Maçonaria do século XXI – pensar, sentir e viver (Parte III)

(Continuação – Ligação para a Parte II)

Os caminhos da mudança

Falemos agora de modo mais específico sobre a questão da mudança. O que é preciso para que mudemos o modo de pensar? Para responder a esta pergunta, examinemos o diagrama a seguir:

Acompanhemos a sequência: existe uma estrutura que produz o pensamento. O pensamento gera acções. As acções produzem resultados (consequências). É o que estamos acostumados a observar no dia-a-dia. E como acontece com as leis da ecologia, na Maçonaria, essa progressão tanto funciona para o bem quanto para o mal.

Vejamos um exemplo. Num hospital, trata-se com antibióticos infecções por estafilococos. No início a resposta é boa e os pacientes melhoram. A seguir, porém, percebe-se que a bactéria se tomou resistente. Então pensa-se sobre o que fazer – e o faz por meio do modelo mental linear, na forma de causa e efeito imediato: para estafilococos resistentes, antibióticos mais potentes.

Usa-se então antibióticos mais potentes. Os pacientes melhoram. Logo depois, contudo, os estafilococos tomam a apresentar resistência. E de novo pensando linearmente: para bactérias mais resistentes, antibióticos mais potentes. É claro que esta é uma providência correcta – mas não deveria ser a única.

Ao pensar linearmente, procuramos solucionar o problema com o mesmo modelo mental que o criou. E assim caímos na linearidade de sempre: Bactérias resistentes => antibióticos potentes => bactérias resistentes => antibióticos potentes >. E assim por diante.

O problema não é resolvido, mas apenas adiado. Com efeito, hoje sabe-se que existem cepas de estafilococos resistentes a todos os antibióticos conhecidos. O que aconteceu? Caiu-se, como sempre, numa solução simplista. Com isto, deixou-se de considerar em conjunto os demais (e múltiplos) factores envolvidos nas infecções hospitalares.

O modelo mental complexo propõe que em vez de questionar o pensamento depois de ele ter sido estruturado é preciso dar um passo atrás e, como se vê no diagrama, questionar a estrutura que lhe deu origem.

E qual é esta estrutura? Ou, dizendo de outra maneira, qual é a estrutura que produz o pensamento? A resposta que nos ocorre de imediato é: o cérebro. É dele que se origina o pensamento. Esta é a conclusão linear, baseada na causalidade simples. Trata- se, portanto, de uma conclusão simplista. Vejamos porquê:

  1. Não há muitas dúvidas de que o pensamento se origina no cérebro;
  2. Mas este órgão não está solto no ar: ele faz parte de um sistema (o nervoso);
  3. Este, por sua vez, faz parte de um organismo, o qual vive num mundo, num meio ambiente.

Estamos, portanto, utilizando aqui o pensamento complexo. E por meio dele chegamos a um raciocínio bem mais abrangente, desenvolvido pelo cientista chileno Francisco Varela: a mente faz parte do cérebro; o cérebro faz parte do corpo; o corpo faz parte do mundo; logo, a mente faz parte do mundo. Todas estas instâncias estão interligadas; elas acolhem-se mutuamente. Deste modo, podemos dizer que se a mente faz parte do mundo, a estrutura que a produz não é apenas o cérebro, como se vê no diagrama a seguir:

O ser humano é físico porque tem um corpo físico, composto por elementos químicos; é biológico porque esse corpo está vivo; é psíquico porque ele comporta uma mente; é social porque vivemos em sociedades; é cultural porque as sociedades produzem culturas; é histórico porque tudo acontece ao longo de um processo histórico; é ambiental porque vivemos num meio ambiente ou bioma.

Assim, como foi dito há pouco, afirmar que é apenas o cérebro que produz a mente é uma atitude simplista. É claro que ele é o órgão básico em que se dá a maioria, mas não todos, os processos mentais. Quem produz a mente é o ser humano em interacção com a totalidade.

Esta é a conclusão a que chegou a moderna ciência cognitiva. E ela só foi possível quando várias disciplinas se uniram num grande esforço, cada qual dando a sua contribuição: a psicologia cognitiva, a neurociência, a linguística, a filosofia da mente, entre outras. Ou seja: trata-se de um esforço interdisciplinar que a moderna Maçonaria, a Maçonaria do presente para o futuro, não deve olvidar.

A cultura e a sua transformação

Uma vez vistos e compreendidos os marcos conceituais apresentados até aqui, logo surge a pergunta de sempre: mas o que fazer para pôr tudo isto em prática? Ou, com outras palavras: como passar a fazer as coisas (entre elas, claro, as acções da Maçonaria) de um modo diferente do actual? Mas, que seja benéfico e eficiente.

A resposta a esta indagação implica lidar com uma palavra-chave, que aliás está expressa na pergunta: o verbo fazer. Ela é importante, pois também está na definição de cultura.

Hoje, costuma-se definir cultura de uma forma simples, mas eficaz: é o modo como as coisas são feitas num grupo, organização ou instituição. Quando uma equipe de arqueólogos e antropólogos faz escavações numa determinada região, no Egipto, por exemplo, em busca de civilizações antigas, vai à procura do que esses povos, há muito desaparecidos, deixaram feito: estátuas, ruínas de templos e outros prédios, urnas funerárias, cerâmica e assim por diante. Todo este material permite que em muitos casos se reconstitua o modo de vida, os costumes, a religião, a história, a cultura, enfim, dessas civilizações.

Se quisermos que algo se modifique num determinado grupo, organização ou instituição é preciso mudar o modo como as coisas são feitas nesse grupo, organização ou instituição. Ou seja: é necessário mudar a sua cultura.

Eis, portanto, o nosso desafio: transformar a nossa cultura de relacionamento: modificar os seus modos básicos, actuais e desvirtuados, de fazer, que, como sabemos, incluem, a desvalorização das pessoas, havendo em muitos casos o predomínio da frieza em prejuízo do humano. Estes são modos de fazer que caracterizam uma cultura não- maçónica.

Trata-se, portanto, de criar e implantar uma cultura da verdadeira Maçonaria num domínio em que reina o seu contrário. Não é preciso pensar muito para chegar à conclusão que estamos diante de um desafio de grandes proporções, que, por isso mesmo, não pode ser superado a curto e a médio prazo.

Tempo, cultura e mitos

Esta é, talvez, a principal das dificuldades, que não são poucas, para a criação e implantação de uma cultura Maçónica na verdadeira acepção da palavra: a questão do tempo, do prazo.

Como todos sabem, a nossa sociedade caracteriza-se, entre outras coisas, pelo imediatismo. Queremos tudo no menor prazo e preço possíveis.

Mas este não é o único obstáculo a superar, pois ele faz parte de um amplo âmbito de modos de fazer e viver. Como mostram os estudiosos do assunto, a nossa cultura vem do patriarcado europeu. Ao longo dos séculos, tem avançado e consolidado os seus fundamentos, cuja base de raciocínio é como já sabemos a lógica binária ou pensamento linear. O pesquisador americano Sam Keen sintetiza assim o que chama de mitos patriarcais do Ocidente, a cujo conjunto chama de lógica da mitologia ocidental:

  1. Obsessão pela máquina;
  2. A convicção de que o sentimento, a intuição e as emoções são modos primitivos e imaturos de pensar;
  3. A convicção de que a natureza e os seres vivos do sexo feminino devem ser controlados e afastados das posições de poder;
  4. A convicção de que a vida humana deve ser organizada segundo os ditames da economia de mercado;
  5. A convicção de que o conhecimento técnico-científico e o poder são as bases da identidade humana.

A estas características, o biólogo Humberto Maturana e a psicóloga Gerda Verden-Zöller acrescentam:

  1. Apropriação. Desejo de domínio;
  2. Atitude extractivista e predatória para com a Terra;
  3. A desconfiança vista como regra nos relacionamentos interpessoais;
  4. Relações interpessoais baseadas no modelo autoritarismo-obediência- vigilância-controle;
  5. A guerra vista como um modo natural de convivência.
  6. Predomínio do modelo mental linear (lógica binária).

Como é fácil perceber, o não-relacionamento maçónico que permeia muitas das nossas acções é apenas uma manifestação desse quadro bem mais amplo. Além do mais, toda a actual economia de mercado estimula esse modo competitivo, excludente e predatório de vida. As suas consequências em relação aos ecossistemas, a escalada da exclusão social e, é claro, a chamada desumanização das pessoas, estão à vista de todos.

É em relação a tudo isto que precisamos agir. Não se trata, evidentemente, de empreendimento de resultados imediatos. Entretanto, diz o quase lugar-comum, se quisermos cobrir alguma distância, pequena ou grande, o primeiro passo deve ser dado. É este o espírito do presente trabalho sobre a Maçonaria que pretendemos: dar os primeiros passos de uma jornada que sabemos ser muito longa.

Para que não haja dúvida sobre o que queremos dizer quando falamos em mudança de cultura, é importante lembrar a frase de Robert Theobald: “É impossível modificar um elemento numa cultura sem alterar todos os outros”. E não poderia ser de outra maneira, pois, como sabemos, uma cultura é um sistema, um sistema criado por nós, seres humanos.

A cultura patente comporta as estruturas de superfície de um grupo, organização ou instituição. É a fachada e, do lado de dentro, a pintura das paredes, os móveis, a decoração, os murais e quadros de avisos, o modo como as pessoas se trajam, como elas se comunicam umas com as outras e com os visitantes. É a maneira como elas se comportam, enfim. A cultura patente representa o modo como a organização quer ser vista. É a cultura manifesta.

A cultura latente é o pólo oculto. Inclui os conflitos, os problemas, as animosidades, as dificuldades de relacionamento. Nela se encontra aquilo que a organização não quer que apareça. Entretanto, se é ali que estão os problemas, é também nesse âmbito que estão a criatividade, as possibilidades de negociação e mudança.

Para as finalidades deste trabalho, porém, o que realmente importa é conhecer um pouco sobre o que ocorre nos pólos instituído (cultura patente) e instituinte (cultura latente). Utilizamos para tanto, a metáfora da balança de dois pratos e um fiel, cuja utilidade é chamar a atenção para dois factos básicos:

  1. Uma organização em que a balança pender em excesso para o pólo instituído será inevitavelmente rígida, burocrática e lenta. Será uma organização difícil de administrar, além de pouco eficiente.
  2. Uma organização em que a balança pender demais para o pólo instituinte será excessivamente fluida. No limite, tenderá à desorganização e à anarquia. Como no caso anterior, será uma organização de difícil administração e baixa eficiência.

Assim, deduz-se que o conhecimento do que acontece nos pólos instituído e instituinte de uma organização é a base de todo trabalho de mudança de cultura organizacional. Se o nosso objectivo é buscar a mudança organizacional, é necessário estabelecer, tanto quanto possível, o equilíbrio entre as culturas patente e latente.

Ou, dito de outro modo, promover a harmonia entre: o instituído e o instituinte; o linear e o sistémico; a lógica e a intuição; a razão e a emoção.

Para dizer o mesmo de uma forma bem mais agradável, mas nem por isso menos eficaz, lembremos os versos do poeta Ferreira Gullar:

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim é todo mundo: outra parte é ninguém: fundo sem fundo.
Uma parte de mim é multidão: outra parte estranheza e solidão.
Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira.
Uma parte de mim almoça e janta: outra parte se espanta.
Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente.
Uma parte de mim é só vertigem: outra parte, linguagem.
Traduzir uma parte na outra parte – que é uma questão de vida ou morte – será arte?

Em qualquer organização há componentes como os valores compartilhados, as crenças, as normas de comportamento, as estruturas organizacionais e os sistemas de controle. O ponto central, porém, é sempre representado pelas pessoas.

As organizações são sistemas dentro de sistemas mais amplos, isto é, as sociedades. Estas, por sua vez, fazem parte de sistemas mais amplos, e dessa forma chegamos ao âmbito planetário. Fazer parte de um grupo, organização ou instituição requer, portanto, consciência participativa, ou seja, responsabilidade social, ambiental e planetária.

Por isso todo programa da Maçonaria que pensamos e queremos, é necessariamente um empreendimento comunitário, o que não quer dizer, porém, que os obreiros precisem abrir mão das suas individualidades. Ao contrário, um dos pontos mais importantes a compreender é que tomar plena consciência da individualidade (que leva à fraternidade) é a melhor maneira de evitar o individualismo (que leva à exclusão).

Assim, os focos mais importantes do processo de mudança organizacional aqui buscados são:

  1. Desenvolvimento pessoal.
  2. Desenvolvimento interpessoal.
  3. Visão e comprometimento compartilhado.
  4. Compreensão da complexidade.

Sobre estas áreas é que se aplicarão os métodos e técnicas de mudança de cultura organizacional.

Como já foi dito há pouco, trata-se de um esforço comunitário, um trabalho de todos e para todos, uma actividade que abandona a linearidade do individualismo e da exclusão e busca o desenvolvimento em rede (membro, triângulo, loja, potência) enfim, que começa com o reforço da individualidade e procura a solidariedade e a fraternidade.

Digamos a mesma coisa com outras palavras, com os versos do poeta João Cabral de Melo Neto:

TECENDO A MANHÃ

Um galo sozinho não tece uma manhã:

ele precisará sempre de outros galos.

De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol dos seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia ténue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

Considerações éticas

A actual situação do mundo inclui, além do desastre ecológico para o qual nos encaminhamos, uma série de distorções: injustiça e desigualdade social, económica e política; exclusão social; concentração de renda e poder; miséria e marginalização, na globalização económica; inacessibilidade da maioria às conquistas científicas e tecnológicas; não-consolidação de uma cultura de defesa dos direitos humanos e da cidadania; a discriminação da mulher; o racismo; e assim por diante.

A compreensão da ética desta proposta implica uma abordagem complexa, não- excludente, das suas diversas variáveis. É preciso entender, como observa Edgar Morin, as múltiplas causas que se interpenetram e se modificam umas às outras. Isso significa dizer que cada caso, indivíduo, comunidade, país, tem as suas particularidades, que são fundamentais para o entendimento do que acontece e do que pode ser feito. O que nos leva a sempre relativizar as generalizações aqui utilizadas.

Valores

Por trás dos sistemas políticos e económicos, e também dos movimentos dos seres humanos, de modo individual ou colectivo, encontraremos sempre valores que influem nos comportamentos. Não é difícil perceber o quanto a competição, o autoritarismo, o poder centralizado, o individualismo, o egoísmo, a ganância, a apropriação e a acumulação são valores que permeiam o modo de vida de muitos de nós e acabam gerando a situação a que chegamos.

A maioria das nossas relações é hierarquizada. Se os dominadores impõem a sua vontade, os dominados obedecem, e com isso delegam responsabilidades e se alienam. Os submissos não assumem responsabilidades (“Estou fazendo porque ele mandou, eu não tenho nada a ver com isto”), e quem manda acredita estar fazendo a coisa certa.

Desta forma, o controle e a vigilância tornam-se cada vez mais necessários: precisamos controlar (dominar) a natureza, os obreiros, os funcionários, o conteúdo, o orçamento, a droga. Além disso, é necessário disputar o poder, lutar pelas vantagens. Adquirir e manter os privilégios a qualquer custo, nem que para isso tenhamos que nos corromper e corromper tudo à nossa volta. Competir e ganhar, ganhar e competir, sempre a qualquer preço! Até onde?

Não se trata exactamente de falta ou confusão de valores, mas de valores que, conscientemente ou não, vêm direccionando os rumos da nossa civilização, e a nossa Sublime Ordem está contextualizada. Tais valores precisam ser identificados com clareza e revistos com urgência. Eles têm trazido cada vez mais exclusão, desigualdade, iniquidades, divergências e violência.

Cada vez mais, temos “coisificado” e transformado em produtos a serem comercializados quase tudo, inclusive o próprio ser humano e a vida. “Coisificamos” os outros e a natureza, e assim estamos cada vez mais separados deles e dela. Acabamos por coisificarmos a nós mesmos e desse modo a vida vai perdendo o seu valor intrínseco, o que nos torna cada vez mais distantes dos princípios fundamentais da Ordem, cada vez mais insensíveis.

Tais valores não vieram do nada: foram construídos no decorrer da nossa história e se mantêm até hoje na maneira específica como nos relacionamos. Seja com a natureza (desperdiçando água, jogando papel nas ruas ou lixo nos rios, desmatando florestas ou desperdiçando papel); seja com os outros (quando os exploramos e negamos, quando não os ouvimos, quando não “reconhecemos” o irmão fora do Templo); seja connosco (quando somos controladores, exigentes e severos, de um lado e, do outro, tão negligentes com vários aspectos de nós mesmos).

Pesquisas também destacam alguns dos valores básicos da nossa cultura patriarcal, entre eles a valorização da guerra e da luta. Falamos o tempo todo em lutar: contra a fome, o terror, a pobreza, o comunismo, o capitalismo, o fanatismo. Supomos sempre a existência de um inimigo, um oponente, o que é um modo de aceitar as hierarquias da autoridade e do poder, o controle do outro, a apropriação.

Este tem sido o modelo predominante da nossa cultura.

Pode-se observar este jogo nas relações mais quotidianas, em casa e também nas transacções entre países. Elas condicionam quase todas as nossas instituições: a família, a escola, os serviços de saúde, o governo, determinando a política, a economia, a educação.

A exclusão, que não é só económica, acaba sendo não só inevitável, mas necessária para a manutenção daquela dinâmica social e económica. Eu ou você, isso ou aquilo, sempre houve e haverá excluídos neste jogo. Com a exclusão vêm a frustração, a mágoa, o medo. E também o ódio e a violência.

A guerra e outras formas de violência são consequências desta maneira de viver, fazem parte desta lógica. Não há, pois, como erradicá-las se continuarmos convivendo e percebendo o mundo dessa maneira. Como alcançar a paz sem reavaliar esse modo de pensar e sentir, e os valores nele implicados?

A exclusão, a violência e questões correlatas não estão fora do nosso âmbito. Não são questões só dos excluídos, como se não o fôssemos de alguma forma. Envolve e ameaça a todos. Onde quer que ocorra, qualquer injustiça é uma ameaça colectiva.

Onde quer que aconteça, o desrespeito aos direitos humanos é uma ameaça comum. Se o outro não for livre, também não o seremos. Esta foi a dura lição do século que passou: ou nos responsabilizamos por todos e pelo planeta, ou a nossa sobrevivência estará ameaçada.

Entre outros sentidos, Maçonaria também significa ao menos atenuar a exclusão social. Maçonaria é também garantir acesso. Acesso à comida, à terra, ao crédito e outros insumos; acesso à moradia digna, ao trabalho, à saúde; acesso à educação e à cultura, acesso à informação e ao conhecimento, à reflexão crítica da realidade, de quem somos e de que mundo é este em que vivemos. Maçonaria também significa não- violência e a promoção da paz.

Verdade

Na nossa cultura, apropriamo-nos da terra, dos animais, do trabalho, e acabamos por nos apropriar da verdade. Falo da noção de verdade única, que deve servir para todos. Existiria uma verdade absoluta? Esta verdade que tanto buscamos?

Considerarmo-nos detentores da verdade total assemelha-se a um pesadelo pretensioso, do qual a humanidade parece despertar. Como donos da verdade, julgamos estar autorizados a dizer o que o outro deve fazer, mais que isso, o que ele deve ser. Transformamo-nos no dono do outro, que deixa de ser outro e passa a ser uma coisa. Ninguém é dono da verdade, sejam os pais, o professor, o médico, o director, o Aprendiz ou o Grão-Mestre ou, ainda, a última teoria científica.

Na tradição latina, mores significa norma, costume, conforme os bons costumes, regra. Dela se origina a palavra “moral”. Reconhecemos nela um carácter normativo, autoritário, que implica obediência e uniformidade. Como aqui definida, a moral é algo que se impõe de fora para dentro. Um conjunto de valores e regras que deve servir para todos, garantindo assim previsibilidade e homogeneidade nas relações, minimizando as diferenças.

É preciso, porém, atentar para uma questão crucial: como percebemos o outro, um outro diferente de nós, e de que forma entramos em relação com ele. Martin Buber foi um dos primeiros a colocar a questão: estamos diante de um outro ser humano ou diante de uma coisa?

“Coisificar” o ser humano equivale a tratá-lo, segundo Marilena Chauí, como não humano, isso é transformá-lo numa coisa. É negar-se a acolhê-lo na sua condição mais profunda.

Por exemplo, quando só vemos a imagem do selvagem pelos critérios dos “civilizados”, que arbitram o que é civilização e barbárie, na verdade queremos reduzi-lo aos nossos parâmetros.

De todo modo, o importante é destacar que agindo e pensando dessa maneira a ideia de alteridade desaparece e, assim, reforça-se a nossa arrogância. Ver as pessoas segundo os nossos pressupostos equivale a negar-lhes as suas infinitas possibilidades humanas. Coisificamos o outro e assim não o acolhemos, cada vez que exercemos os nossos preconceitos e os disfarçamos com valores aparentemente aceitáveis.

Em tudo isto, o mais dramático é que não percebemos que ao coisificarmos as pessoas, tomamo-nos também coisas. Coisificar os outros, coisifica a nós mesmos. Desumanizar os outros, desumaniza-nos. Não acolher os outros é não acolher a nós mesmos.

Legitimar o outro é algo que vai muito além do discurso, passa por toda a nossa dimensão não-verbal de interacção. Expressa-se no olhar, na atitude do corpo, na intensidade do toque. Manifesta-se no dito e no não-dito. É algo que não se disfarça.

Rejeitar tudo o que submete, tudo o que oprime tudo o que nega o ser humano, tudo o que o transforma em coisa, é um dos fundamentos de uma atitude não-violenta, de uma atitude maçónica. Enquanto houver a menor tendência de transformarmos a nós ou ao outro em coisa, haverá miséria e sofrimento no nosso mundo, e este provavelmente seja o mais radical empreendimento a realizar. Talvez aqui esteja a chave principal que nos permita efectivamente encontrar uma autêntica vivência maçónica, uma autêntica pedagogia da paz e da inclusão.

Para a palavra “ética” do grego ethos, encontramos uma antiga significação (em Homero e Hesíodo) é morada, habitat, toca, refúgio, estábulo. Refere-se a uma espadalidade na qual nos podemos sentir seguros, acolhidos. Já não é a sobrevivência que se impõe: é a convivência que surge como possibilidade baseada na confiança.

O bem comum constitui a base de uma ética. Bem comum não é o bem da maioria, nem o bem do outro, muito menos o bem de uma minoria. É o bem de todos, de todas as espécies vivas do planeta, de todo o meio ambiente. Estamos, portanto, falando de uma convivência que garanta o bem da nossa morada, da nossa Instituição, do nosso planeta e de tudo que nele existe.

Maçonaria também denota, entre outras coisas, refúgio, abrigo, agasalho, o que transforma a sua ética numa significativa redundância: gerar duas vezes confiança e o bem de todos.

Eis a grande questão da Maçonaria e da ética: a convivência. É nela que nos tornamos o que somos e é nela que nos podemos modificar. Assim, é preciso reflectir sobre o tema da convivência, se quisermos promover uma aprendizagem verdadeira, que não seja simplesmente a imposição vertical de uma série de conceitos-regras a serem obedecidos sem crítica nem criatividade.

Enquanto há concordância, homogeneidade de ideias e comportamentos tudo vai bem. Enquanto há previsibilidade no comportamento humano as relações se estabelecem sem maiores dificuldades. No entanto, quando a concordância se rompe e não há mais previsibilidade, surge o conflito, as relações se tornam confusas e ameaçadoras. E aqui corremos o risco da desumanização.

É neste contexto que a diversidade se apresenta como um dos grandes desafios da convivência. Como lidar com as diferenças? Como resolver conflitos? Como manejar as contradições?

Historicamente, pelo menos desde o surgimento das cidades (cidade-estado), da Urbe, local em que, justamente, teriam que conviver diversidades culturais, étnicas, etc., o que se tem tentado é homogeneizá-las mediante regras impostas a todos.

Não é diferente com o que acontece nos aparatos da nossa Ordem (Potências, ritos rituais, Lojas e as entidades para-maçónicas). Estamos muito mais comprometidos com as regras a que obedecemos do que com o bem estar do outro. Não percebemos que ele é um outro diferente, com necessidades e capacidades próprias. Vemos apenas a nossa função, a nossa obrigação, e cumprimos a regra.

Tudo aquilo que não corresponde ao nosso modelo de “normalidade” está sujeito a um processo de inferiorização e exclusão. Na nossa sociedade o modelo será o homem, branco, ocidental, adulto, rico, saudável, magro, não portador de deficiências, heterossexual, urbano. O que foge dele acaba caindo em alguma forma de discriminação. No convívio diário costumamos fazer o mesmo não só com base nesse modelo construído culturalmente e alimentado pelos meios de comunicação, mas com tudo aquilo que consideramos diferente de nós mesmos.

Ser Maçom é, pois, encontrar outra forma de lidar com as diferenças. O contacto com o diferente é a possibilidade de aprender algo novo, é a possibilidade real de expandir meu mundo. O que, mais que respeitar o diferente, leva a valorizá-lo. Não se trata apenas de tolerar e suportá-lo, pois isso muitas vezes transforma-se em arrogância e preconceito. Nem mesmo se trata de só respeitar as diferenças, uma vez que isso se pode transformar em indiferença. O essencial é reconhecer nela o seu verdadeiro valor, pois, com isso humanizamo-nos.

Humanizamo-nos à medida que compartilhamos espaço, comida, intimidade e cuidados. Somos filhos do cuidado. Sem ele não existiria espécie humana. Eis um caminho em que aqueles que praticam a Arte Real se podem humanizar e humanizar as relações entre as pessoas: cuidando.

Estamos vivos graças a uma imensa rede de solidariedade. A vida das partes é a vida do todo e a recíproca é verdadeira. Construir o mundo significa construir a si próprio. E construir-se é construir o mundo.

Ser Maçom é encontrar significado para a própria existência humana, é colorir o nosso quotidiano com a beleza mais singela dos gestos amorosos, é o lenitivo doce para os momentos de maior sofrimento, é a esperança que nos reacende o sorriso quando tudo parecia perdido.

Muitas vezes a saúde, a cura, a prevenção, dependentes de tantos factores, não estarão nas nossas mãos, porém o acolhimento, o respeito, a consideração e o cuidado, estes sim, sempre possíveis mesmo que não possam curar a patologia, poderão, antes de tudo, “curar” a desumanidade, uma doença que nos está matando a todos.

(Continua – Ligação para a Parte IV)

Luiz Carlos Silva

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