Regularidade e irregularidade Maçónicas

Todas as religiões são boas desde que ensinem o homem a ser bom[1].

A Maçonaria pretende tão só activar nos homens aquelas forças especiais que os abrem ao mundo espiritual. A partir daí o maçon constrói-se a si mesmo. Ninguém lhe impõe teologia nem dogmática (…), ficando em plena liberdade para decidir nesse sentido ou para renunciar a ela[2]

Qualquer das citações anteriores poderia aplicar-se à problemática sobre a qual agora nos debruçamos: a da regularidade e irregularidade maçónicas.

Desde a fundação da Grande Loja de Londres, a 24 de Junho de 1717, as muitas Lojas maçónicas espalhadas por todo o mundo têm vindo a organizar-se em Obediências [3], sejam elas Grandes Lojas ou Grandes Orientes.

Em regra, as Grandes Lojas recebem reconhecimento da Grande Loja Unida de Inglaterra [4], sendo identificadas com a Maçonaria regular, de cunho mais teísta, enquanto que os Grandes Orientes são habitualmente reconhecidos pelo Grande Oriente de França, de evidente influência iluminista e caracterizado por uma maior tolerância em determinados aspectos, sendo, por seu turno, identificados com a irregularidade maçónica [5].

Todavia, como veremos, esta interpretação não deverá ser encarada de modo “estanque” ou “radical”, sob pena de se tornar incorrecta.

Neste contexto, a Maçonaria Regular ou Tradicional, que abarca cerca de 90% da Maçonaria Universal, será aquela que exprime a sua crença espiritual no Grande Arquitecto do Universo e é consubstanciada nos Old Charges (“Antigos Deveres”), nos manuscritos Cook (século XV) e Plot Watson (século XVII) e nos Landmarks [6] da tradição maçónica.

De acordo com José Manuel Anes, o pastor protestante James Anderson e Desaguliers ter-se-ão inspirado nesta tradição para redigirem, em 1723, as chamadas Constituições (revistas em 1746 e em 1813), que ficariam conhecidas precisamente como as Constituições de Anderson [7].

Estas Constituições enumeram as “regras” da Ordem, já não no contexto do catolicismo maçónico medieval mas numa perspectiva mais ecuménica.

O Grande Oriente de França permanece fiel às referidas Constituições de 1723 [8].

Já António Carlos Carvalho mostra-se contrário às Constituições de Anderson, advogando que estas terão sido concebidas de forma perniciosa, pois importaria, acima de tudo, cortar quaisquer laços que ainda ligassem a Ordem aos operativos e ao que estes representariam de tradicional.

Afirma o autor que seria esse o significado do gesto de Desaguliers e de Anderson, ou daqueles que os apoiavam, ao queimarem documentos antigos a fim de poderem redigir novas Constituições, mais de acordo com as suas intenções, e para que ninguém pudesse, posteriormente, estabelecer comparações embaraçosas. Aliás, os documentos queimados, dos quais se terão salvo alguns, conteriam fórmulas incómodas, como as da obrigação de fidelidade a Deus, à Santa Igreja e ao Rei [9].

Porém, Katz contrapõe que “(.) os símbolos, as leis, a história, o objectivo da Maçonaria não excluem nenhuma religião (.)” [10].

Por outro lado, o mesmo autor chama a atenção para o facto de apesar de a Constituição de Anderson de 1723 transparecer uma certa indiferença para com as chamadas religiões positivas, tal “princípio” viria a revelar-se mais teórico do que prático, dado que não implicou a eliminação dos elementos cristãos positivos nas actividades das Lojas [11].

Ainda segundo Katz, “a novidade da Maçonaria consistia no facto de esta oferecer a diferentes sectores e classes a oportunidade de se encontrarem em território neutro” [12], pelo que “(.) a Maçonaria não era desacreditada em nome das suas acções ou dos seus princípios, mas antes porque reivindicava o direito de fornecer aos seus membros uma elevação espiritual, direito que até então estava exclusivamente reservado à esfera das instituições religiosas” [13].

Por sua vez, Anes defende que, do mesmo modo que os maçons medievais construíam edifícios (catedrais) à Glória de Deus / Grande Arquitecto do Universo, os maçons especulativos constroem o seu “edifício”, que são eles próprios (a construção incessante do maçon, a partir do profano que bateu à porta da Ordem) e, além disso, constroem o “edifício” social, a Sociedade Humana; construção esta que é feita sob a égide e inspiração de princípios éticos e espirituais decorrentes do Princípio dos princípios que é o Grande Arquitecto do Universo, o qual pode ser o Deus das religiões reveladas, mas pode igualmente ser um Princípio espiritual supremo.

Assim, um maçon (mesmo regular) não é obrigatoriamente um religioso praticante de uma religião revelada, mas terá de crer no Princípio superior que é simbolizado pela expressão “Grande Arquitecto do Universo” [14].

Os pontos de vista expressos por Katz e Anes parecem, portanto, coadunar-se com a opinião manifestada por A. H. de Oliveira Marques:

hoje, talvez a maioria dos maçons professe um deísmo ou teísmo de conceitos vários e alegóricos, embora não faltem ateus nem crentes de variadas religiões, desde o cristão ao muçulmano. O que todos rejeitam são dogmatismos e exclusivismos confessionais. Os juramentos de iniciação devem ser proferidos sobre um livro sagrado se o iniciado pertencer à fé respectiva e assim o solicitar, ou simplesmente sobre a Constituição maçónica em vigor, nos casos contrários. O conceito maçónico de Supremo Arquitecto do Universo que ainda preside às cerimónias e aos juramentos pode interpretar-se de maneiras muito variadas: Deus, a consciência colectiva da humanidade, o princípio director que oriente para o progresso a evolução do mundo e do homem, o princípio de ordem que transformou o caos, etc., etc.” [15].

Ainda a este respeito, Amando Hurtado salienta que “a Maçonaria não é uma religião, nem o pretende, nem é incompatível com nenhuma. Pelo contrário, considera que a capacidade de simbolizar que os seres humanos possuem é o caminho que conduz ao «despertar» da mente, à sua abertura até ao transcendente ou sagrado” [16].

Em suma, remata Luís Nandin de Carvalho:

“os maçons regulares, também ditos tradicionais ou de via sagrada, são aqueles que trabalham nas suas Lojas sob invocação de Deus, a Quem consideram o Grande Arquitecto do Universo, sobre o livro sagrado, o esquadro e o compasso.

Quanto aos outros, ditos maçons irregulares, ou liberais, ou de via substituída, que se reúnem segundo a aparência dos mesmos ritos, decorações e ideais, já dispensam a via espiritual, e trabalham sobre a Constituição de Anderson, a do País da sua nacionalidade, enfim sobre a própria declaração Universal dos Direitos do Homem, e sem necessariamente invocarem Deus (.). Isto é: uns, os regulares, partem de um pressuposto que é o da crença no Criador, os outros partem do postulado da liberdade de crença ou não no Criador, uns e outros, sem se remeterem a uma posição contemplativa, buscam o seu próprio aperfeiçoamento, “não faças aos outros aquilo que não gostavas que te fizessem”, mas com efeitos diversos ao nível de intervenção na sociedade.

De facto, enquanto os regulares se situam no plano do sagrado, os outros colocam-se no campo do laicismo, e consequentemente envolvem-se mais directamente na vida profana que procuram aperfeiçoar, senão mesmo transformar” [17].

Porém, levanta-se uma outra questão que pode suscitar alguma confusão relativamente ao termo maçon, para além da referida distinção entre maçons regulares e irregulares, que é a possibilidade de existirem maçons que trabalhem regularmente mas em situação institucional de irregularidade, e a de maçons institucionalmente irregulares, mas que trabalhem regularmente nas suas Lojas [18].

De qualquer modo, face ao que temos vindo a averiguar, não nos restam dúvidas ao reiterar o profundo desconhecimento, chamemos-lhe assim, que transparece das declarações de Otto Czernin, que afirma que “o maçon prescindiu de Deus para tentar construir um mundo perfeito (…)” [19], e que, “por isso, o Cristianismo é completamente incompatível com a Maçonaria, pois esta é uma falsificação reles, barata e, por vezes, mal intencionada do primeiro[20].

Um último aspecto digno de nota em relação ao que vem sendo exposto prende-se com a proscrição das mulheres por parte da Ordem, que no caso da Maçonaria Regular é absoluta [21], enquanto que entre a Maçonaria Irregular podem ser encontradas Obediências estritamente femininas [22], ou mesmo mistas [23], cuja prática ritualística não difere, no essencial, das Lojas masculinas.

Liliana Raquel Rodrigues Fernandes

Nota

Este texto integra uma excelente dissertação apresentada por Liliana Raquel Rodrigues Fernandes à Universidade de Aveiro para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Mestre em Estudos Portugueses.

Dada a sua extensão, os diversos capítulos serão publicados autonomamente, incluindo-se sempre o link para a totalidade do trabalho.

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Notas

[1] Tomas Paine, em The Rights of Man. Citado a partir de Dictionary of Quotations. London, Brockhampton Press, 1995, p. 221. Tradução nossa.

[2] HURTADO, Amando, Nós, os Maçons. Maia, Ver o Verso Edições, Lda., 2006, p. 75.

[3] Uma Obediência é uma corporação formada por lojas maçónicas que decidem associar-se ou federar-se, elaborando uma Constituição e Regulamentos Gerais, com a finalidade de coordenar esforços e meios. Cf. op. cit., p. 159.

[4] Instituída aquando da fusão dos “antigos”, cristãos, e dos “modernos”, ecuménicos, por meio de um acordo de compromisso que pôs termo a uma “querela” que provocara uma cisão no seio da Maçonaria Britânica.

[5] Esta “irregularidade” maçónica só existe, em Obediências históricas, em França, na Bélgica e em Portugal. Por outro lado, convém notar que existem Grandes Orientes “regulares” e importantíssimos, histórica e quantitativamente, tais como o Grande Oriente dos Países Baixos, o Grande Oriente de Itália e o Grande Oriente do Brasil.

[6] Regras tradicionais que balizam os princípios e a prática maçónica. Vide Anexo III – Os Doze Landmarks Maçónicos.

[7] Vide MARQUES, A. H. de Oliveira, A Maçonaria Portuguesa e o Estado Novo. Lisboa, Publicações D. Quixote, 1995, p. 74 – 80.

[8] Cf. http://www.maconaria.net/organizacao.shtml.

[9] Cf. Graínha, Manuel Borges, História da Franco-Maçonaria em Portugal 1733 – 1912. Col. Janus, 4a ed.. Lisboa, Vega Lda., s.d., p. 8.

[10] KATZ, Jacob, Juifs et Francs-Maçons en Europe (1723-1939). Paris, Les Éditions du Cerf, 1995, p. 192. Tradução nossa.

[11] Cf. op. cit., p. 325.

[12] Op. cit., p. 330. Tradução nossa.

[13] Op. cit., p. 331. Tradução nossa.

[14] Cf. ANES, José Manuel, Maçonaria Regular. Lisboa, Hugin Editores, Lda., 2003, p. 18.

[15] MARQUES, A. H. de Oliveira, A Maçonaria Portuguesa e o Estado Novo. Lisboa, Publicações D. Quixote, 1995, p. 20.

[16] HURTADO, Amando, Nós, os Maçons. Maia, Ver o Verso Edições, Lda., 2006, p. 29.

[17] CARVALHO, Luís Nandin, “A Maçonaria Entreaberta”, em http://www.maconaria.net/landmarks.shtml.

[18] Cf. loc. cit..

[19] CZERNIN, Otto, “Soldadinhos de chumbo e jogos de poder”, in: Magazine Grande Informação, N° 7, Junho de 2006, p. 6

[20] Loc. cit.. Itálico nosso.

[21] Cf. Anexo IV – Regras Para o Reconhecimento das Grandes Lojas Regulares.

[22] Representadas no nosso país pela Grande Loja Feminina de Portugal, criada pela Grande Loja Feminina de França em 1997.

[23] Em Portugal representadas desde 1823 pela Obediência Le Droit Humain (O Direito Humano) / Grande Oriente Misto, e, mais recentemente, pela Grande Loja Tradicional de Portugal, criada em 2004.

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Um Comentário em “Regularidade e irregularidade Maçónicas

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    Bom dia para mim a maçonaria comi um todo teria que ser mais respeitada pois acho que depois que passamos a ter aceso as.midia na internet a maçonaria deixou de ser priva só para os membros de loja pois pessoa que não fazem parte da ordem tenho visto fazem.comentario sobre rituais os trabalhos está está é minha opinião teria que ser mais preservados!! M . ‘. M .’ .

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