Maçonaria – a arte do amor

A questão do racionalismo

A partir do século XVII uma cultura orientada para o científico e para o lógico invadiu as consciências de tal modo, que nada mais podia ser sustentado no terreno do pensamento e da experiência social, se não fosse passível de ser reduzida à uma fórmula matemática ou à uma proposta epistemológica que a mente humana pudesse entender e explicar racionalmente. Tudo tinha que explicado com estrita clareza, ordem, concisão e exactidão.

Esta cultura pelo exacto, pelo matematicamente provável, pelo passível de repetição em laboratórios, expulsou dos meios intelectuais a antiga tradição esotérica dos “Filhos de Hermes” e dos “Obreiros do Bom Deus”, que escondiam nos símbolos da sua actividade profissional os tesouros da sua ciência. Numa sociedade fundada sob a certeza das suas fórmulas, na organização das suas estruturas, na demonstração inequívoca de resultados, no amor pela evidência racional, não havia lugar para uma metafísica apoiada em símbolos que somente iniciados podiam desvendar, e mesmo assim, sem certeza da obtenção de qualquer resultado concreto [1].

A chamada “alta ciência” que se hospedava na pratica da alquimia e da maçonaria operativa teve de se adaptar as exigências do racionalismo. Daí o nascimento da moderna Arte Real, com a introdução daqueles elementos que Ambelain chamou de caminho político da Maçonaria, onde se aliavam, segundo as suas próprias palavras,

as melhores noções de progresso e evolução, mas também, infelizmente, ideias novas, desconhecidas dos antigos franco-maçons, como o ateísmo, o materialismo, o laxismo, que conduzem ao materialismo desagregador e que tenderiam, pouco a pouco, a minar certos valores que fazem a dignidade do homem[2].

Ambelain, como outros críticos da maçonaria moderna, achava que influência psíquica dos ritos maçónicos tinha sido envilecida na sua passagem operativa para o plano puramente especulativo, pois a espiritualidade que havia na prática operativa foi substituída por uma ritualística vazia de sentido e extremamente pobre em conteúdo emocional. A Maçonaria antiga, que incorporava na sua prática uma noção de sacralidade, cederia o passo à nova organização, que nada mais era do que um clube de elite, que reflectia as tendências culturais de uma época extremamente conturbada, onde a desconstrução do antigo era a moda.

Não obstante o seu sentimento saudosista, Ambelain, como outros autores da mesma escola, reconhecia que a Maçonaria secularizada, como todas as instituições oriundas da cultura medieval, precisava se adaptar às exigências do ambiente da época, que elegera o racionalismo como nova religião oficial. Não fosse essa concessão ao espírito da época ela também não teria sobrevivido como tradição, e acabaria no mesmo escaninho em que foram postas outras grandes tradições desenvolvidas pelo espirito humano, como a alquimia e a aritmosofia, que sobrevivem apenas como curiosidades históricas.

Pois na nova estrutura cultural que então se instalara com o advento da Reforma Religiosa e do seu filho filosófico, o Iluminismo, também o esotérico precisava de uma epistemologia que o fizesse palatável às novas classes intelectuais. A Maçonaria que emergiu desse caldo cultural é a que conhecemos hoje: Um iluminismo romântico, temperado com elementos de esoterismo.

O Iluminismo filosófico

A Maçonaria teve uma grande participação no movimento iluminista. Historicamente, o Iluminismo foi o produto filosófico do racionalismo cientifico inaugurado por Francis Bacon e desenvolvido cientificamente por espíritos do porte de René Descartes e Isaac Newton. Eles, como os iluministas Voltaire, Montesquieu, Locke, Adam Smith, Kant e outros pensadores que lançaram luz sobre o pensamento ocidental, na sua maioria, foram maçons, ou de alguma forma estavam ligados aos círculos maçónicos. Descartes, que nasceu em 1596, em pleno apogeu da Renascença e morreu em 1650, fase mais aguda das guerras religiosas, foi o verdadeiro pai do racionalismo. Acreditava na razão como única forma de conhecimento da verdade e tinha a matemática como a fórmula mais perfeita de demonstração. Uma ideia que viria a ecoar na Maçonaria, dado o seu apelo à geometria, como fórmula essencial do seu simbolismo.

O universo cartesiano era um plano que podia ser definido em termos de extensão e movimento. Todos os conjuntos, grandes ou pequenos, obedeciam a uma lei geral de movimento, neles imprimida por Deus. No homem, Descartes distinguia a dualidade espírito-matéria, sendo esta última construída a partir do movimento do primeiro.

O cartesianismo abalou profundamente as convicções teológicas da época, baseadas fundamentalmente na fé e na revelação divina como fontes únicas da verdade religiosa. Se a razão era a única forma de conhecimento, e só através dela se podia conhecer as realidades do universo, inclusive as divinas, porque então se lutava tanto pela fé? Não seriam as questões éticas e morais mais importantes que a religião?

Muitos pensadores importantes passaram a socupar-se da questão. Espinosa, filósofo judeu-alemão, pôs em dúvida os dogmas do Judaísmo, valorizando as concepções panteístas do universo que Pitágoras, Parménides, Plotino e os doutrinadores hindus já tinham defendido. Nesse sentido, ele deu ênfase à Ética e a Moral como fórmulas mais eficazes do que a religião, para a construção de um mundo mais justo e humano.

Thomas Hobbes, mais materialista que Espinosa, sustentou que o desenvolvimento da civilização se baseava na busca constante do prazer e na repressão à dor, dando origem à corrente filosófica que ficou conhecida como Hedonismo. As ideias de Hobbes reflectiram imediatamente no pensamento económico da época, influenciando pensadores como Adam Smith, por exemplo, o mais importante dos economistas clássicos.

A corrente de pensamento conhecida como Iluminismo teve inicio na Inglaterra em 1680, tendo como seus precursores o cientista Isaac Newton, pai da teoria da gravitação universal, e o filósofo John Locke. Partindo das concepções cartesianas, que adoptava a razão como único guia para o descobrimento da verdade, Newton, mais do que qualquer outro cientista do seu tempo, revolucionou o conhecimento que se tinha do mundo físico. As suas teorias a respeito do universo e as suas leis de desenvolvimento permaneceram incontestáveis até o surgir de Einstein. Newton, como Locke, Smith e outros próceres do pensamento iluminista dos inícios do século XVII, também flertaram com o movimento maçónico através da chamada corrente rosa-cruciana, que se integrou à maçonaria a partir da admissão, entre os maçons operativos, dos chamados “maçons aceites”.

Visceralmente inimigo do dogmatismo religioso, Newton introduziu na ciência o conceito mecanicista do universo, banindo a noção do milagre, da explicação dos fenómenos pela fé, do conhecimento da verdade pela revelação divina, afirmando que tudo no cosmo se explicava pela actuação de leis exclusivamente naturais. Como apóstolo convicto da liberdade natural, forneceu aos espíritos ansiosos pelo livre pensamento em todos os campos, o fermento necessário para o desenvolvimento das ideias iluministas que revolucionaram a filosofia nos séculos XVII, XVIII e XIX.

John Locke, refutando qualquer influência divina na formação do espírito humano, pregou que o homem nascia “tábula rasa”, isto é, ele era, ao nascer, uma folha em branco na qual tudo ainda estava por escrever. Com essa concepção, Locke afastava qualquer ideia de predeterminação, qualquer explicação metafísica para o surgimento da consciência humana, qualquer forma de intervenção divina na estrutura psíquica do homem, que não fosse aquela que ele mesmo adquiria no decorrer da vida. Com isto o homem ficava livre para assumir o leme do seu destino, sendo ele mesmo o único responsável por tudo o que lhe acontecia.

Cada individuo tinha em si o caminho da salvação e não precisava de “intermediários” entre ele e Deus. Era, mais ou menos o que já dizia Lutero na sua pregação contra o monopólio da Igreja Católica na intermediação entre o homem e Deus. O que se precisava era de mais ética, mais moral, mais autonomia e mais liberdade de atitude e de pensamento, pois todos tinham direito à uma auto realização. Assim sendo, que importância tinham os dogmas, as verdades religiosas, os paradigmas da religião? A luta pela fé perdia todo o sentido, pois somente a razão podia conduzir ao conhecimento da verdade. Destarte, a construção de um sistema moral e ético que conduzisse à felicidade geral era muito mais importante do que a luta para defender a crença numa “orientação divina”, que não existia nem nunca existiu. Até porque, desde que a religião incorporara na sua estrutura o principio do cuis régio, eius religio, ela já não tinha o menor direito de reivindicar qualquer influência sobre o espírito humano. Tornara-se apenas uma impostura para justificar as lutas dinásticas pelo poder [3].

Em França, o Iluminismo alcançou o apogeu com os trabalhos do grande Voltaire. Na razão das suas ideias libertárias, Voltaire enfrentou a prisão na Bastilha e o exílio na Inglaterra, onde se filiou no grupo de pensadores e cientistas da Real Sociedade de Londres, onde pontificavam Newton, Locke, Robert Fludd e outros [4]. Recuperou, com base na nova Ética e Moral do Iluminismo, as ideias utópicas do estado ideal de ordem, harmonia e felicidade, situando-o em algum lugar na América do Sul. Nesse país imaginário, dizia ele, não há monges, nem padres, nem processos, nem governos autoritários e burocratas para infernizar a vida dos homens. Esse país seria governado exclusivamente pelas grandes leis da natureza. Era a aplicação do princípio da Maat egípcia, mas sem um faraó ou um estado organizado para encarná-la [5].

Voltaire foi o campeão da liberdade individual. Popularizou o seu amor pela liberdade na famosa expressão “não concordo com o que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo”.

Outros grandes nomes do Iluminismo foram Denis Diderot, Jean d’ Alembert, Claude Helvecius e o Barão Holbach. Os dois primeiros formaram um grupo conhecido como “Os Enciclopedistas”, pelo facto de terem colaborado na organização da Grande Enciclopédia Filosófica Universal, trabalho que pretendeu reunir todo o conhecimento filosófico e científico existente na época. Todos eles eram inimigos irreconciliáveis do obscurantismo e defendiam a educação como forma de eliminar as diferenças entre os homens, a pobreza, a ignorância e as guerras. Outros nomes importantes do pensamento iluminista foram Jean Jacques Rousseau, Lessing, Mendelssohn e Emmanuel Kant. Todos eles viveram a maior parte das suas vidas e produziram as suas obras na primeira metade do século XVIII. E todos, de uma forma ou de outra, tiveram ligações com o movimento maçónico, como membros efectivos dele ou por mera afinidade filosófica.

O Iluminismo influenciou os principais movimentos revolucionários dos séculos XVIII e XIX que culminaram na organização política do mundo moderno. Em França as ideias iluministas estão no cerne da Revolução Francesa. Na América inspiraram Thomas Payne, Benjamim Franklin, Thomas Jefferson, George Washington e outros lideres da Revolução Americana. Todos eles maçons iniciados. No Brasil, o Iluminismo se fez sentir principalmente entre os revolucionários da Inconfidência Mineira e nos idealizadores da nossa Independência [6].

O Iluminismo maçónico

O resumo histórico acima teve por objectivo trazer para este trabalho a moldura na qual a Maçonaria moderna se inscreveu. A liberdade de pensamento trazido pela Reforma Protestante e a corrente iluminista forneceram o fundo filosófico e cultural a partir do qual ela se definiu, e as lutas políticas e religiosas moldaram o desenho e a conformação que ela assumiu a partir de meados do século XVIII. Deste ponto de partida podemos começar um exercício semiótico. Podemos visualizar grupos de nobres, intelectuais, cientistas, e outras pessoas de alta sensibilidade, descontentes com a ortodoxia das religiões oficiais, descrentes da filosofia que as orientava, cujo resultado só conduzira à desarmonia, à desordem, à guerra, à carnificina e à perpetuação das tiranias políticas; podemos ver como esses homens apaixonados pela liberdade, pelo livre pensamento, pelo exercício racional de uma prática religiosa, orientada mais pela razão do que pela fé, decidiram procurar uma fórmula que agasalhasse, ao mesmo tempo, a sensibilidade de uma alma que acreditava na origem divina do universo e a necessidade de uma nova atitude religiosa, fundamentada na razão pura, na ética e na acção social. Uma nova interpretação dos signos e arquétipos que moldavam a alma humana na sua eterna procura pela felicidade.

Nasceria, desta forma, uma nova filosofia dentro das sociedades de pensamento, que então começavam a se propagar pela Europa a partir da interacção entre os “fellow-crafts” das antigas Lojas de Companheiros e os “novos maçons aceites”, alguns deles cultores da filosofia hermética, outros, filósofos formados no pensamento iluminista e entre eles políticos e militares engajados nos movimentos revolucionários e sociais, dos quais esta época foi a mais pródiga.

Esta nova filosofia era uma espécie de Iluminismo Esotérico que apelava, ao mesmo tempo, para as inclinações profanas do homem desejoso de ser feliz no único mundo que conhecia, mas que também respeitava o sentimento religioso daqueles que acreditavam num universo governado por forças maiores que a razão humana e leis simplesmente naturais. Esses espíritos, que rejeitavam a ditadura espiritual do catolicismo, não queriam também adoptar o materialismo ateu dos puramente racionalistas nem a visão intolerante dos calvinistas e luteranos. Pregavam, ao invés, tolerância para com todas as visões religiosas e liberdade de pensamento para crer e viver de acordo com as suas próprias escolhas.

A Art d’amour

A Maçonaria moderna nasceu, portanto, da fusão entre o pensamento mágico dos hermetistas, sensíveis às tradições herdadas das sociedades iniciáticas, com a moral iluminista. Podemos dizer que os seus cultores buscavam, em última análise, uma nova forma de Gnose, ou seja, uma sabedoria que se fundamentava, não mais na procura de um caminho para o divino através da fé e da religião, mas sim na prática activa de virtudes éticas e morais. A escolha da organização maçónica para servir de veículo para essa prática foi apenas uma questão de estratégia, escolhida, provavelmente, em face do apelo romântico e esotérico de que se revestia a tradição dos antigos pedreiros medievais. Isto é o que se percebe em trabalhos produzidos pelos pioneiros da maçonaria moderna, tais como James Anderson, André Michel de Ramsay, Jean Teóphile Deságuliers e outros [7].

Eis, numa rápida visão, as tintas, a moldura, a tela e o fundo nos quais se pintaria a Ordem maçónica nas suas roupagens modernas. E esta interacção entre racionalistas e hermetistas que podemos chamar de Iluminismo Maçónico, eufemismo que cunhamos para designar a filosofia que orienta a prática maçónica,

O Irmão logo perceberá no desenvolver da prática maçónica que esta nada mais é que a moral iluminista temperada por um forte apelo ao pensamento mágico, próprio da tradição hermética e dos filósofos gnósticos, sob uma moldura que pode ser emprestada das antigas normas da Cavalaria. Esta foi acrescentada pelos românticos sectários do século XVIII para dar à Maçonaria uma aura de nobreza. É por ela que entram na Maçonaria as tradições templárias. E como todas essas tradições eram iniciáticas, esse é mais um elo de ligação entre todas essas manifestações culturais do espirito humano.

Nesse sentido, podemos dizer que a Maçonaria, como actividade especulativa nada mais é que uma alquimia do espírito e uma filosofia que se transmite não somente à razão, mas principalmente aos sentidos. O maçon que realmente entendeu o que é a Arte Real precisa incorporar o espírito do adepto, a mentalidade do filósofo e romantismo do artista. A Arte Real tornar-se-á então, uma nova Art d’amour, porque se dirige ao espírito do praticante; é também um novo Iluminismo, praticado socialmente com a esperança de se construir uma humanidade melhor. Em nenhuma outra actividade humana, seja ela política, social ou intelectual, ou mesmo religiosa, casou-se tão bem o ideal romântico dos cultores das utopias com a esperança iluminista dos reformadores sociais, como aconteceu na Maçonaria [8].

Esta é a Maçonaria no seu verdadeiro sentido histórico.

João Anatalino Rodrigues

Notas

[1] “Filhos de Hermes” são os alquimistas e “Obreiros do Bom Deus” são os maçons medievais, construtores das catedrais góticas.

[2] Robert Ambelain – A Franco-Maçonaria – Ed. Ibrasa São Paulo, 1999

[3] cuis régio, eius religio (conforme o rei, a religião), quer dizer, a nação deveria seguir a religião do rei. A religião deixava de ser uma escolha do indivíduo, mas uma política de estado. Foi esta filosofia que gerou as sangrentas guerras religiosas que ensanguentaram a Europa durante os séculos XVI e XVII.

[4] A Real Sociedade de Londres é tida por alguns autores como célula máter da maçonaria inglesa.

[5] Maat, a deusa egípcia da Justiça.

[6] O Patriarca da Independência, José Bonifácio de Andrada e Silva também foi influenciado pelas ideias iluministas. O seu trabalho de articulação política para a proclamação da independência do Brasil deixa entrever que este grande patriota, que pode ser considerado como o patrono da Maçonaria no Brasil, estava impregnado pelas ideais maçónicos.

[7] Ver especialmente As Constituições de James Anderson e os Discursos de André Michel de Ramsay – Cf. Jean Palou – A Maçonaria Simbólica e Iniciática – Ed. Pensamento, 1986.

[8] Art d’amour, ou arte do amor é um título aplicado à alquimia, que também designa a Maçonaria, porquanto ambas são artes dedicadas a construir um mundo melhor. Foi esta analogia entre a prática dos antigos alquimistas e a profissão dos pedreiros-livres, construtores de igrejas, que fez com que a alquimia e a maçonaria acabassem por se tornar sócias do mesmo ideal especulativo.

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