Reflexões sobre o mito da caverna e a iniciação maçónica

Onde há muita luz, as sombras são mais obscuras”.

(Goethe)

Existe uma possível integração alquímica entre a doutrina platónica, que floresceu por volta do século V a.C. e a tradição simbólica maçónica?

Para responder a esta intrigante pergunta é preciso abstrair as nossas mentes levando-as até a Antiguidade Clássica, na aurora do pensamento filosófico.

Assim será possível reflectir se, naquele ambiente altamente intelectualizado, as bases da nossa sagrada Ordem teriam eclodido com força e vigor, ao lado da emergente Filosofia.

Desta sacralização teria surgido uma relação de interdependência ontológica entre estas duas escolas, que Platão interpretaria de forma justa nas suas obras que atravessam as eras como pilares elementares da estrutura simbólica do universo. Nesta perspectiva inquietante, convidaremos o eminente mestre helénico ao centro do nosso Templo. Aqui, tal qual nas ágoras de Atenas, ouviremos a exposição de algumas das suas ideias.

No final vamos deliberar se realmente a Luz Maçónica brilhava com força e vigor na sua mente, contribuindo para a fusão deste amálgama simbólico que tão bem iria sedimentar as nossas Colunas e o pensamento humano.

Em 427 a.C., na Grécia antiga, nascia um inquieto pensador chamado Arístocles. Mais conhecido como Platão, devido ao seu vasto conhecimento (ou a sua imensa fronte cefálica), foi (Publicado em freemason.pt) discípulo de Crátilo, da escola de Heráclito, e de Sócrates. Falecido em 347 a.C. é considerado um dos grandes responsáveis pelo surgimento da Filosofia. Estabeleceu uma vasta doutrina que se divide em trinta e seis trabalhos, agrupados em nove volumes.

Esta robusta obra, chamada de teoria platónica, passou a ser ensinada na polis de maneira sistemática e eficaz a partir de 380 a.C., com a fundação da famosa Academia – que visava aperfeiçoar os cidadãos nas diversas artes, para que bem conduzissem os destinos de Atenas.

O que nos chama a atenção, enquanto praticantes da Arte Real, é que grande parte da nossa tradição pode ser interpretada e compreendida à luz dos ensinamentos mais elementares desenvolvidos por este profeta no seu poderoso templo erigido próximo ao bosque, em homenagem ao herói grego Academos.

Alguns inquestionáveis pontos de intersecção doutrinária entre o nosso Simbolismo e a filosofia matter da Humanidade eclodem com força e vigor à medida que aprofundamos a nossa visão sobre estas concepções. No meio das meditações transcendentais dos mestres do Peloponeso as primeiras pedras das Colunas de Hiram já estariam sendo lapidadas?

O mito ou “Alegoria” da Caverna é uma das passagens mais clássicas da história da Filosofia, sendo parte constituinte do livro VI de “A República” onde Platão discute sobre teoria do conhecimento, linguagem e educação na formação do Estado ideal.

A narrativa expressa dramaticamente a imagem de prisioneiros, que desde o nascimento são acorrentados no interior de uma caverna, de modo que olhem somente para uma parede iluminada por uma fogueira que ilumina um palco, onde estátuas dos seres como homem, planta, animais etc., são manipuladas, como que representando o quotidiano desses seres.

No entanto, as sombras das estátuas são projectadas na parede, sendo a única imagem que aqueles prisioneiros conseguem enxergar. Com o correr do tempo, os homens dão nomes a essas sombras (tal como nós damos às coisas) e também à regularidade de aparições destas. Os prisioneiros fazem, inclusive, torneios para se gabarem, se vangloriarem a quem acertar as correctas denominações e regularidades.

Imaginemos agora que um destes prisioneiros é forçado a sair das amarras e vasculhar o interior da caverna. Ele veria que o que permitia a visão era a fogueira e que na verdade, os seres reais eram as estátuas e não as sombras. Perceberia que passou a vida inteira julgando apenas sombras e ilusões, desconhecendo a verdade, isto é, estando afastado da verdadeira realidade.

Mas imaginemos ainda que este mesmo prisioneiro fosse arrastado para fora da caverna. Ao sair, a luz do sol ofuscaria a sua visão imediatamente e só depois de muito se habituar com a nova realidade, poderia voltar a enxergar as maravilhas dos seres fora da caverna.

Não demoraria a perceber que aqueles seres tinham mais qualidades do que as sombras e as estátuas, sendo, portanto, mais reais. Significa dizer que ele poderia contemplar a verdadeira realidade, os seres como são em si mesmos.

Não teria dificuldades em perceber que o Sol é a fonte da luz que o faz ver o real, bem como é desta fonte que provém toda existência (os ciclos de nascimento, do tempo, o calor (Publicado em freemason.pt) que aquece, etc.). Maravilhado com esse novo mundo e com o conhecimento que então passara a ter da realidade, este ex-prisioneiro lembrar-se-ia dos seus antigos amigos no interior da caverna e da vida que lá levavam.

Imediatamente, sentiria pena deles, da escuridão em que estavam envoltos e desceria à caverna para lhes contar o novo mundo que descobriu. No entanto, como os ainda prisioneiros não conseguem vislumbrar senão a realidade que presenciam, vão debochar do seu colega liberto, dizendo-lhe que está louco e que se não parasse com as suas loucuras, acabariam por matá-lo.

Este modo de contar as coisas tem o seu significado: os prisioneiros somos nós que, segundo as nossas tradições diferentes, hábitos diferentes, culturas diferentes, estamos acostumados com as noções sem que delas reflictamos para fazer juízos correctos, mas apenas acreditamos e usamos como nos foi transmitido.

A caverna é o mundo físico ao nosso redor, em que as imagens prevalecem sobre os conceitos, formando em nós opiniões por vezes erróneas e equivocadas, (pré-conceitos, pré-juízos).

(MUNDO PROFANO)

Quando começamos a descobrir a verdade, temos dificuldade para entender e apanhar o real e, para isto, precisamos esforçar-nos, estudar, aprender, querer saber. O mundo fora da caverna representa o mundo real, que para Platão é o mundo inteligível por possuir Formas ou Ideias que guardam consigo uma identidade indestrutível e imóvel, garantindo o conhecimento dos seres sensíveis.

(INICIAÇÃO – ofuscamento da visão ao sair da caverna)

O inteligível é o reino das matemáticas que são o modo como apreendemos o mundo e construímos o saber humano.

(APRENDIZAGEM MAÇÓNICA)

A descida é a vontade ou a obrigação moral que o homem esclarecido tem de ajudar os seus semelhantes a saírem do mundo da ignorância e do mal, para construírem um mundo (Estado) mais justo, com sabedoria.

(PRINCÍPIO MAÇÓNICO – BEM ESTAR DA HUMANIDADE)

O Sol representa a Ideia suprema de Bem, ente supremo que governa o inteligível, permitindo ao homem conhecer de onde deriva toda a realidade.

(GRANDE ARQUITECTO DO UNIVERSO)

Portanto, a Alegoria da Caverna é um modo de contar imaginariamente o que conceitualmente os homens teriam dificuldade para entender, já que, pela própria narrativa, o sábio nem sempre se faz ouvir pela maioria ignorante.

O grau de Aprendiz Maçom, no simbolismo maçónico, representa o homem na sua primeira infância e nos primeiros séculos da civilização. Os seus olhos, fracos ainda, não podem contemplar directamente o fulgor do Sol, e por isto é que, na Loja, está sentado no topo da Coluna do Norte. Os trabalhos do grau têm por finalidade demonstrar ao novo Iniciado, a escravidão em que vive, despertando no seu coração o sentimento da sua própria dignidade, e incentivando-o na busca da verdade.

A moderna caverna

As Sombras da Vida com PITECO
Por Maurício de Souza

A aventura do Piteco, que acabamos de ver, obriga-nos a fazer uma análise criteriosa sobre a moderna Caverna. A tecnologia liberta-nos? A tecnologia escraviza-nos? Somos reféns desta tecnologia? Através da metáfora da caverna, Platão mostra como a nossa noção de realidade pode ser limitada por nossos sentidos, e dá início a uma das discussões mais fecundas do pensamento filosófico.

O homem está ligado a uma máquina, a qual cria na sua mente todas as sensações de uma vida. Na sua mente ele vê-se indo trabalhar, jantando um bom prato e sorrindo com amigos. O seu cérebro pensa que realmente usa as suas pernas, que a sua língua saboreia e que os seus olhos vêem. Mas não é essa a realidade. Se ele fosse desligado da máquina, o que acreditaria ser mais real? E se tentasse despertar os outros? Como reagiriam?

“Esta é a premissa do filme “Matrix” (1999). Num mundo apocalíptico, máquinas controlam seres humanos, fazendo com que eles pensem que vivem a realidade, quando na verdade estão em casulos. Apesar do exercício exagerado de criatividade, nesse caso, ele ilustra bem a imersão do homem moderno na teia tecnológica”.

“Com o ouvido colado ao telefone e os olhos no ecrã do computador ou da televisão, passamos a desprezar de certa forma a realidade externa, e afastamo-nos do convívio pessoal. Hoje (Publicado em freemason.pt) aprende-se através de vídeos e ensina-se através da internet. Neste cenário, perde-se cada vez mais a capacidade de apartar o que é induzido da realidade palpável, uma vez que se tem cada vez menos contacto com a realidade e se é cada vez mais induzido”.

A caverna digital

“Hoje consome-se informação como nunca, a todo o momento, mas muito pouco dessa informação é transformada em conhecimento legítimo. O excesso de informação tornou-a item de pouco interesse, pouco valor. O “aprender” perdeu espaço para o “informar”, e cada vez mais a comunicação social está entupida com informação que não vale de nada, excepto entreter. Os celulares enviam e-mails e os automóveis mostram a previsão do tempo, mas não se sabe mais como escrever um cabeçalho de carta, ou como se formam as nuvens. Não se vê mais a informação, mas através dela”.

“Numa metonímia cultural, trocou-se o fim pelo meio, e cada vez mais o homem emburrece enquanto pensa que aprende. Sentado em frente ao computador, conectado à internet, falando ao celular, o homem caminha com a tecnologia atando a sua cabeça e o capitalismo acorrentando as suas mãos, descendo cada vez mais fundo na sua caverna digital, enquanto a vida passa, em altíssima definição, nas suas costas”.

O homem acredita que entende o mundo a sua volta e que tudo o que percebe é real, quando, de facto, tudo o que ele percebe são sombras da realidade.

Nós, maçons, “Construtores Sociais?”, “Formadores de Opinião?”, não estamos livres desta trama global. Infelizmente, presenciamos um pequeno número de Irmãos que se dedicam ao estudo e a pesquisa, enquanto a maioria recorre ao:

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tentando ludibriar, subestimando a inteligência daqueles que buscam, através do estudo, melhorar-se, seguindo o que prescrevem os nossos manuais.

O Maçom antes de ser um construtor social, é construtor de si mesmo. Por acréscimo, pode ou não melhorar a sua vida e a dos seus semelhantes. A Maçonaria é um reflexo das acções de cada um dos seus membros. É triste ouvir de alguns Irmãos indagações e cobranças da actuação da Maçonaria, esquecendo (Publicado em freemason.pt) que a Instituição é o reflexo das acções de cada um dos seus integrantes. Estes Irmãos permanecem presos às amarras das suas Cavernas. Não despertaram para a realidade. Continuam de braços cruzados esperando que um herói faça acontecer.

Insistem teimosamente à celebrização e aos apegos das glórias daqueles que deixaram um legado. Ociosos, permanecem nas sombras das suas cavernas, numa zona de conforto, satisfazendo-se com o “tanto faz”.

Conclusão

Diante do exposto fica claro que Maçonaria e Filosofia são frutos da mesma árvore da sabedoria ancestral. Ambas se entrelaçam numa complexa simbiose de símbolos e significados, interpretando as inúmeras concepções criadas pela mente humana para entender o sentido do universo.

Neste trabalho analisamos apenas uma passagem que expõe parte do pensamento de Platão. Dentre as várias escolas filosóficas, a chamada Filosofia Antiga, que floresceu na Grécia no meio das assembleias e debates, exerceu significativa influência na estruturação de nossa doutrina, cuja essência foi estabelecida em tempos imemoriais.

Concluímos, portanto, que ser reconhecido como um legítimo iniciado na sublime Ordem Maçónica equivale a ser considerado, simbolicamente, um digno e valoroso discípulo do grande mestre Platão.

Cuidemos, pois, para que a MAÇONARIA ESPECULATIVA não se transforme em MAÇONARIA CONTEMPLATIVA.

José Airton de Carvalho
(Publicado em Revista Libertas nº 13)

Fontes

  • DURANT, Will. – HERÓIS DA HISTÓRIA – L&PM POCKET – Porto Alegre, 2013;
  • HUXLEY, Aldous – ADMIRÁVEL MUNDO NOVO – Biblioteca Azul – Betim, 2002;
  • MAXENCE, Jean-Luc. – JUNG É A AURORA DA MAÇONARIA – Madras – São Paulo, 2010;
  • SARAMAGO, José. – A CAVERNA – Companhia das Letras – Rio de Janeiro, 2000;
  • PLATÃO – A REPÚBLICA – Editora Pensamento – São Paulo, 1985;
  • PLATÃO – A REPÚBLICA – Editora Marin Claret – São Paulo, 2002;
  • PLATÃO O MITO DA CAVERNA – EDIPRO – São Paulo, 2015;
  • SANTOS, Luis Umbert – FILOSOFIA MASÓNICA – Editorial Humanidad – Mexico D. F., 1947
  • SOUZA, Maurício – AS SOMBRAS DA VIDA – Maurício de Souza Produções Ltda.;
  • VIEGAS, Luiz Marcelo – A DESINFORMAÇÃO NA REDE E A ERA DA PÓS VERDADE – Palestra proferida na Loja de Maçónica de Pesquisas Quatuor Cororati Pedro Campos de Miranda – Belo Horizonte, Abril de 2018;
  • WARBURTON, Nigel. – UMA BREVE HISTÓRIA DA FILOSOFIA – L&PM POCKET – Porto Alegre, 2013.

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2 Comentários em “Reflexões sobre o mito da caverna e a iniciação maçónica

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    Perfeito assim mantém uma ordem através de pontos de equilíbrios estratégicos .,

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    O fato de limitarmos nossa visão em conceitos mais planejados para nos manipular, a nos alienar da grande escola que é a Natureza, nos faz sofrer pois marcamos passos e afundamos no poço da mediocridade.
    Esta simples página que apresenta a história da caverna de Platão, nos abre as portas do sentir a existência de um mundo novo, aberto ao e viver a experiência de Ser na Luz, deslumbrando o verdadeiro Caminho.

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