Maçonaria e Budismo

budismoTodas as grandes religiões do mundo se originaram na Ásia e três delas, Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, numa área relativamente pequena na Ásia Ocidental. Igualmente notável é a concentração de grandes líderes espirituais em diferentes partes do mundo no século VI a. C., ou num período próximo. Foi a época de Confúcio e talvez de Lao-Tse, na China; de Zoroastro, na Pérsia; de Siddharta Gautama, o Buda, na Índia; do maior dos profetas Hebreus, chamado o Segundo Isaías (40-55), e de Pitágoras, na Grécia.

É possível que o aparecimento de civilizações que se diziam universais dessa origem a religiões universais, ou então as novas religiões eram uma reacção às tensões nas sociedades existentes e à necessidade de uma saída espiritual e uma fé que transcendesse um politeísmo supersticioso.

De qualquer forma, o movimento em direcção a uma única realidade espiritual coincidiu com a procura dos pensadores Gregos de um único princípio que explicasse o mundo material. O Hinduísmo é a mais antiga das religiões mundiais, embora, segundo definição mais precisa, não se trata de uma religião do mundo, mas sim uma religião do povo da Índia. Ainda em relação aos indianos, o Budismo surgiu como uma reacção dentro do Hinduísmo e é uma das grandes religiões missionárias. Ironicamente, hoje não existe Budista na Índia.

Temos aprendido e ensinado que a Maçonaria, por meio dos tempos, soube usufruir o que de melhor e sublime havia nas diferentes civilizações, nas várias escolas filosóficas e na cabeça dos maiores pensadores e cientistas dos quatro cantos da terra.

A nossa arquitectura, lendas, código moral, etc., qual aço indelével, foram forjados em antigas eras da humanidade. Persas, Hebreus, Egípcios, Gregos, Sumerianos, e mais recentemente ingleses e franceses, deixaram símbolos, e, consequentemente, a imortalidade numa Loja Maçónica.

O objectivo deste artigo é traçar um paralelo entre um indiano ilustre, Siddharta Gautama, e a Maçonaria, já que até hoje pouco se pesquisou e pouco se conhece dessas incríveis coincidências, entre um e outro. Siddharta Gautama, o Buda, e Jesus, o Cristo, são personagens de vários pensamentos coincidentes e historicamente semelhantes em vários pontos: ambos não deixaram nada escrito, ambos começaram a pregar ao redor dos 30 anos de idade, e ambos somente chegaram até nós por meio dos escritos dos seus discípulos mais íntimos, e após dezenas de anos das suas mortes!

Siddharta nasceu no ano 567 a. C, em Kapilavastu, no sopé do Himalaia, (hoje, Nepal e fronteira com a China), filho rico do rei Suddhodana e da rainha Maya. Os monges Brâmanes profetizaram para ele uma vida asceta, pobre, miserável e de Salvador do Mundo. Sabedor dessas profecias, o seu pai o manteve sempre confinado no interior dos palácios, a fim de poupá-lo de ver como era realmente o seu país, cheio de miseráveis, escravos, doentes, etc. Siddharta teve os olhos vendados pelo seu pai até a idade de 30 anos, quando, já casado e com um filho, os deuses acharam que Siddharta deveria sair e empreender a missão para a qual se preparara durante tantos nascimentos e reencarnações anteriores.

Semelhante ao profano que se inicia, ele faz algumas viagens para além dos muros palacianos: na primeira vê um velho enrugado, apoiando-se numa bengala, e ao indagar de que se tratava, a seu protector explicou ser a velhice, a vida que se esvai inexorável com o tempo; na segunda, depara-se com um doente, gemente, simbolizando a dor; na terceira viagem encontra um cadáver já em decomposição, simbolizando a morte; na última viagem encontra um monge, maltrapilho, mendigo… no entanto percebe naquele homem um olhar de serenidade, apesar de todas as adversidades por que passava, e é nessa serenidade do mendigo que Siddharta percebe que existe uma saída que conduz à libertação de todo o sofrimento humano.

A partir daí, organiza a sua peregrinação pelo mundo deixando família, riquezas materiais e prazeres mundanos, embrenha-se na floresta, já sem as roupas principescas e sem cavalo.

No início, seguindo os passos de monges Brâmanes, foi asceta fanático, faquir, esmoler, e chegou a comer apenas um grão de feijão por dia, mas percebendo a inutilidade dessa seita e o seu fanatismo improdutivo, volta-se à meditação profunda. Aos 35 anos, após dias de meditação sob a figueira (árvore da sabedoria), recebe o dom da iluminação, e desse momento em diante passará a ser chamado BUDA (O desperto, O iluminado).

Na Maçonaria, a influência hindu refere-se à necessidade de meditação do companheiro em diante e nos CHAKRAS, ligados a algumas cerimónias solenes e alguns sinais de reconhecimento em Loja.

Ainda uma curiosidade sobre BUDA refere-se à árvore da sabedoria, ou o Bodhi (em hindu): debaixo dessa árvore, também como Jesus nas oliveiras, Buda foi tentado pelo Demónio MARA, com visões de prazer sensual. Segundo o Budismo, o homem que vencer as suas fraquezas, que arrancar de si todos os desejos ilusórios da vida, esse homem não mais reencarnar-se-á.

Embora não desafiasse a rígida estrutura de castas da sociedade indiana, ele insistia em completa igualdade dentro do seu grupo de monges.

Aos 80 anos, cumprida a sua missão na terra, Buda preparou-se para o fim da sua vida e para entrar no estado que era o objectivo supremo de todos os seus adeptos – O Nirvana era a libertação completa de todos os desejos e significava que o crente nunca teria que nascer de novo no mundo.

O Budismo passou além das fronteiras da Índia, chegando ao sudoeste da Ásia, Tibete, Mongólia, China, à Coreia e ao Japão para se tornar uma das grandes religiões do mundo e a fé mais popular no Oriente. Na sua terra de origem, porém, morreu quase por completo, sendo absorvido, gradativamente pelo HINDUÍSMO…, mas aí já é outra história.

Comparações

A MAÇONARIA é uma instituição que tem por objectivo tornar feliz a humanidade, pelo amor, tolerância, pela igualdade, pelo respeito à autoridade e à crença de cada um. Ela é universal, sem preocupações de fronteiras e de raças.

BUDA – A minha doutrina é semelhante ao Oceano e ambos vão-se tornando cada vez mais profundos… Assim como os rios que ao alcançarem o MAR perdem o seu nome, fazendo parte todos do GRANDE OCEANO, assim também os homens de toda casta, entrando para a comunidade, tornam-se todos IRMÃOS e passam a ser contados como FILHOS DE BUDA. O Oceano é o reservatório de todos os cursos d’água e da chuva das nuvens e, no entanto, não transborda, nem seca nunca. Assim a minha doutrina é compreendida por milhões de pessoas e, no entanto, não aumenta nem diminui.

A minha doutrina é pura e não faz distinção alguma entre o Nobre e o Vulgar, o Rico e o Pobre.

MAÇONARIA – Quando o Primeiro Vigilante dá a explicação para a primeira viagem, diz “criando em vós mesmos um outro ser, pela espiritualização e elevação de vossos sentimentos, tereis, então, retirado a venda material que prende vossa alma, e não mais precisareis de guia no vosso caminho”.

BUDA – No Budismo, é o Homem que traça a rota do seu próprio caminho. Nele está a salvação ao alcance de todos, pois depende somente do esforço de cada um. Assim o Homem torna-se o seu próprio Mestre, sem inspirações divinas ou poderes sobrenaturais. Por meio do refúgio interior e do autodesenvolvimento é possível se libertar da Escravidão, da Ignorância, e chegar à Verdade.

MAÇONARIA – A Pedra Bruta representa a inteligência, o sentimento do Homem no estado primitivo, áspero é despolido, e que nesse estado se conserva até que…

BUDA – Eu sou o resultado dos meus próprios actos, herdeiro dos actos, os actos são a matriz que me trouxe, é o meu parentesco, os actos recaem sobre mim, qualquer acto que eu realize, bom ou mal, eu dele herdarei.

MAÇONARIA – Vencer as minhas paixões, submeter a minha vontade.

BUDA – Abandonar os cinco sentidos ao sabor dos seus caprichos é como deixar um cavalo indómito sem rédeas. Tal cavalo as pessoas derruba e arrasta dentro do buraco. A mente é senhora dos cinco sentidos, mas é mais perigosa que uma cobra venenosa, uma fera ou um salteador, por isso deveis disciplinar vossa mente.

MAÇONARIA – A Maçonaria, embora não seja uma religião, tem, contudo, uma crença: a existência de um princípio Criador, ao qual denomina GADU.

BUDA – Mais fundo que o inferno, mais alto que o céu, além das mais longínquas estrelas, mas além da morada de Brahma, há um poder estável e divino, existente antes do princípio e que não terá fim, eterno como o tempo, seguro como a certeza, que impede para o bem e é súbdito das suas próprias Leis.

MAÇONARIA – A Câmara de Reflexões leva o neófito ao mundo da introspecção. Mais tarde, pelo V∴ M∴ , fica sabendo: “Os símbolos que ali existem vos levaram, certamente, a reflectir a respeito da instabilidade da vida, lição trivial sempre ensinada, e sempre desprezada”.

BUDA – Eliminai as trevas da ignorância com a luz da sabedoria. O mundo é algo perigoso e incerto, sem nada de estável.

MAÇONARIA – O Pavimento Mosaico, com os seus quadrados brancos e pretos, mostra-nos que apesar da diversidade, do antagonismo de todas as coisas da natureza, em tudo reside a mais perfeita “Harmonia”.

BUDA – Os astros rodam e não perguntam. O Sol evapora o Mar e restitui perdidas ondas em forma de aveludadas nuvens, que gotejarão montanhas abaixo, para refluir de novo, sem paz, nem trégua. (Até mesmo sobre a divindade, BUDA achava dualismo, ao dizer nada a repugna, nada a detém, tudo ama, enche os seios maternos de doce leite, bem como de mortífero veneno os dentes da serpente).

MAÇONARIA – A Pedra Polida ou cúbica representa o saber do Homem no fim da vida, quando aplicou esse saber em actos de piedade e virtude.

BUDA – Assim também como aquele homem que fez o Bem passa para o outro mundo, os méritos que conquistou na vida dão-lhe as boas vindas, como parentes dão as boas vindas a um ser amado que volta.

MAÇONARIA – Ao explicar ao V∴ M∴  porque foi recebido de olhos vendados na Maçonaria, e sem metais, o 1º Vigilante refere-se à abdicação das vaidades profanas e à necessidade imprescindível de instrução (SABEDORIA), que é o alicerce da Moral Humana.

BUDA – Sabedoria é um navio seguro para a travessia do oceano da velhice, da doença e da morte. É uma luz no meio das trevas, é um elixir que cura todas as doenças, é um machado que corta as árvores da paixão, por isso, deveis vos esforçar para a obtenção do desenvolvimento da “SABEDORIA.”

MAÇONARIA – Por que encontrastes facilidades na vossa 3ª viagem? Indaga o V∴ M∴  ao 1º Vig∴  E este diz-lhe: Porque ela nos mostra o estado de paz e de tranquilidade resultante da ordem e da moderação das paixões do Homem que atinge a idade da maturidade e da reflexão.

BUDA – Antigamente meu pensamento vadio errava, daqui e dali, onde o chamavam o amor, o desejo ou o prazer. Hoje eu o domino completamente como o cornaca domina o elefante selvagem.

MAÇONARIA – A tolerância, um dos deveres do Maçom, sustenta que cada um tem o direito de escolher e seguir a sua religião.

BUDA – Um homem que sustenta a verdade deve simplesmente dizer: essa é a minha crença, mas por causa disso não se deve tirar a conclusão absoluta e dizer: só há essa verdade, qualquer outra é falsa.

MAÇONARIA – Os três passos formados por cada um e a cada junção dos pés um ângulo recto significa que a rectidão é necessária para quem deseja vencer na ciência e na virtude.

BUDA – Qual é o caminho da salvação? É a Rectidão, é a Meditação, é a Sabedoria. Penetrada pela rectidão, a meditação se torna fecunda, penetrada pela meditação, a sabedoria se torna fecunda. Penetrada pela sabedoria, a alma se liberta totalmente do apego qualquer, apego aos desejos, apego ao erro e à ignorância.

MAÇONARIA – Os maçons, após receberem as instruções dos graus a que forem merecedores, devem guiar-se com os seus próprios passos, procurando aquela instrução que não lhes foi dada pelos rituais, procurando aperfeiçoamento maçónico nos livros especializados etc., daí sim, poderão concluir e interpretarem com mais segurança a simbologia maçónica, deverão ser os seus próprios mestres.

BUDA – Também pregava a necessidade de sabedoria, e a faculdade que os homens alcançam com ela de nortearem os seus próprios destinos. “Sede vós mesmos, vossa própria bandeira e vosso próprio refúgio, não vos confieis a nenhum refúgio exterior a vós. Apegai-vos fortemente à verdade. Que ela seja vossa Bandeira e vosso Refúgio”. Os que já foram elevados poderão recorrer ao ritual de Companheiro e ver que não há diferença nos ensinamentos, daí e os de BUDA, referentes à busca da verdade, pela meditação. As semelhanças entre as máximas Maçónicas e Budistas vão-se aprofundando, como aprofundando vão os graus, além do de aprendiz.

MAÇONARIA – Pergunta o V∴ M∴  ao 2º Vig∴ : Por que combatemos o fanatismo? E esse responde “Porque a exaltação religiosa perverte a razão e conduz os insensatos a praticarem acções condenáveis, em nome e honra de DEUS.”

BUDA – (Explicando como chegou à perfeição). Fiz bem em abandonar os exercícios ascéticos (fanáticos que ficam dias em jejum e martirizando os seus corpos). Foi uma felicidade eu ter abandonado aqueles exercícios inúteis. Foi uma felicidade eu ter perseverado no Pensamento Correcto, até chegar à iluminação. Como o remo de um barco que agarra na terra firme, o ascetismo (fanatismo), não traz o menor proveito.

MAÇONARIA – Para o Maçom, a sabedoria é primordial, mas a prática da caridade e beneficência de modo sigiloso é um dos importantes postulados a serem seguidos.

BUDA – Saber de cor todos os livros sagrados brâmanes não conduz à verdade. O conhecimento útil e a verdadeira ciência só podem ser adquiridos pela prática.

A Índia búdica

O budismo revolucionou a Religião Bramânica, ele deu espaço para aqueles que queriam atingir o Nirvana pela fusão em Deus e na renúncia. O seu iniciador colocou o budismo como uma religião democrática, universal e social, independente de castas. O budismo prega a utilidade do sofrimento e a necessidade da renúncia. O sofrimento é resultante de faltas nas existências anteriores (carma). O Carma acompanha-nos de uma vida a outra, e o budista deve expiar e reparar as suas faltas pela dor e a renúncia.

A crença budista de que quanto mais aflição e miserabilidade tivermos na nossa existência terrena, mais expurgaremos esta condenação póstuma e aproximar-nos-emos da definitiva libertação. A ideia do Carma domina toda a religião Búdica. Buda é uma emanação de Deus, modelo de virtude; Buda possuía a paz. Ele ensinou que os seus discípulos devem preocupar-se com a sua própria salvação e que auxilie a salvação dos seus concidadãos, deve preocupar-se com a salvação da humanidade. Gautama, o Buda, renunciou de direitos de nascimento e de fortuna, ele fixou a sua própria passagem para o Nirvana a fim de perseguir os seus esforços para abrir aos homens o caminho que conduz à extinção do sofrimento.

A Lei de Buda é a lei do perdão para todos. “Tu não matarás, não roubarás os bens de outrem, não cometerás adultério, não mentirás, tu te absterás de bebidas e enervantes, tu retribuirás o mal com o bem”. A generosidade, a cordialidade e a abnegação são para o mundo, o que a mola é para o carro. Esse é o caminho do desinteresse e do altruísmo.

Ensinamentos exotéricos

O bramanismo e o budismo têm a mesma concepção: A ascensão através da peregrinação das existências. A diferença é que o bramanismo é aristocrático e sacerdotal, é uma religião nacional. O Brâmane é exclusivista no ensinamento religioso, devido ao sistema de castas o acesso é difícil.

O budismo é uma religião universal, democrática e social, onde não se faz excepção de nacionalidade nem de casta. Todos podem chegar à iniciação superior. Foi no país onde domina a tirania dos “rajahs” que o budismo pregou a igualdade, a tolerância o pensamento livre.

A caridade não se limita aos homens.

O budismo legou-nos um grande número de livros sagrados: A “Voz do Silêncio”, O “Bhagavad-Gita” e inúmeros outros. O iniciado deve conhecer as forças e os ritmos humanos e procurar relacioná-las com as do universo e como modificá-las com o conhecimento. Existem duas formas de ensinamento:

  1. O exotérico – para a multidão, uma doutrina mística e humanitária, baseada na moral e no melhoramento do coração e elevar o sentimento para o divino.
  2. O esotérico – para um pequeno círculo, uma iniciação mais intelectual, ideias e conhecimentos mais elevados que precisam ser compreendidos e raciocinados, um conhecimento mais profundo da criação e do criador. O melhoramento do coração não basta. Para seguir a Senda Perfeita é preciso o aperfeiçoamento do espírito e da razão.

Helena P. Blavatsky, fundadora do movimento teosófico, mostra claramente essas duas formas de pensamento, uma exotérica e outra esotérica do budismo. Comentando a “Voz do Silêncio” ela diz: “as duas escolas das doutrinas de Buda, a esotérica e a exotérica, são chamadas respectivamente Doutrina do Coração e da Vista Bodhidharma, com origem na China e daí os seus nomes provirem do Tibete, Tsung-Men (o esotérico) e Kiaú-Men (o exotérico)”. “A primeira emana do coração de Buda, a segunda da sua cabeça”. “A Doutrina do Coração, é também chamada o Selo da Verdade”.

Segundo os livros sagrados, Buda teria nascido 628 A . C, mas chega-se a datas diferentes, ora 520, 542 ou 562. Teria vivido 80 anos. O seu nome era Siddharta, príncipe da família Gautama. O nome Buda, é dos iluminados que recebem o Boddhi, o conhecimento intuitivo (quem não tem sabedoria acredita que irão conhecer na realidade um animal, o bode). O budismo divulga o seguinte:

  • A dor reina sobre a terra.
  • A existência do Carma, e o dever de reduzi-lo pelo desenvolvimento.
  • Praticar o altruísmo.
  • Todos os seres são ligados uns aos outros e os nossos actos afectam seres que não conhecemos.
  • A evolução é a lei do mundo.

Buda proclama que o universo é um, tanto no espaço como no tempo. Todos os seres são iguais na essência e em estados diferentes de evolução.

Assim como é em cima, é em baixo, o nosso mundo é a imagem perturbada do mundo superior, tudo é trabalho e movimento.

Buda ensina: liberto, liberta; chegado à outra praia, faz chegar os outros. Consolado, consola.

O espírito, atingindo o Nirvana, não se dissipa na unidade divina, a sua personalidade é sublimada pelo contacto do divino. O Nirvana não é um repouso absoluto, nele há um trabalho incessante.

quando a unidade espiritual se separa da matéria, ela entra no eterno e imutável Nirvana. Ela não morrerá mais, porque o espírito só, não é Maya (ilusão), mas a única realidade, no universo ilusório de formas transitórias” (Isis Desvendada).

O Bodhsatwa que é sublimado, procura atingir o Boddhi, isto é a iluminação suprema, que revela a lei do universo.

Para atingir o Nirvana, quatro conhecimentos são necessários ao budista:

  1. A noção de sofrimento.
  2. A causa do sofrimento.
  3. A supressão do sofrimento.
  4. A supressão da dor.

O sofrimento está em todas as coisas, no nascimento, na idade, na doença e no amor. A causa do sofrimento é a sede de viver e de poder. O poderoso, se soubesse o que é a verdade, deixaria o poder que o obriga a actos que ele não conhece. Nem pode conhecer, aquele que possui o poder assume um Carma que multiplica pelo bem que não fez nem ordenou e o mal que fez ou deixou de fazer quando mandava nos homens.

A supressão do sofrimento é expressa por Arnold assim: “É a paz que deve vencer o amor do Eu e o apego à vida. Arrancar dos peitos as paixões de raízes profundas, acalmar a luta interior. Reunir o tesouro dos serviços prestados, dos deveres cumpridos, com caridade das palavras benevolentes e da vida pura, estas riquezas não se perderão durante a nossa existência e a morte não as destruirá”.

A supressão da dor é feita através da caminhada na Senda, o caminho santo. A vereda que tem oito divisões é aquela que conduz à paz, ao perfeito contentamento.

Os quatro primeiros caminhos são:

  1. A crença recta – Direcção moral.
  2. A intenção recta – Bons sentimentos a respeito de tudo o que vive.
  3. Da palavra recta – Ser senhor das usas palavras.
  4. Da recta conduta – Abster-se de acções inúteis.

Os quatro caminhos elevados são:

  1. A pureza recta – Renúncia voluntária a todas as doçuras que fazem o encantamento da vida.
  2. O pensamento recto – O adepto recebe a iluminação; não necessita de ensinamentos; os pregadores e os livros são inúteis; vê o seu verdadeiro caminho; está próximo.
  3. A solidão recta – Vê o espírito liberto, é preso somente ao eterno. A vida está terminada, a prisão da vida está destruída.
  4. A meditação recta – É o êxtase. A união com Deus, é o Nirvana. É o quarto grau que poucos alcançam neste mundo. É quando fica no caminho o egoísmo, a falsa fé, a dúvida, o ódio e a concupiscência.

Buda disse: “Qualquer que não conheça a minha lei, morre neste estado; deve voltar à terra até que venha a ser um perfeito Somaneano.

Ensinamentos esotéricos

Assim como em todas as religiões, o budismo possui ao lado dos ensinamentos dados ao grande público um lado esotérico, concedido àqueles que merecem a uma iniciação mais completa. Desde 1880, Blavatsky, depois de uma longa estadia nas índias, publicou estudos sobre  esta Doutrina Secreta. O mesmo fazendo Sinnet e o coronel Olcoltt. Após a morte de Blavatsky, vieram Annie Besant e Leadbeter, todos mostraram o lado da moral Búdica, tão elevada e pura. Uma iniciação diferente dos nossos hábitos de pensamentos.

Sinnett diz: Na realidade o conhecimento secreto, data de muito antes do nascimento de Gautama Buda. Os altos pensamentos esotéricos não são compreendidos por todo o mundo; eles necessitam de uma certa cultura e preparação. No esoterismo é necessária a formação pessoal. É preciso fazer-se por si mesmo e durante muito tempo; é necessário um trabalho acurado e domínio absoluto de si mesmo, obter estes poderes surpreendentes que todos nós possuímos. Por outro lado, o iniciado precisa ser guiado e sustentado nos seus trabalhos, ou está arriscado a fazer um caminho errado.

Tudo que vive, mesmo o corpo inerte, está sobre a senda da evolução. O rei, o sacerdote e o mendigo estão igualmente sobre o caminho. E o rei e o sacerdote não estão nunca seguros de serem colocados mais alto que o mendigo. Os trabalhos de erudição moderna têm-nos dado, livros publicados de iniciações, mas a sua leitura, por mais encantadora que seja a forma, não bastará para nos dirigir ao ensinamento esotérico; é preciso ler nas entrelinhas, trabalho árduo daquele que não tem guia.

O Bhagavad-Gita

O Bhagavad-Gita ou Canto do Bem-aventurado, é de uma data impossível de se determinar. Ele é intercalado como episódio no Mahabharata, o célebre poema épico da Índia, que narra a luta das dinastias sagradas que disputam a preponderância esclarecida contra a impulsividade sensual pela vitória da raça solar representante da intelectualidade.

O Canto do Bem-aventurado é ensinado por Krisna, que os indianos consideram como a quinta encarnação de Vishnu, vindo para criar a paz e a harmonia no mundo. A nona encarnação foi a de Buda, à qual Krisna é anterior cerca de 2.400 anos. O Bhagavad-Gita baseia o seu ensinamento sobre existências sucessivas, sobre esta lei do Carma, que é a regra do mundo. O herói do poema é o rei Arjuna, filho de Pandú, com a sua hesitação de partir para a guerra, confiando isso a Krisna, que lhe demonstra que a primeira necessidade é operar segundo o seu dever. Arjuna deve partir para a guerra? Sim, responde Krisna, porque cada um está submetido aos deveres da sua condição, além disso a morte do corpo, tanto para nós como para os outros, não têm nenhuma importância, pois que só o corpo morre e a parte imaterial, o espírito continua vivo. Krisna exprime-se assim: “Assim como deixamos as vestimentas usadas para tomarmos uma nova, assim também a alma deixa os corpos usados para tomar outros corpos novos”.

A duração destas vestimentas, é sem fruto para a alma e o que elas vêm a ser em seguida não apresenta nenhum interesse. Marcha, pois, ao combate, Arjuna, pois que tu foste chamado para o teu dever e por uma justa causa. “morto ganharás o céu; vencedor, possuirá a terra”. Arjuna, solicita explicação de como reconhecer o sábio, ao que Krisna responde: “O sábio não deve ser acessível a nenhum outro sentimento humano, senão a caridade, a piedade e o amor a Deus.” Krisna ordena a acção, “faze, pois, o que é necessário; a obra vale mais do que a inacção; sem operar, tu não poderias mesmo nutrir teu corpo”. O adepto deve primeiramente lutar contra a ignorância, porque ela impede a eclosão da fé. A fé é necessária à formação do adepto. Ele tem que saber ousar, que é o terceiro termo da interpretação da Esfinge. O Bhagavad-Gita ensina: “o que se denomina renúncia, é a própria união; é aquela que nos faz romper a atracção das coisas materiais, que entravam o livre lance do espírito para o seu fim absoluto”.

A Voz do Silêncio

A Voz do Silêncio é um resumo de fragmentos escolhidos de preceitos de ouro para o uso cotidiano dos “Lanús” ou discípulos. Estes fragmentos foram traduzidos por Blavatsky; pertencem a uma série de livros sagrados dos quais fazem parte igualmente as Estâncias de Dzyan, publicadas e comentadas por Blavatsky na sua imponente obra: A Doutrina Secreta. A base de todo ensinamento iniciático encontra-se na lei do Silêncio. O silêncio facilita a concentração mental e a concentração é, propriamente, a base da educação do pensamento e da aquisição dos grandes poderes.

Dhâranâ e a concentração e aquele que quer ser um iniciado deve aprender a sua natureza. O discípulo deve procurar o Raja dos seus sentidos, produtor do pensamento, aquele que desperta a ilusão.

O mental é o destruidor do real. Que o discípulo destrua o destruidor; somente quando abandonar a região de Asat, o falso, ele entrará no reino de Sat, o verdadeiro, só então o seu ouvido interior, ouvirá a Voz do Silêncio. E o que ao iniciado essa voz misteriosa? Uma das vozes, a matéria, diz: “se tua alma sorri, banhando-se no sol de tua vida; se a tua alma conta na sua crisálida de carne e matéria; se a tua alma chora no seu castelo de ilusão; se a tua alma se debate para quebrar o fio de prata que o une ao Mestre (o nosso Eu ou personalidade superior); crê, discípulo, é na terra que está a tua alma”. Diz a grande lei: “antes de vir a ser conhecedor do seu próprio Eu, deves ser primeiramente o conhecedor de ti mesmo”.

AUM

AUM é o monossílabo sagrado em que se resumem mistérios da iniciação na Índia. Nele, que é o nome místico da Divindade, o  mistério da Trindade se manifesta por um único som, emitido segundo as três letras inseparáveis. Cada uma delas representa uma das três pessoas divinas. A é Vishnú; U é Siva; M é Brama, cada um existindo em si na unidade indivisível. A pronúncia correcta desta palavra não é indiferente ao seu poder; também os Chelas só obtém este ensinamento secreto com o juramento de não revelar a ninguém a maneira ordenada para pronunciar esta palavra. Antes de lançar-se para as alturas, é preciso ter um conhecimento profundo de três salas: “do corpo que vive no mundo físico, a ignorância, do coração que se manifesta no mundo sentimental; aprendizagem; e do espírito que vive no mundo mental, a sabedoria”. No plano físico: a primeira sala é, ignorância, Avidya. É a sala onde viste a luz do dia, onde vives e morrerás.

A segunda sala é a sala da aprendizagem. Aí, a tua alma achará as flores da vida, mas sob cada flor uma serpente enrolada. A terceira sala é sabedoria. Além estende-se a água sem praia de Akshara, fonte inesgotável da Omnisciência. “Toma cuidado Lanú, que te deslumbras por um raio ilusório, que tua alma não retarde e não se prenda a esta claridade moribunda”. Esta claridade irradia do grande enganador (do falaz Mara), aquele que tenta o homem com a atracção dos vícios, que o arrasta fora da vida e deseja matar a sua alma. “A falena atraída para a flama brilhante da lâmpada nocturna está condenada a perecer. A alma imprudente, que perde a ocasião de apanhar de repente o demónio motejador da ilusão, voltará para a terra, escrava de Mara”. “A escada por onde o candidato sobe é feita de degraus de sofrimento e de pena; só a voz da virtude pode fazer calar as suas vozes”.

Quem está no caminho está apto a tornar-se senhor da Samâdhi, estado de visão infalível, que é uma iluminação directa da luz divina. Esta alegria da realização não deve ser egoísta. Aquele que descobriu a Senda deve indicar aos outros e auxiliá-los a subir. Só aquele que sofreu deve indicar aos outros, dirigir um discípulo.

A yoga

A Yoga, que muitos consideram erradamente como um meio de obter factos transcendentes. A palavra Yoga, quer dizer união com Deus. O Yogi, para chegar a este fim, utiliza meios que terrificam quaisquer dos nossos hábitos ocidentais e que é impossível aconselhar toda pessoa que se encontra ligada a obrigações sociais, aos deveres de família, porque toda a vida do Yogi é a Yoga e nada mais.

Içvaracharia Brahmachari no seu curioso Tratado de Yoga Real, dá a definição dessa ascese: “A ciência da Yoga pode ser definida como o conhecimento do equilíbrio entre o Macrocosmo e o Microcosmo, entre o positivo e o negativo, fase passiva de iluminação”. Esta ciência subdivide-se em Raja Yoga ou Yoga Real e Hatha Yoga.

Raja Yoga é mais elevada, ela deixa em repouso o corpo que está livre de tentações pelo poder do espírito. A Hatha Yoga é, um exercício físico com o fim de destruir as necessidades do corpo, de reduzi-lo à completa servidão material. É o exercício seguido pelos faquires que, por uma série de privações e de assustadores suplícios, reduzem o seu corpo material ao estado de verdadeiro esqueleto.

Os Teósofos desaconselham, com razão, esta segunda forma de Yoga, considerando-a vã e menos útil ao nosso desenvolvimento para a Luz do que a senda do conhecimento e da caridade. Chega-se à união com Deus por um meio extremamente complicado e tornado voluntariamente o mais difícil possível.

Faz-se colocar nas Asanas (atitudes) as mais penosas que lhe são indicadas.

O Yogi deve ser tão indiferente como um morto, a todas as suas manifestações de vida. Eis-nos bem longe da bondade do ensinamento budista quando recomenda a prática. Pode ser que o Yogi adquira certos poderes, mas ele os adquire para si só e não se preocupa com a humanidade, para a qual ele tem, entretanto os mesmos deveres que os outros homens.

Nesta rápida exposição mostra-se muito bem que, quanto mais longe possamos encarar as coisas, as Índias têm sempre conhecido a Ciência psíquica, os seus factos experimentais, a sua moral e a sua filosofia.

É deles directamente dos Mestres da ciência esotérica da Índia, que os fundadores da Teosofia tiraram esta filosofia religiosa que seduziu tantos espíritos. Blavatsky e Sinnet residiram muito tempo na Índia, e ali receberam uma iniciação que depois espalharam no mundo. Vê-se que a Índia nos apresenta em todas as épocas, Védica, Bramânica e Búdica, uma moral maior, da mais elevada beleza que os seus livros sagrados nos deixaram a fórmula.

A Índia ensina-nos que nos tornemos solidários com os outros e com o universo, de modo a sentir a importância das menores acções.

A ideia que o budismo ordena que se retire do mundo e que se viva num isolamento, inútil aos seus semelhantes, é uma ideia absurda.

Pedro Neves

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