Maçonaria e Igreja Católica, reconciliação improvável (Parte II)

(Continuação – Ligação para a Parte I)

A influência do Iluminismo da segunda metade do século XVIII, com destaque para os adversários do catolicismo, como os franceses Rousseau, Voltaire, D’Alembert e Diderot e que levou à deflagração da Revolução de 1789, marcou o divórcio entre a Igreja e a maçonaria, que estava entranhada em todas as classes sociais. A partir daí, não somente as reuniões, mas a instituição maçónica, por se adiantar ao seu tempo, é que tem pelo seu funcionamento impedido, dada a sua identificação com as ideias de liberdade e de democracia, que se opunham ao absolutismo reinante.

Nos anos de 1880, Leo Taxil, escritor e jornalista escroque francês, iniciado na maçonaria aos 27 anos, e logo em seguida expulso por condenação em processo de plágio, divulgou uma série de panfletos contra a Maçonaria (as fake news da época), sendo inclusive recebido em audiência privada com Leão XII. Posteriormente, desmentiu tudo o que tinha escrito, confessando que queria apenas ganhar dinheiro à custa da Igreja. Porém, o estrago persiste e o lixo literário antimaçónico produzido continua sendo reciclado e utilizado como referência, com vários autores recopiando-se uns aos outros, lançando mão de informações de segunda ou terceira mão, sem uma avaliação mais criteriosa e isenta.

Quase todos os argumentos em desfavor de um arrefecimento dos ânimos, no que tange a uma posição mais acolhedora por parte da Igreja, tem como destaque o Grande Oriente da França que, em 14 de Setembro 1877, suprimiu as referências religiosas dos seus regulamentos, além de acções provocativas que acirraram as posições. Tudo isto tem reflexos ainda hoje no nosso país, tendo em vista que o Grande Oriente do Brasil é reconhecido simultaneamente e mantém relações com a Grande Loja Unida da Inglaterra e com o Grande Oriente da França.

No período jacobino (1792/1794), a maior parte das lojas francesas foi fechada, com fugas e execução de inúmeros maçons que não compactuaram com a nova ordem estabelecida. Apesar da sua influência decisiva na Revolução, esta também orientou fortemente os rumos da maçonaria, que funcionou também como veículo para expansão das ideias iluministas, actuando como um partido político camuflado.

Em Portugal, as duas primeiras lojas maçónicas modernas foram fundadas em 1733, sendo uma composta de protestantes e outra de católicos (Grainha, 1976). Segundo Clavel, citado por Benimeli (2007), as primeiras lojas foram erguidas em 1727, por delegados de Paris. Em 1738, ao ser promulgada a Bula condenatória de Clemente XII, a loja católica dissolveu-se, mas alguns dos obreiros não acataram a decisão papal, ingressando noutras clandestinas. A terceira loja estabelecida em Lisboa foi fundada em 1741, com maioria de franceses, pelo calvinista suíço naturalizado inglês John Coustos, e que se tornou um caso emblemático de actuação da Inquisição. Os estrangeiros que a fundaram acreditavam não estar abrangidos pela proibição.

John Coustos e o católico parisiense Alexandre Motton foram denunciados perante o Santo Tribunal em 1742, como maçons, em consequência de comentários da mulher de um rival no ofício da joalharia. As autoridades eclesiásticas estimulavam as delações e os advogados de defesa sempre actuavam no sentido de exortar o acusado a que confessasse o crime que lhe era atribuído. A prisão deles e dos seus companheiros foi determinada em Março de 1743. Tal prisão ocorreu tão logo D. João V, tomado de loucura religiosa, promulgou um édito, sem a anuência das Cortes, segundo o qual se condenaria à morte, sem apelo, a qualquer que se comprovasse ser maçon.

Motton foi o primeiro a ser julgado e ficou nas prisões da inquisição durante um ano e três meses, sendo condenado a penas espirituais e a pagar pesadas custas. Simultaneamente, idêntico procedimento fora aplicado a Thomas Bruslé e João Bauptista Richart.

O processo de Coustos teve maior destaque, pois era o Venerável da Loja de Lisboa e não professava a religião católica. Por ser “considerado perturbador e causador de escândalos e de ruína espiritual das almas dos fiéis católicos romanos”, foi pedido que “ele fosse castigado com as penas mais graves, de acordo com o direito e as Bulas pontifícias”. Por ser “herege protestante” e de ter “introduzido e exercido na cidade de Lisboa a seita dos Pedreiros Livres, condenada pela Sé Apostólica”, a sua sentença final foi de cumprir quatro anos nas galés (Benimeli, 2007).

Por interferência diplomática, Coustos conseguiu ser enviado para Londres, onde publicou em 1746 um relatório autobiográfico sobre a sua prisão e torturas em Lisboa, descrevendo a si mesmo como um herói que enfrentara os juízes da Inquisição. Referida publicação obteve grande repercussão e foi traduzida em várias línguas. Ainda segundo Benimeli (2007), documentos actualmente disponíveis “permitem corrigir um pouco a sua versão”.

Depois da morte de D. João V, em 1750, sucedeu-lhe no trono o seu filho D. José I, que reinou entre 1750 e 1777. Neste período, em Portugal, lojas funcionaram com o favorecimento do primeiro-ministro, o Marquês de Pombal. Várias foram abertas em todas as cidades do Reino como filiais da de Lisboa e a maçonaria tivera então o seu prestígio, com forte influência francesa.

Consta que Pombal, maçon e iluminista, teria sido iniciado em Londres ou Viena, em 1745. Entre as acções modernizadoras, Pombal adoptou uma Constituição liberal baseada na Inglesa, aboliu a Inquisição, expulsou os jesuítas de Portugal e das colónias (1759), além de afastar a igreja da administração do Estado.

Especula-se que a primeira Grande Loja fundada em Lisboa, foi instalada no convento de São Vicente e teve por Grão-Mestre um irmão do Marquês de Pombal. Estavam, portanto, a coberto dos privilégios e das imunidades de que gozavam os mosteiros e conventos, com grande pesar dos dominicanos, que rondavam as portas, mas não podiam entrar.

Gustavo Barroso, pensador católico, anti-semita e anti maçon, no livro “História Secreta do Brasil” (2009), afirma que o Marquês de Pombal principiou “no reino lusitano a era dos maçons, que não passavam de cristãos novos, tanto que as duas palavras eram sinónimos e, no campo, pedreiro-livre era sinónimo de judeus”.

Com a morte de D. José I, em Fevereiro de 1777, sucedeu-lhe no trono a sua filha mais velha D. Maria I, que depôs Pombal, e as perseguições contra os maçons foram deflagradas pelo Intendente-Geral da Polícia Diogo Inácio de Pina Manique, que acumulava vários cargos, tornando-se o grande senhor do governo de D. Maria I.

A rainha, por sua vez, reintroduziu a lei do seu avô contra os ‘pedreiros-livres’, iniciando um novo e triste período para a maçonaria portuguesa. Os homens mais eminentes do país tiveram de fugir para livrar-se das garras da Inquisição então reactivada. Devido às perseguições, os maçons não faziam registros em documentos, que poderiam cair nas mãos de denunciantes ou de um “Santo Inquisidor”. A Inquisição foi finalmente extinta em Portugal em 1821 e em Espanha em 1834.

Na Itália, as lutas de unificação tiveram com protagonismo uma minoria militante mobilizada e organizada por associações como a maçonaria e a Carbonária, esta também chamada maçonaria florestal, porém de carácter político independente, eminentemente secreto e revolucionária, com valores patrióticos e liberais, fundada em Nápoles em 1810 e tendo como finalidade principal a unificação da Itália. A condição de maçons dos principais líderes carbonários, como Cavour, Mazzini e Garibaldi gerou reflexos na imagem da maçonaria.

Em Junho de 1871, o novo governo da Itália instalou-se em Roma, completando oficialmente a unificação e, logo depois, reconhecendo o poder temporal de Pio IX sobre o Vaticano e o pequeno território vizinho, representando uma grande perda, já que o poder de Roma abrangera uma extensa região da península itálica [6]. A implicação no processo de unificação da Itália pode ser considerada o marco decisivo para aprofundamento das animosidades em relação à maçonaria.

O Grande Oriente Lusitano, considerado a primeira grande loja regular portuguesa surgiu em 1804, aprovando-se a sua Constituição em 1806. Ainda naquele ano foi decretado o Bloqueio Continental, que impediu o acesso dos navios ingleses a portos dos países então submetidos ao domínio do Império Francês de Napoleão Bonaparte, que em 1808 provocou a fuga da Coroa Portuguesa para o Brasil. Naquele momento, Inglaterra e França disputavam a liderança no continente europeu. Em 16 de Dezembro de 1815, o Brasil foi elevado à categoria de reino: Reino Unido a Portugal e Algarves.

Na Revolução Pernambucana de 1817, também conhecida como “Revolução dos Padres”, e na Confederação do Equador, de 1824, ambas com foco em Pernambuco e de influência maçónica, a liderança principal encontrava-se nas mãos de padres e frades formados em Olinda. Em 1817, dos 310 ditos subversivos, havia 60 padres e 10 frades. Em 1824 havia 40 padres, com destaques para a liderança de Frei Caneca, e do Padre Mororó, outra importante liderança, ambos executados a tiros. “O iluminismo chegou ao Nordeste pelas mãos dos padres Oratorianos…” (Terra, 1996).

“A Constituição de 1824 estabelecia o catolicismo como religião oficial do Império. O Brasil tinha herdado de Portugal o “regalismo”, que subordinava a Igreja ao Estado. O monarca, exercendo a chefia do Estado, era o representante supremo da Santa Sé no país. Os membros da Igreja eram pagos e sustentados pelo Estado, como se fossem funcionários públicos, por isso o imperador tinha o direito do “padroado”, podendo nomear os sacerdotes para os principais cargos religiosos. Ainda pelo direito do “beneplácito” (Art.º 102, § XIV), as bulas e breves do papado somente eram aplicadas após a aprovação do imperador.” (Gomes, 2016)

“Com esta independência em relação a Roma, o padre brasileiro actuava politicamente, raramente respeitava o voto de castidade e muitos viviam com a sua mulher e criavam filhos. A vinculação a partidos políticos facilitava a nomeação e promoção. Os bispos que defendiam a moralização da Igreja lutavam contra a subordinação ao império e muitas vezes entravam em choques com as autoridades, na tentativa de impor aos seus subordinados as doutrinas que vinham de Roma e não tinham o beneplácito do imperador.” (Gomes, 2016)

“Grandes políticos do império, inúmeros sacerdotes e membros das irmandades religiosas eram militantes de lojas maçónicas. Entretanto, em 1864, Pio IX, através da bula “Syllabus”, proibiu qualquer ligação da Igreja com a Maçonaria. Em 1873, o bispo de Olinda, dom Vital Maria de Oliveira, disposto a reformar o clero e as irmandades, ordenou que os padres abandonassem a maçonaria e os maçons fossem excluídos das irmandades religiosas, encontrando muitas resistências. O mesmo fez o bispo do Pará, dom António de Macedo Costa. Aí eclodiu a chamada Questão Religiosa, também conhecida como Questão Maçónica ou Questão dos Bispos.” (Gomes, 2016)

“A situação tornou-se crítica quando, durante uma festa em comemoração à lei do Ventre-Livre, o padre Almeida Martins negou-se a abandonar a maçonaria, sendo suspenso da sua actividade religiosa pelo bispo do Rio de Janeiro. Esta punição tinha sido antecedida por um discurso feito pelo padre Almeida Martins em loja maçónica do Grande Oriente, no qual o religioso exaltou a figura do visconde do Rio Branco, que, como primeiro-ministro, era Grão-Mestre da maçonaria, porém da ala monarquista.” (Gomes, 2016)

“Neste processo, o bispo de Olinda, D. Vital e o de Belém, D. Macedo, determinaram o fechamento de todas as irmandades que não quiseram excluir os seus associados maçons. A reacção do governo foi rápida e enérgica, quando em 1874, o primeiro-ministro, visconde do Rio Branco, então Grão-Mestre da maçonaria, determinou a prisão dos bispos. Os atingidos recorreram ao Imperador, que pressionou os bispos a voltar atrás. Não acatando a ordem foram condenados a quatro anos de prisão.” (Gomes, 2016)

“Dom Pedro II, embora não sendo maçon, era simpatizante e circulavam notícias de que participaria das discussões filosóficas das lojas e por isso não acolheu bulas de Pio IX que proibiam fiéis de aderirem à Ordem. Em 1875, o gabinete conservador do duque de Caxias amnistiou os dois bispos. Apesar da amnistia a ferida não foi cicatrizada e o Império decadente perdia o apoio do clero e da população, constituindo-se num importante factor para queda do obsoleto regime monárquico e para separação do mesmo com a Igreja. As punições contra as irmandades do Pará e de Olinda foram suspensas por Roma.” (Gomes, 2016)

Sobre a “Questão Religiosa” o Bispo-auxiliar-emérito de Brasília, o jesuíta Dom João Evangelista Martins Terra, no seu livro Maçonaria e Igreja Católica (1996), afirma:

Quem saiu vitoriosa desta dolorosa questão foi a Igreja, que, forçando o Governo a recuar, deixou o Estado regalista desmoralizado e a maçonaria completamente abalada no seu prestígio. D. Vital passou à posteridade como Mártir da maçonaria”. Prossegue, assegurando: “Os ataques da imprensa maçónica ainda continuaram, mas o clero, escarmentado, saiu depurado.” (p. 61/62).

Na mesma obra, comentando sobre a situação dos bispos e padres maçons de então, ressalta que não é preciso negar este facto, mas explicá-lo no contexto histórico, no sentido de que os envolvidos não se interessavam pelas doutrinas maçónicas e sim por desfrutar de ambiente secreto onde podiam discutir as suas ideologias liberais ou ideias revolucionárias. Por outro lado, contrapõe que a maçonaria se tinha infiltrado em quase todas as confrarias e irmandades da Igreja e pretendia dominar o próprio poder eclesial.

Ainda dentro da questão religiosa, o conflito entre a igreja e o governo rendeu agressões à maçonaria na Paraíba. A Revolta do Quebra-Quilos (1874-1875), considerada uma das mais importantes revoltas sociais no fim do Império, ocorrida da região Nordeste, foi motivada pela adopção do sistema métrico decimal francês (Lei 1.157, de 26 de Junho de 1862), pela obrigatoriedade do alistamento militar (imposto do sangue) e pela criação do imposto do chão pago nas feiras.

Um dos efeitos colaterais foram os ataques a casas de maçons e lojas maçónicas, como foi o caso da loja maçónica “Segredo e Lealdade”, em Campina Grande, que foi saqueada e os seus documentos destruídos. Os quebra-quilos, insuflados por padres, alegavam que várias autoridades na Paraíba e no resto do país pertenciam à maçonaria e eram responsáveis pela introdução daquelas medidas. Padres diziam que o imperador era maçon, assim como o fora o seu pai e, portanto, haveria um complô maçónico no país (Gomes, 2016).

Durante o Estado Novo, nos anos de 1930 a 1945, a maçonaria enfrentou várias campanhas difamatórias, polémicas e notícias falsas, fruto do desconhecimento dos seus princípios, por várias organizações, decorrentes de pensamentos conservadores e de tendências autoritárias, alegando que os maçons articulariam a destruição de todas as pátrias, estando por traz de todos os acontecimentos revolucionários no Brasil e no mundo, segundo escreveu o intelectual católico Ramos de Oliveira na sua obra “A ilusão maçónica” (Gomes, 2018).

Na mesma linha, o supracitado Gustavo Barroso, também militante integralista e simpatizante do nazismo, atacou a maçonaria em várias das suas obras, defendendo a tese de que a mesma teria planos para o Brasil e que os principais acontecimentos da história brasileira seriam resultado de acções conspiratórias maçónicas. A imprensa integralista reforçou a associação entre maçonaria, judaísmo e comunismo (Gomes, 2018).

As transformações do século XX, no contexto social, tornaram as condenações sofridas pela maçonaria menos impactantes, vez que foram baseadas em momentos político-sociais em processo de evolução.

O historiador maçónico José Castellani (2007) analisa:

“O subdesenvolvimento intelectual do povo brasileiro, todavia, iria proporcionar ao clero de pequenas e médias cidades, a base popular das suas difamações contra os Maçons, gerando até factos pitorescos: párocos que afirmavam que os Maçons adoravam ao diabo, realizando missas negras e cultuando bodes negros, faziam com que os fiéis dos seus rebanhos, ricos em fervor religioso……. tivessem medo de passar em frente aos templos maçónicos e que se, forçosamente tivessem de fazê-lo, fizessem contritamente o sinal da cruz para se livrarem dos ‘maus fluídos’ daquelas ‘casas do diabo’”.

Todos estes acontecimentos ainda estão presentes na mente popular, fruto dessas sementes do passado, gerando descrédito e prevenção contra os maçons, sendo este um tema negligenciado pelos estudiosos e por muitos visto como exótico.

Entre 1751 a 1902 a Maçonaria sofreu severas condenações de parte da Igreja, todas sempre se reportando à In Eminenti, de Clemente XII, a “Bula Mãe”, adicionando-lhes elementos religiosos, sendo registrados vários pronunciamentos [7]. Em 25 de Maio de 1917, as encíclicas e cartas apostólicas anteriores foram consolidadas no Código de Direito Canónicos. A igreja declarava, no Cânone 2335, que “aqueles que se juntam a uma seita maçónica ou outras sociedades do mesmo tipo conspiram contra a Igreja ou contra as autoridades civis legítimas, estão sujeitos à excomunhão”.

No referido Código, por ter incorrido na excomunhão, dentre outras proibições, todo maçon deveria ser afastado dos sacramentos (confirmação, confissão, comunhão, unção dos enfermos), ainda que os pedisse de boa fé (cân. 2138, § 1); não poderia ser padrinho de baptismo (cân. 765, n. 2), nem de crisma (cân. 795, n. 1). Para contornar estes constrangimentos e proporcionar um alento aos membros católicos, foram introduzidas na maçonaria as cerimónias de apadrinhamento, como a adopção de Lowtons, o reconhecimento conjugal e as pompas fúnebres.

Ainda em 1968, o padre jesuíta espanhol, José António Ferrer Benimeli, no Livro “A Maçonaria depois do Concílio Vaticano II”, defendeu a tese de que a Maçonaria regular não deveria ser condenada. Do seu ponto de vista, somente a Maçonaria irregular, ateia e anticlerical, seria passível de condenação.

O Código de 1917 foi revogado com a promulgação de um novo Código Canónico por João Paulo II, em 25 de Janeiro de 1983, passando a constar do Cânone 1734 a seguinte redacção: “Aquele que entra para uma associação que conspira contra a Igreja deve ser punido com justa pena; aquele que promove ou dirige tal associação, no entanto, deve ser punido com interdito”.

Em virtude de várias interpretações e questionamentos, em especial no entendimento de que estaria implícita a aceitação de filiações na maçonaria regular, em Novembro daquele ano, a Congregação para a Doutrina da Fé emitiu um comunicado declarando que os fiéis que pertencem às associações maçónicas estão em estado de “pecado grave” e não poderiam receber a “Santa Comunhão”.

Segundo Lutffala Salomão (1998),

A publicação da Declaração foi mais uma acomodação política dos minoritários insatisfeitos, feita nos últimos instantes, e pode-se até dizer a contragosto do Papa. Afinal ela afrontava uma decisão já tomada e aprovada, logicamente pela maioria de toda a Congregação reunida com a finalidade específica de renovação do Código”.

Comentando sobre a “Igreja e a Maçonaria Hoje”, o jesuíta D. Martins Terra (1996) ressalta que, no Brasil, o jesuíta Padre Alberton “publicou uma obra bastante apologética intitulada ‘A Maçonaria e a Igreja Católica, Ontem, Hoje e Amanhã’ (Edições Paulinas, S. Paulo, 1981)”. Resume dizendo que “a obra foi escrita antes da última declaração oficial da Congregação para a Doutrina da Fé, que veio esclarecer autoritariamente a questão e por um ponto final às dúvidas e controvérsias hodiernas” e que hoje certamente o referido Padre teria feito comentários menos utópicos e mais realistas (p.82/83). Ocorre que a obra citada é em co-autoria com o Padre Benimeli, considerado um dos melhores historiadores contemporâneos da Maçonaria, para muitos o maior maçonólogo do mundo, na qual os jesuítas Valério Alberton e Giovani Caprille fizeram as versões e adaptações para o português e o italiano, respectivamente [8].

O também jesuíta, Padre Jesús Hortal Sánchez, doutor em Direito canónico, da Arquidiocese do Rio de Janeiro, em artigo publicado na revista Direito e Pastoral, ano VI, nºs. 23-24, Janeiro Abril de 1992. pp. 58-81, afirma:

Duzentos e cinquenta anos após aquela primeira condenação, a posição da Igreja Católica parece não ter mudado muito. Como veremos, a razão básica da última condenação (23/11/83) continua a ser a mesma: a inconciliabilidade entre a afirmação sincera e plena da fé católica e o relativismo que parece ocultar-se atrás do universo simbólico maçónico”.

Não obstante o Cânon 2335, do Código de 1917, não ter sido introduzido no Código de Direito canónico de 1983, a posição minoritária vencida tem os seus argumentos constantemente alardeados por uma corrente eclesiástica que acredita que para a maioria dos fiéis “é impossível formar um juízo exacto sobre este assunto” e que a Igreja deve “indicar aos fiéis onde se escondem os perigos para a sua fé e para a sua vida cristã”. Registra o artigo que a Maçonaria constitui “um perigo extraordinário” e muito “mais subtil” que o comunismo [9], “porque este é um inimigo declarado da Igreja, e a Maçonaria é mais hipócrita” (Infovaticana, 2017).

Frei Boaventura Kloppenburg (1992), afirmou que:

Igreja e Maçonaria são dois senhores bem diferentes”….duas entidades inconciliáveis”, mas isso não significa que “não haja possibilidade de conciliação entre o pastor da Igreja e o cidadão católico afiliado a uma loja maçónica” e que “sempre encontrarão nos pastores da Igreja muita compreensão e pronta disponibilidade para ajudá-los, no que for possível, a fim de sair do estado de pecado grave”. Para ele, somente desta forma “a conciliação é possível”.

Reforçando o argumento sobre a possibilidade de reconciliação, Frei Kloppenburg (1992, p.259/263), consignou que “Continuar na Maçonaria, conhecendo a Declaração de 1983, embora de facto nela tenha entrado de boa-fé, seria formalizar conscientemente o acto de desobediência em matéria grave”. este católico que se faz maçon é excluído, segundo ele, da comunhão eucarística, mas não é denunciado nem perseguido, estando a Igreja “sempre de braços abertos, pronta a receber o filho pródigo que retorna arrependido à casa paterna”.

Confundindo ainda maçonaria com religião, Frei Kloppenburg (1992) deduziu que “A Igreja não rejeitou a Maçonaria porque defende os princípios fundamentais do espiritualismo (ainda nisso, diz o religioso de forma surpreendente, ‘ela é digna de louvor’), mas porque fez questão de ignorar sistematicamente os princípios básicos do cristianismo”.

No entendimento daquele religioso, Roma tem o direito de “desaprovar e considerar irregular e infiel a Maçonaria como tal, pelo facto de ter riscado dos seus rituais, orações e princípios toda e qualquer alusão à Augusta e Santíssima Trindade, ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo, o princípio fundamental de qualquer Cristianismo”. Faltou alguém confidenciar ao Frei sobre certo Rito Escocês Rectificado, praticado desde 1778, que é fundamentado nos pressupostos da religião cristã, baseado na fé na Santíssima Trindade, o que poderia ter amenizado as críticas [10]. Ainda segundo ele, a maçonaria refere-se a Deus como um “… abstracto, vago e indeterminado Grande Arquitecto do Universo”.

Retorquindo à obra de Frei Kloppenburg de 1956, intitulada “A Maçonaria no Brasil”, o escritor maçónico A. Campos Porto publicou, em 1957, o livro “A Igreja Católica e a Maçonaria”, onde analisa os argumentos desabonadores desenvolvidos naquela obra, ratificando que:

A Maçonaria não combate o catolicismo, como não combate nenhuma religião, pois na sua organização fraternal ela abriga indistintamente irmãos que professam cultos diferentes…”. Enfim, que maçonaria não é “contra nenhuma outra religião que tenha por finalidade a grandeza, a felicidade e o respeito do homem concorrendo numa permanente colaboração para a Evolução, tudo sob a égide da Divindade”.

Por vezes subindo os tons do contraponto para o contexto da época, numa verdadeira troca de chumbo, Campos Porto (1957) aborda aspectos históricos para mostrar contradições no seio da própria Igreja Católica, bem como levanta questionamentos sobre as posições mais acolhedoras das demais religiões em relação à maçonaria e da sua contribuição ao longo dos tempos.

(Continua – Ligação para a Parte III)

Márcio dos Santos Gomes

* Trabalho apresentado na reunião de 02.10.2018 da Academia Mineira Maçónica de Letras – A Casa de Tiradentes.

Márcio é Mestre Instalado da ARLS Águia das Alterosas – 197 – GLMMG, Oriente de Belo Horizonte, membro da Escola Maçónica Mestre António Augusto Alves D’Almeida, da Academia Mineira Maçónica de Letras.

Adaptado de publicação em O Ponto dentro do Círculo

Notas

[6] Os Estados Pontifícios eram formados por um aglomerado de territórios, basicamente no centro da península Itálica, que se mantiveram como um estado independente entre os anos de 756 e 1870, sob a directa autoridade civil dos papas, e cuja capital era Roma (Wikipédia).

[7] Bento XIV, Providas Romanorum, 18 de Maio de 1751; Pio VII, Ecclesiam A Jesu Christo, 13 de Setembro de 1821; Leão XII, Quo Gravioria Mala, 13 de Março de 1825; Pio VIII, Traditi Humilitati, 24 de Maio de 1829; Litteris Altero, 25 de Março de 1830; Gregório XVI, Mirari Vos, 15 de Agosto de 1832; Pio IX, Qui Pluribus, 9 de Novembro de 1846; Quibus Quantisque Malis, 20 de Abril de 1849; Quanta Cura, 8 de Dezembro de 1864; Multiplices Inter, 25 de Setembro de 1865; Apostolicae Sedis Moderatoni, 12 de Outubro de 1869; Etsi Multa, 21 de Novembro de 1873; Leão XIII, Etsi Nos, 15 de Fevereiro de 1882; Humanum Genus, 20 de Abril de 1884; Officio Sanctissimo, 22 de Dezembro de 1887; Dall’Alto Dell’Apostolico Seggio, 15 de Outubro de 1890; Inimica Vis, 18 de Dezembro de 1892; Custodi di Qualla Fede, 18 de Dezembro de 1892; Praeclara, 20 de Junho de 1894; e Annum Ingressi, 18 Março de 1902.

[8] Entre os dias 7 e 9 de Setembro de 2017, Padre Benimeli participou do I Congresso Internacional de Ciência & Maçonaria, realizado em Brasília. Ver palestras em: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2017/12/08/elevacao-e-declinio-da-maconaria-no-mundo/

[9] A Igreja Católica assinou, em 24.09.2018, um acordo dando ao Partido Comunista Chinês poder de decisão na nomeação de bispos que controlarão a instituição naquele país. A Igreja disse que “vai perseverar em seguir um caminho adequado a uma sociedade socialista, sob a liderança do Partido Comunista Chinês”.

[10] Registre-se ainda o Rito Sueco, mais praticado nos países escandinavos (Suécia, Dinamarca, Noruega e Finlândia, além da Islândia), e em muita menor escala nos Países Baixos e na Alemanha, com origem a partir de 1759 e sentido profundamente cristão. Ver também: “A Influência da Bíblia na Maçonaria”, em: https://opontodentrodocirculo.wordpress.com/2018/08/28/a-influencia-da-biblia-na-maconaria/

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