Maçonaria do século XXI – pensar, sentir e viver (Parte I)

Introdução

A sociedade moderna vem assistindo ao desmoronamento de muitas estruturas e, ao mesmo tempo, a estruturação de uma nova ordem mundial. Poderosas correntes de mudanças impulsionadas por estupendas forças arquétipas vêm sacudindo todas as instituições e até mesmo a vida pessoal dos membros da Comunidade humana

O que, por outras palavras, queremos dizer é que a história recente das sociedades humanas vem mostrando a continuidade de uma velha tendência: a de nos voltarmos contra nós mesmos. É sabido que construímos o mundo em que vivemos ao longo das nossas relações com ele. Mas, como também se sabe, se construímos o mundo também somos por ele construídos.

Acompanhar as mudanças que se operam no mundo e estar afinado com o seu diapasão é um dever de todo mortal que deseja administrar bem a sua vida neste plano do Universo. Entretanto, como membros de uma Organização que preserva grandes planos de evolução social, esse dever é multiplicado, pois, além de administrar a nossa vida, temos, também, de auxiliar no desenvolvimento da sociedade.

Esta dificuldade de compreensão é uma das nossas maiores limitações. Para nós é fácil entender as coisas divididas, aos pedaços: os acontecimentos isolados, os objectos fragmentados, as pessoas separadas umas das outras. Lidamos bem com fragmentos. Mas não compreendemos com facilidade que tudo o que nos cerca existe em relação, em conjunto, que tudo tem a ver com tudo, tudo depende de tudo. Em especial, temos dificuldade de entender que não estamos separados daquilo que observamos.

Eis, portanto, mais uma definição de Maçonaria: “é a arte de interagir, construir algo em comum, descobrir a nossa humanidade mais profunda na relação consigo mesmo, com os outros e com o mundo natural. E deixar que os outros descubram em nós a sua humanidade e o mundo nos mostre a sua amplitude”, o que em uma única palavra quer dizer “Acolhimento”.

Sabe-se também que, a Maçonaria é uma “Família”, uma “Família Universal”. Ser Maçom é, pois, pertencer a esta Família Universal. A família acolhe os seus membros e, portanto, família é “Acolhimento”. Assim, se família é acolhimento, então, Maçonaria é também Acolhimento.

Faz parte da missão suprema da Franco-Maçonaria (como uma Organização de construtores sociais, de formadores de opinião e de condutores anónimos da sociedade) auxiliar a humanidade nesses momentos de mudanças de ciclos, para que as inevitáveis transformações não causem tantos transtornos ao homem.

Contudo, não é isto o que em geral fazemos no quotidiano. O exame do noticiário de qualquer jornal, de qualquer emissora de TV, mostra que muitas vezes o nosso dia-a-dia não é marcado pelo acolhimento e pela construção, mas sim pela rejeição, exclusão e divisão e pela destruição.

Mas, como “a Ordem é os seus membros”, perguntamos: Estamos qualificados para operarmos competentemente nesse quadro avassalador que se apresenta ao homem da sociedade contemporânea?

Reflectir para reconstruir talvez seja o lema a ser adoptado pela actual geração de maçons, a fim de reestruturar a Ordem maçónica nesse limiar do Terceiro Milénio.

Em muitas situações, convivemos com os outros e com o mundo afastando-nos, desconfiando, destruindo. Isto é, não acolhemos, e, é claro, recebemos o mesmo em troca, tanto em termos de violência entre pessoas quanto em relação às catástrofes naturais: enchentes, secas e outras consequências da agressão ao meio ambiente. Ou seja, vivemos em conflito com a ordem natural das coisas e em desacordo com a nossa biologia.

Este ânimo de não acolher, não compartilhar, dividir, separar, manifesta-se em todas as dimensões do quotidiano.

O que estamos propondo é apenas uma reflexão, pois como dizia Balzac: “Revolução muda tudo, menos o coração do homem”.

Nós, seres humanos, por natureza temos necessidade de explicações. Precisamos entender a nós mesmos, compreender os outros e o mundo em que vivemos. Desta necessidade nasceu a ciência, e das aplicações dela se originou a tecnologia.

Entretanto, há outros domínios da nossa existência que não podem ser explicados pela ciência. Neles a tecnologia não actua, ou não age do modo objectivo, concreto e eficaz com que opera no lado mecânico e concreto do nosso viver. Este imenso âmbito inclui os sentimentos, emoções, intuição e a subjectividade.

Como mostra a experiência, esse lado não pode ser explicado de modo objectivo: precisa ser compreendido, e para isso de pouco ou nada valem a eficácia e a exactidão da ciência e da tecnologia. A região intuitiva e subjectiva do nosso existir não pode ser simplesmente negada e afastada. Ela não deixa de fazer parte das nossas vidas por meio dessa atitude. Ao contrário: quanto mais negamos os nossos sentimentos, emoções e subjectividade, mais sofremos em consequência disso.

O lado racional e objectivo e a parte intuitiva e subjectiva da condição humana precisam estar juntos. Não podem viver divididos, afastados, como se um, nada tivesse a ver com o outro. Precisam conviver, complementar-se, fertilizar-se mutuamente. Um deve buscar no outro o equilíbrio que perdeu pela divisão e pelo afastamento.

Nas nossas sociedades actuais, e delas não se exclui a Sublime Instituição Maçónica, privilegia-se o conhecimento científico e as suas aplicações – as tecnologias. No outro pólo – e postas num plano secundário -, estão as humanidades, isto é, os estudos (que incluem a filosofia, simbologia, a literatura e as demais artes) que visam a compreender o ser humano nos seus sentimentos, emoções e subjectividade.

A tecnociência busca a clareza da explicação. As humanidades buscam a subtileza da compreensão. Ambas, quando isoladas, são necessárias – mas insuficientes – para compreender e explicar a complexidade da vida e das sociedades humanas. Quando elas complementam-se, tornam-se necessárias e bastantes.

O que não pode ser explicado precisa ser compreendido. Por isso o técnico- científico e o humano precisam conviver, acolher-se um ao outro. O filósofo francês Albert Camus disse a mesma coisa de outro modo: “Se o mundo fosse claro, a arte não existiria”. Eis um dos pontos principais da ética do acolhimento maçónico: ela tem muito de ciência, pois Maçonaria é uma ciência, mas também muito de arte, visto ser, a Maçonaria, a Arte Real.

No entanto, se esta situação é mais ou menos fácil de ser descrita, é muito difícil de ser resolvida na prática. O excesso de objectividade e pragmatismo tende a reduzir o humano às suas necessidades e medidas, isto é, ao homem-máquina.

A principal consequência disso é o quotidiano duro e frio de muitos dos ambientes em que ocorrem as acções de sociabilidade. Gerou-se uma atmosfera pesada, permeada por um mal-estar que atinge a todos e a todos embrutece.

Se admitirmos uma Maçonaria débil no presente, não se pretenda que é a Instituição que sofreu regressão, mas os homens, de presença efémera na Sublime Ordem, que deixaram de estar à altura da Arte Real.

A Maçonaria que se fala e se pratica no mundo, só fala em mudança de processos, e não de mentalidades.

O que pretendemos propor não é uma mudança apenas para tornar diferente, pelo contrário, senão vejamos: a vida das organizações está mudando radicalmente; a vida é outra dentro das empresas e do mercado. Isto significa mais do que mudar simplesmente processos, mudar tecnologia e metodologia. É, portanto, necessário dar ênfase e criar um novo jeito de pensar, sentir e viver Maçonaria.

Porquê inovar a forma de inovar?

Já não há dúvida de que a “civilização” ocidental construiu uma coerência, de produção e de consumo, sem correspondência com os limites do planeta, além de desumanizar o processo que torna possível a nossa existência em sociedade. Tampouco resta dúvida de que desde a segunda metade do século XX, a humanidade e o planeta assinalam a sua imensa insatisfação com este estado de coisas. Por outro lado, muitos fenómenos naturais mudaram os seus padrões de comportamento por causa dos nossos próprios padrões de comportamento, devido à inconsequência dos modelos universais de “desenvolvimento”, concebidos a partir da premissa da homogeneidade da realidade e da natureza como uma reserva de matéria prima a ser explorada, como se não fôssemos parte dela.

Para compreender as crises actuais, devemos interpretar duas das inovações europeias que impactaram o mundo: o colonialismo e a modernidade. O colonialismo justificou a dominação de certos povos sobre outros, organizado sob o critério de “raça” para hierarquizar os grupos humanos: uns brancos cristãos anglo-saxões, eram classificados como “naturalmente” superiores, enquanto, outros negros índios e mestiços, eram julgados “naturalmente” inferiores. A modernidade foi criada sob a premissa do universalismo para estabelecer o monopólio da forma particular de ser, sentir, pensar e actuar da Europa. Enquanto o racismo justificou a colonização territorial, o universalismo justificou a colonização cultural que facilitou a difusão da modernidade.

O racismo e o universalismo incorporados aos nossos modos de pensar através da educação e da ciência estão sob questionamento inexorável. O universalismo ignora a “natureza do lugar” e inviabiliza o “lugar da natureza” na sustentabilidade da humanidade e do planeta, enquanto o racismo ignora o “desenvolvimento das diferenças” e inviabiliza as “diferenças do desenvolvimento”, criando vulnerabilidade em contextos aonde os “actores” e os seus lugares são distintos. O modo clássico de “inovação para o desenvolvimento” sob o qual uns geram, outros transferem e muitos adoptam, sem interacção entre eles, está em crise. As premissas que sustentam a sua proposta epistémico-ideológica são insatisfatórias para interpretar e transformar a realidade complexa que torna possível a nossa existência, pela sua descontextualização.

Outros modos de interpretação e intervenção são necessários e possíveis. Não existe um, mas múltiplos modos de inovação, todos eles dependentes de diversas concepções de realidade dos diferentes grupos de “actores” sociais em distintos contextos históricos, sociais, materiais e culturais.

No nosso entendimento, a crise actual do “modo clássico” de inovação é parte de um fenómeno bastante amplo, isto é, uma mudança de época, que está condicionando o declínio do industrialismo, viabilizando a emergência de outra época histórica. A época emergente não substitui, mas co-existe com outras épocas históricas, sob uma nova hierarquia de ideias, crenças, valores, interesses e compromissos: uma nova ordem de coisas.

Por isso, entendemos, o “modo clássico” de inovação, concebido pela tradição filosófica do positivismo, perdeu o seu monopólio. A ciência moderna não é a única via válida para a geração de conhecimento relevante; existem “outras” possibilidades paradigmáticas e outros saberes válidos.

Assim, pensamos, se o modo clássico de acompanhar a evolução não está sendo satisfatório para promover o bem-estar individual e colectivo, é chegada a hora de inovar a forma de inovar.

O diagnóstico

Na sua tarefa maçónica, desde o início, os nossos irmãos focalizaram as suas atenções em assuntos como as tradições esotéricas, a doutrina dos Rosacruzes, a Cabala, as novas teorias políticas da divisão dos poderes, as tradições cavalheirescas da Europa medieval e das suas interpretações morais, e em geral todo o magno corpo de tradições míticas e filosóficas da cultura Ocidental.

Após 1717, boa parte da Maçonaria esqueceu que a primeira Grande Loja de Londres e Westminster, bem como todas as demais Potências, foram criadas para servir aos Irmãos e às suas Lojas.

Ao longo do tempo perdeu-se esta perspectiva, e muitas Potências Maçónicas passaram a actuar como se as Lojas tivessem sido criadas para servir às suas Altas Administrações. Novos e sucessivos regulamentos foram criados, muitas vezes sem serem submetidos e aprovados pelos Irmãos. Decisões de valor questionável criaram a maioria dos “Landmarks”, considerados imutáveis e bastante convenientes para manter o “status quo” das vantagens oferecidas pelos cargos que, infelizmente, muitos pretendem manter “ad aeternam”. Casos há de Potências que estabeleceram nos seus regulamentos que é proibido tudo o que não é especificamente permitido. Outras Potências há que se sentem livres para estender o seu controle sobre Lojas de outras Potências, governando-as em proveito próprio.

Assim, a Ordem dividiu-se em inúmeras Potências, cada uma suspeitando da outra, que não reconhece, muitas vezes usando de artifícios, nem sempre éticos, na busca dos reconhecimentos internacionais. Em muitos casos, a obtenção de um reconhecimento significa a retirada deste mesmo reconhecimento a outra Potência. Afinal, para que serve o tão decantado reconhecimento, se Irmãos de Potências diferentes, que só estão preocupados em praticar a pura Maçonaria, reúnem-se em Lojas Virtuais e em Grupos que se comunicam pela Internet?

Portanto, é bastante cristalino que o contacto entre os Irmãos de todas as Potências está ligando os elos da grande e verdadeira corrente maçónica espalhada pelo Mundo.

Já para o fim do século XVIII, a maçonaria nas suas distintas organizações estava muito longe da ingénua preocupação com os banquetes solsticiais, sem diminuir a importância das boas ceias que precedem ou se seguem a uma reunião maçónica. Resumindo este ponto, interessa assinalar que, junto com os trabalhos de mastigação, ou mais alem deles, se desenvolveu na nossa Ordem uma tradição intelectual e filosófica que recolheu elementos das mais diversas fontes, as elaborou e refundiu, criando um sistema completamente diferente do que pretendiam os irmãos acostumados a reunir-se nas tabernas para cear juntos e, de passagem, efectuar alguma cerimónia maçónica.

Esta evolução foi que permitiu atrair para os nossos Templos indivíduos com inquietudes intelectuais e filosóficas, na busca de um “ambiente” ideológico e social propicio e acolhedor, onde expressar as suas aspirações espirituais e morais.

É assim que em cada época os Maçons dão forma à sua ideologia existencial em virtude das circunstâncias históricas que lhes cabe viver, mas baseando-se em cada caso nos princípios simbólicos e esotéricos da Franco-maçonaria. Juárez, Bolivar, Washington e Garibaldi, Churchill e Truman, actuaram cada um interpretando à sua maneira o ideário filosófico que abrilhantavam os nossos Templos.

Agora, nesta primeira década do século XXI, já tão carregado de esperanças frustradas, perspective aterradoras e névoas grossas da incerteza, junto com uma corrida desenfreada do desenvolvimento tecnológico-científico, é acaso concebível uma Maçonaria indiferente aos males que afligem a humanidade, fechada numa torre de marfim, cega e surda ante o clamor dos menos privilegiados, dos perseguidos e humilhados, de quem perdeu até a esperança da esperança? Qual será a definição da nossa posição, da nossa função institucional e individual dentro da sociedade?

Muitos dos postulados da ideologia “Maçónica”, os princípios da igualdade ante a lei, fraternidade dos povos, liberdade de expressão, extensão universal da educação, responsabilidade social, tolerância religiosa, ajuda ao necessitado, tudo isto e muito mais já passou a integrar o acervo cultural da nossa sociedade contemporânea. Em muitos casos, da Maçonaria e por intermédio dos Maçons, têm surgido numerosas instituições beneficentes, filantrópicas, voluntárias e também políticas, que trabalham para a consecução dos fins maçónicos sem lhes dar esse nome.

Ressaltemos este ponto: no cumprimento das suas obrigações maçónicas, o Maçom age como Maçom em todos os círculos profanos de qualquer natureza que seja e onde faça parte, fazendo sentir a sua influência, e multiplicando desta forma a implementação dos nossos ideários com o trabalho aliado a numerosos homens e mulheres que se solidarizam nas tarefas positivas benéficas dos nossos Irmãos.

Isto significa dizer que, sem cair em irregularidade, sem discutir nos nossos templos questões políticas ou religiosas, a acção da Ordem se manifesta não no nível institucional, mas no nível pessoal.

Poderíamos sumarizar o meu argumento com esta frase: a Maçonaria não melhora o mundo, os Maçons sim. Mas, o corolário é que embora a Maçonaria não melhore o mundo, melhora os Maçons, e assim conduz ao resultado esperado.

Por outro lado, a convivência afectuosa entre irmãos, que caracterizou “o trabalho maçónico” de gerações passadas, (e isso constitui ainda a função principal de mais de uma loja) não poderia satisfazer às aspirações de melhoria social e intelectual dos maçons contemporâneos.

De modo que minhas palavras não sejam erradamente interpretadas, eu não pretendo criticar as reuniões sociais dos irmãos e das suas famílias, seja dentro ou fora do Templo. Todas estas actividades contribuem para criar, estimular e internalizar o espírito de fraternidade indispensável ao trabalho maçónico, mas – igualmente aos rituais das nossas cerimónias – estes são somente meios para o nosso aperfeiçoamento, sem constituir o fim da Ordem. Embora tenhamos clara nas nossas mentes esta diferenciação, creio que, nenhum dano causa multiplicar as actividades sociais, dentro de limites razoáveis.

Por outra parte, seria equivocado concentrar a atenção de forma exclusiva no aspecto social da Maçonaria, negligenciando os seus aspectos filosóficos esotéricos, que por natureza concernem mais ao indivíduo do que ao grupo.

Voltemos a nossa atenção ao presente – o aqui e agora. Quais são os problemas que enfrenta a Ordem? Por outras palavras, como podemos ser parte da solução em vez de ser parte do problema?

Comecemos por uma pergunta fundamental. Não porque alguns irmãos abandonam a Ordem, mas por que tão poucos profanos ingressam nela? Que espera o profano ao ingressar na Maçonaria? Será que tem uma ideia de quem nós somos, do que fazemos? Será que as suas expectativas são realistas? ou será que estão baseadas numa apreciação errada, em algum juízo pré-estabelecido? e não interessa se esse juízo pré- estabelecido é favorável ou negativo.

Também, o que estamos ensinando aos aprendizes no seu primeiro ano na ordem, nesse período transcendental para o seu futuro caminho maçónico? Não me refiro somente à instrução formal, câmaras da instrução, etc., mas também ao ensino tácito outorgado pelo comportamento de cada Maçom dentro e fora do templo, nos contactos que tenha ou deixe de ter com outros irmãos mais antigos.

Sigo com as perguntas. Que espera a ordem, ou a Loja, de cada irmão? Como é que nós comunicamos a cada irmão as nossas expectativas? De que forma aquilatamos a sua reacção, o seu progresso, a sua satisfação ou o seu descontentamento?

Finalmente, que medidas nós devemos tomar para remediar a falta ou os desentendimentos que tenhamos detectado?

Isto no nível individual. No nível institucional, nós podemos levantar as perguntas não menos vitais.

A sociedade está atravessando uma transição rápida – quase poderíamos dizer revolução. Qual é o papel que poderá assumir a nossa Ordem neste processo?

Tomemos alguns exemplos. A rápida evolução do pensamento moderno, que a todo o momento é atropelado pelas conquistas científicas, transformou a antiga civilização rural numa civilização pós-industrial, em todos os países desenvolvidos. Fronteiras políticas e culturais têm sido progressivamente superadas pela avalanche que nos levou à era da globalização. O declínio da ideologia socialista, a proliferação das instituições de ensino superior, as Universidades novas e as Faculdades de Ensinos Superiores, o surgimento de novas indústrias de base científico-tecnológica junto com o declínio das indústrias tradicionais como têxteis e confecção, o influxo da grande imigração de diversos povos, o aumento vertiginoso do número de trabalhadores estrangeiros, tanto legais como ilegais. E nem toquei nas profundas mudanças que se impõem como resultado dos acontecimentos sócio-político-económicos e conjunturais que estamos vivendo nos últimos anos e cujo desdobramento futuro é imprevisível nestes momentos.

Juntemos a estes problemas locais, no nível nacional, aqueles problemas que inquietam a humanidade por inteiro na actualidade: tráfico de drogas e de armas, o avanço do vírus da SIDA, a corrida armamentista com os braços da destruição maciça, o fundamentalismo religioso (que existe em todas as religiões, não somente o Islão), a intolerância e a escalada da violência, a falta de credibilidade das instituições do aparato estatal, poder executivo, poder legislativo e poder judiciário, a catástrofe ecológica que se aproxima, e poderia seguir agregando muito mais.

Não nos esqueçamos da Informática, ramo específico da ciência electrónica, a qual permite que os maçons se comuniquem em todo o mundo. Isto significa que se comunicam Irmãos pertencentes a Potências diferentes, reconhecidas ou não entre si. Como tão bem diz a Constituição de Anderson de 1723, estes Irmãos “estavam condenados a manter distanciamento perpétuo”. Hoje em dia, a globalização da informação permite superar e tornar obsoletos e sem sentido não só o problema da localização geográfica dos Irmãos, mas também o do reconhecimento entre as suas Potências.

Maçons da Alemanha, Argentina, Bélgica, Brasil, Canadá, Chile, Escócia, Espanha, Inglaterra, Irlanda, Nova Zelândia, Portugal, Sri Lanka, Suíça, USA, etc., falam uns com os outros, conhecendo-se e trocando informações sobre Maçonaria, sem a interferência da sua Loja ou da sua Potência. Isto permite conhecer em poucos meses muito mais sobre a Maçonaria no Mundo do que poderíamos conhecer em anos de estudo e de pesquisa, na literatura Maçónica ao nosso alcance.

Deste modo, nunca foi tão verdadeira quanto é hoje, a expressão “Maçonaria Universal”. Na verdade, antes da existência da Internet e da comunicação global, esta expressão não passava de puro exercício de retórica.

Diante de tantas mudanças relatadas e provocadas inclusive pela comunicação, livre e ilimitada, entre os povos de todo o Mundo, é válido perguntar se também haverá alguma mudança na Ordem Maçónica. Será a Maçonaria do futuro diferente daquela tradicional que conhecemos hoje?

O poder da Pergunta

Toda a interpretação é um acto político. Não há uma, mas múltiplas realidades, todas dependentes da percepção de cada interprete. Como a forma de olhar o mundo condiciona a maneira de nele actuar, toda interpretação aceita tem consequências para os modos de vida da realidade interpretada, porque a acção de intervenção reflectiu uma interpretação previamente existente. Para mudar a natureza das intervenções se faz imprescindível transformar as interpretações prevalecentes porque a cada interpretação corresponde um modo de intervenção. Não existe uma interpretação neutra. Cada interprete “vê” o mundo através da sua óptica de mundo, a qual denominamos concepção de realidade, tecida por um emaranhado de premissas, que são crenças, conhecidas como verdades, sobre como funcionam os mais diversos aspectos, processos e fenómenos da “realidade”.

Mas, tudo começa com as perguntas que devem ser feitas para se interpretar deita realidade. Que é realidade? Ou seja, que é educação, agricultura, saúde, cidadania, escola, liberdade, sociedade, solidariedade, dominação, diversidade, neo-mercantilismo, globalização, complexidade, hegemonia? Ou, por que existe terrorismo, miséria, opulência,, caos, crises, mudanças, vulnerabilidades? Sem dúvida, o fazer perguntas implica não aceitar, a priori, as respostas institucionalizadas.

Não se pode mudar a “realidade” com respostas, mas sim com perguntas. Pois, viver é aprender, aprender é mudar, mudar é seguir aprendendo em interacção com o contexto relevante. Assim, não se deve educar com respostas, mas sim com perguntas, para formar “construtores de caminhos” e não apenas “seguidores de caminhos”. Estamos habituados às respostas e não às perguntas. E se fazemos perguntas, geralmente fazemos perguntas do tipo “como” (Como mudar?), por exemplo; e não perguntas do tipo “por que” (Por que mudar?), por exemplo. Portanto, a interpretação depende da arte de elaborar perguntas.

Por que os marcos filosóficos – conceituais do paradigma do industrialismo já não servem como guias confiáveis para orientar as acções sociais, económicas, políticas e institucionais do desenvolvimento e bem-estar da humanidade e do planeta? O que é que se está a passar com o mundo desde a segunda metade do século XX? Estas perguntas são exemplos de perguntas interpretativas para as quais não há respostas únicas nem definitivas, mas que os múltiplos interpretes construíram variadas respostas para ditas perguntas. Sem dúvida, tão importante como as respostas encontradas, é o marco interpretativo construído para a interpretação, porque oferece a possibilidade de que outros “actores” sociais e institucionais façam as suas próprias interpretações, de forma autónoma, a partir das suas “realidades” e aspirações.

As palavras caos, crises, mudanças, são as mais repetidas parar expressar a nossa perplexidade sobre as últimas décadas do século XX, e sobre a vulnerabilidade que nos acompanha desde então até esta primeira década do século XXI. As Mudanças são tantas e tão profundas, quantitativas e qualitativamente, e tão velozes que nos sentimos reféns de uma espécie de vertigem cultural – crise de percepção_ que limita uma leitura satisfatória da realidade.

Por que uma realidade caórdica – caos + ordem – como a proposta pela Teoria da Complexidade Emergente (Morim, 2000) parece mais real que a realidade ordenada – fictícia – descrita por muitos físicos? Por que as respostas acumuladas pela ciência moderna – positivista – já não são suficientes nem satisfatórias para compreender o que está acontecendo com a humanidade e o planeta? Quando são tantas as perguntas sem respostas, o ser humano necessita construir hipóteses exploratórias, que sejam inspiradas por perguntas relevantes.

A humanidade está a experimentar uma mudança de época

Nos últimos tempos temos escutado, com bastante frequência, que o mundo está passando por uma época de mudanças e, com isso muitos de nós ficamos satisfeitos. Mas, está a humanidade experimentando uma época de mudanças ou uma mudança de época? Mas, é realmente diferente “uma época de mudanças” de “uma mudança de época”, ou se trata apenas de um jogo de palavras? Para nosso entendimento, numa época de mudanças as características da época histórica vigente não estão em questionamentos, e a mudanças que surgirem são interpretadas e manejadas com o apoio confiável dos “artefactos intelectuais” gerados pela mesma época histórica para orientar os posicionamentos sociais, económicos, políticos e institucionais para o desenvolvimento e o bem-estar. Por outro lado, numa mudança de época, as características da época histórica vigente estão sob sempre sofrendo críticas inexoráveis, por causa dos impactos negativos do “desenvolvimento” praticado, tendo como premissas, as mesmas derivadas das características dominantes, e os “artefactos intelectuais” da época em declínio já não funcionam como guias confiáveis, deixando a todos perplexos e vulneráveis.

Metaforicamente, numa época de mudanças, temos apenas que limpar as nossas “lentes”, a nossa visão de mundo (concepção de realidade, sistema de verdades), quando algumas manchas (dúvidas criadas por problemas e desafios emergentes) deixam fora de foco parte das nossas “lentes” (culturais), o que nos limita a compreensão de certos aspectos, processos ou fenómenos da realidade. Quando as ditas manchas aparecem nas nossas “lentes”, devemos apenas buscar na “caixa de artefactos intelectuais” da época histórica vigente o conceito, teoria, metáfora ou analogia, que tenha a mesma cor da mancha que deixa parte das nossas lentes fora de foco. Todavia, numa mudança de época, nós não logramos encontrar na “caixa de artefactos intelectuais” da época em declínio, conceitos, teorias, metáforas nem analogias, com as cores correspondentes às cores das manchas que não nos permitem uma leitura satisfatória da realidade. Por fim, durante uma época de mudanças é suficiente apenas “limpar as lentes”, ao passo que, numa mudança de época devemos “trocar as lentes”.

Por outras palavras, numa época de mudanças, os modos de interpretação vigentes sob o paradigma dominante da época histórica em curso são suficientes para compreender as mudanças em marcha, e os correspondentes modos de intervenção são igualmente suficientes para manejar as mudanças necessárias. Numa mudança de época, sem dúvida, os modos de interpretação vigentes revelam-se insuficientes ou obsoletos ante as novas realidades. Obviamente, os modos de intervenção que correspondem a ditos modos de interpretação, tampouco servem para manejar e implementar as mudanças necessárias. Por isso, numa mudança de época faz-se necessária a reconstrução dos modos de interpretação e intervenção.

(Continua… Ligação para a Parte II)

Luiz Carlos Silva

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2 Comentários em “Maçonaria do século XXI – pensar, sentir e viver (Parte I)

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    O acolhimento é tudo, no mundo atual o ser humano não mais olha para o seu próximo, isso é muito mau para a humanidade, temos de olhar o próximo com mais amor.

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