A maçonaria incompreendida, apesar de justa e perfeita

A  Ordem Maçónica, desde o seu nascimento, traz nos seus princípios e fundamentos, a essência da virtude como disposição que deve nortear a sua doutrina, o que faz com que, por critério justo, seja ela reconhecida como instituição infalível, vez que, em toda a sua trajectória jamais falhou, nem em tempo algum, abdicou da verdade para alcançar os seus objectivos. É, sem dúvida, uma das suas mais difíceis tarefas o aperfeiçoamento do nível de consciência do Maçon através de ensinamentos que lhe possibilitem assimilar com clareza o perfeito sentido da trilogia LIBERDADE, IGUALDADE E FRATERNIDADE, valores que, em conjunto, representam os seus fins supremos.

Um aspecto esclarecedor da sua verdadeira personalidade aos não maçons é hoje a transparência. A sua face, antes tida como oculta, insondável, fez-se estampar publicamente nos últimos tempos. Ela vem exibindo a sua identidade de modo claro e insofismável aos olhos dos curiosos, revelando o conteúdo de arquivos que no passado eram tidos como sigilosos e mantidos em absoluto segredo, mostrando não ter ela pacto com o demónio, não ser religião, não ser anticlerical e nem serem os seus Templos lugares onde se praticam rituais de magia negra.

O facto em questão não foi obra do acaso. Decorreu, antes de tudo, da evolução da própria Ordem Maçónica e dos avanços dos meios de comunicação. Hoje em dia, as leis, os princípios e postulados sobre os quais a referida instituição se sustenta já fazem parte de uma rica fonte de consultas oferecida pela internet e pelas boas livrarias. Porém, no meio das obras confiáveis, que atestam a verdade, há também tantas outras que partem de autores inescrupulosos, falsos e mentirosos, escritas unicamente para confundirem as mentes daqueles que não são maçons. Portanto, para se chegar a um juízo exacto sobre o que é a verdadeira maçonaria é recomendável o máximo de cuidado na distinção entre obras de escritores maçons, que são elaboradas com conhecimento de causa, com base na verdade, em provas, com seriedade, com lisura e aquilo que escrevem os maçons desligados da Ordem e os não maçons, na maioria das vezes, invejosos, detractores e inimigos gratuitos da menciona instituição, pois estes dois últimos grupos, descomprometidos com a ética e com a verdade, inspiram-se apenas na maldade e em suposições.

A maçonaria, como se sabe, não é algo abstracto. Ela para funcionar, a exemplo do que ocorre com os demais empreendimentos de finalidades lícitas, precisa de ter personalidade de acordo com as leis civis de cada país. Os registros dos actos constitutivos dos órgãos representativos da Instituição são feitos nos cartórios oficiais. Nestes actos acha-se definida a personalidade jurídica de cada um deles (lojas maçónicas e os seus poderes centrais), assim como, as suas respectivas actividades, forma de administração e as finalidades para as quais foram instituídos, tudo de forma pública, à disposição de quem se interessar em conhecê-los.

Há séculos marcando presença, praticamente em quase todos os países, excepto nos de regime comunista e ditatorial, ela mantém-se resoluta e no firme propósito de trabalhar pelo bem da humanidade, respeitando a justiça, defendendo a família, empenhando-se na preservação dos insubstituíveis princípios da ética e da moral, sem, contudo, se dissociar da obediência às leis civis, penais etc..

Sua história, documentada e registrada, descreve que óbices incontáveis foram postos à sua frente, alguns quase insuperáveis, com o propósito de extingui-la ou de, no mínimo, impedir o brilho da sua trajectória, mas que, mesmo sendo bem orquestrados, falharam e ela, com a força da inteligência dos seus integrantes, soube trilhar o mais certo dos caminhos alcançando cada vez mais notoriedade e respeito apesar das violentas perseguições a que foi submetida.

Algumas infundadas questões, como as que afastaram a Igreja Católica da maçonaria ainda não foram removidas porque se encontram arraigadas a injustificados sentimentos religiosos. O epicentro do principal motivo é a manifesta aversão à mencionada instituição, há séculos, alimentada pelos altos dignitários da Santa Sé, que a mantêm sob censura, facto que teve início em remotos tempos durante os quais pairou a suspeita de que a maçonaria fosse uma “associação que maquinava contra a Igreja Católica”. Logo depois, foi disseminada também a falsa ideia de que a mencionada instituição fosse uma seita que tinha por hábito realizar reuniões secretas para cultuar o mal. Entretanto, o tempo encarregou-se de mostrar que tudo isto não passava de acção caluniosa calcada tão somente em inverdades. Os anos foram passando e, com eles, a verdade sobre as causas de tais hostilidades não tardou em se tornar conhecida e, como era de se esperar, as maledicências lançadas contra os maçons acabaram perdendo os seus efeitos.

Este facto levou a Santa Sé a rever a sua posição e a manifestar-se sobre a maçonaria por inúmeras vezes e em todas elas o que se ouviu foi a mesma voz que, em tom uníssono, ratificava sempre as supracitadas e injuriosas acusações, mas estas, dada à inexistência de provas, nunca foram suficientes para fazer com que a mencionada instituição parasse de crescer e de avançar rumo às suas aspirações.

Ressalte-se, contudo, que para a Santa Sé nada mudou. Ela abandonou as crendices do passado, mas continua vendo a maçonaria como religião, ou seita religiosa, afirmando que dita Ordem tem um Deus próprio e para impedir que os católicos dela se aproximem, sustenta aquela que parece ser irretractável aversão, alegando agora os seguintes pontos de vista:

  1. que a visão de mundo para os maçons não é unitária, mas relativa, subjectiva e por isso não se harmoniza com a fé cristã;
  2. que a maçonaria tem da verdade um conceito relativista, afastando a possibilidade de aceitá-la do ponto de vista objectivo, o que é incompatível com o conceito católico:
  3. que o conceito de religião para a maçonaria é também relativo e não coincide com a convicção fundamental do cristão;
  4. e, finalmente, que o conceito de Deus, segundo a maçonaria, é do tipo deísta e não teísta como a Igreja o concebe.

Conforme se verá adiante, o rótulo que sempre se tentou impor aos maçons é fantasioso e há séculos vem induzindo os referidos dirigentes do catolicismo a, levianamente, cometerem um grave e continuado erro.

Entretanto, a reportada aversão teria alcançado pouca repercussão não fosse o seu recrudescimento no pontificado de Clemente XII (ano de 1.738) com a edição da bula “In Eminenti Apostolatus Specula”. A posição que naquela época foi assumida pela Igreja Católica em relação à maçonaria, resistiu ao tempo até chegar aos dias de hoje, pois foi alimentada por imotivada, mas odiosa intolerância por parte de todos os papas sucessores de Clemente XII, claramente externada, em várias ocasiões, através de manifestações escritas e orais. Assim, a conciliação ainda não se tornou possível e esta impossibilidade é cláusula repetitiva nas manifestações da Santa Sé, pelo facto dos seus representantes não terem conseguido superar o trauma antigo, que começou quando a maçonaria foi tida como “associação que maquinava contra a Igreja”, depois, como “associação que fazia reuniões para cultuar o mal”, e hoje, numa nova versão, e por causa de irretratável intransigência, para o alto clero do catolicismo, maçons são deístas e católicos, teístas.

Como se pode perceber, trata-se de argumento vazio, afastado da verdade, pois ser Maçon católico é o mesmo que ser advogado católico, médico católico, engenheiro católico, uma vez que a maçonaria nada tem a ver com a opção religiosa do seu filiado, assim como as entidades classistas também nada têm a ver com a mencionada opção em relação às categorias profissionais que representam.

Indubitavelmente, a conclusão a que se chega quanto ao comportamento dos altos dignitários do catolicismo, é a da negação ao princípio criador de todas as coisas, que é Deus, ante a recusa de aceitação dos maçons como se estes não fossem filhos do mesmo Deus.

Se alguma dúvida a respeito da maçonaria ainda atormenta as mentes dos dirigentes do catolicismo, só a verdade definitiva será capaz de tranquilizá-las. E isto dar-se-á, mais cedo ou mais tarde, para que as névoas da cegueira sejam dissipadas, como aconteceu no passado quando importantes leis naturais do Universo foram reveladas por cientistas. Muitas dessas descobertas fizeram surgir novos conceitos e opiniões, sacudindo a Igreja Católica e levando-a a alterar certos princípios da sua doutrina. Relembremos um caso apenas, o das afirmações de Nicolau Copérnico e Galileu Galilei, as quais nos deram a conhecer que o universo era infinito, que não era o sol que girava em torno da terra e que o nosso planeta também não era quadrado, nem uma imensa e única planície como até então se supunha. Face àquela incontestável realidade que afrontou os princípios fundamentais do catolicismo, os dois vultos acima, após serem denunciados como hereges, foram julgados e condenados pela Santa Inquisição porque, pelos seus enunciados, o Céu e o Inferno não poderiam encontrar-se nos lugares onde os mencionados princípios religiosos os concebiam.

Hoje em dia, com o fim da Santa Inquisição, que era temível pelos seus efeitos, adopta-se a excomunhão como punição extrema a quem afrontar a doutrina da Igreja Católica. Segundo o Código de Direito Canónico, quem se tornar Maçon, é excomungado automaticamente, mantida a este, a impossibilidade de acesso aos sacramentos religiosos e parece que, pelo menos por enquanto, a cúpula da mencionada religião não está pensando em desistir de tão grotesca bobagem.

Houve ainda outros pontos em que a Igreja se debateu insistentemente contra a maçonaria. Num deles ela afirmava, de modo intuitivo, talvez, por ter concebido algo imaginário como real, portanto, sem anteparo da verdade, que a Ordem Maçónica Universal se dividia em duas linhas sendo uma a Anglo-saxónica, que abrigava no seu seio corrente liberal, ateia e anticlerical e a outra, a Maçonaria, mais conservadora, deísta, de tendência católica.

Esta afirmativa quanto à existência de corrente deísta, ateia e anticlerical dentro da Instituição foi fruto de interpretação aleatória, de miragem e, por isso mesmo, não teve sentido e perdeu credibilidade quando foi comparada com o comportamento social dos maçons em que nada ficou comprovado em relação a tais acusações. O que de mal existiu não foi a maçonaria Anglo-saxónica, nem a Franco-Maçonaria, mas o ledo equívoco de a Igreja Católica ter encarado a Ordem Maçónica Universal, ora como instituição ateia ou deísta ou anticlerical, ora como religião ou seita religiosa.

Também é Indubitável que, nos dois sentidos acima, se o intento não era proposital, a maçonaria foi novamente mal interpretada e esse facto levou a Igreja Católica a incorrer em mais um erro ao construir os seus argumentos a partir de desprezíveis futilidades, o que se pode constatar mediante comparação de tais acusações com o que sempre constou dos princípios gerais e postulados universais da maçonaria, onde ela se define como uma instituição essencialmente iniciática, filosófica, filantrópica, progressista e evolucionista não se vislumbrando neles qualquer tendência maçónica, por menor que seja, ao ateísmo, ao deísmo ou ao anticlericalismo.

De igual modo, até hoje, nada de condenável se pôde provar quanto ao princípio da religiosidade maçónica em relação ao catolicismo. Através das cláusulas imutáveis dos seus Landmarks, cuja fonte inspiradora é a Bíblia Sagrada (provérbio 22:28), observa-se que a maçonaria universal se limita a proclamar apenas a prevalência do espírito sobre a matéria e a crença em Deus como criador do Universo. Daí por diante deixa de se envolver com o tema, excluindo-o das suas actividades por entender que a prática religiosa é algo que diz respeito, não a si, mas aos seus membros, como questão de foro íntimo e de livre arbítrio sobre a qual não lhe cabe exercer qualquer domínio, interferir, orientar, ou dar sugestões.

Todavia, a sua enunciada posição quanto à fé religiosa do Maçon é uma postura que pode não ser facilmente compreensível para quem não faça parte como membro activo no cenário maçónico. Mas mostrar-se neutra, na condição de lenidade perante os seus iniciados, mantendo-se distante deste assunto é, primordialmente:

  1. para criar um clima de descontracção necessário no ambiente das reuniões;
  2. para evitar conflitos, uma vez que os seus quadros são compostos por homens de tendências religiosas variadas;
  3. porque os seus objectivos não são os mesmos das entidades religiosas. Eles são outros bem diferentes e para alcançá-los ela precisa da união fraternal entre todos os seus membros.

Isto só é possível por que a maçonaria mantém na prática um dos seus mais importantes princípios, o da “Liberdade”. Ao proclamá-lo, seu iniciado fica à vontade para decidir se quer continuar como fiel da fé religiosa que vinha praticando antes de se tornar Maçon ou se prefere apenas continuar acreditando em Deus. Mas, ressalte-se que apesar deste livre arbítrio não há Maçon deísta na maçonaria brasileira, ressalvadas raríssimas excepções e isso ocorre não por exigência da maçonaria, nem pelo facto de alguém católico, mas não religioso, ter-se tornado um dos seus membros, e sim, por uma questão de natureza cultural impregnada nos costumes de uma nação onde milhões de pessoas afirmam a sua fé no catolicismo, mas não sabem fazer o sinal da cruz, não rezam e até nem se lembram da última vez que foram à Igreja.

Tem-se então que a imputação feita pela Igreja Católica, de ser a maçonaria uma associação deísta é coisa do passado e nem deve ser lembrada pelos danos que causou aos maçons. A maçonaria, não sendo religião, não se dedica à prática de qualquer culto, não induz, nem obriga nenhum Maçon a ser deísta. Como deísta, entende-se a pessoa física que crê em Deus sem aceitar religião nem culto. A Maçonaria não passa esta orientação para os seus filiados, tendo em vista que, fazer parte desta ou daquela religião, nada diminui, em termos de resultado, no desenvolvimento das suas actividades.

Pelo exposto, não se tem como compreender por que tão repulsiva incompreensão, cuja natureza preconceituosa e discriminatória tem sido nefasta aos maçons, não deixa de fazer parte das leis eclesiásticas, aquelas reguladoras das relações entre a Igreja Católica, os seus representantes e os cristãos nela baptizados ou por ela recebidos, que gozem de suficiente uso da razão e tenham completado 7 (sete) anos de idade. Enfim, a sua observância e respeito cabem a todos aqueles para os quais ditas leis foram feitas.

Por não existir outra explicação, admite-se que a irremovível e irretratável posição ofensiva do alto clero do catolicismo frente à maçonaria é mantida por mero dever do ofício religioso, redundando os efeitos desse comportamento em afronta à justiça, já que o alvo das acusações é uma instituição de fins lícitos e humanitários, voltada à prática do bem, que não nega a existência de Deus e do espírito, que não é religião, que não é seita, que abomina o preconceito, o racismo, a intolerância e que tem por fim o alcance da IGUALDADE, da LIBERDADE e da FRATERNIDADE entre todos os seres humanos, sem carácter competitivo com quem quer que seja. Nem ao menos é compreensível que líderes espirituais de prestigioso respeito e de tão destacadas posições hierárquicas dentro do catolicismo percam os seus preciosos tempos prendendo-se ao que nada significa e disso se valham para negarem os maçons como filhos do mesmo Deus, sem atentarem para o facto de que, assim se comportando, a infalibilidade da própria religião se exporá a iminente risco. Isto porque a prática da intolerância, da rejeição, da discriminação, da perseguição de qualquer dos nossos semelhantes, caracteriza o desprezo, o desamor, com repercussão ainda mais negativa se qualquer dessas acções partir de um líder espiritual, figura na qual repousa o símbolo do bem e de onde se espera irradiar, entre outras virtudes, a do amor ao próximo, sentimento que só se admite como verdadeiro se for universal, sem distinção entre as pessoas, sem levar em conta de onde estas vieram, quem são, o credo religioso que praticam e o que fazem.

Anestor Porfírio da Silva M∴ I∴ – A.R.L.S. Adelino Ferreira Machado – Or. de HIDROLÂNDIA – GOIÁS. Conselheiro do Grande Oriente do Estado de Goiás

Um Comentário em “A maçonaria incompreendida, apesar de justa e perfeita

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    “A maçonaria incompreendida, apesar de justa e perfeita”
    Análise muito bem-feita pelo Irmão Anestor, contudo, não vejo muitas perspectivas de mudança deste “status quo”.
    Poderíamos arrolar inúmeras razões, cada uma de visão pessoal, desde as mais até outras menos nobres, porém, acredito fielmente em apenas uma: a Igreja tem grandes dificuldades em reconhecer erros!
    Vemos o sofrimento a cada vez que são obrigados a isto; desde os remotos tempos!
    Reverter este quadro em relação à Maçonaria, significaria reconhecer um erro de julgamento de vários Papas e dignitários ilustres da Santa Sé; acho que isto é muito difícil!
    Até porque isto ecoa de forma simpática na ignorância.
    Creio mesmo, que a Igreja Católica tem preocupações atuais muito maiores, facilmente constatadas na mídia mundial, do que rever sua posição sobre a Maçonaria, ainda mais e especialmente, quando terá que obrigatoriamente dizer”estávamos errados”.
    Continuo dizendo, vai ser difícil!
    Assim penso.

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