmissão é diacrónica e “errante”. É uma moldura, um drama. Ela faz a ligação entre os mortos e os vivos, muitas vezes na ausência física do emissor. Em matéria das artes, das religiões e da ideologia, a transmissão trabalha na escala do tempo. Transmitimos para que o que nós acreditamos não morra connosco. No plano político, comunicamos, mas é raro que transmitamos realmente. Guardiã da integridade de um “nós”, ela assegura a sobrevivência do grupo pela partilha entre indivíduos do que lhe é comum, sobrevivência da personalidade colectiva que leva a sua história. É uma questão de civilização. Ela opera como um mestre para fazer passar de ontem para hoje e amanhã um corpus de conhecimentos e de valores ou de maestria que consolida a identidade de um grupo estável. A transmissão funciona sobre dois eixos: vertical, mas também horizontal… como o calhau lançado à água que gera círculos concêntricos sempre maiores. Nas nossas Lojas, a cadeia de união é, de certa forma, a “correia de transmissão” no centro do motor do amor universal.

A transmissão é também interior e exterior; assim: transmissão de si para si, de Maçons a Maçons, transmissão para o mundo profano. É certo que a transmissão se faz no presente, na continuação entre o passado e o futuro. Ora, a Maçonaria está estreitamente ligada às ideias das Luzes, a saber: liberdade de pensamento, necessidade de intercâmbio com o que partilha os mesmos ideais, a mesma filosofia, como tantos temas de reflexão contínua e nunca terminada. Iniciática, a Maçonaria funda-se na transmissão dos mitos, símbolos e rituais. Ela assenta no empenhamento livre e consentido de cada uma a continuar fiel à sua regra a ao princípio fundador. A transmissão maçónica, é assegurar, sob o selo da confidencialidade, a continuidade do saber, dos usos, do conhecimento, assegurando-se que o receptor se situe num trabalho pessoal, uma demanda que lhe permitirá deixar à porta do templo o despojamento do “velho homem”. Esta transformação, esta renovação apoia-se na coragem, na convicção, na humildade e, por parte do emissor, na honestidade intelectual, probidade, sentido do dever. Transmitir, é continuar a ser e o trabalho iniciático é o trabalho de toda uma vida. É a esse título que a transmissão faz sentido. Ela é uma semente que os nossos corações semeiam em nós, na esperança de a ver germinar graças ao nosso trabalho e que nós semearemos quando for a nossa vez. Assim nós contribuiremos para moldar o mundo, sentindo-nos responsáveis pela transmissão dos nossos princípios e dos nossos ideais, sendo certo que uma civilização morre a partir do momento em que a transmissão deixa de se fazer.

Que transmitir?

Que desejamos nós transmitir, o que devemos transmitir? A nossa cultura, as nossas tradições, os nossos conhecimentos. Nós conhecemos duas formas de cultura: a cultura individual, “Bildung” em alemão, dito de outra forma, o adquirido e as formações diversas e variadas que recebemos. Trata-se, aqui da cultura individual e evolutiva. A cultura colectiva corresponde a uma unidade fixadora de identidades, uma referência de valores ligada à nossa história, uma arte perfeitamente inserida na colectividade. A cultura colectiva evolui muito lentamente, mas representa uma certa estabilidade, um lembrete da História. Ao novo profano, uma concepção da cultura consiste em olhar como forjada por quatro elementos que foram transmitidos de geração em geração:

  • os valores,
  • as normas,
  • as instituições,
  • os artefactos.

Não esqueçamos também que a transmissão é uma oferta gratuita levada pelo amor, e essencialmente pela perpetuação da humanidade, mais exactamente a parte espiritual da humanidade. É a passagem do objectivo ao subjectivo, pelo pensamento criador.

Os valores – os sistemas de valores compreendem as ideias sobre o que parece importante na vida. Eles guiam o resto da cultura. Assim, no mundo anglo-saxónico, os valores postos em destaque para cimentar a cultura colectiva são muitas vezes as crenças, geralmente religiosas. Os Estados Unidos defendem a laicidade, que poderíamos encontra já no Galicanismo. É preciso saber que os valores não mudam; são as ameaças feitas a estes valores, que os modificam e nos obrigam a reconsiderar continuamente o nosso modo de transmissão numa perpétua actualização.

As normas – as normas são constituídas pelas expectativas sobre a forma como as pessoas se devem comportar face a diversas situações. Cada cultura tem os seus métodos, que poderíamos chamar sanções, para impor as suas normas. Elas variam conforme a importância da norma; as normas que uma sociedade impõe formalmente têm estatuto de lei. Por exemplo, em França, a língua francesa tem o estatuto de língua oficial e a este título, ela é a língua da administração e do direito desde Francisco Iº!

As instituições – são as estruturas da sociedade, nas quais os valores e as normas, são transmitidas. No que diz respeito à França, a defesa da língua foi tomada a cargo desde logo, pelo soberano. Dessa atitude nasceu, para este país e para a maior parte da Europa, uma tradição que liga a cultura às instituições públicas.

Os artefactos – ou coisas e aspectos da cultura material dos quais derivam os seus valores e as normas de uma cultura.

O que prevalece no mundo profano é-o ainda mais no nosso mundo maçónico. Nós somos um caso particular da transmissão cultural. Assim, é nosso dever cumprir as quatro componentes da nossa transmissão, a saber:

  • as noções de liberdade, igualdade, fraternidade, respeito de si e dos outros, vontade de progressão pessoal, partilha, solidariedade, inerentes aos nossos valores ;
  • as normas que devemos respeitar, tais como os nossos rituais, pacto social, funções nos colégios;
  • enfim, as nossas instituições, tais como Loja, Obediência, assembleias e congressos, os nossos templos, federações de LL, Climaf e outras.

Nas nossas Lojas, é nosso dever transmitir principalmente a Tradição do nosso ideal, tal como ela nos foi transmitida pelos nossos II.’. e II.’. que nos precederam. Tradição oral, escrita… Nos nossos rituais, o gesto permite a passagem da escrita à oral. Assim, é essencial compreender o significado do gesto que não é apenas um sinal, mas que dá um significado portador de sentido. Os nossos valores transmitem-se justamente através desta linguagem comum que são os nossos rituais, mesmo que nós não estejamos disso conscientes. No exterior, eles traduzem-se por um comportamento ético na sociedade que nos obriga, de facto, a um empenhamento contínuo que se prossegue na acção de cidadania. Mas no seio das nossas Lojas, para lá da Tradição, é um método de trabalho, essencialmente adogmático, socrático, são os instrumentos postos à nossa disposição, que são os símbolos, as nossas experiências, os nossos valores, o conhecimento adquirido que nós devemos transmitir às mais novas, o amor fraterno que nos liga uma às outras. Há mais bela transmissão do que o beijo fraterno?

Como transmitir?

A Transmissão começa na Loja, de uma I.’. a outra, da madrinha à Aprendiza, das Mestras às Aprendizas e às Companheiras. Através do desenrolar dos rituais, os processos miméticos revestem-se de uma grande importância, sendo verdade que a nossa existência, enquanto indivíduo, mas também na nossa qualidade de membro de uma comunidade, necessita de uma ordem, um enquadramento no qual nos situemos e nos estruturemos na nossa relação com o outro.

É importante transmitir com alegria, por vezes palpável, que ilumina as II.’. sempre que todas estão em comunhão, convergentes na mesma finalidade, com intensidade e entrega. Falamos então de egrégora, uma das mais belas experiências de transmissão que nos é permitida viver, uma experiência rara e inesquecível. O que é transmitido a qualquer nova iniciada não é nem uma ideologia, nem uma ortodoxia, é uma “orthopraxie”, prática baseada nos princípios da realização precisa de gestos simbólicos e de actos aos quais aderimos. A transmissão deve fazer-se horizontalmente de acordo com a instrução nos diversos graus, verticalmente, de forma evolutiva, ao longo do tempo, de uma geração para outra. Cada iniciada transmite implicitamente e inconscientemente, pelo seu exemplo, os valores de que é portadora e que subentendem os objectivos humanistas da Maçonaria.

A Tradição não pode ser transmitida senão a iniciadas, ao ritmo da sua caminhada na via do conhecimento. É preciso ter em consideração o que nos foi transmitido como um profundo e constante desafio para as nossas crenças, o que somos ou acreditamos ser. A transmissão da simbólica, convida a iniciada a passar do temporal ao espiritual, do visível ao invisível, da ordem física à ordem metafísica, dando àquela que a utiliza, toda a liberdade para encontrar o seu espaço e construir o seu templo interior. Para transmitir, é preciso amar, porque transmitir é dar. “Tu és pelo que tu transmites e não pelo que tu crês ser”. Pela força do exemplo, as MM.’. mostram a via da humildade, da perseverança, do questionamento e do aperfeiçoamento.

Desde a nossa iniciação, ensinaram-nos a deixar os metais à porta do Templo. É evidentemente o papel das Vigilantes e, por extensão, de todas as MM.’., o de participar na transmissão da Tradição e mostrar de forma explícita a função dos rituais que as iniciadas vivenciam. Se um ritual não é compreendido, é porque a transmissão não se fez correctamente. Ora, é estudando os símbolos, aprofundando a sua compreensão, relatando o fruto do nosso pensamento e das nossas interpretações através das pranchas que apresentamos que nós poderemos melhor penetrar o sentido, melhor integrar a mensagem que cada uma delas nos quer passar. Igualmente, o fruto das nossas reflexões filosóficas deve permitir-nos acordar em nós a curiosidade, o questionamento das ideias feitas que tenhamos recebido sem procurar mais além. Que melhor modo de transmissão senão o da discussão das nossas pranchas, de ler a de outras II.’. e II.’., que enriquecimento sem igual o de transmitir ao outro o que sentimos, o que nós integrámos, o que nós compreendemos da nossa vida e do nosso ideal?

Transmitir e receber a Tradição

A Tradição é o fio de Ariana permitindo às verdades chegarem a nós. Uma coisa é certa; não podemos transmitir senão o que compreendemos nós próprias, sentido, assimilado, integrado, posto em prática. O saber enquanto tal é dificilmente transmissível, uma vez que é preciso adquiri-lo, através do estudo, da leitura, da aprendizagem. Em contrapartida, podemos experimentar transmitir o conhecimento que temos das coisas, pela experiência vivida, as alegrias sentidas, os desgostos e os sofrimentos suportados, os sucessos, mas também os erros cometidos e as decepções vividas. Em suma, há saber como teoria, conhecimento como prática, experiência vivida. A transmissão faz-se em sentido duplo e não se pode fazer se o receptor não estiver consciente do que lhe é dado. Mas, é isso certo? Talvez a transmissão se possa fazer mesmo quando não se está verdadeiramente consciente do que nos é ensinado. É certo que não se trata de transmitir como um professor para o aluno, mas de saber criar uma relação de confiança, escolhida, que chega ao fim de uma abordagem interior de alguém que pede para ser recebido no Templo, não para receber um ensino formal – que poderia encontrar nos livros – mas para avançar num caminho de espiritualidade, em completa liberdade. Transmitir é pois colocar nas mãos do outro algo que recebemos em depósito. Mas, convém receber a transmissão da Tradição com humildade e confiança mesmo que os rituais vos digam “não aceitem tudo o que vos é dito sem verificar o seu sentido e a sua veracidade”. A transmissão não se faz sempre imediatamente e nesse aspecto como em tantos outros, é preciso dar tempo ao tempo. Não podemos receber tudo ao mesmo tempo, pelo que a repetição do ritual, das instruções, o estudo sistemático e contínuo da simbologia só pode facilitar o ensinamento transmitido. Para tanto, é preciso saber transmitir com amor e empatia, generosidade e solidariedade, é preciso saber receber com humildade e paciência. Não se trata apenas de dar, mas também de deixar às II.’. o tempo de colher nos nossos jardins as flores que cultivámos para que elas possam, a seu tempo, reconhecer e assimilar os frutos da sua aprendizagem, porque o tempo maçónico não é o tempo profano!

É verdade que a lentidão e a paciência não são apanágio deste século XXI. Como transmitir a quem não tem tempo para receber, escutar, aplicar? Como transmitir a jovens Aprendizas que têm de fazer malabarismos para conjugar carreira profissional, maternidade, o casamento e pesquisa pessoal, que não estão em condições de oferecer às suas instrutoras a regularidade necessária para o cumprimento do trabalho destinado a avançar no caminho que elas próprias escolheram, que estão bem longe de poder oferecer às suas II.’. a regularidade da sua presença em Loja, quando o seu bebé tem rubéola, quando elas têm de realizar inúmeras missões no estrangeiro? Poderíamos perguntar-nos se é razoável iniciar estas jovens mulheres que, no entanto, têm sede de conhecimento (com + nascimento), que desejam desenvolver outra coisa na sua própria vida. Mas, têm elas tempo para receber? As mentalidades mudam, a vida é cada vez mais envolvente, trepidante, exigente, competitiva; emparedadas entre a vida quotidiana e o desejo de elevação espiritual, com encontrar nelas a motivação necessária a longo prazo depois do entusiasmo da iniciação? A tarefa das MM.’. é difícil, pois devem poder transmitir-lhes a emoção e saber dá-la, mas também receber, a coragem de avançar nesse sentido e contra tudo.

O processo de transmissão revela-se tão mais difícil que a tensão é mais forte entre a ordem nova e antiga, entre as práticas novas e a tradição, que deve perdurar. Os rituais prefiguram um modelo do mundo que pode ser aplicado e vivido no mundo real; o seu simbolismo encoraja a aplicação do método maçónico não cegamente, mas com reflexão e consciência. O ritual estrutura as relações humanas. O que nós aprendermos servirá de modelo às que nos sucederem. Assim, devemos ser competentes ao nível da forma e do conteúdo do que nós transmitimos, porque transmitir não é repetir o passado sem passar pelo crivo da reflexão.

Transmitir necessita de uma linguagem comum para uma real compreensão. Que ela transmite ou que ela receba, cada uma assumiu um compromisso sobre uma base comum com a assiduidade, no respeito do rito e do pacto social que é preciso conhecer, o que supõe um rigor que bane tudo o que é o deixar-andar, facilidade que pode parecer tentadora, mas põe em causa as nossas responsabilidades, sabendo que a transmissão pode ser nefasta se manipular ou deformar… Ora, não podemos falar de transmissão sem relembrar os compromissos fundamentais que tomámos e que exigem um perfeito equilíbrio entre o desenvolvimento espiritual e humanista da iniciação, tanto nas nossas preocupações como no nosso percurso.

No seio dos nossos Ateliês, verdadeiro cadinho e laboratório de ideias, temos o dever de cativar esta transmissão, de a renovar, de a tornar viva para que a Tradição perdure, sempre mais fecunda, mais sólida, mais radiosa que nunca. A evolução da Maçonaria nas nossas Lojas femininas verifica-se ser obra de transmissão. A filosofia das Luzes, tanto como o nosso ideal, são temas de reflexão, por vezes talvez utópicos, cuja transmissão continuará a ser contínua e nunca acabada. Ora, retomando Gustave Mahler, “a tradição é a transmissão do fogo e não o culto das cinzas!”. Transmitir a Tradição, é seguir um caminho da partilha inerente ao encontro de si e do outro.

Se a Maçonaria não é um fim em si, ela exige de nós uma atitude ética exemplar no quotidiano. Nós somos as pedras do Templo da Humanidade e os elos de uma cadeia que nos liga no tempo e no espaço. Contudo, a transmissão em vaso fechado não chega. Nas nossas Lojas, a cadeia de união é de alguma forma a “correia de transmissão” no seio de um motor do amor universal. Assim ela deve operar igualmente para o exterior, para esse mundo profano sujeito a alterações rápidas. Recordemo-nos do que disse Saint-Exupéry: “nós não herdamos terra, nós tomámo-la de empréstimo aos nossos filhos”, o que nos lembra a humildade, o rigor e a exemplaridade. Nós vivemos uma época marcada pela imoderação e pela presunção, que paradoxalmente tem muita necessidade de alteridade, de ponderação e de incorruptibilidade. Se nós aprendemos a ser levadas pelo sentimento da nossa liberdade pessoal, se nós nos sentimos aninhadas entre a história e o futuro, nós participamos na evolução da estrutura da ordem universal tanto como do espaço comunitário.

“Levamos a luz ao mundo” dizem os nossos rituais. Somos o fermento de uma sociedade nova, universal, que aspira à paz, à igualdade e à justiça.

Que esperam as II.’. da transmissão?

Conscientes do privilégio de ter recebido a chama de uma tradição que nos ajuda a melhor viver aqui e agora, temos o dever de a fazer brilhar, de a aumentar e de transmitir à nossa volta a busca da verdade em construção, a nossa, e a que nos liga à humanidade. O desafio de todo o passador de tradição maçónica é o de encontrar a justa medida entre rigoroso respeito da tradição e criatividade, porque “a tradição só tem valor se ela for actualizada por uma liberdade que a retoma por sua própria conta”. Sempre que as ideais, as palavras passam de uma para outra, com tudo o que tal supõe de escuta e de fraternidade; o intercâmbio induzido comporta em si-mesmo uma outra dimensão da transmissão, fonte na qual cada Irmã pode, ao seu ritmo, ir beber o que é necessário ao seu desenvolvimento espiritual. A benevolência e o amor fraterno veiculado pela tradição acompanham a nossa progressão em direcção à sabedoria e a construção do nosso coração verdadeiro. Nós esperamos desta transmissão que ela nos traga riquezas simbólicas potenciais para descobrir em nós e, no melhor dos casos, de ser a alavanca que levantará progressivamente o véu do nosso próprio mistério.

É assim que no respeito da Tradição nós vemos uma demarcação, uma iluminação, ume perspectiva que se quer, se possível, diferente da das nossas II.’. e II.’. mas que nos leva todos em direcção a uma maior abertura; como a beleza reside no olhar de quem olha, os limites da transmissão são assim os do nosso próprio olhar. Nós trabalhamos para nós, claro, mas com o outro e pelo outro. Nós somos o vetor-transmissor de alguma coisa que nos ultrapassa, de indizível.

Ao recebermos a Luz que nos transmitem as antigas, nós esperamos adquirir essa mesma capacidade de transmissão, a fim de poder perpetuar sem as trair, as riquezas da Tradição. É assim que nós nos tornaremos, na nossa vez, emissores fiéis. Como, sem a transmissão deste ensinamento único, de geração de Maçonas em geração de Maçonas, através dos símbolos, dos utensílios e da Tradição, poderíamos compreender e construir um pensamento humanista e prosseguir a nossa busca de verdade? Sem ela, como poderíamos nós explorar o presente à nossa volta, tentando compreender as dificuldades, inventar constantemente, continuando ao mesmo tempo fiéis ao nosso passado fundador e tomando em linha de conta o interesse vital de um mundo, tal como ele é hoje e tal como, na nossa vez, o transmitiremos amanhã? A transmissão faz-se em círculos concêntricos, do mais próximo ao mais longínquo. Assim, a rectidão deve estar dentro de nós, o nosso fio-de-prumo trazer-nos os nossos verdadeiros valores, para que as nossas novas iniciadas, mas também os nossos próprios filhos possam também impregnar-se deles, sem lavagem de cérebro, transmitindo-lhes a força do trabalho, a alegria no esforço e trazer-lhes a serenidade para as suas vidas. Nós temos um dever de memória, nós temos o dever de transmitir.

Para que as jovens II.’. acima referidas, implicadas a 200% na sua vida quotidiana, pelo seu trabalho, as suas crianças, possam respeitar o seu compromisso de assiduidade, porque não instaurar, como na Bélgica por exemplo, um sistema de creche, nos dias das Sessões? Dentro das nossas LL.’. falamos tão frequentemente de amor, de tolerância, de empatia… que fazemos nós de tangível para rejuvenescer as nossas Obediências, para permitir às mais jovens beneficiar da sabedoria das nossas tradições sem que elas se pareçam com solteironas secas, azedas e desiludidas? Que fazemos nós para nos adaptarmos ao mundo do virtual no qual entramos a passos largos? Talvez pudéssemos ouvir o moralista Georg Christoph Lichtenberg que, entre 1742 e 1799 dizia,

“Não sei se isto irá melhor se mudamos… Mas isto deve mudar, se quisermos que isto vá melhor!”

Uma tal missão depende de toda a Humanidade. De facto, observamos no nosso grande planeta, tornado tão pequeno, no meio da nossa aldeia na era da globalização, e em simultâneo, uma fogosa evolução e uma imobilidade insuportável, mesmo uma regressão decisiva, nem que seja só ao nível da economia, do exercício e da partilha do poder, ao nível das hipóteses de sobrevivência dos humanos, bem como ao nível do lugar concedido à cultura e ao espírito. Evidentemente, nem tudo é para deitar fora… Muito foi cumprido: a Carta das Nações Unidas, as Constituições de numerosos estados democráticos, a tomada de consciência de homens e de mulheres que lutam pelas suas convicções sem se deixarem desencorajar por duros reveses. Claro que podemos estar orgulhosos do que, nas nossas sociedades contemporâneas, um grande número de valores tenham sido desenvolvidos e transmitidos graças ao empenhamento de homens e mulheres célebres próximos da cultura maçónica. Por todas estas razões, é preciso reavivar o espírito das Luzes, reencontrar os nossos valores éticos, contribuir para modelar o mundo e ser responsáveis da Transmissão dos nossos Princípios e dos nossos ideais. A humanidade díspar tem cada vez mais necessidade de um sistema de valores que ganhe raízes no terreno da nossa Tradição, da concepção racional dos Direitos do Homem sem para tal negligenciar a dimensão transcendental, os saberes ocultos, a sabedoria das nossas origens. O enraizamento da tradição engendra a solidez, mas exige uma procura e um questionamento crítico permanente, um reexame do que deve manter-se uma constante imutável.

Este tipo de colóquios é um bom meio de transmissão internacional. Mesmo que não partilhemos todas e todos a mesma língua, o sentimento de partilhar os mesmos ideais, os mesmos objectivos, o mesmo espírito enlaça-nos calorosamente. O Grande pensador da Anatólia do sufismo, Mevlana, disse: “Não são os que falam a mesma língua, mas os que partilham os mesmos sentimentos que se compreendem”. Nós temos um dever de filiação espiritual e de construção de um templo dos nossos valores no mundo à nossa volta. Na transmissão dos nossos valores, nós devemos passar do indivíduo ao colectivo. É pois na exemplaridade e na coerência que nós irradiaremos para o progresso da humanidade. Nesta relação com a sociedade profana, é necessário utilizar a força que nós representamos todas para fazer avançar os nossos valores com o discernimento apropriado. Ao nível dos nossos Ateliês, organizemos sessões brancas abertas, ao nível do CLIMAF e das nossas Obediências, organizemos conferências públicas temáticas, eventualmente publicadas na imprensa. As pranchas apresentadas em Loja, não poderiam ser arquivadas, agrupadas, publicadas, para enriquecer o maior número possível de Irmãs e Irmãos? Nós temos uma estrutura, o CLIMAF, que pode trabalhar para lá das fronteiras… Para quando uma acção tangível?

É aliás bastante lamentável que as duas últimas manifestações do CLIMAF não tenham sido abertas ao público, contrariamente ao que se fazia anteriormente. Os nossos colóquios eram abertos a todas e a todos, permitindo assim um melhor conhecimento da Obediência do país organizador, promovendo o recrutamento de profanos. O CLIMAF não deve continuar neste actual espírito de recuo: deve abrir-se ao mundo. Esta tarde, falámos de transmissão, mas que transmissão o CLIMAF faz para o exterior? Nesse sentido, o CLIMAF pode e deve desempenhar um papel fundamental induzindo uma reflexão comum entre as obediências. Estes encontros, a cada dois anos, permitem a cada Obediência o seu enriquecimento, o seu progresso. Um verdadeiro trabalho poderia ser levado a cabo na apreensão dos problemas relativos à discriminação das mulheres, defendendo-as. Só pela abertura ao exterior nós podemos transmitir e impor os nossos valores, que vão talvez e por vezes em contracorrente, mas que são indispensáveis à construção de um futuro melhor e ao progresso da humanidade.

Citemos mais uma vez St-Exupéry :

“Se tu diferes de mim, longe de me magoar, enriqueces-me…”.

Centre de Liaison International de la Maçonnerie Féminine

COLÓQUIO 6012 – GLFF – Metz – 9, rue Devilly – 21 de Abril 6012
SÍNTESE dos trabalhos de 8 Obediências-membros do CLIMAF
(GLFF – GLFS – GLFB – GLFP – GLFE – GLFMI – GLFA – GLFT)

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