A Regularidade Maçónica (II)

anderson_constitutionsA moderna Maçonaria teve o seu berço em Inglaterra, no início do século XVIII: logo a partir de 1717 se estruturou como organização, elaborou e fixou os seus textos teóricos fundacionais e passou a tutelar a “regularidade” – isto é, a “reconhecer” ou a “não reconhecer” as potências maçónicas que, um pouco por todo o mundo, foram nascendo e buscando certificação. O poder de aceitar ou não como “regular” uma obediência maçónica é administrado com recurso a dois textos “doutrinários” basilares: as Constituições de Anderson (de que se fez guardiã, em 1723, a loja-mãe da Maçonaria Universal, a Grande Loja Unida de Inglaterra), e os Landmarks (o corpus normativo dos maçons fundadores). Assim, são aceites como “regulares” as potências que respeitam as Constituições e os Landmarks; e são consideradas “não regulares” ou “irregulares” as organizações que, embora reclamando-se da Maçonaria, enjeitam as Constituições ou os Landmarks, no todo ou em parte. E que dizem esses textos capitais?

Dos seis artigos constitucionais da Maçonaria, o primeiro é dedicado a “Deus e Religião”. Diz, textualmente: “Um maçon obriga-se a respeitar a lei moral; e, se ele entender correctamente a Arte [maçónica], nunca será um estúpido ateu ou um libertino irreligioso”. Este ponto, que surge como a primeira pedra da construção espiritual dos maçons regulares, é apenas indicativo da opção estrutural da Ordem Maçónica, claramente desenvolvida nos Landmarks. Ao longo das suas 25 definições normativas, os Landmarks estipulam “que todo o maçon há-de crer na existência de Deus como Grande Arquitecto do Universo” e “na ressurreição e numa vida futura”; e que, em consequência, “um livro da Lei de Deus deve constituir parte indispensável do equipamento de uma Loja”.

Tendo subsistido, ainda assim, ao longo dos anos, dúvidas sobre “reconhecimentos” e “não reconhecimentos” de potências nascentes, a Grande Loja Unida de Inglaterra (actuando sempre como loja-mãe da Maçonaria Universal) reiterou de forma inequívoca, em 1929, “as condições nos termos das quais podia reconhecer a regularidade de uma Grande Loja estrangeira […], estabelecendo assim um padrão universal para a atribuição da Regularidade Maçónica”. Aí de novo se requer “a crença no Grande Arquitecto do Universo e na Sua vontade revelada como condição essencial para a admissão de membros”. E aí, também, se institui “que todos os juramentos sejam prestados sobre o livro da Lei Sagrada, como forma de ligar irrevogavelmente a consciência do iniciado à transcendência da Revelação Divina”.

Na sua linguagem simbólica, os maçons regulares de todo o mundo declaram trabalhar “à glória do Grande Arquitecto do Universo”, praticando os seus rituais sobre uma gradação de alegorias bíblicas, de ensinamentos da história do Povo de Deus e de reflexões sobre a harmonia da construção divina. Por tudo isto, o volume da Lei Sagrada é exposto no início das suas sessões e encerrado quando elas terminam – para que a busca da Luz tenha um princípio e uma ordem. Um princípio ordenador do caos: na religião dos nossos pais, damos-lhe o esperançoso nome de Deus.

No seu país de origem (e, depois, na generalidade dos países onde se estabeleceu), a Maçonaria afirmou desde o início uma forte vinculação aos valores concretos do cristianismo. A Grande Loja Unida e a Igreja de Inglaterra, nas suas distintas vocações como ordem filosófica e escola espiritual (no primeiro caso) e como instituição viva da Fé Cristã (no segundo caso), têm mantido nos últimos séculos uma saudável convivência, sendo muitos os sacerdotes e dignitários eclesiais que se orgulham da sua condição simultânea de obreiros maçons. E de ambas instituições é a Coroa inglesa, através de membros designados da Casa Real, simbolicamente protectora e patrona, expressando-o em actos públicos e a ambas honrando como obras de bem que são, nos seus diversos domínios e naturezas.

Implantando-se um pouco por todo o mundo, a partir do segundo quartel do século XVIII, a Maçonaria transportou consigo os princípios e as regras tradicionais da Regularidade, ainda hoje preservados e lembrados ritualmente, com as mesmas palavras e os mesmos gestos dos primeiros dias. Na Europa Continental (com relevo inicial para a Alemanha e a França), a Ordem Maçónica estabeleceu-se como instituto iniciático de busca do aperfeiçoamento espiritual, fazendo multiplicar as suas Lojas no respeito estrito dos Landmarks.

Na segunda metade do século XIX, algumas obediências maçónicas europeias, lideradas pelos jacobinos franceses, renegaram as Constituições (de que pretendiam fazer uma “interpretação livre” e “moderna”) e os Landmarks (que consideraram “obsoletos”). Pequenas “bolsas” de “maçons liberais” constituíram-se então em França, Itália, Bélgica, auto-excluindo-se da Regularidade, passando a combater a Igreja Católica em particular e a religiosidade em geral, aliando-se às pugnas profanas da política partidária e às campanhas mais extremas, pegando em armas e afastando-se de tudo o que é o ensinamento maçónico.

Não obstante, a grande maioria das Lojas manteve-se na Regularidade, mesmo nos países onde simultaneamente brotava aquilo que os historiadores maçónicos designaram por “Maçonaria Latina”. Ao longo de todo o século XIX, pelo seu lado, a Maçonaria Regular radicou-se solidamente na generalidade da Europa e ramificou-se no Continente Americano. Aí, uma vasta rede de Lojas e de obreiros atravessa a quadrícula dos Estados Unidos, do Canadá, do Brasil e da totalidade da América hispânica, nisto se contando metade do total mundial dos obreiros maçons. E até na mais remota destas Lojas se trabalha sempre “à glória do Grande Arquitecto do Universo”, com o volume da Lei Sagrada aberto e os corações voltados para o Alto.

Este carácter espiritual da Maçonaria encontra-se, pois, inteiramente preservado: mais de noventa por cento dos homens que se intitulam maçons são, de facto, reconhecidos pelos seus irmãos. A questão do “reconhecimento” é de importância capital para os maçons. Nos seus rituais, à pergunta “És maçon?” respondem, invariavelmente: “Os meus irmãos reconhecem-me como tal”. Sem o reconhecimento dos irmãos, sem a ligação ao vínculo tradicional, sem a transmissão “regular” da palavra de mestre a discípulo, a Maçonaria desligar-se-ia da sua essência. Esta classe de requisito é, aliás, comum à generalidade das ordens que buscam o aperfeiçoamento espiritual.

Fraternidade de natureza iniciática e escola de conhecimento simbólico, a Maçonaria visa o aperfeiçoamento do homem (que assim se assume como pedreiro da sua própria edificação interior). Usa a simbologia iniciática dos mestres construtores dos templos medievais como meio de transmitir conhecimentos, reflexões e divisas. Tem, por natureza constitutiva, um compromisso de aspiração à harmonia divina.

Hoje, no nosso país, uma só potência é reconhecida pela Maçonaria Regular: a Grande Loja Legal de Portugal / Grande Loja Regular de Portugal (GLLP/GLRP), criada em Lisboa em 1990. O Grande Oriente Lusitano (GOL) não se encontra reconhecido como potência maçónica “regular”, filiando-se historicamente na corrente jacobina que no século XIX dissidiu da loja-mãe e dos Landmarks.

A confusão (ainda frequente) entre o Grande Oriente Lusitano e “a Maçonaria”, em geral, advém do facto de, durante mais de cem anos, não ter operado em Portugal qualquer Ordem Maçónica reconhecida pela Regularidade. Durante esse enorme lapso, o Grande Oriente foi a única organização portuguesa a reclamar-se dos valores éticos da Maçonaria – praticando, apesar da sua “irregularidade”, rituais semelhantes ou iguais aos dos maçons regulares, embora sem a obrigatoriedade de aceitação de um princípio ordenador do caos e dispensando-se o uso do livro da Lei Sagrada.

Em 1985, um grupo de membros do Grande Oriente Lusitano declarou uma dissidência, propugnando um regresso à Regularidade maçónica e à via espiritual. Não a obtendo no interior, abandonou o GOL e, sob o patrocínio inicial da Grande Loja Nacional de França, logo secundado pela Grande Loja Unida de Inglaterra, constituiu uma primeira Loja regular em território português, que em 1990 deu origem à Grande Loja Regular – a primeira potência maçónica portuguesa a ser universalmente reconhecida desde meados do século XIX.

Excertos de um texto, mais longo e abrangente, tratando de tema diverso, de autor não identificado, que descobri em www.aminternacional.org/Maconaria_Igreja.doc.

A selecção dos excertos foi efectuada por mim. Efectuei apenas um acrescento, a expressão entre parêntesis “ainda frequente”, intercalada no penúltimo parágrafo, que coloquei em itálico.

In Blog “A Partir Pedra” – texto de Rui Bandeira (16.10.06)

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