Maçonaria do século XXI – pensar, sentir e viver (Parte IV)

(Continuação – Ligação para a Parte III)

O viver

Este é o propósito, delinear mesmo que de modo sucinto, uma filosofia prática de “vida Maçónica” e, portanto do Acolhimento. E isto pode ser feito ampliando-o, fazendo com que ele passe da esfera pessoal, vá ao plano interpessoal e, por fim, que a complete no âmbito planetário. Este, por sua vez, influenciará a esfera pessoal e assim por diante, criando-se então a grande circularidade expressa na primeira lei da ecologia: tudo está ligado à tudo.

Já sabemos que esta lei, por sua vez, é também a primeira lei do Acolhimento: tudo está ligado a tudo, de modo que tudo acolhe tudo e por tudo é acolhido. Assim, pode-se definir o Acolhimento do seguinte modo:

Já aprendemos que viver é sempre viver com os outros – e no mundo. Trata-se de uma condição que cria compromissos e responsabilidades.

O que está expresso no diagrama anterior não é apenas um conjunto de teorias nem um elemento de hipóteses. São factos reais, que não podem ser contestados por argumentos. A este respeito, convém dar pelo menos um exemplo.

Num processo de negociação, costuma-se perguntar: e se a outra parte não quiser negociar? E se o outro lado não quiser participar? Estaria, nesse caso, impedida a negociação? É claro que não. Viver é conviver. Estamos todos no mesmo mundo, queiramos ou não. Recusar-se a participar é uma atitude ingénua, pois cedo ou tarde todos nós – ou os nossos descendentes – seremos atingidos ou influenciados pelos resultados das decisões humanas, participando delas ou não.

Deste modo, recusar-se a participar de qualquer actividade, social ou não, humana ou não, corresponde a participar de modo negativo. Por acção ou omissão, por compromisso ou alienação, participamos sempre, somos sempre responsáveis.

Ilustremos de outro modo este processo:

Somos todos egoístas em maior ou menor grau. Por outro lado, e também em maior ou menor grau, também somos todos altruístas, com excepção é claro, das patologias sociais. Mas o facto é que em determinados momentos da vida a balança pode oscilar mais para um lado ou para o outro, a depender de um conjunto complexo de circunstâncias entrelaçadas.

O egoísmo nos leva ao isolamento, à não-participação, ao individualismo. Estreita e obscurece o nosso horizonte mental. Conduz à competitividade, ao privilégio do valor económico sobre os valores humanos, ao autoritarismo, ao nacionalismo xenófobo e à exclusão.

O altruísmo nos conduz à socialização, à participação e à individualidade. Amplia e torna claro o nosso horizonte mental. Leva à competência do conviver, ao diálogo entre o valor económico e os valores humanos, à democracia, à nacionalidade e à inclusão.

No egoísmo, a tendência é participar negativamente. No altruísmo, tendemos a participar de modo positivo.

Trata-se de escolher entre dois pólos que frequentemente surgem na nossa vida quotidiana:

Eis aqui um ponto da maior importância. Para viver a Maçonaria é preciso, antes de tudo, evitar o mais possível as armadilhas do auto-engano. É ter em mente que, de um lado, nenhum de nós é totalmente favorecido pelo bom senso. E que, de outra parte, todos tendemos a resistir às mudanças, em maior ou menor grau.

Assim, para aprender a lidar com o auto-engano, é necessário o autoconhecimento, V.I.T.R.I.O.L.. E neste ponto nos vemos diante de uma das formas mais comuns de auto-engano: imaginamos, ingenuamente, que podemos nos conhecer sem a ajuda dos outros. E, ainda de modo mais ingénuo, imaginamos que é possível o autoconhecimento de pessoas isoladas do mundo.

Para viver Maçonicamente é preciso ter consciência do auto-engano e de como lidar com ele. Para tanto, é necessário buscar, permanentemente, o autoconhecimento. Este, como sabemos, é um empreendimento interminável, mas nem por isso deve ser negligenciado. O autoconhecimento implica conhecer o outro (e deixar-se conhecer por ele) e conhecer o mundo (e deixar-se conhecer por ele).

Viver Maçonicamente é, portanto, ampliar ao máximo as ideias de diálogo e conhecimento. Este raciocínio é validado por uma das teorias científicas mais importantes dos últimos tempos: a Teoria de Santiago, desenvolvida pelos cientistas Humberto Maturana e Francisco Varela e hoje mundialmente conhecida. Uma das suas principais bases é o seguinte raciocínio: a vida é um processo de conhecimento; logo, se quisermos conhecê-la é preciso saber como os seres vivos conhecem.

Se conhecer é viver, e vice-versa, viver como Maçom é ampliar ao máximo o conhecimento. E isto, por sua vez, implica levar a atitude Maçónica à prática, em todos os âmbitos e caminhos do quotidiano.

Tudo está ligado a tudo. A filosofia do Acolhimento Maçónico, tal como acima exposta, está presente em todos os domínios da nossa existência. Para que este ponto possa ser mais bem compreendido, convém acrescentar mais alguns pontos de vista, cuja base é o pensamento do filósofo alemão Martin Heidegger.

Comecemos falando dos significados da palavra “acolher”. Os dicionários a registam com os sentidos de hospedar; receber alguém; abrigar, atender; acreditar em, dar ouvido a. Desta maneira, acolher quer dizer “dar atenção a”, “preocupar-se com”, “cuidar de”. Significa, portanto, bem mais do que apenas receber e hospedar. A sua proposta também inclui estar disponível, estar à mão.

Percebe-se então que o Acolhimento está muito próximo dos conceitos de preocupação e cuidado, desenvolvidos por Heidegger. Para este filósofo, o ser humano é um ser-no-mundo. Ao nascer, ele se vê lançado ao mundo e, por meio da sua acção com este, precisa de traçar o seu projecto de vida:

A facticidade corresponde à situação em que o ser humano se vê lançado ao mundo numa situação que não escolheu. Ela gera a necessidade da elaboração de um plano, de um projecto que dê sentido à vida. Este, por sua vez, deve ser posto em prática. Para isso o ser humano precisa articular-se, ligar-se, vincular-se, não só aos outros seres, mas ao próprio mundo. Eis o início da colocação do projecto em prática.

A articulação pode ser percebida noutro conceito: o ser humano é um ser-no- mundo. Não se pode concebê-lo de outro modo. No entanto, ele não está no mundo de maneira apenas circunstancial. Isto é, não está no mundo como uma coisa que está dentro de outra, como por exemplo, “o lenço está no bolso”. Ao contrário, a nossa presença na Terra é estrutural: fazemos parte da sua estrutura e ela faz parte da nossa. Tu és pó e ao pó voltarás. Um acolhe o outro.

Ser-no-mundo significa estar indissoluvelmente ligado a ele e a tudo o que nele existe: os outros seres humanos, os demais seres vivos, as estruturas não-vivas do planeta. Tudo acolhe e tudo é acolhido. Tudo faz parte de tudo e com tudo interage.

Por isso, ser-no-mundo é ser-com, quer dizer, é acolher e ser acolhido. Esta é a nossa condição natural, e tudo aquilo que tentar impedir-nos de vivê-la traz como consequência uma situação de mal-estar. Tal desconforto, hoje mais do que nunca, está presente na nossa sociedade, em especial nos grandes centros urbanos. Passar por ele significa que em vez de “ser com” (o que nos levaria a uma cultura de paz), estamos vivendo a condição de “ser contra” (o que nos mergulhou numa cultura de guerra).

Viver Maçonicamente é, pois, viver a própria condição humana. Não a viver, ou vivê-la de modo incompleto, é uma forma de negar a humanidade, a nossa e a dos outros. É não se cuidar, ou cuidar mal, o que por sua vez implica não ser cuidado ou mal cuidado.

“Cuidar” pode ser entendido como preocupar-se, tomar conta, tratar. De acordo com esse conceito a maneira de ser básica do ser humano é o cuidado, a preocupação, pois somos seres-no-mundo, estamos no mundo em permanente interacção com os outros. Esse é um conceito de base, estrutural, que deve ser compreendido num sentido ampliado, mas que sem dúvida pode e deve ser levado à prática.

O cuidado e a preocupação, portanto, constituem os alicerces do Acolhimento. Esta circunstância pode ser expressa da seguinte forma:

A preocupação (o cuidado) com nós mesmos só nos afasta dos outros e do mundo se adoptarmos uma atitude individualista e, portanto não-comprometida. Cuidar exclusivamente de si, e levar isso a extremos, constitui uma sociopatia, isto é, uma patologia social. Em geral, o individualista se diz um patriota, um nacionalista. Mas, como sabemos, essa posição tem sido utilizada com frequência para justificar a apropriação, a xenofobia (aversão a pessoas e coisas estrangeiras), o fechamento e, portanto, a exclusão.

Cuidar de si sem deixar de pensar nos outros e no mundo é a característica fundamental dos Obreiros da Arte Real. Eles não buscam o individualismo, e sim a individualidade. No seu modo de entender, o nacionalismo xenófobo e excludente está afastado. A sua opção é a nacionalidade, isto é, o saber-se cidadão de um determinado país, mas também não deixar que essa condição impeça que eles se preocupem com a Terra inteira. O seu país é o lugar de nascimento, mas a sua pátria é a Terra.

No início destas considerações, quando mencionamos que o conceito de Maçonaria deveria ser aprofundado e ampliado, como o passo inicial para a sua inclusão nas nossas vidas, era exactamente disso que falávamos: o Maçom é uma pessoa acolhedora, é aquele que cuida de si próprio e estende esse cuidado aos outros e ao mundo.

Em consequência, torna-se claro que a Maçonaria não se limita às acções de beneficências. Ao contrário, os seus princípios estão, de vários modos, incluídos em várias iniciativas importantes no plano mundial.

Conclusão

Tudo isso dito, podemos agora concluir que a essência da actividade Maçónica é a inclusão do outro. Todos os caminhos a ela conduzem e dela retomam. Mas o modo de encontrá-los e as maneiras de trilhá-los requerem energia e persistência, num grau que desafia a todos nós.

As “sociedades totalmente administradas” resultaram em sociedades quase que totalmente mercantilizadas. No mundo actual, caminha-se para a divinização do “mercado”, do dinheiro, do “vil metal”, que a tudo permeia e condiciona.

Admitamos ou não, estes factos fazem parte do nosso quotidiano. A Maçonaria trabalha justamente no meio dessa cultura. A nossa tarefa é questioná-la, analisá-la, transformá-la. O sucesso do nosso empenho constitui a diferença entre o desencanto e a esperança, não apenas a abstracta e poética, mas aquela à qual se somam a vontade e a acção. É o que diz, com outras palavras, o educador Paulo Freire: “Não quero dizer, porém, que, porque esperançoso, atribuo à minha esperança o poder de transformar a realidade e, assim convencido, parto para o embate sem levar em consideração dados concretos, materiais, afirmando que a minha esperança basta. Minha esperança é necessária, mas não é suficiente. Ela só, não ganha a luta, mas sem ela a luta fraqueja e titubeia. Precisamos da esperança crítica, como o peixe necessita da água despoluída”.

Luiz Carlos Silva

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  • SILVA, Luiz Carlos. A Maçonaria para Neófitos. Campina Grande: Editora Krause. 2008.

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Um Comentário em “Maçonaria do século XXI – pensar, sentir e viver (Parte IV)

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    Muito perfeito artigo citado ,uma vez ouvi uma frase da minha mãe uma pessoa que tem sua próprias crença ,”Deus como ser supremo” ela me disse uma vez “tudo que desligar no céu será desligado na terra” .,Com este artigo da pra tirar umas conclusão e uns próprios questionamentos…

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